Um pouco mais distante dos outros

Me emocionei demais com o professor de bicicleta, sob a chuva, entregando as tarefas a seu aluno na periferia pernambucana (leia reportagem aqui). Nunca tive um professor assim.
Durante a infância morávamos no Bixiga, perto das malocas saudosas. Éramos periferia no centro. Estudávamos como bolsistas em um colégio pago porque o Caetano de Campos, a escola pública mais bem reputada da região, não nos aceitou.
Eu sentia uma grande solidariedade em relação aos meus vizinhos. Fiquei muito doente na infância, hepatite, catapora, sarampo, caxumba, rubéola, e faltava às aulas o tempo todo. No período de resguardo, quando eu já estava bem, os amigos vinham me ensinar as lições que eu havia perdido. Me lembro de seus rostinhos corados, de suas pastinhas com papéis. Me sentia viva no mundo, inteira e agradecida a eles.
E tentava fazer o mesmo, sempre, com quem faltava. Meus pais achavam até que era minha obrigação ir até a casa deles para lhes ensinar o que perderam. E eu ia procurá-los feliz.
Até que um dia bati na porta da casa de uma amiga que faltara alguns dias e ela me recebeu assim: “Legal você ter vindo, mas não veio aqui me passar as lições, veio?”
Meu mundo caiu de verdade. Suspeito que pela primeira vez. Tudo em que eu e meus pais acreditávamos era uma balela pra minha amiga. Uma chateação, um motivo de vergonha.
Isto me distanciou um pouco mais dos outros. Soube que seria sozinha nessa vida, sozinha com o que aprendera. E quando vi o lindo professor sob a chuva, foi primeiro nisso que pensei.

A paixão que não se encerra

Henry Fonda em “Vive-se só uma vez”, de Fritz Lang, 1937

O vizinho de cima vive em festa.

Uma gente falante, que nem conheço, aos gritos pra se fazer entender, como um caminhão do MBL na paulista aberta. Gente de salto alto à noite e que me acorda com reforma intensa no sábado de manhã.

Lá fora, a rua vai enlouquecendo aos poucos.

Alguns gritos de mulheres contra os que parecem ser policiais.

Um som muito alto que, depois de um tempo, passa, como se tivesse sido instalado dentro de um carro em movimento.

Estou sozinha na sala, e os mosquitos começam a pegar minhas mãos.

Mas o filme que escolhi foi maravilhoso.
De Fritz Lang, com Henry Fonda.
E Sylvia Sidney, principalmente.
“Fúria”?
Não.
“Vive-se uma só vez”.
Cada plano, um estudo de fotografia, expressão, geometria, luz.
Enquanto rola a ação.
Fazer cinema policial-dramático nos EUA com tudo o que ele sabia!
Tão grandioso.
E planos muito diferentes uns dos outros.
O mundo engradado, como esta gaiola onde vivemos.

O dia foi bom por um lado.
Mais triste que bom.
Dizem que a única paixão que não se perde é a intelectual.
Bem, espero que me dure os anos todos.

O que vai ser?

Não importa qual a notícia apurada pelos grandes jornais, seja sobre o novo corpo celeste, sobre a privatização da água no Brasil ou sobre o covid no mercado central do México.

Se a notícia aparentar ser contrária ao que o gabinete do ódio terraplanista determine, estará inflada por comentários de descrédito à apuração da imprensa brasileira e em torno da necessidade de negar os fatos.

Com perdão a minha ignorância jurídica, onde está o Moraes que não determina a culpa dessa gente de uma vez?

Ela quer destruir tudo o que existe para nos humanizar. E, depois, como sabemos, destruir a todos nós.

Destruir. Matar.

Sonho lento

Uma amiga escreveu: “Incrível sua dedicação para a manutenção do amor”. Um amigo me mostrou um conto de Edgar Allan Poe em que ele argumenta sobre escritas que se trancam em mistério, e por que se trancam. Uma amiga lembrou que a pandemia não consegue me impedir de observar a cidade. Um amigo diz que minhas fotos o fazem lembrar por que gosta da cidade. Um amigo pede que eu prossiga minhas auto-imagens. Um amigo diz que a arte que posto dos outros é o que me faz sua amiga especial. Um amigo diz que o Facebook é pouco espaço para o que tenho a dizer. Uma amiga diz que se aproximou de mim por meu jeito de fotografar. Uma amiga acha que seria divertido andar comigo para ver o que vejo. Um amigo quer sempre saber e eu sempre tento explicar, sem sucesso, por que não seria Lula, enquanto presidente, a fazer sozinho a revolução. Um amigo me pede depoimento sobre uma leitura importante que tenha me provocado a escrever. Uma amiga espera que eu consiga fazer uma live. Uma amiga não sabe se gosta mais do que escrevo ou fotografo. Um amigo diz que contribuo para o linchamento do inventor do Crossfit, aquele que chamou de Floyd 19 as manifestações antirracistas. Um amigo quer saber se ganhei seguidores, mais ou menos, nestes tempos. Um amigo diz que sou sofisticada demais, que as gentes não entendem o que eu escrevo. Uma amiga sabe que sou difícil. Uma amiga pede pra eu falar mais sobre fotografia, porque vão me escutar. Uma amiga pede que eu dance. Duas amigas querem rir comigo tomando uma cerveja ou um café quando tudo passar. Uma amiga quer me chamar no WhatsApp enquanto tomamos vinho. Uma amiga me chama de Rosinha. Um amigo diz que uma vez perto de mim não se pode ficar longe de mim, coisa que eu deveria saber. Uma amiga diz que não abandonei minhas convicções desde trinta anos atrás quando me conheceu. Uma amiga diz que tenho dois filhos lindos, parecidos com meu pai. Um amigo que admiro diz que me admira. Quero continuar a ouvir os meus amigos. Entender como eles me veem para explodir em estilhaços o que implodi maciço. Ter a experiência interior enquanto o espelho caminha lá fora. O sol aqui dentro, minha píton. Nada espero da vida, a não ser que me espere um pouco mais. Sonho lento. Que a noite seja o dia, que o dia seja a nuvem, que a nuvem seja eu.

Policiano!

Quando falo sério, não me acreditam.
Quando brinco, chamam o socorro do Instagram pra me ressuscitar.
Quem me entende?
A rua e os loucos da rua, por certo.
Amo viver no alto deste prédio, nesta avenida que provoca uma saudade imensa das minhas viagens diárias, e por onde agora todos passam, muitos sem máscara, suicidando-se.
Um deles grita aos intervalos, desde as dez da manhã:

– POLÍCIAAA!!! POLICIANOOO!!!!

E eu sorrio para a incompreensão que ele causa, ecoando a mim.

Na vigência pandemente

Acabo de comentar com uns amigos daqui como rio e choro o tempo todo durante a vigência pandemente de meu país, como tudo fotografo (embora isto faça sempre), e como tudo quero ser, o presente, o passado, e como vejo um futuro, quem sabe, engordando (sem ser triste) a cada dia, e como tudo quero amar. Há quem não me entenda, quem não me veja, nem agora, nem antes, muito menos na imagem do que será, não importa, não os vejo nem entendo tampouco, eu que vivo ao lado deles. Perdoem a enxurrada de fotos, de auto-imagens, de desconcertos neste fluxo demonstrativo de nossas vidas que eram uma antes e agora são outras. Perdoem-me a ausência de outros rostos, perdoem que seja o meu. É um processo de cura e entendimento, quem sabe, e espero que o aceitem os que me têm amizade, talvez só eles, viva eles!, e que tudo viva em nós.

Perto de mim

por mais que eu me esforce em afastá-los, ainda tenho muitos bolsominions entre os amigos das redes sociais.

não que eles se atrevam ao 17 com bandeira.

pegaria mal…

pelo contrário, são gente da paz, esperta, “neutra”.

mas depois de um tempo você começa a ver umas postagens estranhas.

“os brasileiros são tão fortes pra cocaína, pra sacarina, pra todas as ‘inas’, todos os vícios, mas tão medrosos para os efeitos colaterais da cloroquina, hahaha!”

me dá tristeza, mais do que raiva, ler coisas como essas.

raiva eu sinto ao ver, daqui do alto, o centro da cidade cheio de gente, sem máscara e sem noção do que já perdeu.