
Os substantivos em italiano multiplicam as coisas pra mim.
Scarafaggio, por exemplo, quer dizer “barata” tão bem…
Jair Scarafaggio!
Até me vejo pisando nele, bem forte e repetidamente, enquanto pronuncio seu nome inteiro.

Os substantivos em italiano multiplicam as coisas pra mim.
Scarafaggio, por exemplo, quer dizer “barata” tão bem…
Jair Scarafaggio!
Até me vejo pisando nele, bem forte e repetidamente, enquanto pronuncio seu nome inteiro.

É dia de Natal.
E Bruno Covas transforma a região encravada no centro da outrora bela cidade num pesadelo semelhante ao de Morte em Veneza, não o filme de Visconti, mas a novela de Thomas Mann, na qual o odor da peste é constante pelos recantos, pontes, pelo líquido dos canais.
Contudo, prolífico na alquímica distribuição de seus talentos, esse meio homem-meio sepultura transforma o lixo em coisa ainda mais dispersa e obrigatória, como os confetes na folia carnavalesca, deixando que toda espécie de descartados saia irresistivelmente dos sacos pretos pelo cães que são homens e pelos homens que são cães e proporcione à gente sozinha, em meio à tétrica decoração de ursos noeis e balões do pateta no Anhangabaú inconsolável, um isolamento compartilhado dentro da maior miséria até hoje verificada por mim naquele lugar.
O aumento de salário que Covas se deu e a seus secretários deve ter ocorrido justa e especificamente por esta sua imensa capacidade extraliterária de tocar a morte, já tão lendária porque inserida na alcunha familiar, e agora reiterada pelo voto, pelo enganar-se e o querer desfazer-se, que é o que a população parece pedir, desejar, o suicídio antes que seja tarde demais.
O pior de tudo, no caso da negativa de gratuidade da passagem àqueles entre 60 e 65 anos, é que prejudicar o pobre nesse quesito sempre se faz assim, no fim do ano e entre as festas, quando todos têm os olhos voltados para outra coisa. Nem originais são, porque assim agiram os prefeitos/governadores em conluios anteriores.
E não se vai reclamar por isso agora, nem pelo aumento de 46 por cento nos salários dos executivos, com a covid à porta.
Eu tinha aqui guardada uma foto em que um sem-teto está diante de uma parede próxima da prefeitura com a inscrição “morra Bruno Covas”.
E não usei.

é bastante certo que não vale a pena comprar roupa nenhuma agora. engordei e nem tenho pra onde ir. dinheiro, muito menos.
mas os anúncios no Instagram me imaginam rodando a clutch na gabriel monteiro da silva.
e me sugerem as roupas de fernanda yamamoto e, agora, de gloria coelho.
estranho que ronaldo fraga não tenha aparecido…
e então de vez em quando surge um anúncio esperto, modelo com cara de gente e garantia de sustentabilidade, materiais novos, reciclados, possíveis.
e eu cedo.
vou até o “link na bio”.
Mas em lugar de preços compatíveis, a promoção imperdível traz a linda camisa cor de goiaba sobre uma modelo negra a 550 reais.
bem acessível, sim.
acessível como os tornados serão rotina no mundo aquecido, como aqueles de Santa Catarina outro dia, né mores?
eu sei que muito dilema deve haver nas redes.
mas, comigo, eles só aprontam patetadas, realmente.

Nos anos 1990 eu trabalhava numa grande revista cujo editor, hoje astro da imprensa de direita, era um homem atormentado, porém culto, porém digno com seus subordinados, porém capaz de assumir para ele os erros da equipe. Editores assim raramente existiram antes ou depois para mim. Ser de esquerda não obriga ninguém a desempenhar o trabalho com esse profissionalismo, infelizmente. E ele foi realmente especial.
Um dia, até por isso, entrou em franco atrito com a direção e se viu demitido, não sem antes olhar com pena para nós, os subordinados que permaneceríamos, consolando-nos: “Eu fiz o que pude.”
O editor a substituí-lo era um pulha que exigia receber presentes. No dia de sua chegada à redação, flores se abarrotaram em cima de sua mesa, partidas de todas as assessorias de imprensa, especialmente as musicais. Ali já entendi que eu não teria mais lugar.
Uma vez esse expoente me perguntou se eu havia feito o “necrófilo” de uma celebridade, em lugar de “necrológio”, e nem pude rir. Mas lembro de ter respondido: “Não faço essas coisas não”, para que ele me respondesse com seu olhar grave ou estúpido, eu era incapaz de distinguir.
A coisa prosseguiu daí pra baixo, até o dia em que fui fazer um perfil pedido por ele, de uma personalidade até então desagradável a mim, mas que até hoje recordo com carinho: Claudia Raia. Ela era mais baixa do que eu, se bem me lembro, e estava sem salto, ao lado de uma assessora que não largava de seu pé. Tudo espantoso. Era tímida, imagine, e ingênua também. E se dizia muito triste, muito arrependida de ter feito campanha para um homem tão mau para o Brasil como Collor foi.
Então, quando me sentei à máquina (sim, enquanto a Folha já usava havia muito os computadores, nessa redação eu tinha de batucar nas teclas pretas), eu o fiz com muito carinho e responsabilidade por ela e por quem leria seu perfil. Escrevi o melhor que pude.
Mas lá estava o editor necrófilo diante de mim.
Ele leu e me chamou até sua mesa, sério:
“O problema com seus textos é que nunca sabemos o que estará no parágrafo seguinte”.
Pensei por dois segundos e respondi: “Isso é ruim?”
Era ruim.
Ri e fui embora da revista, porque ainda por cima suspeitei que ele havia sido colocado lá especificamente pra me mandar embora, e que não havia como lutar mais contra tantas forças contrárias.
Conto tudo isto porque, apesar de toda a ignorância a grassar nas redações, jamais imaginei que ouviria tamanho absurdo de novo.
Mas a gente não pode ser arrogante assim. Achar que sabe tudo!
Acontece de o mundo dar voltas e eu ter de parar sempre em algum momento no qual é um frila ou nada para sobreviver.
Eis que ouço exatamente isto semana passada de alguém que precisou autorizar um texto meu: “É estranho como a gente não sabe o que você vai dizer em seguida! A gente se surpreende o tempo todo na leitura.”
Desta vez resolvi tomar o dito como elogio. Até porque, depois de muito matutar, essa espécie de editor parece ter gostado do material no geral, e só quer esse detalhe, que eu mude meu lide – esse que agora deve dizer tudo o que escreverei em seguida, pra não ter erro.
Eu sei que sou uma perturbação, que vim ao mundo pra isso. Mas não vou deixar de fazer jornalismo se precisar, porque perdidas minhas ilusões já foram séculos atrás.

Queria esclarecer uma coisa.
Quando mudei para o centro frequentei um shopping de verdade pela primeira vez.
O Shopping Light, onde antes funcionou a central administrativa da Light e, depois, da Eletropaulo.
Tive paixão por esse prédio na calçada oposta ao do Mappin desde a infância.
E meus pais, quando eu já não andava com eles, amavam ir até lá para passear e comer nos fins de semana.
O prédio não é preservado em sua integridade arquitetônica interior.
Mas alguns pontos ali dentro ainda são maravilhosos por evocar antigos passos.
As vitrines na entrada, de onde observamos o reflexo do Municipal.
Os corredores dos antigos elevadores, hoje desativados.
Os andares altos, de onde avistamos a praça Ramos.
As escadas rolantes.
Mais que isso, é o único shopping da cidade, de seu centro, onde os pretos circulam livremente com suas famílias, sem medo de que os seguranças venham massacrá-los pela cor.
Na época em que me mudei, ia todo dia por aquelas bandas só para apreciar esse lindo espetáculo.
Até me matriculei na academia descuidada cuja mensalidade era 80 reais.
Eu sentia que pagava para estar diante das imensas janelas que me davam uma perspectiva de todo o viaduto do Chá.
Malhar, emagrecer, o que são tais coisas diante da visão?
E torcia para que caísse água, e que eu ficasse presa lá, e que pudesse fotografar as pessoas livres enquanto esperassem a chuva passar.
Então, quando hoje vejo essa enorme fila da gente remediada ou humilde só para entrar no prédio imponente, com máscaras no queixo, usadas como acessórios de estilo, posso compreender o efeito Beyoncé que as captura.
O pobre naquele entorno sente sua majestade.
Beleza e poder.
Shopping Light, shopping-luz.
Só me entristece mesmo que precisem correr até ele e aglomerar-se nele, desde o quarteirão de entrada, justamente neste momento.
Não carecia.
Preto é bonito onde estiver.
E até mais.

Eu tenho uma ingenuidade muito grande em relação às pessoas.
Desde pequena.
Frequentemente me confundo, acho que gostam de mim por um motivo, mas é por outro, isto quando não desgostam gentilmente, ou totalmente, e nem me dou conta.
Mas a essência dessas pessoas, sua emanação, vibração, energia, creio que percebo de cara, mesmo à distância.
E fico me batendo pra não aceitar uma intuição, um desenho que sua presença me faz.
Às vezes tenho pesadelos com as traições que sofri,
ou sofro,
partidas de algumas delas.
Pessoas de que ninguém desconfia.
Coisas que aconteceram há tanto tempo que eu já deveria ter esquecido.
Mas não, nunca.
Nem falo tudo isto por uma razão particular.
É que às vezes, como agora, no meio de um trabalho que não consigo terminar, um frio me percorre a espinha.
E se me enganei?
Uma bobagem do tamanho de um alfinete se penso em Bolsonaro e em todas as crianças que ele deixou sem comida, mas uma bobagem, ainda assim, dentro de mim.

quando criança eu adorava o filme e seu título em português: “bonnie and clyde: uma rajada de balas”.
mas nunca sabia direito quem era a linda mulher da história, se bonnie ou clyde.
então construí um caminho mental. bonnie usava mais boina que o clyde. era a mulher.
e eu às vezes, na brincadeira dos meninos, queria ser a bonnie.
sem boina mesmo, porque o importante era rajar as balas.

Há nove meses desvisto as roupas que tenho, senhor.
A cada dia mais distante de mim, daquilo que conheço e entristeço, vejo que a liberdade não é azul nem vermelha, a liberdade é pequena.
E nem os sapatos me servem mais.
Só os vestidos, largos e raros, movem-se para me esconder.
Há nove meses deixo que meus cabelos cresçam e dupliquem suas pontas.
É o melhor que tenho feito para multiplicar as coisas.
Olho pelas janelas sujas onde os reflexos fazem poesia.
Um deserto para os sonhos que tive.
Só eu sei o que é dizer sim quando no meu profundo há um não.
Nunca soube obedecer.
A cada dia mais ocupada em aprender o que já vi, o que já sei e o que pisou em mim, sigo voltada para dentro do que sou, e amém.

Há nove meses desvisto as roupas que tenho, senhor.
A cada dia mais distante de mim, daquilo que conheço e entristeço, vejo que a liberdade não é azul nem vermelha, a liberdade é pequena.
E nem os sapatos me servem mais.
Só os vestidos, largos e raros, movem-se para me esconder.
Há nove meses deixo que meus cabelos cresçam e dupliquem suas pontas.
É o melhor que tenho feito para multiplicar as coisas.
Olho pelas janelas sujas onde os reflexos fazem poesia.
Um deserto para os sonhos que tive, e não procuro o futuro.
Jamais soube obedecer.
A cada dia mais ocupada em aprender o que já vi, o que já sei e o que pisou em mim, sigo voltada para dentro do que sou, e amém.