Uma amiga escreveu: “Incrível sua dedicação para a manutenção do amor”. Um amigo me mostrou um conto de Edgar Allan Poe em que ele argumenta sobre escritas que se trancam em mistério, e por que se trancam. Uma amiga lembrou que a pandemia não consegue me impedir de observar a cidade. Um amigo diz que minhas fotos o fazem lembrar por que gosta da cidade. Um amigo pede que eu prossiga minhas auto-imagens. Um amigo diz que a arte que posto dos outros é o que me faz sua amiga especial. Um amigo diz que o Facebook é pouco espaço para o que tenho a dizer. Uma amiga diz que se aproximou de mim por meu jeito de fotografar. Uma amiga acha que seria divertido andar comigo para ver o que vejo. Um amigo quer sempre saber e eu sempre tento explicar, sem sucesso, por que não seria Lula, enquanto presidente, a fazer sozinho a revolução. Um amigo me pede depoimento sobre uma leitura importante que tenha me provocado a escrever. Uma amiga espera que eu consiga fazer uma live. Uma amiga não sabe se gosta mais do que escrevo ou fotografo. Um amigo diz que contribuo para o linchamento do inventor do Crossfit, aquele que chamou de Floyd 19 as manifestações antirracistas. Um amigo quer saber se ganhei seguidores, mais ou menos, nestes tempos. Um amigo diz que sou sofisticada demais, que as gentes não entendem o que eu escrevo. Uma amiga sabe que sou difícil. Uma amiga pede pra eu falar mais sobre fotografia, porque vão me escutar. Uma amiga pede que eu dance. Duas amigas querem rir comigo tomando uma cerveja ou um café quando tudo passar. Uma amiga quer me chamar no WhatsApp enquanto tomamos vinho. Uma amiga me chama de Rosinha. Um amigo diz que uma vez perto de mim não se pode ficar longe de mim, coisa que eu deveria saber. Uma amiga diz que não abandonei minhas convicções desde trinta anos atrás quando me conheceu. Uma amiga diz que tenho dois filhos lindos, parecidos com meu pai. Um amigo que admiro diz que me admira. Quero continuar a ouvir os meus amigos. Entender como eles me veem para explodir em estilhaços o que implodi maciço. Ter a experiência interior enquanto o espelho caminha lá fora. O sol aqui dentro, minha píton. Nada espero da vida, a não ser que me espere um pouco mais. Sonho lento. Que a noite seja o dia, que o dia seja a nuvem, que a nuvem seja eu.
Pressente-se
A bandeira de São Paulo a meio mastro no topo do prédio da prefeitura.
E, embaixo, a rua repleta de idas e vindas, como se amanhã não houvesse.
Tudo muito certo, obviamente.
Porque morremos.
E porque pelo amanhã, pressente-se, nossa gente não espera.
Policiano!
Quando falo sério, não me acreditam.
Quando brinco, chamam o socorro do Instagram pra me ressuscitar.
Quem me entende?
A rua e os loucos da rua, por certo.
Amo viver no alto deste prédio, nesta avenida que provoca uma saudade imensa das minhas viagens diárias, e por onde agora todos passam, muitos sem máscara, suicidando-se.
Um deles grita aos intervalos, desde as dez da manhã:
– POLÍCIAAA!!! POLICIANOOO!!!!
E eu sorrio para a incompreensão que ele causa, ecoando a mim.
Na vigência pandemente

Acabo de comentar com uns amigos daqui como rio e choro o tempo todo durante a vigência pandemente de meu país, como tudo fotografo (embora isto faça sempre), e como tudo quero ser, o presente, o passado, e como vejo um futuro, quem sabe, engordando (sem ser triste) a cada dia, e como tudo quero amar. Há quem não me entenda, quem não me veja, nem agora, nem antes, muito menos na imagem do que será, não importa, não os vejo nem entendo tampouco, eu que vivo ao lado deles. Perdoem a enxurrada de fotos, de auto-imagens, de desconcertos neste fluxo demonstrativo de nossas vidas que eram uma antes e agora são outras. Perdoem-me a ausência de outros rostos, perdoem que seja o meu. É um processo de cura e entendimento, quem sabe, e espero que o aceitem os que me têm amizade, talvez só eles, viva eles!, e que tudo viva em nós.
Live and let die
pelo curto período de tempo em que minhas amizades mostram seus filmes, seus desenhos, seus vídeos, suas fotos, seus poemas, críticas, receitas, seus cantos, seus lamentos, suas costuras, filosofias, suas aulas e suas histórias e seus loucos experimentos, eu me esqueço desse mundo de porcaria em que nos colocaram profundamente e existo numa plenitude como nunca antes nestes últimos quatro anos, viva na pele de uns outros personagens que não eu, livres por completo desse ressequimento.
façam suas lives!
isto também é viver!
e um dia vou me atrever à minha (com algum photoshop, que só assim pra esta face se atrever.)
Irmãos Marx como nunca vimos

(Não sabia que Paul Simon era a cara do Harpo).
Carlos Moreira. Paz.
para ser livre
liberdade para todas as religiões.
mas igualmente liberdade para quem não acredite em religião nenhuma.
é o mais difícil de pedir a qualquer um, eu sei.
mas imagine, como imaginou John Lennon, um mundo sem religião.
ou pelo menos liberte quem imagina um mundo assim.
liberdade para quem veja no papa, nos padres, nas freiras e nos freis, em todos os líderes de todas as igrejas, apenas homens e mulheres, figuras políticas boas ou más, mal intencionadas ou do bem, comprometidas ou não com a vida na terra, que é a única até agora vivenciada por todos nós.
entendo que precisamos começar a nos acostumar com a liberdade, e a discuti-la, para o dia em que ela chegar.
ou pelo menos temos de nos acostumar à ideia de não desmerecer ninguém que possa lutar ao nosso lado por uma vida nova, ainda que utópica, vida esta que todos, até os sem religião, saberão pregar.
Race is for horses
Li algo interessante proferido por Daniel Filho. Mas, como se trata desse infame, não repercuti.
Preciso citá-lo agora, contudo. Porque ele disse acreditar que Regina Duarte, sua ex-mulher, está cega de paixão por Bolsonaro. E que faz qualquer coisa pra manter o fogo aceso.
Infelizmente, creio que ele está certo.
Assim foi Leni Riefenstahl, caída por Hitler, enquanto Goebbels, o rejeitado, esperou por uma lasca da cineasta até o fim da vida, sem conseguir.
Regina Duarte é a dama da arte pra quem Bolsonaro faz tudo. Até de Brasília ele a dispensou.
Daquela reunião ministerial, sinistral, ela nem precisou participar!
Porque aquilo…
Aquilo foi um duelo.
Ou um rodeio.
Corrida de cavalos.
Homens e uma mulher medindo membros diante de seu Führer.
Weintraub logo dizendo que tem o maior.
Guedes, exibicionista experimentado nas surubas das SSA de Chicago, espirrando terror.
Salles, um sedutor sem sorte, apelando pra tudo, pro infralegal, pro imoral debaixo da mesa…
E o desespero de Danares, sem porra nenhuma a declarar?
Salò Republic dos Puxa-Sacos, amici miei!
Só queria ter conhecido o texto convocatório para a “reunião”.
Ou para a disputa.
Pra suruba.
Ou pra quê, não sei.
Perto de mim
por mais que eu me esforce em afastá-los, ainda tenho muitos bolsominions entre os amigos das redes sociais.
não que eles se atrevam ao 17 com bandeira.
pegaria mal…
pelo contrário, são gente da paz, esperta, “neutra”.
mas depois de um tempo você começa a ver umas postagens estranhas.
“os brasileiros são tão fortes pra cocaína, pra sacarina, pra todas as ‘inas’, todos os vícios, mas tão medrosos para os efeitos colaterais da cloroquina, hahaha!”
me dá tristeza, mais do que raiva, ler coisas como essas.
raiva eu sinto ao ver, daqui do alto, o centro da cidade cheio de gente, sem máscara e sem noção do que já perdeu.