Os olhos arrancados do Brasil, segundo Pasolini

Eu me sentia em dívida com vocês, uma vez que tanta leitura teve outro post deste blog sobre a produção poética de Pasolini, intitulado “Pasolini em Recife”. E agora creio que acalmo minha consciência ao lhes mostrar o outro grande, imenso poema que o cineasta fez sobre o Brasil.

Em 1970, durante sua viagem à América do Sul para participar de um festival em Mar del Plata, no qual apresentaria “Medeia, a feiticeira do amor” (1960), Pasolini visitou brevemente o País. Fez uma escala no Rio de Janeiro, foi obrigado a um pouso de emergência em Recife, na ida, e rumou a Salvador, por fim. O Rio de Janeiro inspirou-lhe a escrever “Hierarquia”, que segue aqui com tradução de Mariarosaria Fabris.

Screen Shot 2020-07-16 at 8.17.52 PM
“É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados”

HIERARQUIA

Pier Paolo Pasolini, 1971

Se chego a uma cidade
além do oceano
Muita vez chego a uma nova cidade, levado pela dúvida. Tornado de um dia para outro em peregrino
de uma fé na qual não creio;
representante de mercadoria faz tempo sem valia,
mas é grande, sempre, uma estranha esperança –
Desço do avião com o passo do culpado,
o rabo entre as pernas, e uma eterna vontade de mijar,
que me leva a andar meio dobrado, com um sorriso incerto – Livrar-se da aduana, e, muita vez, dos fotógrafos:
fato corriqueiro que cada um encara como se fosse exceção.

 

Depois o incógnito.

Quem passeia às quatro da tarde
por canteiros cheios de árvores
e alamedas de uma desesperada cidade onde europeus pobres vieram criar de novo um mundo à imagem e semelhança do seu, levados pela pobreza a fazer do exílio sua vida?
Com um olho em meus afazeres, minhas obrigações –
Depois, nas horas vagas,
começa minha busca, como se ela também fosse uma culpa –
A hierarquia, porém, está bem clara na cabeça.
Não há Oceano que aguente.
Desta hierarquia, os últimos são os velhos.
Sim, os velhos a cuja categoria começo a partencer

(não falo do fotógrafo Saderman que, com a mulher já amiga da morte, me acolhe sorrindo
no pequeno estúdio de toda uma vida)
Sim, há algum velho intelectual que na Hierarquia
está à altura dos mais belos michês
os primeiros que se encontram nos pontos logo achados e que, como Virgílios, conduzem com popular delicadeza algum velho

é digno do Empíreo,
é digno de ficar perto do primeiro garoto do povo
que se oferece por mil cruzeiros em Copacabana
os dois são meu guia
a segurar-me pela mão com delicadeza,
a delicadeza do intelectual e a do operário (quase sempre desempregado)
a descoberta da invariabilidade da vida
requer inteligência, requer amor.
Vista do hotel de Rua Resende, Rio –
a ascese exige sexo, exige caralho –
aquela janelinha do hotel onde se paga pelo quartinho – se olha dentro do Rio, num aspecto da eternidade,
a noite de chuva que não traz refrigério,
e molha as ruas miseráveis e os entulhos,
e os últimos beirais do art nouveau de portugueses pobres sublime milagre!
E assim Josué Correia é o Primeiro na Hierarquia,

e com ele Haroldo, veio menino da Bahia, e Joaquim.

A Favela feito Cafarnaum debaixo do sol –
Cortada pelas valetas do esgoto
um barraco em cima do outro, vinte mil famílias
(ele, na praia, pedindo-me um cigarro como se fosse um puto)

Não sabíamos que aos poucos iríamos nos revelar, prudentemente, uma palavra depois da outra,
dita quase distraidamente:
eu sou comunista, e: eu sou subversivo:
sou soldado de uma divisão expressamente treinada
para lutar contra os subversivos e torturá-los;
mas eles não sabem;
as pessoas não se dão conta de nada;
elas pensam em viver
(me fala do lumpemproletariado).
A Favela, fatalmente, nos aguardava
eu grande entendedor, ele guia –
seus pais nos acolheram, e o irmãozinho nu
que acabara de sair de trás da lona –
pois é, invariabilidade da vida,

a mãe
falou comigo como Maria Limardi, preparando a limonada sagrada para o hóspede; a mãe encanecida, mas de carnes firmes; envelhecida como envelhecem as pobres, e ainda garota; sua gentileza e a do companheiro,
fraternal com o filho que só por sua vontade
agora era um mensageiro da Cidade –
Ah, subversivos, busco o amor e encontro vocês.
Busco a perdição e encontro sede de justiça.
Brasil, minha terra,
terra de meus amigos à vera,
que não se interessam por nada
ou então se tornam subversivos e feito santos são cegados.
No círculo mais baixo da Hierarquia de uma cidade,
imagem do mundo que de velho se faz novo,
coloco os velhos, os velhos burgueses,
pois um velho da cidade, se é do povo, fica garoto
não tem nada a defender –
vestindo camiseta e calção surrado como Joaquim, o filho.

 

Os velhos, minha categoria,
quer queiram ou não queiram –
Não se pode fugir do destino de deter o Poder, ele se coloca por si
lenta e fatalmente nas mãos dos velhos, apesar de eles serem mãos-furadas
e sorrirem humildes feito mártires sátiros –

Acuso os velhos de terem vivido seja como for, acuso os velhos de terem aceitado a vida

(e não podiam não aceitá-la, mas não existem vítimas inocentes)
a vida, ao acumular-se, deu o que ela queria – acuso os velhos de terem feito a vontade da vida.

De volta à Favela onde não se pensa em nada
ou se almeja ser mensageiros da Cidade
lá onde os velhos são americanófilos –
Entre jovens que jogam, bravos, futebol
diante de cumes encantados sobre o frio Oceano,
quem quer algo e sabe, foi escolhido ao acaso –
inexperientes em imperialismo clássico
em delicadezas para com o velho Império a ser explorado.
Os americanos dividem entre si os irmãos supersticiosos
sempre aquecidos pelo próprio sexo como bandidos por uma fogueira –

É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados.
Joaquim nunca poderia ter sido diferente de um sicário.
Então, por que não amá-lo, se assim fosse?
O sicário também está no vértice da Hierarquia,
com seu traços simples, mal esboçados,
com seu olhar simples,
sem outra luz do que a da carne.
Assim, no topo da Hierarquia,
encontro a ambiguidade, o nó inextricável.
Oh, Brasil, minha desgraçada pátria,
voltada sem escolha à felicidade,
(de tudo são donos o dinheiro e a carne,
enquanto você é tão poético)

Em cada habitante seu, meu concidadão, há um anjo que não sabe de nada, sempre curvado sobre seu sexo,
e se agita, velho ou jovem, para pegar em armas e lutar,
pelo fascismo ou pela liberdade, é indiferente – Oh, Brasil, minha terra natal, onde
as velhas lutas – bem ou mal já vencidas –
para nós velhos tornam a fazer sentido – respondendo à graça de delinquentes ou soldados, à graça brutal.

 

Anacronismo

Amo essa fase de nossa história do pensamento, quando ainda fazia sentido exaltar o pensamento (e até o pensamento como um sentimento), em que se lamentava a incomunicabilidade humana.

Curioso que todos hoje tenham se rendido à inevitabilidade disso. Porque a incomunicabilidade ainda existe, certo? Não é só coisa nascida dos filmes de Antonioni.

Ela existe e me exaspera.

Um jogo de armar

“Fotospoéticas”, de Zuleika de Souza e Antônio Paulo Barêa Coutinho, propõe um mergulho nos vestígios do tempo

 

vaso
A MORTA SOMBRA
A sombra homem
à sua volta
a flor que some
e já vem torta
um vulto sem nome/ quem se importa?
fará insone
a natureza morta

De que serve um livro sem imagens? Ou, pior que isso, sem poemas? Mas este não é só um livro.

As páginas memoriais de “Fotospoéticas” descrevem o decorrer do tempo. Zuleika de Souza, a autora das fotos, faz poesia a partir de vestígios. Antônio Paulo Barêa Coutinho, o escritor, propõe narrativas expressivas a essas criações visuais que sussurram múltiplos sentidos, por vezes saturadas e contrastadas. 

E o que estes dois autores fazem juntos é desmontar o processo conciso em que se dá um poema. A vida é um jogo, como diz Coutinho, e não um sonho. E lá se vão os dois jogar, desfazendo os códigos da visão.

“Fotospoéticas” joga para evocar Cortázar. Leia apenas os poemas e narrativas e você sairá feliz dele. Veja apenas as fotos, na ordem em que for, e a alegria será igual. Tudo se multiplicará quando você ler os dois.

Cada imagem do belo volume remete a uma pequena descrição de Coutinho para além da foto de Zuleika. Ou, melhor dizendo, para dentro dela. Cartier-Bresson dizia que fotografar não é identificar, mas penetrar. Claudio Versiani, que assina o prefácio, sugere que enxergar é identificar, e ver, penetrar – e que a verdadeira fotografia deveria ver.

memoriagua
MEMORIÁGUA
Depois da chuva
a memória da água
escorreu
no vidro de lembrar
permitiu
um tempo que não vivi

Sim, Zuleika tem uma visão penetrante, como se descascasse não só as paredes, mas as nuvens e as sombras, em busca do objeto que elas escondem. Ela vê o jumento na rua, mal amarrado: à espera de quem? As caixas de correio, não se sabe por que permanecem ali, tão bem pintadas. A sombra do vaso com flores evoca um torso. 

Suas cenas são pinturas questionadoras com um traçado áureo. Dá pra entender por que Coutinho, economista e doutor em Ciências Sociais, sempre procura o homem quando descreve as fotos. O homem, sua imanência, sua memória, encaixam-se nessa sofisticada geometria das coisas, embora o poeta não deixe de lembrar: “As palavras não se atrevem com certas paredes.”

coada 2
NO FUNDO VARANDA
O fundo da casa, a frente da casa.
A casa que, no fundo,
é uma luz que entra coada,
uma saudade avarandada
vaga.

A inspiração barroca de Coutinho contrasta com o classicismo de Zuleika. Sua verve intensa de escritor diz paradoxos aparentes, descreve de forma deslocada, rebusca-se com concisão. As águas são tontas, os prazeres, firmes, a esperança, calma, a luz, coada… E, enquanto isso, as linhas das fotografias buscam a eternidade. 

Eis a maravilha desta obra, ter sido composta entre eles a partir um drible constante, de um jogo que nos faz mergulhar.

 

A paixão que não se encerra

Henry Fonda em “Vive-se só uma vez”, de Fritz Lang, 1937

O vizinho de cima vive em festa.

Uma gente falante, que nem conheço, aos gritos pra se fazer entender, como um caminhão do MBL na paulista aberta. Gente de salto alto à noite e que me acorda com reforma intensa no sábado de manhã.

Lá fora, a rua vai enlouquecendo aos poucos.

Alguns gritos de mulheres contra os que parecem ser policiais.

Um som muito alto que, depois de um tempo, passa, como se tivesse sido instalado dentro de um carro em movimento.

Estou sozinha na sala, e os mosquitos começam a pegar minhas mãos.

Mas o filme que escolhi foi maravilhoso.
De Fritz Lang, com Henry Fonda.
E Sylvia Sidney, principalmente.
“Fúria”?
Não.
“Vive-se uma só vez”.
Cada plano, um estudo de fotografia, expressão, geometria, luz.
Enquanto rola a ação.
Fazer cinema policial-dramático nos EUA com tudo o que ele sabia!
Tão grandioso.
E planos muito diferentes uns dos outros.
O mundo engradado, como esta gaiola onde vivemos.

O dia foi bom por um lado.
Mais triste que bom.
Dizem que a única paixão que não se perde é a intelectual.
Bem, espero que me dure os anos todos.

Pietrangeli, cineasta das mulheres

Mastroianni, Magali Noel, Simone Signoret: os vis são eles

ÁDUA E SUAS COMPANHEIRAS
por Rosane Pavam

(republicado do site Histórias de Cinema)

Repare nas mulheres deste filme. Cada beleza é uma fortaleza diante dos homens. E repare nos homens, até em Mastroianni. Todos vis.

Você sai de “Ádua e Suas Companheiras” (1960) sem confundir os personagens porque se trata de um filme de Antonio Pietrangeli, nítido, belo, triste.

Ele aqui ainda não tinha se tornado um dos grandes da commedia all’ italiana, resposta do cinema ao teatro medieval da fria essência humana. E detestava este filme talvez por não ser, neste sentido, “cômico”.

“Ádua” ainda correspondia ao neorrealismo heróico. Pietrangeli sabia disso porque trabalhou como assistente de Visconti e lutou pelo movimento quando se tornou crítico de cinema, depois de cursar medicina.

Ele queria mais, bem mais que a Cabíria de Fellini, encenada três anos antes. Era o diretor das mulheres. Estava no mundo em breve passagem para mostrar o abismo diante delas, seus corpos trágicos insubmissos.

Neste filme, elas habitam o bordel de Simone Signoret, florido por Magali Nöel e firmado por Emmanuelle Riva no papel de mãe. Mas Signoret não é aqui a Joan Crawford de “Johnny Guitar”. Não há redenção para ela, embora tudo o que o cinema peça esteja lá, como esteve em Mizoguchi: um fruto da criação do espaço público para discutir nosso destino circular, em eterno retorno a seu início.

Rosane Pavam é doutora em História Social pela USP com a tese “Retratos do Épico Cômico: Totò, De Sica e a commedia all’italiana”

ÁDUA E SUAS COMPANHEIRAS

Diretor: Antonio Pietrangeli
Itália, 1960, 106 min

Disponível na Amazon Prime Video

Pasolini em Recife

Pier Paolo Pasolini (1922-1975) não teve tempo para desenvolver a ideia, mas planejou estudar o Terceiro Mundo por meio de sua obra. De volta à Itália, na companhia de algumas pessoas, dentre as quais Maria Callas, depois da apresentação de “Medeia, a feiticeira do amor ” (1969) no Festival de Mar del Plata, o diretor fez uma escala no Rio de Janeiro e de lá rumou para Salvador. O avião que ocupava pousou de emergência no aeroporto do Recife na viagem de ida, em 13 de março de 1970. Enquanto aguardava a nova hora de partir, o diretor escreveu o poema a seguir, traduzido ao português por Mariarosaria Fabris.
 
 
pasolini na africa
COMUNICADO À ANSA (Recife)
 
Porque é um fato de crônica, começa
com um pouso de emergência no Recife.
Aqui chove; no aeroporto em construção, passando diante de um grupo de peões que trabalham, olhos se erguem para os passageiros.
É assim que o Brasil me saúda.
Retribuo a saudação com meu coração burguês
que já sabe o que recebe pelo que doa.
Nesses bancos desolados, à espera de um novo avião, de emergência, não há nada de novo: eu sei quais as novas.
O corpo não banhado e a melancolia.
Minha companheira com sua ansiedade, no morno ar da chuva,
e sua sede de graça: cegada para sempre –
este peso que nós, burgueses, carregamos no coração
por tudo o que não sabemos e a ânsia de louvores,
por isso a vida nos cobre como uma veste úmida e suja,
e os poucos momentos de felicidade logo viram lembranças,
e nos vangloriamos; e o peso aumenta,
as chagas de um insucesso obrigam a calmarias consoladoras,
a cômicas levantadas de ombros,
a hilaridades superiores,
lá sentados nesses bancos desolados do Recife.

É preciso saber viver

Quando acordo me vêm as melhores palavras. Mas demoro a levantar. Então saco do celular, na cama, como quem pegava o lápis na cabeceira. Hoje foi assim, ontem também. Ontem um texto sobre um filme, hoje a coisa difícil de ser dita ao amigo, os dois amontoados saídos com relativa facilidade, após a reflexão da noite. O melhor que faz o celular por mim é estar sempre perto para que eu escreva e fotografe nas horas improváveis. Mas, claro, há também as notícias que chegam nesses momentos, sempre piores. E a inspiração se perturba, começa a sumir, vira a areia que rola nesta pedra de tantos anos. A gente nunca vai aprender direito como fazer as coisas.

Amores de outras nuvens

Noto que todo o mundo pandêmico voltou a uma espécie de condução rotineira, e que os viventes lá fora aprofundam-se em dois comportamentos. Ou se adaptam bem aos cuidados higiênicos contra o vírus ou infelizmente suicidam-se, daquele jeito rápido-lento, ao ignorá-los. Mas todos produzem. Até os que no início achavam importante parar, nem cobrar-se durante este período, produzem incessantemente agora.

Eu também produzo. Mas não incessantemente. Não concretizo de modo tão fácil o que ando pensando. Porque sou lenta. Naturalmente. Me traduzo num reflexo. Sou de gastar tempo com a risada, de modo a que ela me cure da vontade de parar tudo, de desistir.

Hoje pude testemunhar o sorriso de Hannah Arendt na entrevista que o perfil do Instagram @hannaharendtbr legendou em português (https://m.youtube.com/watch?v=PG8BYwv9IBQ&feature=youtu.be). Tão linda! Senti uma paz imensa ao saber que ela o advogava. E que foi até mesmo perseguida por sorrir. Aquela certeza de que três minutos antes da morte ainda daria sua risada…

Então, no meu caso, antes de recomeçar de algum ponto perdido, sempre preciso ouvir o que diz meu oráculo da alegria. Meu coração intuitivo. Ou qualquer produção se fará errada, corrigível. E precisarei voltar ao início.

Tudo em minha vida precisei fazer minimamente alegre. O jornalismo, por exemplo. Me lembro que era redatora da Folha quando um repórter que se considerava importante veio até minha mesa perguntar, inconformado: “Do que você tanto ri? E pra quê?” Minha alegria o impedia que advogasse sua sisudez, sinônimo aquiescido de seriedade profissional. Continuei rindo depois disso. Até por pena.

Pedalo por pedalar, vivo pelo gosto de viver, estudo porque preciso… Imagine rir escrevendo o doutorado, se é possível! Imagine, além disso, estudar humor!

Não sei o que esta quarentena terá feito de mim ao final, além de mais gorda uns cinco ou seis quilos, com a liberdade grisalha testada e adquirida em minha cabeça. Mas suspeito que não sairei tão triste desta experiência, se tiver a sorte imensa de sair.

Meu filho tem me achado bonita. Diz que não se lembrava dos meus cabelos compridos. Tenho vontade de presenteá-los a ele, aos meus, à família e aos amigos da arte (vocês sabem quem são). Sem essa gente de outras nuvens, o meu mundo, sempre tão voltado para dentro, antes mesmo de o isolamento forçado acontecer, jamais seria feliz como tem sido.

Obrigada sempre.

Covideiros paneleiros

É verdade que só comecei a assistir a esta série zúmbica do Cláudio Torres, cineasta da Conspiração e filho da Fernanda Montenegro, porque o Mauricio Tagliari fez a trilha original. Mas vai daí que estou me divertindo à beça e gostaria de recomendá-la aos da quarentena eterna.

Os zumbis podem ser qualquer coisa em Reality Z – paneleiros, covideiros -, porque toda a ameaça que o Torres encena no Rio ou na Globo se encaixa em nossa desgraça brasileira.

Divirtam-se, vocês que tanto gostaram de Bacurau!

Ugo Giorgetti e meu texto sobre “Dora e Gabriel”

Daquelas coisas que nos deixam felizes por dias.

Publico a seguir o e-mail que me mandou hoje o diretor Ugo Giorgetti. E, abaixo dele, a pequena resenha que escrevi de “Dora e Gabriel”, seu filme mais recente, a pedido de Cássio Starling Carlos, que administra a página Cinemas Luz no Facebook.

“Rosane, de início preciso dizer que você está em grande forma como escritora, intelectual e jornalista. Mesmo se o que escreveu não fosse sobre mim e meus filmes, acho que conseguiria perceber a finura, a sofisticação e agudeza de seu raciocínio. O que você escreveu é curto, direto e muito original. Não porque é sobre o que faço, repito, mas como raciocínio em si mesmo. É muito importante e talvez seja a função mais relevante do crítico apontar na obra questões e propósitos de que nem o artista se dava conta. De fato nunca tinha pensado no que você escreveu, mas vejo claramente que tem razão. O Caminho da porta e a trajetória dos personagens, tomando a porta não como metáfora apenas mas como algo real – uma espécie de leit motiv – sua conclusão sobre o que dizem meus filmes é de uma precisão única. Acho que certamente é o melhor resumo sobre todo o meu trabalho. Só não sei se é justo. Agradeço essa oportunidade rara, esse diálogo que se dá muito dificilmente entre crítico e artista, e que você estabeleceu de maneira perfeita. Vou colocar essa peça entre as minhas preferidas para falar de Dora e Gabriel, quando o lançamento nos cinemas se der.

Um beijo e, de novo, muito obrigado.”

O CAMINHO DA PORTA

Por Rosane Pavam


Não há coisa no mundo mais viva que uma porta. Vinicius de Moraes tinha razão. Desde sua descoberta pelos filmes silenciosos, a porta ampliou os dramas e os ambientes de ação. Sem ela, o cinema não teria história.


Ugo Giorgetti parece saber disso melhor do que nós. E por isso tranca seus personagens. Para que a história continue. Seu modo de prosseguir o diferencia, porque nos seus filmes não há alento em liberdade. Ninguém é livre, aliás, nem se transforma depois da porta arrombada.


É portanto um diretor que contraria nossa expectativa de que uma nova humanidade surja da catástrofe. Seus personagens trancados no elevador, em bares, no porão, no navio, no subsolo, no andar debaixo da festa, em plena rua, saem pela porta vazios como entraram.


“Dora e Gabriel” chega quando nosso isolamento social é excruciante, porque os filmes de Giorgetti são o que são, premonitórios. Um casal, ela jovem brasileira, exasperada e de bons dentes, ele velho libanês, conformado e lúcido, veem-se fechados por sequestradores no porta-malas de um carro em movimento.


O casal que jamais teria se relacionado lá fora discute o tempo todo a experiência por que passa, sonorizada pelos ruídos enigmáticos da rua. O que o espera? Mais do que nunca, neste filme do diretor, não é o quê, mas como, o que importa.