A bofetada e a ferida

arde o coração ir até a rua.
máscaras abaixo do queixo.
crianças no chão com suas mães.
velhos na agência bancária procurando um dinheiro que não há mais.
pedintes na padaria cheios de argumentos.
na frente do supermercado, três amigos entorpecidos brigam pela bolacha recém-doada.
a jovem, muito puta porque não tenho mais dinheiro trocado pra lhe dar, quer os 50 reais que me restaram.
não consigo aceitar essa face do brasil.
tento esbofeteá-la.
mas, em lugar disso, vou ao banheiro lavar as feridas.

Onde ficou perdida minha face?

“Tira minha foto?”

Este rapaz se aproximou de mim na avenida São João e pediu:

– Tira uma foto minha? Faz tempo que não me olho no espelho.

Fiz a foto, mostrei a ele, ficou feliz (e eu também, por proporcionar que se visse) e partiu antes que eu perguntasse seu nome.

Não deu três segundos, levei um baita susto com duas mulheres sem máscaras, gritando rente ao meu rosto:

– Esconde esse celular, vão roubar de você!

Agradeci (“Sim, senhora!”) e pensei. Não me assustei com o menino me pedindo para ser fotografado, fiquei, pelo contrário, lisonjeada. Sou muito mais incapaz de entender as mulheres sem máscaras. Deveria ter gritado pra elas: “Usem máscaras, negacionistas do inferno!”, mas não gritei.

Na moral

Se eu tenho uma boa recordação da escola onde estudei? Tenho uma divertida.

Eu era muito boa aluna de português, adorava análise sintática e escrevia bem as redações pedidas, às vezes poesias, além de me esmerar em declamar poemas clássicos de cor (sim, eram coisas estimuladas pelo povo lá de trás e eu fazia isso “de coração”, porque tornava minha vida menos triste). E enquanto isso tinha de me esforçar em ciências, exceto em biologia.

Quando estava terminando o Ensino Médio, os professores me perguntaram o que eu iria cursar. Disse jornalismo (estava em dúvida entre jornalismo e psicologia), até porque meus pais haviam me apoiado integralmente na decisão. Então estranhei quando os professores reagiram: “Que é isso, você merece coisa melhor!”

Adorei desobedecer meus professores e o colégio então.

Mas hoje entendo o que pensavam naquele tempo. Jornalismo era para a ralé. E eu deveria cursar direito ou estudar diplomacia, coisas muito mais de bem para o povo de humanas então.

Lembro disso e não paro de rir, acho que de nervoso mesmo. Se tivesse seguido uma carreira diplomática, talvez já estivesse aposentada ganhando bem. E no direito, concursada, não enfrentaria muito problema, acredito, só mesmo o trabalho a fazer.

Escolhi errado, porque jornalismo não dá dinheiro e, no atual momento, muito menos moral.

Mas é vida que segue que chama?

Navegar é preciso

Takashi Shimura em “Viver”,
de Akira Kurosawa, 1952

A gente precisa ter muito carinho pelas pessoas num momento como este. Num post anterior disse que pouco me ficou da Folha além da amizade prolongada e cúmplice com o Renato Pompeu. Mas fui injusta. Tenho amigos vindos de lá ainda, que reencontrei no face. E que são pessoas incríveis.

Eu falava de uma cumplicidade que só tinha mesmo com o Renato. Uma visão ampliada do caos, da indignidade que era a vida naquele jornal.

De resto, queria dizer que o facebook traz mesmo pessoas mais perto de nós. É muito bom conhecer gente cheia de experiências tão novas, e com alguma proximidade. Mas, é claro, temos de ter cuidado com isso também. Ou eu preciso. Às vezes me empolgo demais e me decepciono. Como na vida, certo?

Viver! “Viver” que é um filme de Kurosawa, finalmente conhecido por mim ontem, a nos trazer com tanta intensidade o sentido do tempo. A um minuto antes do fim, ainda podemos fazer algo que mude nossa direção nessa barca da vida que vai dar em nada.

Vejam! Por mim!

Trauma de S. Paulo

Vejo os testemunhos emocionados dos amigos jornalistas sobre sua experiência no jornal que faz 100 anos.

Pois bem.

Na Folha de S. Paulo perdi dez quilos e ganhei 10 cáries. Ninguém esquece uma coisa dessas.

Um jornal onde fui pisada e humilhada.

Mas um lugar onde me pagaram seguro médico, férias e demais direitos trabalhistas.

Desta segunda parte da Folha sempre gostei muito. E não encontrei o mesmo respeito que ela praticava conosco em publicações ditas de esquerda.

De resto, para mim, foi onde iniciei a amizade prolongada com Renato Pompeu.

E a meu ver isso foi quase tudo de bom que pudesse ter havido ali.

Para que não se enganem sobre mim

Esclareço a vocês uma parte importante do que sou, para que não se iludam e decidam se querem ficar por aqui ou não, apesar de minhas posições.

Então:

Fui uma das pessoas em São Paulo que, para viabilizar a existência do Partido dos Trabalhadores, a ele se filiou.

Votei no PT na maioria das eleições e em Lula sempre, desde os tempos de deputado federal.

Da única vez que votei num conhecido, pai de amigo dos meus filhos, fora do espectro do PT-PSOL-PDT, me arrependi. E me arrependi votando no PT também ao escolher a Soninha.

Moro é um escroto e tem de pagar pelo que fez. Lula é inocente no processo que ele conduziu e a Lava Jato representou uma farsa desde seu inicial instante.

Sou pela ampliação do SUS e não por sua desintegração ou acomodação em parcerias com a iniciativa privada.

Quero que as fortunas sejam taxadas.

Defendo que o aborto seja uma decisão exclusiva da mulher, seu direito absoluto.

Sou santista no futebol. Fã de Marta quando vestiu a camisa do meu time, assisti-a vencer em campo maravilhosamente. E a amo ainda.

Fui fã de Robinho e Neymar. Hoje as duas pessoas se tornaram abjetas demais para que eu tome o impulso de vê-las jogar seu futebol tão bonito. Mas ainda acho seu futebol bonito.

As cotas nas universidades têm de se expandir, não se retrair.

Gosto de gente educada. Que responde aos meus posts com educação. Quando as pessoas não fazem isso, é muito fácil que eu simplesmente as retire da lista de amigos.

Gosto do facebook, apesar de saber o que representou neste processo de destruição da democracia. Entendo que ele possa ser usado como canal informativo. Aqui aprendi muito seguindo bons perfis, especialmente ligados à arte e à fotografia. Aqui tenho amigos, a maioria desconhecidos pra mim, que me apoiaram e consolaram e vibraram comigo nestes tempos difíceis. Não vejo dilema na rede neste sentido.

Não tenho preconceito contra o uso do gerúndio e dos adjetivos. Tento usá-los bem.

Não acho essencial o lide, uma invenção dos Estados Unidos na época da Guerra Civil. (Se o telex quebrasse, o essencial do texto estaria garantido logo). Não precisamos mais de telex, mas ainda precisamos de textos bons.

Não acredito na expressão “jornalismo literário”. Todo jornalismo deveria ser literatura.

Sou da poesia, da novela e do conto, mais até que do romance.

Acho a birra que fizeram entre apreciar Cortázar e Borges um mal estúpido. Os dois não foram rivais em vida e não há um melhor que o outro. O mesmo vale para Graciliano e Rosa. Competição é pra cavalos de corrida.

Gosto de selfies e autorretratos pela história, desde a pintura.

Gosto do cinema que se movimenta. Das boas escolhas de câmera. Não suporto o campo versus contracampo das novelas de tevê, que reduz a história à lida com personagens intensos e tensos, fotografados fixos da cabeça ao peito, mas falantes em demasia. Detesto como a computação gráfica vem sendo usada e abusada. O cinema também é o que não diz.

Conforme me lembre de mais divisórias, coloco aqui pra vocês, se acaso se interessarem.

Beijos meus.

Fake fashion, a onda

Quão chocante lhes parece que uma empresa cobre para vestir alguém virtualmente, como a Carlings tem feito na Noruega?

Para mim, o choque é quase zero.

Nossos olhos tristes já são maquiados por meio dos filtros de selfie do Instagram. E pagamos indiretamente por esse embelezamento. Os anúncios infindáveis que suportamos na rede constituem o preço.

E se pagamos de um jeito enviesado pelo direito à boniteza esfumaçada, arrasadora de espinhas, olheiras e rugas, por que não deixaríamos que uma marca de roupa nos “vestisse” por um custo menor do que o da roupa verdadeira?

Eu não pagaria por isso hoje. Mas talvez no futuro o próprio Instagram nos venda disfarçadamente a possibilidade, da qual eu talvez usufruísse como quem brinca.

Não queremos aparecer nas imagens ainda mais feios do que somos, certo? E isto desde a segunda metade do século XIX, quando a fotografia começou a ser comercializada, espalhando a onda da beleza filtrada dos retratos.

Já que a pandemia nos força a viver reclusos (pelo menos nós, os exaustos conscientes), não há por que a indústria deixe de tirar proveito também disso. Será mais uma oportunidade de incutir em nós o consumo em prol da jovialidade exigida pelo mundo de aparências.

O fardo impressionista

João Luiz Lafetá, o grande professor

Naqueles anos 1980 era possível frequentar duas faculdades simultaneamente na USP, e foi assim que, enquanto cursava Jornalismo, um pouco decepcionada com tudo, buscava Letras também. Moradora do Crusp, ia à aula do segundo curso com muito prazer, como quem desce após o jantar para cumprir um exercício.

Tive sorte e azar. Professores ruins de Literatura Portuguesa e Inglesa, mais ou menos insignificantes de Linguística e Português. Em Teoria Literária a coisa era diferente. Não cheguei a Antonio Candido, mas João Adolfo Hansen, Alfredo Bosi e João Luiz Lafetá foram meus professores.

Hansen era maravilhoso. A aula desse grande estudioso da sátira e do poema barroco surgia para mim como uma espécie de show teatral de humor hipnotizante. Certa vez, o professor comemorou rindo muito ao saber que o dicionário de latim deixado por ele no xerox havia sido roubado. Quem se interessaria por esse assunto a ponto de surrupiar um dicionário?

Bosi era o oposto, carisma nenhum. Sentava-se e lia a aula sentado no púlpito. E eu anotava. Devo ter aprendido alguma coisa, tinha 19 anos, não me lembro. O seu jeito de padre, pude reviver três décadas depois enquanto jornalista. Falava comigo de perfil, como se me ouvisse no confessionário, enquanto Eclea Bosi atravessava diversas vezes a sala sem me olhar.

O Lafetá era o melhor. Dava uma aula perfeita, enquadrada. E sorria, infantil, com suas próprias conclusões aparentemente tiradas naquele instante, enquanto andava pela sala. Ele e Hansen eram fumantes o tempo todo, e eu, que sofrera por anos ao aspirar a fumaça produzida por meu pai na sala onde ele estudava e eu dormia, nem sentia o cheiro ruim.

Lafetá, entre esses todos, cuidava de seu aluno. Ele o percebia, como sentia os textos, as intenções do autor estudado, sua tessitura. E eu me encontrava nisso. Estou penando para me lembrar do livro que destrinchou pra nós em aulas seguidas e sorridentes, mas não consigo.

Sei que nos pedia dois trabalhos de análise literária como avaliação do curso. Guardei por anos a folha em que avaliou o meu primeiro. Ele se disse feliz com minha sensibilidade, que classificou de brilhante, mas enquanto me dava 10 afirmava temer que eu me tornasse uma “crítica impressionista”.

Querido Lafetá, nem crítica literária me tornei! E me perdoe por ter cultivado a sintonia com os textos mais do que a pesquisa em literatura, esta que a vida rotineira e a necessidade de sobrevivência me fizeram perder de vista. Também me perdoe por entender hoje que você via em mim um pouco a si mesmo, lutando para se manter na pesquisa e construir uma coerência de scholar enquanto a leitura lhe banhava de impressões.

Creio que impressionista fui e impressionista me tornei, sem me aborrecer com isso, antes me beneficiar dessa percepção e morrer por ela, por assim dizer. E agradeço a esses três pela dignidade com que envolveram a transmissão de seu saber.

Sete de Abril, um orgulho

A rua Sete de Abril, antiga rua da Palha, nasceu no século 18 e no seguinte abrigou célebres bordeis.
No 20, viu ser fundado o Museu de Arte de São Paulo em suas bases.
A história, pelo que sei, jamais lhe escapa.
Mas não gosto dela só por isso.
Gosto das linhas.
Da promessa de luz que ela enseja à distância, em seu início e no final, numa praça e em um antigo largo.
Um lugar aonde, criança, eu festejava ter de ir para tirar sangue, porque assim ganhava o direito de comer um pão de queijo de verdade, como não vejo mais, num bar ao lado do laboratório.
Um lugar onde hoje converso com minha costureira linda, onde compro vinho e livros novos mais baratos.
A Sete de Abril é oito, é nove, é dez, centenas de vezes eu mesma.
Me dá um orgulho demasiado ser sua vizinha.

Polícia é justiçamento na ordem pública

Esta é a calçada de um dos restaurantes que a Polícia Militar, sim, a Militar, mandou fechar em dezembro no meu bairro, diante de meu prédio.

A porta é do bar vizinho ao restaurante que nos enlouquecia com samba bom mas aglomeração todo santo dia desde o início da pandemia.

Numa noite de dezembro lucrativo os donos do restaurante musical romperam o acordo de concluir as atividades às 22h, varando pela meia-noite, e provocaram reação dos moradores.

Após a chegada da guarda metropolitana, os donos do bar insistiram em permanecer abertos. Guardas civis podem pouco e, irritados, chamaram os amigos PMs, que vieram em 20 viaturas, bateram em quem conseguiram e prenderam 12.

Esta é a justiça justiceira que nosso povo obliterado ama e para o qual se ajoelha. No caso específico, a regional da Sé poderia ter feito algo sobre esse absurdo de aglomeração há muito tempo, mas não fez. Então à truculência seguiu-se o bem-estar dos moradores.

Estamos em fevereiro e as colunas de cimento de contenção continuam aí, até que o jorro da proprina mude o quadro justiceiro. Por enquanto, as colunas têm servido para o amor furtivo, como a gente gosta de ver.