que sejam doze meses para nós

luz no aconchego

o ano pra mim foi bom, no fim das sofridas contas, e digo isto em tom baixo, enquanto todos descrevem justamente por aqui o seu.

e o confesso assim para que minha descrição passe discreta, no aconchego.

é que escrevo para vocês, sim, mas principalmente para mim, devo dizer, neste que se tornou meu diário pessoal de liberação, notícias e reflexões.

confinada com a família, a pandemia errou meu alvo.

vê se me erra ainda, peste amplificada por mentes doentias!

em casa, nos aproximamos.

lavei banheiros feliz, apesar de as costas doerem sempre.

não limpei as janelas por medo de cair das alturas, e agora as vidraças compõem desenhos aos quais me afeiçoei.

visito-os e constato por meio deles que a grafia da vida se refaz depois de cada tempestade, sempre frequente na minha vida.

perdi um grande amigo e mentor, e artista, e pensador primeiro.

mas não para a peste.

e não o perdi para a história nem para o coração.

quando meu pai morreu, carlos moreira me disse, aliás, que eu, a partir de então, me sentiria mais perto dele.

acertou, carlos querido!

e agora nós dois nos falamos todos os dias.

me senti bem menos solitária do que nos anos anteriores, porque me dediquei mais aos inboxes da rede, porque estive nelas com alguns de vocês, a quem conheci maravilhosamente e cujo contato telefônico em alguns casos até ganhei, e que sinto gostarem de mim.

trabalhei mais, escrevi sobre cinema e fotografia, paixões primeiras que são igualmente meu objeto de constante pesquisa.

e nem só isso, porque até uma revista de biologia fiz!

a vida é dura e maravilhosa.

quando se tem amores e amigos, duplamente dura e maravilhosa.

vocês são como eu.

são meus!

felizes doze meses que virão.

carlos moreira, meu amor

Covas no centro

É dia de Natal.

E Bruno Covas transforma a região encravada no centro da outrora bela cidade num pesadelo semelhante ao de Morte em Veneza, não o filme de Visconti, mas a novela de Thomas Mann, na qual o odor da peste é constante pelos recantos, pontes, pelo líquido dos canais.

Contudo, prolífico na alquímica distribuição de seus talentos, esse meio homem-meio sepultura transforma o lixo em coisa ainda mais dispersa e obrigatória, como os confetes na folia carnavalesca, deixando que toda espécie de descartados saia irresistivelmente dos sacos pretos pelo cães que são homens e pelos homens que são cães e proporcione à gente sozinha, em meio à tétrica decoração de ursos noeis e balões do pateta no Anhangabaú inconsolável, um isolamento compartilhado dentro da maior miséria até hoje verificada por mim naquele lugar.

O aumento de salário que Covas se deu e a seus secretários deve ter ocorrido justa e especificamente por esta sua imensa capacidade extraliterária de tocar a morte, já tão lendária porque inserida na alcunha familiar, e agora reiterada pelo voto, pelo enganar-se e o querer desfazer-se, que é o que a população parece pedir, desejar, o suicídio antes que seja tarde demais.

Morra

O pior de tudo, no caso da negativa de gratuidade da passagem àqueles entre 60 e 65 anos, é que prejudicar o pobre nesse quesito sempre se faz assim, no fim do ano e entre as festas, quando todos têm os olhos voltados para outra coisa. Nem originais são, porque assim agiram os prefeitos/governadores em conluios anteriores.

E não se vai reclamar por isso agora, nem pelo aumento de 46 por cento nos salários dos executivos, com a covid à porta.

Eu tinha aqui guardada uma foto em que um sem-teto está diante de uma parede próxima da prefeitura com a inscrição “morra Bruno Covas”.

E não usei.

A patetada das redes

é bastante certo que não vale a pena comprar roupa nenhuma agora. engordei e nem tenho pra onde ir. dinheiro, muito menos.

mas os anúncios no Instagram me imaginam rodando a clutch na gabriel monteiro da silva.

e me sugerem as roupas de fernanda yamamoto e, agora, de gloria coelho.

estranho que ronaldo fraga não tenha aparecido…

e então de vez em quando surge um anúncio esperto, modelo com cara de gente e garantia de sustentabilidade, materiais novos, reciclados, possíveis.

e eu cedo.

vou até o “link na bio”.

Mas em lugar de preços compatíveis, a promoção imperdível traz a linda camisa cor de goiaba sobre uma modelo negra a 550 reais.

bem acessível, sim.

acessível como os tornados serão rotina no mundo aquecido, como aqueles de Santa Catarina outro dia, né mores?

eu sei que muito dilema deve haver nas redes.

mas, comigo, eles só aprontam patetadas, realmente.

O santo shopping dos pretos

Queria esclarecer uma coisa.
Quando mudei para o centro frequentei um shopping de verdade pela primeira vez.
O Shopping Light, onde antes funcionou a central administrativa da Light e, depois, da Eletropaulo.
Tive paixão por esse prédio na calçada oposta ao do Mappin desde a infância.
E meus pais, quando eu já não andava com eles, amavam ir até lá para passear e comer nos fins de semana.
O prédio não é preservado em sua integridade arquitetônica interior.
Mas alguns pontos ali dentro ainda são maravilhosos por evocar antigos passos.
As vitrines na entrada, de onde observamos o reflexo do Municipal.
Os corredores dos antigos elevadores, hoje desativados.
Os andares altos, de onde avistamos a praça Ramos.
As escadas rolantes.
Mais que isso, é o único shopping da cidade, de seu centro, onde os pretos circulam livremente com suas famílias, sem medo de que os seguranças venham massacrá-los pela cor.
Na época em que me mudei, ia todo dia por aquelas bandas só para apreciar esse lindo espetáculo.
Até me matriculei na academia descuidada cuja mensalidade era 80 reais.
Eu sentia que pagava para estar diante das imensas janelas que me davam uma perspectiva de todo o viaduto do Chá.
Malhar, emagrecer, o que são tais coisas diante da visão?
E torcia para que caísse água, e que eu ficasse presa lá, e que pudesse fotografar as pessoas livres enquanto esperassem a chuva passar.
Então, quando hoje vejo essa enorme fila da gente remediada ou humilde só para entrar no prédio imponente, com máscaras no queixo, usadas como acessórios de estilo, posso compreender o efeito Beyoncé que as captura.
O pobre naquele entorno sente sua majestade.
Beleza e poder.
Shopping Light, shopping-luz.
Só me entristece mesmo que precisem correr até ele e aglomerar-se nele, desde o quarteirão de entrada, justamente neste momento.
Não carecia.
Preto é bonito onde estiver.
E até mais.

Infância

quando criança eu adorava o filme e seu título em português: “bonnie and clyde: uma rajada de balas”.

mas nunca sabia direito quem era a linda mulher da história, se bonnie ou clyde.

então construí um caminho mental. bonnie usava mais boina que o clyde. era a mulher.

e eu às vezes, na brincadeira dos meninos, queria ser a bonnie.

sem boina mesmo, porque o importante era rajar as balas.

Oração

Há nove meses desvisto as roupas que tenho, senhor.

A cada dia mais distante de mim, daquilo que conheço e entristeço, vejo que a liberdade não é azul nem vermelha, a liberdade é pequena.

E nem os sapatos me servem mais.

Só os vestidos, largos e raros, movem-se para me esconder.

Há nove meses deixo que meus cabelos cresçam e dupliquem suas pontas.

É o melhor que tenho feito para multiplicar as coisas.

Olho pelas janelas sujas onde os reflexos fazem poesia.

Um deserto para os sonhos que tive.

Só eu sei o que é dizer sim quando no meu profundo há um não.

Nunca soube obedecer.

A cada dia mais ocupada em aprender o que já vi, o que já sei e o que pisou em mim, sigo voltada para dentro do que sou, e amém.

Oração

Há nove meses desvisto as roupas que tenho, senhor.

A cada dia mais distante de mim, daquilo que conheço e entristeço, vejo que a liberdade não é azul nem vermelha, a liberdade é pequena.

E nem os sapatos me servem mais.

Só os vestidos, largos e raros, movem-se para me esconder.

Há nove meses deixo que meus cabelos cresçam e dupliquem suas pontas.

É o melhor que tenho feito para multiplicar as coisas.

Olho pelas janelas sujas onde os reflexos fazem poesia.

Um deserto para os sonhos que tive, e não procuro o futuro.

Jamais soube obedecer.

A cada dia mais ocupada em aprender o que já vi, o que já sei e o que pisou em mim, sigo voltada para dentro do que sou, e amém.

pequena dúvida

sonhei que me mandaram fazer uma matéria no shopping onde uns artistas se apresentavam.

queriam seus perfis.

contudo, eu não identificava artistas entre as figuras com quem cruzava. muitas mulheres falavam alto, para um grande público, mas eu não entendia o que diziam, se eram artistas ou não, e passava adiante.

então comecei a conversar com a moça que engraxava sapatos sorrindo.

tirei fotos dela, acompanhei-a até encontrar seu filho e saí do shopping em dúvida.

“fiz a matéria ou não fiz?”