Eles nunca foram santos

Me lembro que um diretor de redação, Sr. Democrata (vou chamá-lo de SDM), passava sempre pela minha mesa cultural pedindo dica de filme em cartaz para ver com a namorada, e que isso em essência, se parássemos para pensar, era a finalidade de nosso trabalho, servi-lo pessoalmente, além de ele propagar nossas notícias, críticas e conclusões ao público que ia a sua casa aos sábados para beber seu vinho e comer sua comida enquanto ele distribuía sua revista à mesa e discursava sobre a própria importância jornalística.

O que escrevíamos servia também para SDM concluir que no Brasil éramos ridiculamente pequenos, especialmente em todas as artes, exceto talvez, olhe lá, na música, mas sem esses sambistas todos. Nós nos vestíamos em “andrajos” e éramos o povo “mais feio do mundo”, submetidos à “comida dos selvagens” como ela existe na Bahia (ou no Pará, mas “de que me interessa o Pará?”).

Me pergunto se alguém pensa com ingenuidade que só pela Globo fomos destruídos, primeiro culturalmente. Há tanto mais (neste caso, miúdo) a ter solapado aos poucos nossa identidade e manchado nossa história – a ponto de havermos acabado aqui – que serão necessários muitos anos de pesquisa acadêmica e isenção, com os quais possivelmente jamais um dia poderemos contar, para situar toda essa humilhação em perspectiva.

E escrevo isto talvez para o futuro, se futuro houver, para que não nos deixemos enganar pelas tolices hagiográficas que cercam certas figuras jornalísticas.

sem abraçar, sem ser

tem hora que sinto falta de abraços específicos, de pessoas determinadas, estas que não estão ao meu alcance neste momento terrível.

viajo me imaginando nos braços delas.

e pensando: quando vou poder novamente encontrar alguém na rua que não vejo há muito e lhe envolver daquele meu jeito meio aloucado e constrangedor?

outro dia joguei de longe um beijo para uma sem-teto deitada na mureta do ponto de ônibus – depois, é claro, de lhe dar um dinheirinho -, e ela quase perdeu o rumo de feliz, e me jogou outro beijo à distância.

(como amo essas pessoas. fico imaginando se elas sabem que fazem muito mais por mim do que eu por elas.)

quem não quer viver de novo, ser alguém de novo, andar, cheirar, sentir, ao lado de quem desejar?

mas nem para pensar nessas singelezas a gente se sente livre.

parece coisa luxuosa demais (e indevida) desejar um abraço aleatório se nem sabemos como tirar aquela monstruosidade do poder e reiniciar o ciclo da vida…

A bofetada e a ferida

arde o coração ir até a rua.
máscaras abaixo do queixo.
crianças no chão com suas mães.
velhos na agência bancária procurando um dinheiro que não há mais.
pedintes na padaria cheios de argumentos.
na frente do supermercado, três amigos entorpecidos brigam pela bolacha recém-doada.
a jovem, muito puta porque não tenho mais dinheiro trocado pra lhe dar, quer os 50 reais que me restaram.
não consigo aceitar essa face do brasil.
tento esbofeteá-la.
mas, em lugar disso, vou ao banheiro lavar as feridas.

Onde ficou perdida minha face?

“Tira minha foto?”

Este rapaz se aproximou de mim na avenida São João e pediu:

– Tira uma foto minha? Faz tempo que não me olho no espelho.

Fiz a foto, mostrei a ele, ficou feliz (e eu também, por proporcionar que se visse) e partiu antes que eu perguntasse seu nome.

Não deu três segundos, levei um baita susto com duas mulheres sem máscaras, gritando rente ao meu rosto:

– Esconde esse celular, vão roubar de você!

Agradeci (“Sim, senhora!”) e pensei. Não me assustei com o menino me pedindo para ser fotografado, fiquei, pelo contrário, lisonjeada. Sou muito mais incapaz de entender as mulheres sem máscaras. Deveria ter gritado pra elas: “Usem máscaras, negacionistas do inferno!”, mas não gritei.

Na moral

Se eu tenho uma boa recordação da escola onde estudei? Tenho uma divertida.

Eu era muito boa aluna de português, adorava análise sintática e escrevia bem as redações pedidas, às vezes poesias, além de me esmerar em declamar poemas clássicos de cor (sim, eram coisas estimuladas pelo povo lá de trás e eu fazia isso “de coração”, porque tornava minha vida menos triste). E enquanto isso tinha de me esforçar em ciências, exceto em biologia.

Quando estava terminando o Ensino Médio, os professores me perguntaram o que eu iria cursar. Disse jornalismo (estava em dúvida entre jornalismo e psicologia), até porque meus pais haviam me apoiado integralmente na decisão. Então estranhei quando os professores reagiram: “Que é isso, você merece coisa melhor!”

Adorei desobedecer meus professores e o colégio então.

Mas hoje entendo o que pensavam naquele tempo. Jornalismo era para a ralé. E eu deveria cursar direito ou estudar diplomacia, coisas muito mais de bem para o povo de humanas então.

Lembro disso e não paro de rir, acho que de nervoso mesmo. Se tivesse seguido uma carreira diplomática, talvez já estivesse aposentada ganhando bem. E no direito, concursada, não enfrentaria muito problema, acredito, só mesmo o trabalho a fazer.

Escolhi errado, porque jornalismo não dá dinheiro e, no atual momento, muito menos moral.

Mas é vida que segue que chama?

Navegar é preciso

Takashi Shimura em “Viver”,
de Akira Kurosawa, 1952

A gente precisa ter muito carinho pelas pessoas num momento como este. Num post anterior disse que pouco me ficou da Folha além da amizade prolongada e cúmplice com o Renato Pompeu. Mas fui injusta. Tenho amigos vindos de lá ainda, que reencontrei no face. E que são pessoas incríveis.

Eu falava de uma cumplicidade que só tinha mesmo com o Renato. Uma visão ampliada do caos, da indignidade que era a vida naquele jornal.

De resto, queria dizer que o facebook traz mesmo pessoas mais perto de nós. É muito bom conhecer gente cheia de experiências tão novas, e com alguma proximidade. Mas, é claro, temos de ter cuidado com isso também. Ou eu preciso. Às vezes me empolgo demais e me decepciono. Como na vida, certo?

Viver! “Viver” que é um filme de Kurosawa, finalmente conhecido por mim ontem, a nos trazer com tanta intensidade o sentido do tempo. A um minuto antes do fim, ainda podemos fazer algo que mude nossa direção nessa barca da vida que vai dar em nada.

Vejam! Por mim!

Trauma de S. Paulo

Vejo os testemunhos emocionados dos amigos jornalistas sobre sua experiência no jornal que faz 100 anos.

Pois bem.

Na Folha de S. Paulo perdi dez quilos e ganhei 10 cáries. Ninguém esquece uma coisa dessas.

Um jornal onde fui pisada e humilhada.

Mas um lugar onde me pagaram seguro médico, férias e demais direitos trabalhistas.

Desta segunda parte da Folha sempre gostei muito. E não encontrei o mesmo respeito que ela praticava conosco em publicações ditas de esquerda.

De resto, para mim, foi onde iniciei a amizade prolongada com Renato Pompeu.

E a meu ver isso foi quase tudo de bom que pudesse ter havido ali.

Para que não se enganem sobre mim

Esclareço a vocês uma parte importante do que sou, para que não se iludam e decidam se querem ficar por aqui ou não, apesar de minhas posições.

Então:

Fui uma das pessoas em São Paulo que, para viabilizar a existência do Partido dos Trabalhadores, a ele se filiou.

Votei no PT na maioria das eleições e em Lula sempre, desde os tempos de deputado federal.

Da única vez que votei num conhecido, pai de amigo dos meus filhos, fora do espectro do PT-PSOL-PDT, me arrependi. E me arrependi votando no PT também ao escolher a Soninha.

Moro é um escroto e tem de pagar pelo que fez. Lula é inocente no processo que ele conduziu e a Lava Jato representou uma farsa desde seu inicial instante.

Sou pela ampliação do SUS e não por sua desintegração ou acomodação em parcerias com a iniciativa privada.

Quero que as fortunas sejam taxadas.

Defendo que o aborto seja uma decisão exclusiva da mulher, seu direito absoluto.

Sou santista no futebol. Fã de Marta quando vestiu a camisa do meu time, assisti-a vencer em campo maravilhosamente. E a amo ainda.

Fui fã de Robinho e Neymar. Hoje as duas pessoas se tornaram abjetas demais para que eu tome o impulso de vê-las jogar seu futebol tão bonito. Mas ainda acho seu futebol bonito.

As cotas nas universidades têm de se expandir, não se retrair.

Gosto de gente educada. Que responde aos meus posts com educação. Quando as pessoas não fazem isso, é muito fácil que eu simplesmente as retire da lista de amigos.

Gosto do facebook, apesar de saber o que representou neste processo de destruição da democracia. Entendo que ele possa ser usado como canal informativo. Aqui aprendi muito seguindo bons perfis, especialmente ligados à arte e à fotografia. Aqui tenho amigos, a maioria desconhecidos pra mim, que me apoiaram e consolaram e vibraram comigo nestes tempos difíceis. Não vejo dilema na rede neste sentido.

Não tenho preconceito contra o uso do gerúndio e dos adjetivos. Tento usá-los bem.

Não acho essencial o lide, uma invenção dos Estados Unidos na época da Guerra Civil. (Se o telex quebrasse, o essencial do texto estaria garantido logo). Não precisamos mais de telex, mas ainda precisamos de textos bons.

Não acredito na expressão “jornalismo literário”. Todo jornalismo deveria ser literatura.

Sou da poesia, da novela e do conto, mais até que do romance.

Acho a birra que fizeram entre apreciar Cortázar e Borges um mal estúpido. Os dois não foram rivais em vida e não há um melhor que o outro. O mesmo vale para Graciliano e Rosa. Competição é pra cavalos de corrida.

Gosto de selfies e autorretratos pela história, desde a pintura.

Gosto do cinema que se movimenta. Das boas escolhas de câmera. Não suporto o campo versus contracampo das novelas de tevê, que reduz a história à lida com personagens intensos e tensos, fotografados fixos da cabeça ao peito, mas falantes em demasia. Detesto como a computação gráfica vem sendo usada e abusada. O cinema também é o que não diz.

Conforme me lembre de mais divisórias, coloco aqui pra vocês, se acaso se interessarem.

Beijos meus.

Fake fashion, a onda

Quão chocante lhes parece que uma empresa cobre para vestir alguém virtualmente, como a Carlings tem feito na Noruega?

Para mim, o choque é quase zero.

Nossos olhos tristes já são maquiados por meio dos filtros de selfie do Instagram. E pagamos indiretamente por esse embelezamento. Os anúncios infindáveis que suportamos na rede constituem o preço.

E se pagamos de um jeito enviesado pelo direito à boniteza esfumaçada, arrasadora de espinhas, olheiras e rugas, por que não deixaríamos que uma marca de roupa nos “vestisse” por um custo menor do que o da roupa verdadeira?

Eu não pagaria por isso hoje. Mas talvez no futuro o próprio Instagram nos venda disfarçadamente a possibilidade, da qual eu talvez usufruísse como quem brinca.

Não queremos aparecer nas imagens ainda mais feios do que somos, certo? E isto desde a segunda metade do século XIX, quando a fotografia começou a ser comercializada, espalhando a onda da beleza filtrada dos retratos.

Já que a pandemia nos força a viver reclusos (pelo menos nós, os exaustos conscientes), não há por que a indústria deixe de tirar proveito também disso. Será mais uma oportunidade de incutir em nós o consumo em prol da jovialidade exigida pelo mundo de aparências.