Algo que realmente amo em nossa língua oral brasileira é a troca constante que se faz entre as segundas pessoas e as terceiras. Um assunto interminável. Um verdadeiro destrambelhamento amoroso fragmentado pra matar de inveja o Rolando, nosso Barthes. A primeira pessoa, por exemplo, todo mundo sabe conjugar. Eu sou! Eu fui! Eu serei! Mas ninguém quer saber de gramática a partir daí. E as canções populares falam por si. (Melhor dizendo, pra ti, meu amor.) Se eu sei quem tu és, sou muito formal contigo, muito distante, e tu és uma estátua, em verdade, que nem sonho tocar. Quando digo “tu é”, pelo contrário, tu tem carne, sou melhor, mais íntimo, mais corisco contigo, minha Dadá! Eis por que “és” pode ser aplicado eventualmente ou em tese à terceira pessoa, para dignificá-la, bajulá-la, engrandecê-la, mas serve pouco pro amor que não é velho, não é parnasiano e está no aqui-agora pro que der e vier. “Fazes” diz mais ao meu tesão inatingível do que “faz”, que a gente aplica no arroxa suado de todo baião. Então, simplesmente, “tu é” ou “tu foi meu amor” é melhor do que “és” ou foste meu amor”, especialmente quando desejo enfatizar o que precisa ser dito urgentemente a ti. Sendo que, na realidade, “foste” é um coitadinho que ninguém reconhece: “fostes” para o “tu” grandioso é sempre muito melhor.
(Me procurem outra hora para mais dicas sobre a poesis anarco-malandra do Brasil. Estou trabalhando por vós!)
o pior é ter de reconhecer que são muitos os bolsonarinhos entre nós faz muito tempo, até mesmo antes de o verme aparecer em pessoa pra azucrinar os brasileiros todos numa sinfonia de escárnio sem fim.
microbiozinhos incultos, soberbos, orgulhosos porque nada sabem ou porque sabem uma coisa só, os que batem seu instinto sobre a mesa, os que não perdem tempo, os violentos, ressentidos, nervosos, óbvios!
há quanto tempo, hein, esses inhozinhos mamam a paz da gente na chuva, na rua, na fazenda, no cubículo gourmet?
O comportamento do Verme é o do menino de 14 anos que H.G. Wells viu em Hitler.
Como um Hitlerzinho, Verme precisa ser o dono do chão em que roda, sem contestação qualquer, sem guarda ou sinal de trânsito no seu périplo rodoviário. Ele está farto da infância escondida e quer esmagar os oponentes apenas porque está no mundo e é esse seu destino easy rider.
Doente mental, como sugerem? Duvido. Fascista mesmo, e já é bastante coisa. Fascista dos brabos e renovados. Fascista autorizado pelo capitalismo, esse sistema político-econômico que recorre ao irmãozinho menor violento, corpulento e sem cabeça sempre que as coisas se complicam pro seu lado e ele, o nerd flácido, está prestes a levar uma surra.
Fascista tem autorização pra ser fascista. E sonha ser pleno.
Verme alcançou a plenitude! Uma plenitude única. Porque ele se torna pleno sendo sabujo de outros condutores de Estados terroristas. É um curioso fascista antipatriota, modalidade que nos projeta como pioneiros no mundo em experienciar um nazismo sem nacionalismo, sem um uber alles sequer.
É o menino de 14 anos em profundo desprezo pelo mundo, ignorado em sua infância política, que nos governa. Parece até mesmo que este é o principal ingrediente para formar um ditador: que tenha sido ignorado por sua mediocridade na infância e, conforme vá crescendo, seja aplaudido mais e mais pelos medíocres.
Como Hitler, Verme só tem a oferecer a seus subordinados, que são todos os outros a pisar o mesmo país, a dor, o sofrimento e a morte. É assim o céu demoníaco. Quem o elegeu aceitou salivando a premissa funesta desse paraíso lúgubre, igualzinho ao que aconteceu com quem quis Hitler – e teve.
Quiseram. Esperaram. Não paz, não lazer, não conforto: morte. E a tiveram conforme pediram.
Embora hajam desejado e esperado o mal a todos os outros, não a si mesmos, nossos alemãezinhos de periferia já não são tantos como no início – embora muito barulhentos, os que restaram. Dariam ótimos prisioneiros feitores em Dachau.
Verme é o Super-homem, enquanto todos os outros, ralés miniaturizadas que devem andar de jegue, não de avião; os outros são coveiros, ele jamais; maricas que não param de reclamar, enquanto ele manda fazer; gente que fracassou, para que os sonegadores vencessem; quilombolas desprovidos de arrobas e indígenas sem um centímetro a mais, perdidos na poeira. Ele é o soldadinho inflado que não põe a mão na massa nem pra matar, porque tem escravo miliciano-policial-militar pra fazer.
Por acaso ele e sua família são melhores do que aqueles que o elegeram, sobre os quais ele pisa? Um tem pinto minúsculo, outro faz nas calças, o terceiro é enrustido abilolado. Mas são melhores, sim! The Hole Family!
E o que os torna melhores é o nada construído em torno. O que os torna melhores é o poder forjado para que simplesmente respirem acima da lama nostálgica, enquanto os outros chafurdam nela sem nariz.
Hitler não teve filhos, não é? Que bom.
E Hitler foi abandonado pela classe média branca que o apoiou (ou não se mexeu) quando tudo começou a dar errado pra ela. Depois de se ver tratada muito mal, sem poder de compra, sem lei, sem sol, aí, só aí, essa classe média-medíocre começou a pensar que Hitler não era mais uma boa ideia.
Principalmente quando desprovidos do sonho dourado de que a exclusão dos judeus, pretos, ciganos, conscientes, esquerdistas ou doentes lhe faria bem, a classe média de Hitler deixou de ser o sustentáculo do líder.
Isto vai fatalmente acontecer ao Verme, visto que a classe média de nossos alemãezinhos inferiores já se levanta, impaciente, escondida e atônita.
Todo mundo sabe. Nascemos e morremos sós. Eu, pelo menos, dificilmente me distraio dessa condição. Mesmo morando com minha família, sempre persegui estar em mim. Não me sinto mais isolada do que antes só porque a pandemia apareceu pra devastar tudo. Não. Prefiro ser privada do convívio do que forçosamente tê-lo, por exemplo, numa redação de veículo impresso, perseguida e enganada sem nem entender por quê. Não me desespero na solitude, que posso escolher cultivar. O que mudou é que, amante exasperada da flânerie, perdi a liberdade de andar enquanto ficcionalizo e fotografo as quase extensões do que sou. As ruas do centro estão tomadas por imensas fileiras de tendas de desabrigados, isto quando eles têm a chance de possuí-las. Na escadaria do Teatro Municipal há um condomínio de dores envolto em saco preto e cobertor puído. Nem falo da Sé. Dos porta-vozes bíblicos que ali ainda têm a coragem e o prazer de proferir condenações. Então o centro, que amo sempre, torna-se cada dia mais uma parte importante do jardim do Grande Verme sobre rodas que nos atropela com seu esgar. Não há como sair feliz de um passeio solitário pelas ruas, onde também se aglomeram sem máscara os bombados de boné e as moças de cabeleira alisada, todos fumando na mesa do litrão ao som sertanejo-evangélico no último. Exceto quando vc distribui o que tem e sente que fez a diferença pra alguém, chega-lhe uma luz. Mas essas relações também estão no fim. Ninguém mais nos quer, nós, os alimentados, corados e curiosos. Somos para eles, em verdade e com razão, fantasmagorias. Melhor lhes dar logo doce e coca-cola por esta longa estrada da morte, ou de nada serviremos. As palavras já não são. Fico em casa. Tenho banheira. Desenvolvi gosto por gorduras de vida. Máscaras pra super hidratar. Refrescar o que secou. E esquecer.
Aqui, o texto no qual o fotógrafo chileno Sergio Larrain dá ao sobrinho a primeira lição fotográfica. O que você lê a seguir é uma adaptação minha para o material relatado originalmente no blog Mistos Fotografia
Sergio Larraín (1931-2012) escreveu em 1982 uma carta ao sobrinho que queria ser fotógrafo. Esta carta se tornou icônica, como muitas outras histórias do fotógrafo chileno.
Larrain teve seu maior momento de fama nos anos 1960, quando ingressou na agência Magnum por intermédio de Henri Cartier-Bresson. Em seguida, estabeleceu-se em uma pequena cidade chilena e aos poucos começou a desaparecer do cenário fotográfico, o que motivou inúmeras lendas sobre sua figura.
Até Julio Cortázar se inspirou em uma história que o fotógrafo lhe contou para seu livro “Las babas del diablo”. Michelangelo Antonioni, por sua vez, usou o texto de Cortázar para compor o filme “Blow up”.
A carta
O sobrinho de Larrain pediu-lhe que desse alguns conselhos sobre a profissão de fotógrafo. E o tio respondeu com este monumento à fotografia. Se você tem dúvidas sobre seu amor por esta arte, ou precisa de motivação, leia a carta de Larrain:
A primeira coisa a fazer no caminho da fotografia é ter uma máquina de que você goste, a de que mais goste, porque se trata de estar feliz com o seu corpo, com o que você tem nas mãos, e o instrumento é fundamental. Que seja o mínimo, o indispensável e nada mais. Em segundo lugar, tenha um ampliador preferido, o mais rico e simples possível (em 35 mm. O menor que a Leitz fabrica é o melhor, dura a vida toda).
O jogo é partir para uma aventura, como um veleiro solta as velas. Vá para Valparaíso ou Chiloé, fique nas ruas o dia todo, vagueie e vagueie por lugares desconhecidos, sente-se quando estiver cansado debaixo de uma árvore, compre uma banana ou um pão e assim pegue um trem, vá para algum lugar e olhe, desenhe também e olhe. Saia do mundo conhecido, entre no que você nunca viu, deixe-se levar pelo gosto, vá de uma parte a outra, aonde quer que vá. Aos poucos, é possível descobrir que as coisas e as imagens vêm até você, como aparições.
Depois de voltar para casa, você revela, copia e começa a olhar o que pescou, todos os peixes, e os coloca junto com o uísque na parede, copia-os em folhas do tamanho de cartão postal e olha para eles. Então você começa a brincar com os Ls, procurando cortes, enquadramentos, e você aprende composição, geometria.
Enquadre com o L e largue o que você emoldurou na parede. Então comece a procurar, a ver. Quando tiver certeza de que a foto está ruim, deixe embaixo. As melhores você levanta um pouco mais alto na parede. No final, fique com as boas e nada mais (mantendo as imagens medíocres você estagna na mediocridade). No topo, nada além do que é salvo, tudo o mais é jogado fora, porque a psique carrega tudo o que se retém.
Então você faz ginástica, diverte-se com outras coisas e não se preocupa mais com isso. Você começa a olhar para o trabalho de outros fotógrafos e procura o que há de bom em tudo o que encontra: livros, revistas, etc. Você consegue o melhor e, se puder cortar, coloca o bom na parede ao lado do seu. Se não puder cortar, você abre o livro ou as revistas nas páginas de coisas boas e as deixa em exposição. Aí espera semanas, meses, enquanto der (leva muito tempo pra ver). Aos poucos o segredo se transmite e você vê o que é bom e a profundidade de cada coisa.
Continue vivendo com calma, desenhe um pouco, saia para passear e nunca force a saída para tirar fotos, porque a poesia se perde, a vida que ela tem adoece, é como forçar o amor ou a amizade, não pode. Quando você nascer de novo, você poderá fazer outra viagem, outra peregrinação: a Puerto Aguirre, você pode descer a cavalo até os montes de neve de Aysén; Valparaíso é sempre uma maravilha, é perder-se na magia, gastar uns dias a vaguear pelas colinas e ruas e pernoitar algures no saco de dormir, muito imerso na realidade, como quando nada, aprofundando-se debaixo d’água, tudo longe do convencional. Deixe suas sandálias lhe levarem aos poucos, como se você se curasse com o prazer de olhar, cantarolar, e o que aparecer será fotografado com mais cuidado.
Algo que você anteriormente aprendeu a compor e cortar, comece a fazer com a máquina. E assim continue, o carrinho se enche de peixes, você volta para casa. Você aprende foco, abertura, close-up, saturação, velocidade, etc. Aprende a brincar com a máquina e suas possibilidades, junta poesia (sua e dos outros), tira todo o bem que encontra, o bem dos outros. Faça para si uma coleção de grandes coisas, um museu em uma pasta.
Siga o que for do seu gosto e nada mais. Não acredite mais do que naquilo que aprecia. Você é a vida e a vida é o que você escolhe. O que você não gosta, não vê, não funciona. Você é o único critério, mas absorva todos os outros. Você está aprendendo. Quando consegue uma foto muito boa, as grandes, você faz uma pequena exposição ou um livrinho. Manda colar e com isso estabelece um piso. Quando você mostra ao público, posiciona-se sobre o que fez. Quando coloca seu olhar na frente de outras pessoas, você o sente. Fazer uma exposição é dar algo, como dar comida, é bom para os outros ver algo realizado com seu trabalho e gosto. Não é se exibir. Faz bem. É saudável para todos e faz bem porque lhe fiscaliza.
Bem, isso feito, você tem como começar. É preciso vagar, sentar-se sob uma árvore em algum canto. É uma caminhada solitária pelo universo. Você começa a olhar de novo, o mundo convencional lhe coloca uma tela na frente, mas você tem de sair dela na hora de fotografar.
eu sinto muita tristeza ao ver que uma médica bolsonarista, quando traída por bolsonaro, pode agora dizer as verdades antes escondidas.
(que palco!)
e por que me sinto triste?
triste porque aparentemente seu discurso é necessário para validar o nosso – pela saúde pública – neste país miserável.
triste porque sua fala sobre corrupção e polarização (como se a ciência estivesse acima da política e não pudesse ser instrumentalizada) não me engana um segundo só.
toda sexta entre o fim de tarde e o início da noite, os jovens ou nem tão jovens vindos da boemia alcoólico-cigarrenta da dom josé de barros, diante da bolsotóxica academia de ginástica smartfit (too smart), enlouquecem aglomerados pelas ruas em torno da praça da república, da ipiranga e da avenida são luís, eventualmente finalizando a noite com o grito de assombro pela rapinagem de seus celulares.
Sim, eu sei que parte dos meus amigos a conhecer os corredores da política e a atuar na justiça considera inexequível a prisão imediata desses depoentes que mentiram na CPI da Covid. Meus amigos creem que é preciso deixar o tempo correr e com isso facilitar o acesso dessa gente à tribuna da comissão, para que ela se enrole depois, quando o Ministério Público reunir as provas colhidas.
Ok, mas que “depois” será esse? Um desses depois vi hoje. Pesadelo, que há muito deveria se arrastar nas correntes, acaba de cair para o alto. O Exército o condena à reserva, esta a que teve direito após participar hoje do comício do Mussolini de subúrbio com mil motoqueiros da PM miliciana do Rio. Pesadelo foi, em suma, promovido.
Quanto mais tempo criminosos como ele ficarem soltos, mais a imagem da impunidade vai se cristalizar nesse nosso povo ignorante, desvalido de saberes, que habita tanto a camada dos acumuladores quanto a dos pobres.
Como se tivéssemos tempo de sobra pra perder nessa eternidade…