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Polícia é justiçamento na ordem pública

Esta é a calçada de um dos restaurantes que a Polícia Militar, sim, a Militar, mandou fechar em dezembro no meu bairro, diante de meu prédio.

A porta é do bar vizinho ao restaurante que nos enlouquecia com samba bom mas aglomeração todo santo dia desde o início da pandemia.

Numa noite de dezembro lucrativo os donos do restaurante musical romperam o acordo de concluir as atividades às 22h, varando pela meia-noite, e provocaram reação dos moradores.

Após a chegada da guarda metropolitana, os donos do bar insistiram em permanecer abertos. Guardas civis podem pouco e, irritados, chamaram os amigos PMs, que vieram em 20 viaturas, bateram em quem conseguiram e prenderam 12.

Esta é a justiça justiceira que nosso povo obliterado ama e para o qual se ajoelha. No caso específico, a regional da Sé poderia ter feito algo sobre esse absurdo de aglomeração há muito tempo, mas não fez. Então à truculência seguiu-se o bem-estar dos moradores.

Estamos em fevereiro e as colunas de cimento de contenção continuam aí, até que o jorro da proprina mude o quadro justiceiro. Por enquanto, as colunas têm servido para o amor furtivo, como a gente gosta de ver.

Me too

Os algoritmos leem meus pensamentos.
Mas que novidade há nisso?
Cerca de um mês atrás publiquei ligeiramente aqui a informação sobre o assédio sofrido na faculdade que quase me impediu de tirar o diploma de jornalismo.
E desde então começo a receber muitas postagens no facebook em torno do Drummond.
Meu poeta preferido da juventude!
E desde então, desde esse tempo longínquo, acresci a minha lista infinita Cecília Meireles, Conceição Evaristo, Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Ribeiro Couto, Roberto Piva e sei lá quantos; deus do céu, uma galáxia inteira.
Então, voltando ao que não deveria ter regresso, esse assediador começou sua luta comigo quando mostrei meu projeto de conclusão de curso, um texto em torno de Drummond, de quem ele, o “professor”, se gabava pessoalmente pela alegada amizade (sendo que Drummond era gentil com quem o procurasse), e de quem o acadêmico ridiculamente mostrava a dedicatória num livro sobre um suporte de mesa na sala onde recebia os alunos.
Eu queria investigar um conceito presente na poesia de Drummond que José Guilherme Merquior – sim, o scholar de direita desafeto de Marilena Chauí – intitulava “humour”.
Achava tão importante a distinção entre humor e humour então!
E até outro dia não havia me dado conta de que voltaria ao tema no meu mestrado e no doutorado…
Mas o fato é que o professor achou o texto bom demais para alguém em seus 18 anos e declarou:
“Você escreve bem demais.”
Talvez tenha desconfiado de mim. Talvez simplesmente fosse um macho de seu tempo, incrédulo de que uma mulher soubesse escrever.
Talvez um louco narcisista.
Na terceira reunião que éramos obrigados a ter com ele, reclamou que eu fizesse o gesto rotineiro de levantar a alça do sutiã por cima da camisa.
“Não precisa disso pra passar comigo.”
Simplesmente saí da sala.
E foram mais três anos fugindo desse obcecado para que me liberasse.
Sabem o que é não ter direito à fala nesse mundo, meninas?
Sabem.
Tanto sabem que mudaram tudo!
Obrigadas infinitos.

(E pare de me lembrar disso a cada segundo, facebook).

Borgen, a deliciosa utopia

Amigas queridas e poderosas me indicaram Borgen, uma série dinamarquesa na Netflix que foi ao ar no país entre 2010 e 2013, anterior portanto a House of Cards.

A protagonista é uma política de partido moderado que ambiciona a premiê. É casada com um descolado professor que cuida dos dois filhos pequenos do casal enquanto ela corre na política. Ele é inteligente, bem-humorado e lindo: ela tem atração por ele e ele, por ela. Ela é bonita, charmosa e engordou um pouco.

Borgen é o palácio que concentra o Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e o Supremo Tribunal. Ali acontecem as tramas da sordidez do poder, impulsionadas pela apuração do jornalismo político. A outra protagonista, âncora de telejornal, é jovem e tem envolvimento amoroso com fontes.

Enfim, o que me encanta, para além do modo ágil e gostosamente caricatural pelo qual se desenvolvem essas séries padrão Netflix, é mesmo uma dupla questão.

A primeira. Me sinto representada pelo fato de as protagonistas serem mulheres num mundo de homens, tendo de dar atenção a aspectos triviais de sua vida familiar e amorosa enquanto pensam em como avançar a carreira diante dos degenerados. Também me encanta o fato de a candidata a premiê pretender ser moderada sem abrir mão de respeito a minorias, gêneros e meio ambiente.

A segunda. A Dinamarca não é aqui. As mulheres são respeitadas. A imprensa é cobrada pelo público e pelos próprios jornalistas a agir independentemente. São todos frios e diretos, mas bem-humorados nas suas relações e observações. E o tecido social surge reluzente.

É necessário seguir os protocolos de boa educação e civilidade em todos os momentos. Em uma sequência, dois policiais batem à porta da jornalista. Ela atende sem perguntar quem bate. Eles querem pressioná-la a entregar a fonte de sua apuração. Ela pede os distintivos, eles não querem dar. A jornalista então pega o celular, começa a filmá-los e eles correm do apartamento com medo das consequências.

É quase como assistir a Ursinhos Carinhosos com política no meio. Me diverte, me faz bem, pela delícia contida naquela utopia político-social.

Conká quer conkatená

sei lá quem é karol conká.
sei lá o que é o bbb.

só sei que o brasil se resume a essa bundagem.

tanto à direita, por motivos óbvios, quanto principalmente à esquerda, o povo rebola a bola torta faz 20 anos só pra bater boca no twitter.

pois bem.

não entendo nada.

mas daí karol conká aparece nos meus stories

para conkatená assim:

“não vou mais brincá
com quem não tem maturidade.
com você não brinco mais
porque tem oscilação de sanidade”.

é rap?!?

a mulher tem a kara do país e o povo reclama disso?

oscilação de sanidade é brasil!

que momento medusa, hahaha.

Autoempreendedora das dores

Preciso de muitas saídas para minha agitação interna constante.

Afora ser quem sou, essa mulher de muitas especulações e triangulações pela história e pelo tempo, passo horas preocupada com problemas objetivos, cujas soluções tanto custam a mim e a minha digestão. Um deles é como resolver meus frilas, já que sou precária como trabalhadora, autoempreendedora de dores, e as frustrações se acumulam conforme os valores baixos que recebo vão chegando.

Meditação seria a primeira coisa a fazer, mas tenho lá meus problemas pra conseguir tocar isso adiante sozinha. E a pandemia meio que me paralisou. Como vetei academia, não vou malhar, razão pela qual engordei demais.

Agora tento andar um pouco, embora o sol esteja excessivo nestes dias e eu evite a noite, período em que por aqui proliferam suicidas angelicais embriagados nos bares.

Então fico assim olhando a janela.

Vou pra rede balançar.

Música toca sempre por aqui.

E faço uma bobagem surpreendente. Pego esses links de museus e vou baixando imagens e livros no meu drive.

Me dá uma alegria de viver que nem te conto.

E calma.

Muita calma.

Tão bonita manhã

Depois de meses trancada em casa, senti minhas costas travarem.

E decidi recomeçar a andar pela vizinhança, com máscara reforçada e sufocante, para impedir essa dor de crescer.

Igualmente precisei de algo para que o dia não morresse com tanta tristeza em mim.

O pôr do sol me conflitua. 

Insisto em vê-lo como um adeus.

Mas paradoxalmente amo a noite na minha janela, aos poucos tornada galáctica e profunda.

Hoje, ao andar sob o sol forte, redescobri muitas ruas do meu entorno histórico.

Amei tudo. 

Estive perto de tudo.

Do mercado, do povo de máscara no queixo, da ruína.

Sou consciente da miséria que só cresce e das ruas não varridas pelo ladrão de merendas.

Mas não fico triste.

Alguma beleza, apesar disso tudo, ainda acende em mim a cada passo dado no chão.

Eu sinto que sou capaz de distribuí-la por essa cidade cujo pulso é também o meu e cuja história me pertence.

Manhã, tão bonita manhã, chegue de repente.

Menino era só liberdade

As qualidades do meu pai como fotógrafo eram imensas.
Imensas mas severas.
Todos tínhamos de posar em nosso melhor estado pra ele.
Porém, aqui, não foi possível que ele nos controlasse a este ponto.
Meu irmão caçula dava seu primeiro passinho, com um ano, e a arrumação não iria funcionar!
Foi também uma das únicas fotos que ele fez neste trecho de calçada estreita onde estava o prédio da rua Santo Antônio, para onde nos mudamos.
E sobre mim?
Eu era uma espécie de mãe alternativa do meu irmão.
Mas me parecia com um menino da época, com meus cabelos repicados e meu short-e-camiseta.
Me chamavam de menino também.
“Ei, menino!”
Eu não ligava.
Menino era só liberdade.

A mente brilhante e o sonho desfeito

Todas as manhãs, ao acordar, nos primeiros segundos em que os olhos ainda fecham a tela para o espetáculo do mundo, mas a mente cintila e comove, é extraordinário que eu saiba o que desejo e, entre tantas as coisas insinuadas, quem sou e a que vim.

Imersa na neblina do sonho recente que aos poucos se desfaz, como o corpo tragado na areia movediça dos filmes B, procuro sua mão ao meu lado. Ela está lá e eu a aperto com força. Ele também. Ele é a única realidade.

E então tudo o que raciocinei naquela nebulosa sucessão de imagens do passado vai ficando pra trás, com a lembrança apenas de alguns trechos, um tobogã, um amante de juventude, como ele emagreceu, como permanece insensível a mim!

A urna irresistível

Estudei na ECA-USP, que foi bastante definidora de minha vida posterior. Lá conheci grandes pessoas que se tornaram muito próximas por toda a vida. Usei muito a biblioteca, vi diversos filmes e combati a timidez durante meu curso de jornalismo. Muito importante foi ter frequentado ocasionalmente, durante meu período de graduação por lá, dois outros cursos, de cinema e rádio e tv, cujos professores eu considera criativos, bem melhores.

As aulas de jornalismo eram irregulares e maçantes, e eu só terminei a faculdade empurrada, porque na reta final um professor do currículo básico me assediava e queria me impedir de tirar o diploma.

Com a ajuda dos amigos, que me deram avaliação 10 em conjunto (e o professor tirava a média entre nossas avaliações e a dele), pude concluir a disciplina que me faltava. Naturalmente, ele me deu zero e eu passei com 5, depois de duas tentativas anteriores de convencê-lo a me deixar prosseguir em paz.

É um sujeito conhecido, ganhou cargos no governo paulista e até bem recentemente me procurou via email para que participasse de um conjunto de depoimentos de ex-alunos. Não vou dizer de quem se trata, já que não me interessa ter meu nome ligado ao dele jamais. É velho e deve estar aposentado.

Não conto essa história sempre, só falo agora porque novamente a ECA me pede alguma coisa, que é participar da eleição do representante dos ex-alunos. Não conheço as duas candidatas, mas como se trata de duas mulheres, escolhi a mais velha e fim.

Acho que não resisto a exercer o direito a voto em qualquer ocasião que se apresente a mim…