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André Toral e as histórias indígenas

Quadrinhista e antropólogo lança livro onde reúne hqs que interpretam as narrativas desses povos

O artista fala para nós em live da página “Viagem ao Fundo do Baú”

Aqui, a live na qual conversamos com André Toral sobre seu livro “A Alma que Caiu do Corpo”, pela editora Veneta, em torno de histórias sobre os indígenas brasileiros.

Meu encontro com Paz Errázuriz

Queridos, aqui vão depoimentos gravados meus sobre o encontro que tive com a grande fotógrafa chilena Paz Errázuriz, cujo trabalho permanece em exposição no IMS até 3 de janeiro.

Paz Errázuriz como eu a captei timidamente em Santos, outubro de 2016: fotógrafa doce, elegante, cúmplice

André Toral fala em live sobre “A alma que caiu do corpo”, seu novo livro

A seguir, a live de que participei com o pessoal da página “Viagem ao Fundo do Baú” sobre o mais recente trabalho do artista, antropólogo, professor e pesquisador André Toral.

Foi imenso.

www.youtube.com/watch

Eu entendo a juventude transviada

Só faltou Luiz Melodia para tornar “Sem Arrependimentos”, na competição de novos da Mostra Internacional, mais ainda do que ele já é, o filme mais bonito de gênero desprezado a que pude assistir neste festival

Parvis (Benjamin Radijaipour): Sailor Moon, por justiça e por amor

“Sonhei que morríamos juntos”, diz o jovem Parvis a seu amor, Amon.

Você já ouviu alguém falar isto num filme? Ou mesmo sonhou isto? Eu não. Ou não me lembro.

“Sem Ressentimentos” (“No Hard Feelings”, ou “sem duros, pesados sentimentos”, no original, para que se entenda que o sexo é uma alusão direta presente na narrativa) diz esta e tantas outras coisas.

Transforma-se o filme num poema de despedida a cada frame inusual, raciocinado, mágico como o pensamento do iniciante diretor alemão Faraz Shariat, que sente ao imaginar o cinema, coisa em desuso franco.

Parvis, Banafshe (Banafshe Hourmazdi) e Amon (Eidin Jalali), em paraíso alemão

Um dos mais belos, senão o mais belo filme a que pude assistir entre as cabines virtuais concedidas gratuitamente a jornalistas cadastrados nesta 44 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

A história do filme é em parte a dele, diretor alemão de origem iraniana, incerto sobre se sua origem determina o que é. Parvis (Benjamin Radijaipour), protagonista com tanto de seu, exerce a liberdade como adolescente o quanto possível. Seus pais, migrantes iranianos de três décadas, construíram uma vida sólida em pais alheio, ali gerindo um supermercado, mas agora querem voltar ao Irã teocrático, onde aguardam Parvis a humilhação e a perseguição. Ele tem uma irmã mais velha, de quase trinta anos, alemã também.

Quando companhia é solidão

Todos na família sabem que Parvis é gay, queer, com os gestos sinuosos, a excitação nos braços e no mover da cabeça pintada de loiro no alto. Todos o amam sabidos disso, reverentes a isso, enfim.

Sua espécie de orixá é a deusa Sailor Moon, que na animação japonesa, ele diz, representa a justiça e o amor. Numa festa sem ânimo, ele veste este cosplay para que ao fim, em plena pista de automóveis no alvorecer, bêbado, desfaça sua fantasia, em quase alusão ao personagem de Alberto Sordi em “I Vitelloni”, filme em que Fellini analisa as dores de uma adolescência prolongada.

O fato é que Parvis fala um persa estranho, que ninguém no Irã ou do Irã entende, algo (mais um) que o desobriga a se sentir ligado ao país. Um dia, contudo, após cometer uma contravenção, ele passa a cumprir serviços comunitários num abrigo da Cruz Vermelha para migrantes de sua origem. Precisa dar assistência aos temporários em busca de residência fixa na Alemanha, precisa brincar com as crianças, recolocar uma rede de futebol sem entender o que é futebol, até mesmo traduzir o apelo de uma iraniana por permanecer no país, mas incapaz de compreender o que ela diz.

Não compreende e não é compreendido igualmente por todos no abrigo, exceto por Banafshe (Banafshe Hourmazdi), irmã de Amon (Eidin Jalali), que pouco a pouco o levará a seu amor. Os iranianos temporários são em vasta maioria homofóbicos por formação e pela violência.

Tudo isto vai se passando com a bela leitura visual dos corpos, gestos e rostos movidos num espaço particularizado mas alongado, enquanto as coisas do mundo, e o mundo, se tornam paisagem secundária.

É um filme sobre adolescência. Que coisa tão comum, não?

Pois… não.

O diretor alemão Faraz Shariat:
“Sem Ressentimentos” é seu primeiro longa

A fotografia de Simon Vu é extremada, cores e luminosidade se alteram para dar nitidez, passo a passo, à caracterização dos belos personagens. Novamente, quase: é quase como assistir ao caminho de Fritz Lang por Hollywood, quando a inventividade na composição se renovava quadro a quadro com o objetivo de contar uma história policial.

É o que Shariat, de 29 anos, consegue aqui, narrar uma trama de gênero adolescente desprezado. Mas uma história que de banal, nada tem. 

Amor, esse algo que a fotografia de Simon Vu capta tão bem

SEM RESSENTIMENTOS

Dir.: Faraz Shariat

Alemanha

2020   

92 min.   

https://mostraplay.mostra.org/film/sem-ressentimentos/

Quixote e Sancho contra o imperador Ming

“Caminhando contra o Vento”, na competição Novos Diretores da Mostra Internacional, mostra uma China corrupta, incapaz de apontar um bom futuro para sua juventude

Trapaça que resulta em prisão, favorecida por um sistema que admite propinas

Se o impedimento a toda e qualquer liberdade de expressão estivesse em vigência na China, a produção deste filme dificilmente teria se dado. “Caminhando contra o vento”, o primeiro longa-metragem de Wei Shujun, é tudo menos o elogio a um horizonte de excelência para a juventude do país. Naturalmente, seu final se aproxima de conciliar as coisas, mas o que importa está no meio da narrativa. No desajuste constante, acelerado, implacável, que parece o único possível a dois estudantes de sonoplastia cinematográfica.

Meu reino por uma SUV

A faculdade de cinema chinesa de nada serve a nossos protagonistas quixotecos às avessas, que atuam como em uma dupla cômica, fadada a seguidos tropeços. O menino magro tem um nome, Kun Zuo, que o liga à palavra “universo”, aqui em desencontro. Kun (interpretado por You Zhou) tem uma namorada adequada ao sistema, mas o jovem se julga em condição de vencê-lo pela trapaça aberta, sem o mínimo cálculo dos riscos. Ele compra até mesmo uma SUV de filtro quebrado, e por este erro se enreda. Seu amigo gordo, A Ming (Wang Xiaomu), tem-lhe toda a fidelidade, jocosa e sem noção. E o sistema rodoviário chinês não é uma maravilha: seus fiscais são facilmente corrompidos, como aqui.

Wei Shujun, diretor de “Caminhando contra o vento”

É a faculdade deles, sendo paga, o maior roubo das expectativas dos seus pais. Os alunos não a querem, e só aprendem enquanto trabalham por si, mesmo que atabalhoadamente. Em meio ao trabalho, aprontam tolices como dirigir bêbados, quando isto na China dá suspensão imediata de carteira e detenção de dez dias, ou roubam provas para revendê-las aos alunos em exame.

Contudo, as trapalhadas expostas não transformam este filme em comédia – por vezes, infelizmente, nem mesmo em bom filme. O diretor Wei Shujun, de 29 anos, insiste nas ondas de fracasso da dupla sem um alívio dramático, sem narrativa coesa, sem um ritmo que possa satisfazer até mesmo o espectador benevolente. A fotografia funciona, os atores não são ruins e a música que eles ouvem nos fornece informação sobre a vida na China. Principalmente, é útil para um ocidental saber que driblar um sistema corrupto dá em nada em qualquer lugar.

Uma dupla que talvez apontasse para a ação cômica

CAMINHANDO CONTRA O VENTO 

Dir.: Wei Shujun 

China

2020   

130 min.   

https://mostraplay.mostra.org/film/caminhando-contra-o-vento/

Na Mongólia, o ouro que cava desertos

“As Veias do Mundo”, na seleção da Mostra Internacional, apresenta as contradições da resistência ao garimpo predador em um país que perdeu 300 lagos e 300 de seus rios

O resistente Erdene (Yalalt Namsrai) e seu filho Amra (Bat-Ireedui Batmunkh)

A mais ativa usina de ouro do mundo está situada na Mongólia, onde cerca de trezentos lagos e trezentos rios secaram por conta da mineração sem controle dos últimos anos. Neste país em que a densidade populacional é tão baixa, menos de dois habitantes por quilômetro quadrado, as esperanças são igualmente desérticas sobre o que vive, incluídos nesta última categoria, os seres humanos.

Um desejo resistente de conservar o que restou

Expulsos pela ação do garimpo, os mongóis se dirigem cada vez mais às áreas urbanas, especialmente à capital Ulan Bator, não só para sobreviver, mas também para realizar seus sonhos como artistas, às vezes expressos por ilusões globais como a franquia do programa de calouros “Mongolia’s got talent”. 

A venda de queijo no caminho para a escola

Assim é que Amra (interpretado por Bat-Ireedui Batmunkh), menino de 11 anos filho de um camponês resistente à cessão da terra aos especuladores, e cuja família vive do pastoreio na estepe, vendendo queijo nos arredores, é levado pelo próprio pai a se candidatar ao sucesso como cantor neste “As veias do mundo”. Um fato grave se interpõe a seu objetivo e ele de repente o menino estará mudado, experimentando precocemente o lado que o oprime. 

A mãe de Amra, Zaya (Enerel Tumen), e a filha Altaa (Algirchamin Baatarsuren) no pastoreio

O filme da diretora Byambasuren Davaa, nascida em Ulan Bator em 1971, esquematiza a desesperança. Seus planos de paisagem natural e humana são exuberantes, e os atores, especialmente os infantis, veem-se conduzidos de modo a intensificar o encanto da história. Tudo neles é expresso pelo rosto ardente e gentil, a dor, o riso, a determinação, a inocência e sua perda. Talvez as sequências fossem mais fortes se se demorassem um pouco em suas qualidades, mas esta cineasta é ágil para o corte, porque se move pelo princípio da ação.

A diretora de “As Veias do Mundo”, Byambasuren Davaa

“As Veias do Mundo” é a obra essencial desta artista que atuou como assistente de direção na televisão pública mongol e estudou na Escola de Cinema de Munique (HFF). Seu primeiro longa-metragem, “Camelos Também Choram” (2003), foi exibido na 28ª Mostra Internacional, indicado ao Oscar de melhor documentário daquele ano. A cineasta também dirigiu “The Cave of the Yellow Dog” (2005) e o documentário “The Two Horses of Genghis Khan” (2009).

Na revolta de Amra, a expressão da resistência

AS VEIAS DO MUNDO

Dir.: Byambasuren Davaa

Alemanha, Mongólia

2020   

96 min

https://mostraplay.mostra.org/film/as-veias-do-mundo/

Uma conversa com Marcello Quintanilha sobre seu primeiro romance

Marcello Quintanilha sobre sua carreira e o novo romance em live da página “Viagem ao Fundo do Baú” em 31 de outubro de 2020

Convidada por Francisco Ucha e acompanhada por Ana Gisele França, Toni Rodrigues e Rui Brito, converso aqui com o quadrinhista Marcello Quintanilha sobre seu primeiro romance, “Deserama”, pela editora Veneta.

Uma conversa deliciosa, reflexiva, solta e risonha.

Não reparem!

Ser escritor na China, ou como transpor o mar

Em documentário na Mostra Internacional, Jia Zhangke ouve três escritores chineses sobre a arte no país a partir dos anos 1950

Jia Pingwa: “Escrever poesia não significa viver uma vida poética”

Nadando até o mar se tornar azul é mais que um título de filme, antes um verso concreto, dito com alguma naturalidade pelo escritor Yu Hua ao final deste belo documentário de Jia Zhangke. O autor conta ao cineasta que realmente, em sua vida, nadou em um mar amarelo até que o enxergasse azul… 

Adepto de uma fotografia que traduz a reflexão do artista entrevistado, focalizando seu rosto enquanto todo o entorno parece borrar-se, o cineasta caminha com calma para desvendar esse tão bem falado horizonte chinês. Os depoimentos parecem ter sido muito desejados pelos depoentes. Há intensidade, risos e lágrimas em tudo o que dizem ao diretor.

A escritora Liang Hong: as emoções pesam

Existiria um modo melhor que usar a literatura das últimas décadas, desde aquela imediatamente posterior à revolução, nos anos 1950, para esclarecer esse horizonte? Talvez sim, mas talvez, igualmente, ninguém tenha pensado nisso antes de Jia Zhangke.

O cineasta vale-se tanto do depoimento intenso e bem-humorado de Hua como da memória do célebre autor morto Ma Feng e dos depoimentos de Jia Pingwa e da escritora Liang Hong, tão emotiva, para recompor a história do fazer literário no país. É como se, durante as conversas com o cineasta, os escritores nos ensinassem coisa demais sobre ser chinês. O valor da solidariedade. A intensidade de desejar a literatura, mesmo que ela lhe tenha sido vetada pelas circunstâncias do trabalho braçal. Tentar reescrever o final e o início de um belo livro cujas páginas foram arrancadas pela revolução cultural. Tornar-se escritor na China! O equivalente a transpor o mar.

Jia Zhangke: boa conversa e inusual fotografia para traduzir quem escreve

Ainda assim, não será tudo. Tornar-se um poeta estará longe de dar um salto verdadeiro na existência. “Escrever poesia não significa viver uma vida poética”, lembra-nos Jia Pingwa. E o que ele aconselha para que isto se dê? Ele não diz. Mas podemos ler um de seus versos. “Lance um olhar frio sobre o mundo”, escreve Jia Pingwa sobre as pedras. 

Tentar imaginar o final e o início de livros cujas páginas foram arrancadas pela revolução cultural tornou-se um exercício para Yu Hua

Nadando até o mar se tornar azul
Dir.: Jia Zhangke
China

112 minutos

2020

https://mostraplay.mostra.org/film/nadando-ate-o-mar-se-tornar-azul/

Um lago onde os sonhos param

“Walden”, da diretora tcheca Bojena Horackova, presente na Mostra Internacional, revisita a burocracia distópia da Lituânia nos anos 1980 por meio do desenvolvimento de um amor adolescente

Uma dificuldade de entender o presente

Tanto a história não se destaca excessivamente neste filme que seu final é antecipado em inserções sobre a vida de um dos personagens, vindo da França para a Lituânia trinta anos depois. Parece interessar à cineasta tcheca Bojena Horackova que recuperemos junto a esse protagonista o que ele sentiu, a simplicidade vivida na adolescência, e entendamos por que ela ainda o atrai. “Walden” vai e vem na cronologia, incerto sobre se os dois protagonistas viveram um enlaçamento por amor ou pelo desejo de fugir do stalinismo.

A diretora tcheca Bojena Horackova

Adolescentes de Ensino Médio, Jana e Paulius se encontram pela primeira vez na pista de patins de Vilnia, na Lituânia dominada por burocratas nos anos 1980. Ele joga hóquei, ela nada na piscina. Ele é um outsider destituído de utopias que faz câmbio ilegal com alemães para adquirir os objetos de consumo que julga importantes, uma bicicleta e um carro, e ela, filha de médico, uma das primeiras da classe, começa a trilhar seu caminho. Paulius já escolheu que vai transigir, Jana acompanha-o com seus olhos grandes. Um dia entram num lago dentro da floresta, que o tio de Paulius apelidou de Walden, e pensam se esconder do mundo.

É uma trama nada intrincada. E faz desse “Walden”, que jamais cita diretamente a obra homônima de 1854, escrita por Henry David Thoreau em recusa à industrialização e à urbanização, uma gargalhada triste e distópica. A fotografia, que tem a participação de Agnès Godard, a fotógrafa de Wim Wenders, propõe algum brilho em meio à aridez que a juventude desse tempo precisa enfrentar. 

Fabienne Babe (Paulius) e Jana (Ina Marija Bartaité) em “Walden”: é amor ou desejo de fugir?

Walden

Dir.: Bojena Horackova

França, Lituânia

85 min

2020

https://mostraplay.mostra.org/film/walden/

Exercício findo

Minha classe de primeiro ano
primário no colégio segregado: confesso que aprendi

Tenho o cuidado parecido com o do meu pai em guardar as fotos milenares. Esta é de minha classe do primeiro ano primário. Eu era bolsista de colégio alemão, que nos mantinha distantes dos alunos dos cursos pagos. Distantes mesmo, pois estudávamos à tarde, enquanto eles, de manhã, e não estávamos autorizados a frequentar a lanchonete, exceto excepcionalmente, para assim evitar abrir conversas com os ricos.

“Pobre não tem dinheiro pra comprar lanche”, me dizia a mestra azeda e esquelética. Eis por que sei de racismo e luta de classes desde cedo. Acho até que deveria escrever algo maior, um livreto sobre essa experiência, quem sabe um dia.

Éramos todos, os 41 desta foto, amigos e vizinhos na Bela Vista e nas regiões do centro de São Paulo. O Porto Seguro ficava no que é hoje a praça Roosevelt, antes de se mudar para o Morumbi. Não havíamos conseguido vaga no Caetano de Campos, o melhor colégio público de nossa região, na praça da República (hoje justamente transferido ao prédio do antigo Porto Seguro), e por isso penávamos por lá mesmo.

Dois de meus colegas nesta foto morreram aos 20 e poucos anos, com Aids, no alvorecer brasileiro da epidemia. O restante não sei se vive ou já morreu. Uma das garotas nesta foto concorreu e chegou às finais de um concurso do Chacrinha para eleger a menina mais bonita do Brasil – um concurso no qual, anos mais tarde, a apresentadora Angélica chegou em segundo lugar.

Um menino entre esses, que eu saiba, gostava de mim e eu não dava conta de corresponder a seus sentimentos. Os nerds, os atrapalhados, os tímidos, as almas simples, tenho o orgulho de havê-los atraído a vida toda. Eu fui sempre das mais altas da classe, precisava subir no banco para a foto anual e às vezes isto significava ficar atrás só com os meninos, para meu ser envergonhado, e ainda assim sorrir pro fotógrafo.

Sempre fui desse jeito, sorridente, comprida e desajeitada. Detestava meu pescoço longo, meu cabelo fino. Eu realmente não me apreciava muito. Aqui, alguns dentes permanentes não haviam ainda nascido, e eu já não curtia ser banguela. Não gostei de me ver nesta fotografia até outro dia. Mas que bobagem! Vejam que classe mais linda.

Olho para esta foto e noto que o menino tido por mais belo, até paquerado pelo professor de inglês da quinta série, não era o mais belo. Bonito mesmo era aquele sardento com cabelo cor de fogo que não parava de enrolar a pálpebra para se fazer de monstro e me assustar. Contudo, pelo contrário, ele sempre me matava de rir. Eu lhe ajudava nas lições e ensinava o que podia, sempre ousada para passar cola nas provas.

A amiga ao meu lado também me fazia gargalhar, e eu a ela, uma mulher que hoje virou promotora, mas na época sonhava em ser secretária. Eu só imaginava para mim um futuro onírico. Queria ser noviça voadora, como na série com Sally Field, ou professora, como minha querida dona Monica nesta foto, a única do primário que amei. Mas acabei no jornalismo por desejar ser correspondente de guerra, como me ensinou o Manual do Peninha. O tempo me afastou pouco a pouco, eu diria melancolicamente, de meu sonho.

Três meninas na classe eram zoadas por ser gordinhas, e eu passava meus recreios com elas. Uma envergonhada demais, as outras duas, sempre felizes.

Uma amiga era a filha bastarda de um alemão com a empregada negra. Seus meio-irmãos estudavam de manhã, no colégio pago. Vítima sentida da segregação, ela era sempre brava, e me ensinou um certo orgulho em a gente ser o que é.

Uma outra era filha de austríacos que trabalhavam como zeladores do Instituto Goethe, na rua Augusta, onde hoje está o Espaço Itaú de Cinema. No que atualmente é a sala 4 funcionava o almoxarifado do instituto. Ali, eu e a menina perfeitamente falante do alemão nos servíamos de tintas e papéis de todas as cores para fazer nossos trabalhos. Eu adorava ter de ir até lá para desenhar livremente, pintar e colar. Até hoje penso se ser dona de papelaria seria uma ideia assim tão má.

Indígenas, pretos, italianos, portugueses, éramos brasileiros, principalmente, felizes como as crianças podem ser quando a vida, mesmo imersa na pobreza ou na guerra, lhes permite.

E hoje já não me recordo com intensidade das dores que sentíamos.