Um sentir na pandemia

Ontem, daqui da janela, eu me encontrava conformada. Os passantes prosseguiam, grande parte deles (homens, em sua maioria) sem máscaras, mas não eram tantos assim.

Havia ônibus e filas de ônibus, porém os passageiros se postavam mais ou menos distantes uns dos outros. E muitas crianças, porque assim as entendo, carregavam suprimentos sobre motos e bicicletas.

Hoje, tudo está diferente.

Faz frio. No entanto, há gente considerável circulando todo o tempo, e mais: aproximam-se, conversam entre si. Os policiais, zeladores de estacionamento e vigias encaram os mendigos que chegam perto deles com idênticos braços cruzados, sem conceder ou se afastar diante de sua presença.

Carros e veículos iridescentes conduzidos por transportadores infantis revezam-se em número semelhante no calçamento.

Um ou outro personagem isolado (daqui a pouco os reconhecerei e lhe darei apelidos) grita “fora bolsonaro” das janelas longínquas, como um rápido desabafo. Mas há também pela rua os gritos alongados, parecidos com os daqueles vendedores antigos de beju na praia. E batuques.

Não sei o que as pessoas lá fora pensam.

Porque sei que pensam.

Porque pensar é um sentir.

Longe de vocês

Não posso dizer que estranhe a quarentena. Nos últimos três anos, venho de repousos forçados por ligamentos rompidos nas calçadas paulistanas. Mais grave ainda, no ano passado quebrei o pé no largo da Batata, a caminho de um show. Se contar minhas desabilidades nesse tempo, sobre cadeira de rodas ou bengalas, que me fizeram desenvolver tendinite, dá quase um ano longe da cidade e perto das sombras.

Tenho amigos incríveis, que felizmente levam vidas distantes enquanto envelheço. Estão sempre em mim, como sonhos. Às vezes, nas redes sociais, encontro quem me ouça mais que eles, na nossa troca de nudes existenciais sob a pandemia. Viva vocês!

Espero que desses companheiros de hoje surjam alguns amigos olhos nos olhos nos próximos anos. Não é fácil, sendo frila e recolhida como me sinto, perder o abraço quem já gosto pelas palavras, concordâncias e emoticons.

Vermeeeee

Estava demorando pra acontecer.


Tô aqui sossegada no meu panelaço diário das 20 horas quando aparece o vizinho.

– Mitooo!


Respondo:

– Bolsominion Lixooo!
(Eu grito bem.)


Panelas se insurgem contra ele e logo chega a resposta a mim:

– Putaaa!


Por que toda mulher é puta ou vaca, neném?


Não tenho problema com as duas.
Quase grito Puta com Orgulhooo, mas não dá pra ser sutil numa hora dessas, lembra meu filho.


Vou no tradicional:

– Vermee!


Mais panelas por cima dele e a boca do infeliz interrompe a evacuação.

Outbreak

queria dar a cada um de vocês uma palavra de carinho.
mas não sei se sou boa nisso.
conhecem uma pessoa direta?
sou eu.
a que não sabe disfarçar.
aquela que diz bobagens sinceramente, porque crê nelas.
e que, se precisa dar carinho, gosta de fazê-lo pessoalmente.
fisicamente.
vocês estão longe, embora perto…
mas não é só isso o que quero dizer.
neste momento, na rua onde moro, passam pessoas gritando por turnos.
ouço da janela da sala.
gritos como se quisessem se libertar de alguém.
ou parar alguém.
não sei do que tratam essas pessoas.
não sei se são os sem-teto sem comida que querem arrancá-la de alguém.
não tenho como saber.
estou a uma altura excessiva do prédio onde moro, aqui onde vejo as nuvens, meus personagens.
prometi à família que me comportaria e que não sairia à rua à toa.
minha família é meu tudo.
eles me amam na complicação.
e não vou complicá-los me aproximando de quem não conheço no meio da pandemia.
mas queria lhes pedir.
nunca mais reclamem se um médico abraçar um prisioneiro na cadeia de novo.
não importa a escrotidão que o preso tenha aprontado.
nem o médico!
não reclamem.
temos um tempo limitado pra viver e amar.
não vamos estragar tudo espirrando no outro uma moral que não precisa ser respeitada.
é tarde.
e eles não vão parar de gritar contra nós.

Música com sangue

www.netflix.com/title/80227122

A quarentena mal começou.

Vocês terão tempo.

Assistam a este documentário espetacular de Stanley Nelson, “Miles Davis: Birth of the Cool”.

Está na netflix, mas suspeito que seja fácil baixar.

Que edição de imagens.

Ritmo!

A música era tudo para Miles.

Principalmente, evoluir dentro dela.

Ou isto ou a arte não faria sentido.

Foi um perfeito condutor de instrumentistas para o exercício de suas próprias visões.

Mais importante que ensaiar, para ele, era improvisar no palco.

E improvisar significava exercer a música em profundidade, sem limites.

Irascível, desafiador do racismo e do establishment, amante de ferraris, Miles foi igualmente louco por mulheres.

Às vezes, louco de verdade.

Machista, espancador.

Enfraqueceu-se mais e mais pelo uso de drogas e por seu comportamento autodestrutivo.

O cool que ele inventou e que quiseram transformar em entretenimento para brancos chiques vinha extraído de sua verve áspera.

Miles nos deu a música com sangue.

Vi Miles ao vivo.

Viva Miles.

Que momento para estar vivo, enquanto for possível estar

Ontem saí pra buscar trabalho. Um tempo angustiante fora de casa para uma reunião de três horas. Orai por nós, os precariados.

Hoje, porque não sou de ferro, saio rapidamente pra aproveitar a promoção do meu café querido, em grãos.

O local onde se dá a venda é um café-brinco, apesar de hipster, e ativo por Lula Livre. Na entrada, pisamos em um tapete com o Bolsonaro de boca aberta. O lugar está sempre cheio para lanches e drinks, porque singular na região, quiçá na cidade.

Pois bem. Hoje não há ninguém nas mesas naquele horário pós-almoço em que tomamos um café. Três funcionários atendem a dois clientes que vão levar rapidamente a promoção e sair. Contudo, em cada mesa, resta como um poema um lindo frasco pequeno de álcool gel.

É um cenário apocalíptico, mas inevitável. Espero que meus queridos hipsters sobrevivam, porque são bons. Não só o café é o melhor e mais barato. Eles também fornecem água filtrada de graça a todos, inclusive os sem-teto, a quem também distribuem cafezinhos.

Perto, entro numa farmácia pequena e peço própolis, que ontem já faltava na região. Mas ali eles ainda têm. E aproveito pra soltar a piada do álcool gel. Adoro ver a expressão de cada vendedor quando faço a pergunta. Este me responde da forma padronizada, mas com sinais de exaustão:

– Pff, senhora, álcool gel nem pensar. Ontem chegaram cem frascos às 10h e às 10h20 já não havia mais nenhum. Peço que o cliente tenha bom senso, mas ele vem sempre com uma desculpa: está levando pra mãe, pra sogra, pra avó.

– Esse maldito governo deveria limitar a compra, ao menos, não? – pergunto.

– Pff. – (ah, ele é perfeito). – Distribuíram camisinhas no carnaval. Então por que não distribuem álcool gel de graça?

Um VENDEDOR de farmácia, queridos.

Que momento para estar vivo, enquanto for possível estar.

Vamos dormir, john boy

os dias têm sido cheios de surpresas terríveis e notícias ruins.
mas vou tentar ver tudo por outro lado.
até porque hoje achei meus óculos escuros que imaginava perdidos.
e os exames da rotina feminina que me preocupavam foram bem.
principalmente, tenho amigos.
tantos de vocês que resistem com um sorriso mesmo quando conhecedores do que se passa.
obrigada por suas imagens e palavras.
obrigada aos índios que pela enésima vez (porque não poderia ser de outro modo) nos ensinaram como se deve lutar.
só faltava o meu querido ser aceito candidato a prefeito…
mas terei calma.
vamos dormir, john boy.
sonhar é viver.
boas coisas pra vocês.

o capacete da noiva do führer

sonhei com a regina duarte.
(creio que o sonho foi motivado por um story elogioso de parente à figura).
durante o sonho, brigávamos feio, gritos dela contra os meus, cada vez mais altos, porque eu não aceitava que ela usasse fotos de minha família para fazer propaganda de suas ações, como vinha ocorrendo em rede nacional.
enquanto discutíamos, o cabelo da mulher crescia e eriçava, até formar uma espécie de capacete que diminuía sua cabeça.
acordei com os dentes rangendo.
só isso mesmo.

Em 28 de fevereiro de 2018

vivo entre as britadeiras de são paulo.
quando não britam no andar de cima, britam aqui dentro.
para superar esses ruídos, que calam a calma, as pessoas acostumam-se a gritar.
gritam lá embaixo, agora, enquanto tento escrever.
não deve ser assalto desta vez.
minha rua tem muitos sem-teto, às vezes fixados nos bancos do calçadão.
falam consigo, com seus cães e com um ser que somente eles podem ver.
desta vez, a voz potente com aflição (creio que de um negro, rivalizando com os britos cheia de docilidade) agita-se.
grita, aparentemente, com alguém que eu poderia ver.
como se falasse comigo.
“ouve, porra, o que eu digo! ouve!”
ou falasse por mim.

Não tem país

Outro dia meu filho me levou ao restaurante Syria, na avenida São João.

Caseiro. Comida maravilhosa. A espuma de alho serve de molho. A esfiha achatada, quente, é feita de massa fina recheada.

Fui pagar o que comi no balcão e apareceu a dona, que me lembrou alguém conhecido. Perguntei-lhe de onde ela era. “Damasco”, respondeu.

Aproveitei para lhe dizer que meu avô materno nasceu em Malula, uma linda cidade terrosa, cheia de montanhas, em que grutas escondem igrejas.

Ela sorriu. E, com o sorriso, rejuvenesceu. Era mesmo uma das minhas.

Malula, contou, é “o interior de Damasco”. Um povoado tão maravilhoso como outros (me disse seus nomes, creio que em aramaico, mas eu não os conhecia).

Mostrou-me seu filho ruivo de cabelos crespos, como os do meu avô. O jovem distante, sentado à mesa do restaurante, não falava português. Nem língua alguma, naquele momento. Em lugar disso, quieto, olhava pela janela o movimento da São João. Tinha seus 26.

“Eu cheguei a São Paulo faz três anos, ele finalmente veio agora”, ela me contou, alegre, no seu português que mal usava verbos.

“Ele fica aqui ou volta?” – perguntei.

“Aqui.”

“Não tem família em Damasco?” – insisti.

“Não tem mais Damasco”, ela então me respondeu. “Não tem mais Malula”, sorriu. “Síria não tem”.

Era como se houvesse arremessado pedras no meu rosto. Mas eu não perdi a linha. Raramente perco.

E sorri também.

Até porque não convinha lhe contar o que sei.

“Não tem mais Brasil, senhora.

Não tem país”.