os dias têm sido cheios de surpresas terríveis e notícias ruins.
mas vou tentar ver tudo por outro lado.
até porque hoje achei meus óculos escuros que imaginava perdidos.
e os exames da rotina feminina que me preocupavam foram bem.
principalmente, tenho amigos.
tantos de vocês que resistem com um sorriso mesmo quando conhecedores do que se passa.
obrigada por suas imagens e palavras.
obrigada aos índios que pela enésima vez (porque não poderia ser de outro modo) nos ensinaram como se deve lutar.
só faltava o meu querido ser aceito candidato a prefeito…
mas terei calma.
vamos dormir, john boy.
sonhar é viver.
boas coisas pra vocês.
o capacete da noiva do führer
sonhei com a regina duarte.
(creio que o sonho foi motivado por um story elogioso de parente à figura).
durante o sonho, brigávamos feio, gritos dela contra os meus, cada vez mais altos, porque eu não aceitava que ela usasse fotos de minha família para fazer propaganda de suas ações, como vinha ocorrendo em rede nacional.
enquanto discutíamos, o cabelo da mulher crescia e eriçava, até formar uma espécie de capacete que diminuía sua cabeça.
acordei com os dentes rangendo.
só isso mesmo.
Em 28 de fevereiro de 2018
vivo entre as britadeiras de são paulo.
quando não britam no andar de cima, britam aqui dentro.
para superar esses ruídos, que calam a calma, as pessoas acostumam-se a gritar.
gritam lá embaixo, agora, enquanto tento escrever.
não deve ser assalto desta vez.
minha rua tem muitos sem-teto, às vezes fixados nos bancos do calçadão.
falam consigo, com seus cães e com um ser que somente eles podem ver.
desta vez, a voz potente com aflição (creio que de um negro, rivalizando com os britos cheia de docilidade) agita-se.
grita, aparentemente, com alguém que eu poderia ver.
como se falasse comigo.
“ouve, porra, o que eu digo! ouve!”
ou falasse por mim.
Não tem país
Outro dia meu filho me levou ao restaurante Syria, na avenida São João.
Caseiro. Comida maravilhosa. A espuma de alho serve de molho. A esfiha achatada, quente, é feita de massa fina recheada.
Fui pagar o que comi no balcão e apareceu a dona, que me lembrou alguém conhecido. Perguntei-lhe de onde ela era. “Damasco”, respondeu.
Aproveitei para lhe dizer que meu avô materno nasceu em Malula, uma linda cidade terrosa, cheia de montanhas, em que grutas escondem igrejas.
Ela sorriu. E, com o sorriso, rejuvenesceu. Era mesmo uma das minhas.
Malula, contou, é “o interior de Damasco”. Um povoado tão maravilhoso como outros (me disse seus nomes, creio que em aramaico, mas eu não os conhecia).
Mostrou-me seu filho ruivo de cabelos crespos, como os do meu avô. O jovem distante, sentado à mesa do restaurante, não falava português. Nem língua alguma, naquele momento. Em lugar disso, quieto, olhava pela janela o movimento da São João. Tinha seus 26.
“Eu cheguei a São Paulo faz três anos, ele finalmente veio agora”, ela me contou, alegre, no seu português que mal usava verbos.
“Ele fica aqui ou volta?” – perguntei.
“Aqui.”
“Não tem família em Damasco?” – insisti.
“Não tem mais Damasco”, ela então me respondeu. “Não tem mais Malula”, sorriu. “Síria não tem”.
Era como se houvesse arremessado pedras no meu rosto. Mas eu não perdi a linha. Raramente perco.
E sorri também.
Até porque não convinha lhe contar o que sei.
“Não tem mais Brasil, senhora.
Não tem país”.
Tudo passa
De 4 de fevereiro de 2017
Agora há pouco, sem guarda-chuva, aguardo o fim do temporal sob o toldo de uma loja fechada, na esquina da Pamplona com a Jaú. Aproxima-se um senhor com guarda-chuva. Uns 88 anos.
– Vai atravessar a rua? – me sorri.
– O farol não abre, estou esperando o verde chegar! – retribuo. (Dizem que risada é contaminação.)
– Quer vir?
– Carona, o senhor diz? – Ele não responde ou o reflexo é lento. Mas aceito, por formosura.
– Então pode pegar! – e me passa o cabo.
– Ah, tá, eu seguro.
– Haha.
– Sempre esqueço meu guarda-chuva em casa.
– Esse é da minha mulher. Ela é doente. Quer uma batatinha?
– Sua mulher?
– Você! Com cervejinha!
– Não, obrigada, tenho compromisso.
– Mas você é bonita, hein?
– Já fui ajeitadinha. Tudo passa.
– Um suco no McDonald’s?
– Não mesmo.
– Antes eu corria atrás de dinheiro, agora o dinheiro corre atrás de mim.
– Que sorte a sua.
– Sou administrador de dois edifícios. O dinheiro cai na conta. Mas, se não cai, a gente manda matar.
– Entendi.
– Você tem marido?
– Violento.
Não internam as pessoas mais?
Águia sem asas
Do nada, no fim da tarde, deparo com Augusto Nunes no supermercado do centro.
Do meu centro.
O homem é uma assombração puída. Seus maxilares estão presos. O olhar sem brilho (pode ser catarata) permanece fixo adiante, em uma prateleira ou refrigerador que não se adivinha, ocupado em farejar um rato, quem sabe.
A águia esfomeada sem asas não cumprimenta ninguém quando entra no supermercado do bairro, nem ninguém nota sua presença.
Só eu pareço sentir um arrepio frio enquanto ela passa por mim.
Terei exagerado?
Chamá-la de assombração é insultar os fantasmas.
Da Venezuela ao passado onde vivo

Morar no centro tem sido minha alegria neste ano que já se vai.
Aliás, ele se vai, mas não desejemos que parta tão já.
Vamos curtir o que resta deste ano, porque como me disse um músico ontem, o Marcos Mauricio, tudo vai piorar no ano que vem.
Então vamos curtir o sol e as árvores…
E antes que você me pergunte: há miséria onde vivo, sim.
Mas a cidade inteira tem sua porção.
São Paulo se enche dela.
Me interessa a luz do centro.
Gosto de me centrar.
Às vezes me parece que, neste lugar onde reside o caos calmo dos meus afetos, volto à infância.
Um comportamento… um jeito de falar que é só daqui e que é pra mim…
E os prédios da Light e do Mappin que ainda estão lá, além de todos os caminhos que levam à Sé, à Liberdade, à Mário de Andrade!
A linda biblioteca para onde, criança, eu ia ler e estudar, já que não tínhamos muitos livros em casa, exceto os maravilhosos de arte de meu pai e duas enciclopédias: a portuguesa Verbo (seis volumes bem fininhos) e a Tecnirama, em fascículos.
Creio que fosse pouca coisa pra minha curiosidade em relação ao mundo, que nessa época me atordoava em demasia.
Sempre morei no meu passado com muito carinho.
Mentalmente.
E agora fisicamente também.
Pois sexta-feira ia naquele caminho bem andado quando o garoto de 15 anos da foto se aproximou de mim em cima de sua bike.
Me perguntou se eu sabia onde vendia brinquedo.
Fiquei meio confusa. Não achei que nada ruim partisse dele. Mas falava portunhol, eu não compreendia bem.
Queria comprar brinquedo, mas não de criança.
Não brinquedo de brincar.
Bonecos, assim.
Disse a ele que havia lojas especializadas nesse setor em duas galerias.
Ele não as conhecia.
Perguntei se queria que eu o levasse até lá, já que estavam próximas de meu destino.
Quis.
Então lhe perguntei de que tipo de bonecos gostava.
“Não são pra mim.”
“São pra sua namorada?”
“Ainda não. Não é minha namorada.” Riu. É só sorrisos.
“Ah, então é pra conquistar…
“Não sei se vou conseguir. Mas já fiz o desenho dela olhando a foto do WhatsApp.”
“Você é desenhista?”
“Sou.”
“Que bacana. Mas, olha, os brinquedos às vezes não são baratos.”
“Meus pais compram pra mim se eu for bem na escola.”
“Em que série você está?”
“Primeira do Ensino Médio.”
“E passou de ano?”
“Ainda não sei” (um riso grande). “Vou ver uma nota na segunda.”
“E de onde você é?”
“Como assim?”
“Onde nasceu?”
“Venezuela.”
“Que legal! Conheço um venezuelano que faz um documentário sobre os compatriotas no Brasil. Foi até Rio Branco.”
“Eu também.”
“Você veio de lá?”
“Não, eu moro na Rio Branco.”
“A avenida! Entendi. Você veio pro Brasil com sua família?”
“Primeiro vieram meu pai e meu tio. Depois vim com minha mãe.”
“Você gosta daqui ou pensa em voltar?”
“Penso em voltar.”
“Lá está ruim, né?”
“É aquele presidente.”
“Sim, imagino. E o que vocês achavam do Chavez?”
“Bom. Muito bom. Com ele não tinha ninguém morando na rua, hoje tem. Ninguém passava fome, hoje passa. Ele protegeu as áreas dos índios. Não quis saber dos Estados Unidos. E ele falava três línguas, sabe?”
“Não sabia. Quais? Espanhol…”
Mais um riso longo.
“Lá não falamos espanhol. É castelhano.”
“Claro!” (rio de volta). “E que outras línguas?”
“Guarau.”
“Língua indígena?”
“Sim.”
“E a terceira?”
“Não sei.”
“Que bom que Chavez era bom. Aqui falam mal dele, é incrível.”
“Também falam mal de Lula, não? As pessoas são muito ignorantes.”
“Pode ter certeza! Olha, chegamos na galeria.”
“Eu não posso entrar com a bicicleta, só vim ver onde comprar. Depois volto. Obrigado.”
“Como você se chama?”
“Elker.”
“Legal te conhecer, Elker. Sou Rosane. Posso te fotografar?”
Quem desliga a chave?
02.11.18
talvez vocês não tenham idade pra saber, mas no seriado camp do batman as paredes frequentemente ameaçavam espremer nossos gay-heróis capturados por gay-vilões.
pois me sinto batman & robin há muitos e muitos anos, tentando segurar as paredes, sem que nunca me deixem conseguir…
tendo de aguentar tropa de elite & sertanejo & big brother & outras porcarias de nossa indústria cultural apenas porque são populares e porque a esquerda, sem querer ser chamada de elitista, não as poderia refutar…
santa burrice!
era por onde a ditadura começava a entrar!
nossa esquerda, dita esquerda, não foi a heroína cultural que deveria ter sido, lamento dizer. nunca pensou em desligar essa chave. adorou a chave. e agora as paredes estão próximas.
mas ao mesmo tempo, né?
estamos só no começo.
quero mandar o cara do uber desligar o som!
aqueles cantores que parecem o porco sob a faca…
e suas letras de corno transcorridas em dubais sentimentais, onde a métrica é insolúvel, “segredos” rima com “erros” e a incapacidade de articulação transborda para nossas vidas…
batman, robin, quem vai desligar a chave?
Nenhuma a menos
De 19 de outubro de 2016
Adoro Buenos Aires. Mas preciso dizer. Que decepção quando viajei para lá a primeira vez, há um quarto de século. Sozinha. Somente Salvador se equiparava então, por minha experiência, em machismo praticado contra uma turista solitária.
Estranhei o quarto de hotel onde me colocaram. Fiquei no segundo subsolo, a janela diante da parede. Reclamei, nada foi feito. Prossegui. No meu andar se hospedavam duas brasileiras em um quarto. Demorou três dias até eu perceber que se esquivavam de meus cumprimentos. Recebiam uns tipos à noite.
Fui almoçar em um restaurante na avenida Nove de Julho. Na hora de pagar a conta, me disse o garçom, loiro de olhos azuis: “Saio às quatro, me espere na rua X”. Fiquei assombrada. Achava que só no Brasil, como acontecera na Bahia antes, eu seria chamada às vias de fato por estar sozinha em uma mesa: “Por que tá dando uma de difícil comigo, porra?” – perguntou o sujeito que se sentou na cadeira em frente à minha, no Zanzibar, sem permissão.
Não estranho, infelizmente, o feminicídio na Argentina.
E aproveito para dizer: nenhuma a menos.
Fio de ferro
De 12 de outubro de 2015:
Estrada do Cascalho, Boiçucanga. Saio sob a chuva, noite de domingo, atrás de alface e tomate na venda. A caiçara me vê andando, se aproxima, puxa conversa. Diz que não vou encontrar verdura nesse horário, deveria ter ido procurar antes (no que concordo), mas sigo pela estrada a seu lado, quem sabe consiga aquilo de que preciso mais na frente, a conversa é boa. Calculo que ela tenha minha idade, mas descubro que são cinco anos menos.
– Vai chover muito hoje à noite e amanhã também – me informa, sorridente, decidida, camiseta regata, chinelo.
– Ouvi dizer que não… – retruco, chinelo também.
– Vai sim, forte! (Nem choveu, fez sol, tudo bem.) Mas volte, porque o verão vai ser bom – me aconselha, enquanto segura com a mão direita o cabelo solto, que balança.
– Sim, eu sei, venho sempre. Você mora no Cascalho? – pergunto.
– Desde que nasci, é ótimo.
– Eu adoro. Mas tem trabalho por aqui?
– Pra mulher tem.
– Pra mulher?
– Nas pousadas, nas lojas, muita coisa. Mas tem de querer trabalhar. Eu vou de sol a sol.
– Que bacana.
– Tem de aguentar.
– Sim.
– Mas as meninas não estão nem aí. Têm 15 anos, ganham filho, não querem mais saber de fazer as coisas.
– É… Essa geração tem filho cedo…
– Revolta a gente, porque elas pegam vaga na creche, que nunca tem, e ficam pelo dia falando mal das outras, à toa. E tirando a vaga de tanta gente boa que precisa trabalhar.
– Ah… – penso um pouco. – As meninas hoje são diferentes.
– Minha mãe era dura.
– A minha também – me aproximo. – A gente tinha de estudar, não podia pensar em casamento.
– A minha mãe batia com o fio do ferro.
– Mesmo?
– E não deixava estudar. Mulher, não. Só os homens. Tinha de pegar no pesado.
– Ah… – penso em algo, não vem. (Estamos em São Paulo. 2015. Ela é mais nova que eu.) Olha o minimercado aberto, vou entrar, tá? Boa sorte, querida.
– Até!
(Que horas ela volta o quê.)