Minha cabeça que roda e roda enquanto deveria ficar quieta é incapaz de inventar coisas simples e criativas como esta que li há pouco num texto de facebook, isto é, plantar sementes descascadas de limão em canecas para perfumar a casa e a encher de vida.
Sou muito ruim de tarefas domésticas e arrumação, e minhas habilidades manuais talvez se resumam a pendurar a roupa no varal de modo a que não seja preciso passá-la. Vou mal e minimalista na cozinha, sou impossível de crochê e não me arrisco a desenhar, mesmo tendo sido filha de um desenhista exímio, mulher de um e mãe de dois bons, um deles extraordinário.
Minha casa, para quem a conhece, é um retrato de histórias. “Sem decoração”, como fez questão de lembrar uma parente, com a ponta de sinceridade (não devo dizer maldade) habitual.
Livros por todos os cantos, livros que ganhei quando os editava para as publicações gerais, a cada dia menos interessadas neles. Livros que são antigos e que leio com vergonha aos pedaços, quando os leio. Livros em torno da tese que escrevi e só eu li. Tese de muitas pontas, que decidi qualificar de poligonal, e que não me possibilitou entrada no mundo acadêmico, como me lembrou um ex-amigo para justificar que ele não me defendesse quando fui publicamente ignorada por um crítico desinteressado dos livros, com lapsos de memória, mas gente de culto.
Infelizmente demoro demais a ler coisas novas, e até o pdf do livro-sensação ganhei, mas não me capturou logo nas primeiras páginas (alguma mágica que deixei de sentir), então logo me despedi dele, para começar a Felicidade Conjugal de Tolstói, homem cuja vida ou personalidade jamais admirei, mas que escreve como quem conversa as coisas desde seu princípio até sua impossibilidade.
Não sou uma scholar e não leio tudo, mas deixo de fazê-lo com culpa. Com culpa e responsabilidade. Tenho filhos jovens que leem e não raro se sentem solitários porque os amigos não compartilham suas leituras. Espero que, se houver netos para mim, sejam estranhos leitores no seu tempo, divertidos com os livros da grande biblioteca que possivelmente iremos lhes legar.
Tive filhos, tive misérias, mas nunca causadas por eles, com quem aprendi todo dia um novo modo de entender as coisas, estas que no fim das contas são muito parecidas, mas nunca iguais, nascidas da crise que é constante, como observou Edgar Morin, e que combatemos em oásis de felicidade, termo dele também.
Tenho igualmente muito amigos que não leram nada e que mal entendem do que eu estou falando. Mas, quando nos encontramos, rimos. Como perdemos essa possibilidade com a pandemia, de nos enroscarmos com vinho, nos lamentamos via memes, estes que considero uma grande invenção, mas que não têm o mesmo efeito de um comentário-soco em mesa de bar quando nele entra alguém.
Quem lê assim até pensa que sou do bar, mas sempre bebi mais em casa que fora dela. Meu marido é um pro, que identifica o bom da bebida entre o ruim. Eu também identifico, mas me envergonho por não saber as razões de superioridade ou inferioridade de qualquer coisa líquida, estas que ele descreve à perfeição.
Ele é bem perfeito em tudo, aliás, tem uma memória extraordinária e lê todas as coisas interessantes, muito mais do que eu. E não as dispersa pelo Facebook, como eu, carente da conversa alheia num círculo de amizades que a idade começa a fechar mais e mais. Ele guarda tudo para despejá-lo quase sempre na forma visual, condensada e difícil, da canção.
Por que estou dizendo tudo isto, não sei. Talvez por estar sorvendo estes dias livres, depois de pela primeira vez na vida ter trabalhado no dia 31 de dezembro (verdade, sempre forcei a sorte nos plantões de redação). Sou dispersa e desatenta de um modo geral, distraída pra morte, como dizia o Otto (aliás uma das coisas mais bem ditas da música popular), razão pela qual fotografo a rua com prazer.
Escrevo tudo isto com um dedo só no celular, e na cama, da qual demoro a sair de manhã, lendo ali mesmo, via internet, as notícias da barbaridade cotidiana. Fui jornalista que nunca admirou excessivamente os jornais, e não me lamento por ter perdido a gana, não só a grana, de comprá-los.
Nos últimos dias, os algoritmos têm me trazido as excepcionalidades, a natureza, um pouco menos de desesperança, razão pela qual agradeço.
Sim, é verdade que não vejo dilema em redes sociais, só escolhas, e até boas, muitas delas.
Tudo isto para dizer que tenho o coração tranquilo?
Nunca está.
Mas talvez por esta razão exista um infinito dentro dele, onde cabe você.
Ainda bem que alguns amigos do meu face, como a Anita Galvão, me ajudam nessas horas. Hoje de manhã, rachei o bico ao saber de uma nova fake news da bravata dos doido, que ela nos contou por lá, gargalhando. E depois do café com facebook, fui à feira.
Perguntei ao vendedor se ele pagava menos taxa quando eu levava os limões no débito, em lugar do crédito.
O sujeito, que antes conclamava com mau humor as freguesas a gastarem com ele seu suado dinheiro, fechou a cara ainda mais.
– É tudo a mesma porcaria. E agora, ainda mais, vão começar a cobrar pelo Pix em 1 de janeiro.
– Fake news, meu amor!
– Ah, é? E o que faziam os banqueiros ao lado do cara?
Pensei. Não vou ficar braba. Nem vou jogar os limões aqui. Vou pagar pra me divertir.
– Verdade, né? E o Paulo Freire, que vai virar ministro da Educação?
– Então? – respondeu, sem que eu conseguisse identificar a cor da cara azeda numa escala pantone. E emendei:
– Vai virar nem sei como, porque o Freire morreu tem uns 30 anos, amigo!
– Quero é ver!
– Aí que está, não vai ver!
E continuou me respondendo, meio sem braços, feito o cavaleiro negro do Monty Python. Jamais volto nessa barraca, porque o problema com essa limonada de cérebros é a gente não se divertir direito com ela, já que, como sabemos, não dispõe de cognição pra entender piada.
E seguimos com Bezerra da Silva, malandro é malandro, mané é mané!
A jornalista e a cabeleireira: oportunidade que o zap nos dá
Precisei do salão coreano ontem, para o qual me dirigi um pouco apreensiva. Há mais de um mês posto informações sobre a eleição no stories do WhatsApp, justamente para tentar furar a bolha e atingir pessoas como minha cabeleireira, cerceada por fake news que são tubarões. O que ela acharia das informações que ponho para circular no zap?
Observo que, sim, ela é presente em cada status meu, embora não comente as postagens. Como minha cabeleireira, o tapeceiro, o dedetizador, a marmiteiro, o perueiro, a mulher que faz bela azeitona, a faxineira, a funcionária da imobiliária, alguns amigos e parentes, todos estão lá, sempre presentes. Mas não os vejo nunca, razão pela qual não preciso sofrer o desgaste do contato.
Agora vai ser diferente. Minha cabeleireira trabalha há décadas nesse salão que frequento há três anos, embora não seja coreana. Sua hidratação é ótima, usa vapor, um método que, tudo indica, a Coreia do Sul de belas mulheres bem tratadas também usa. Saio feliz de lá, quando vou, e gasto relativamente pouco.
Ontem, marquei um horário e só pude aparecer uma hora depois. Ela disse que eu poderia ir, mesmo atrasada, embora ressaltasse um problema de horário: teria de sair às cinco e ponto para a reunião da sua igreja.
Pensei: deus do céu. Mas também pensei: ela não me rejeitou. É uma boa profissional, só interessada no que faz. Mal conversa. Se for evangélica bolsonarista, não vai falar nada para perder a cliente, ninguém é besta assim.
Chego e a porta de vidro está fechada, como tem sido nos últimos tempos, quando famintos e noias se acumulam em todo canto, especialmente na rua José Paulino, para vasculhar o lixo, a tapas, diante dos atacadistas no fim de tarde. Olho para baixo do letreiro adesivado na porta de vidro do salão e vejo-a procurar quem chegou. Me sorri!
Entro no salão e sou a única cliente, com três funcionárias e uma gerente a arrumar as mesas, varrer e limpar materiais. Tento ser simpática: “Que sorte a minha, só eu e vocês!” Digo para a minha cabeleireira que me atrasei em função de um trabalho como jornalista frilancer e ela abre um sorriso ainda maior: “Você é jornalista, então! Só podia!” Eita. “Adorei aquele Tarcísio no poste, perdido em São Paulo, que você colocou…”
Ela é das minhas? Ou o que eu postei funcionou? Ela crê que eu só poderia votar em Lula, sendo jornalista. E eu retruco que há jornalistas bolsonaristas de monte, não se fie! Ao que ela diz: “Na minha família, a maioria é bolsonarista, especialmente quem trabalha em saúde (!). Por isso uso suas postagens, pra provocar eles no grupo de família.”
Hahaha. Sim, ela vota em Lula e hoje fará em sua casa mais uma leitura semanal do evangelho. “Mas sou a única que vota em Lula no salão. Os donos coreanos são bolsonaristas, claro.” Olha em volta: “E elas também!”, apontando para as colegas. Vixe. “Sabe quem está aqui e vai explicar as coisas pra vocês?”, grita para as funcionárias, de repente. “Uma jornalista!”
É claro que eu mereço. No dia em que encontro um horário pra cuidar de mim e relaxar, alguém me põe pra conversar com o gado, cheek to cheek! Contudo… É um instinto. Já entendo que não serei maltratada como fui pelo macho escroto que dirigia o carro do Uber. São mulheres, trabalhadoras, mães. Não é possível.
Então me imagine como um personagem de Jacques Tati. Estou metida num vaporizador que cobre os cabelos e solta fumaça pra todo lado. Três quilos mais gorda, depois da imobilização no pé, sou a própria jubarte no centro do salão, a dialogar com o povo! Estou no centro e elas, sentadas em volta. Me lembro da Dilma cercada pelos milicos de 69. Do Haddad no Roda Viva. Do Lula com Renata e Bonner. Me inspire, se isso for ao menos possível, paim!
A mais faladora é a loira de cabelos amarrados, uniforme preto, vassoura nas mãos, trinta e poucos anos. “Lula, sai fora!” Ela vota em Bolsonaro e “no outro” (gente) porque é de deus. Acha que Lula não é? “Meu pai era metalúrgico e votava no Lula. Dois anos depois que ele assumiu, não votava nele nunca mais. A vida dele piorou.”
Digo-lhe que tb fiquei desempregada nos primeiros anos do governo Lula, mas que não o culpei por isso. “Sou mulher da Bíblia e não aceito.” O que não aceita? “Certas coisas. Ideologia de gênero não!” Mas isso não existe, sabe? Kit gay é fake news. “Mas sou contra essas coisas na escola. Homossexualismo. Aborto.”
Você diz, falar sobre isso? Mas é preciso falar. Ensinar o que é aparelho reprodutor. Eu estudei durante a ditadura e lá com meus 12 anos aprendi onde ficavam os ovários, o útero, o pênis. Quantos anos tem seu filho?
“Dezesseis”.
Então ele já pode saber sobre isso, não?
“Ele sim. Mas banheiro unissex não!”
Não existe banheiro unissex em escola. Como existiria?
“Na escola do meu filho querem implantar.”
Quem quer implantar?
“A escola”.
Então é só dizer que não quer, certo? O Lula não pode decidir isso. Como não pode obrigar alguém a ser homossexual ou a abortar.
“Ele disse que vai dar dinheiro pras pessoas. Quero é ver.”
Ele não disse que vai dar dinheiro. Ele não é o Silvio Santos! “Ele disse que, com emprego, você vai poder comprar as coisas”, pronuncia-se minha cabeleireira, sentada numa poltrona. Bravo! Mas a loira insiste. “Não se deve dar. Tem de dar a vara de pescar, não o peixe. As mulheres tinham seis, sete filhos só pra ganhar o bolsa família!”
Mas querida, ter seis, sete filhos pra ganhar essa miséria? Como assim? Não é pedir pouco para a vida? “Tá cheio de gente que faz isso!” Mas, veja, com o bolsa-família tem de haver uma contrapartida, que é a criança estudar, isso é um grande benefício. “Aí que elas gostam! Deixam o filho na escola, ele come lá e tudo, ela não faz nada o dia inteiro!” Mas vc concorda que as crianças têm de ter merenda na escola, não? “Claro. Nos últimos anos elas têm sim, até almoço”. Na escola pública de seu filho oferecem almoço? “Sim, melhorou muito isso depois que o PT saiu”. É uma escola estadual? “É!” Interessante. Não sei de nenhum caso parecido. De todo modo, não é o Bolsonaro quem dá dinheiro para as escolas estaduais, vc sabe disso, não? É o governador, o Doria, foi o Alckmin, o PSDB.
Silêncio. “Dar dinheiro, dar cerveja! É isso que o brasileiro quer. Não trabalhar e ter tudo. Aí que ele vai folgar.” Você acha o brasileiro folgado? Acho que ele trabalha tanto! “É verdade, mas tem uns que Deus me livre.” Sim, mas isso tem em todo lugar, concorda?
Meus sais. Boca seca. Quero valorizá-la, quero valorizar o que ela construiu, ou ela não vai me ouvir. “Você me parece inteligente e informada. Tenho certeza de que não quer ser tratada com desrespeito, como a Damares trata. (Nessa hora estava tão empenhada que nem percebi o que eu falava.) A Damares inventa uma situação para deixar as mães apavoradas, silenciadas, contrárias à escola. Como inventar o que ela inventou, sobre as crianças na ilha de Marajó?
“Você acha que a Damares inventou aquilo? Aquilo acontece!” Ela inventou aquilo. Para assustar o público da igreja. Pra fazer campanha. O Ministério Público pediu as provas e ela não deu, disse que tinha ouvido das pessoas. “E as pessoas não podem estar falando certo? A gente ouve cada coisa!” Sim, a gente ouve. Mas a gente não é ministra dos Direitos da Família. Quando a gente é ministro, se ouve uma denúncia dessas, tem de investigar, mandar prender os responsáveis e acudir as vítimas. Ou ela mentiu sobre a violência pra fazer campanha pro Bolsonaro ou o fato existiu e ela não tomou providência! De toda forma, ela cometeu um crime.
“A verdade é que eu não sinto no Lula, sabe, um projeto claro pra economia.” Não sente? Olha, ele diz duas coisas importantes, ao menos. Uma é que rico tem de pagar imposto. E rico não sou eu, nem você, nem os donos deste salão. Rico é quem tem mina, terra. Então, essas pessoas não podem pagar menos, proporcionalmente, do que a gente paga. Salário não é renda. E outra coisa que o Lula diz é que o pobre precisa entrar no orçamento, isto é: tem de ter saúde, tem de ter escola pro filho, comida na mesa e emprego. Com políticas públicas pra isso, com dinheiro público. O Estado existe pra isso.
“Mas o Bolsonaro não pode fazer tudo.” Pode sim. Deve. A gente paga imposto pra ele administrar. Se eu estou em situação vulnerável, se não posso trabalhar por acidente, ou porque uma pandemia chegou, ele não tem de ajudar? “Tem. Mas ajudou, deu 600 reais, não deu?” Não foi ele que deu. Você sabe, ele é o presidente, o executivo, que executa o que o Congresso mandar. O Congresso, os deputados e senadores, sabe? Quem faz as leis? Bolsonaro não pode decidir sozinho. Neste caso, nem 200 reais queria dar! Foi obrigado pelo Congresso. Ele e o Guedes não gostam de povo. Governam pra empresário. Empresário sonegador, tipo o Velho da Havan. Mas não pode ser assim. O empresário tem de pagar imposto conforme ganha.
“Eu acho que não importa quem estiver lá. Vai dar sempre errado.” Como assim? Faz muita diferença quem esteja lá. As diferenças que lhe contei. Por que vai dar errado? “Porque… ai, olha, eu sou da Bíblia.” Sim, isso eu entendi. Mas o que diz a Bíblia? “Diz que vai vir o Apocalipse, e que tudo vai desaparecer.” Ah, mas isso demora, não? E enquanto isso a gente não pode ser feliz, tomar uma cerveja e comer um churrasco?
Continua a varrer, “a senhora não me convence”, as outras abaixam a cabeça, minha cabeleireira ri. Termina o serviço e diz, levantando minhas mechas: “Olha que cabelo você tem! Parece uma permanente, cheio. E as mulheres coreanas aqui pagam pra ter o cabelo que vc já tem.” Gente. Nunca ouvi um elogio dela antes. No final me abraçou, sorriu e disse que agora acertamos a cor.
Estou mais do que avisada da inutilidade de arguir com gado. Minha desculpa é que não entendi de início tratar-se de um. O uber era vip, para que meu pé não sofresse. O motorista parou ao lado de um buraco, então lhe pedi que avançasse um pouco, para eu poder entrar. Dentro do carro, expliquei por que havia lhe feito o pedido. Não podia arriscar meu tornozelo, que sofrera rotura completa do ligamento em função da má conservação da calçada. Emendei, erro de início, que a administração pública não cuidava da cidade. E ele disse que, com Tarcísio, tudo poderia ser diferente.
Mocinho magro de boné, que não errava em demasia o português. Resolvi então argumentar em favor de Haddad. “Não sou aqui da capital e me disseram que ele foi péssimo na prefeitura”. Como assim, péssimo, em que sentido? “Me disseram”. Vai votar em Bolsonaro? “Vou. Ele não tem culpa pela situação”. Você está feliz com a alta da gasolina? “Com Lula era 2,90”. Não era. “Eu pago 5 hoje, tá bom”. Você sabe que diminuiu e vai aumentar por causa da eleição. “Não. Bolsonaro pegou a crise mundial.” Lula também, mas a gasolina era nossa naquele tempo e não é agora. “Bolsonaro faz o que pode”. Sim, faz tudo o que pode para se favorecer e à quadrilha a que pertence, secretamente. “A Dilma inventou o sigilo de cem anos”. Meu deus.
Deveria ter saído do carro ali, mas ainda estava na 23 de Maio, longe de casa, impossível chamar uber na via expressa.
“O PT deixou o país sem reservas”. Não, o Bolsonaro é quem as destrói para se perpetuar no poder. “Não senhora, Lula deixou o país deficitário”. Onde leu isso? “Foi dito no debate e o Bonner concordou”. Precisa ler mais, cara! Olha o salário mínimo congelado, agora à mercê do reajuste desvinculado da inflação. (Resposta zero). Bolsonaro só governa para o empresário sonegador e para a milícia que precisa de armas. “Eu sou a favor das armas e não entendo como alguém vota em um condenado em todas as instâncias”. Os processos contra Lula foram anulados por falta de provas. “Como assim, falta de provas?” (gargalhando).
Você é mais um filho da puta que defende a tortura. Dá licença. Saí do carro batendo a porta, estava mais perto de minha residência, mas ainda assim tive de andar a São João inteira no calor. Andar me aliviou. E minha queixa ao Uber ficou bonitinha. Me agradou saber que para a informação sobre o salário mínimo ele não usou argumentos do zap. Temos de bater nisso. E ainda bem que não sou homem de muque, ou teria enchido o boy-monstro de porrada.
É domingo, vou à feira no centro e já estendo o peito para colarem todo tipo de adesivo pró-Lula, até porque, na feira, o Verme não entra. Às vezes acho que nem panfletagem os vermináceos fazem mais. Os rios do orçamento secreto devem desaguar diretamente nas fakes do zap.
Bom. Vamos fazer pastéis em casa e na feira não tem catupiry. Me mando pro super dos chineses, mais barato no geral, em busca do ingrediente. Porém é domingo e os chineses não estão lá. Pergunto pro marrento branco gordo, funcionário de bermuda e boné, se têm catupiry. Me olha. Afasta os olhos. E me diz não, de lado. É o tipo físico do miliciano, mas se trabalha, miliciano não deve ser, só um fã estupidificado, mais um.
Me resta o supermercado do bairro também frequentado pela besta do Augusto Nunes, jornalista que, zumbi véi, sempre adentra o espaço sem olhar pros lados. Fazer o quê? No Carrefour, também aberto, não entro nunca mais, então só tenho essa opção. E penso: sempre que vou a esse mercado do bairro (e nem é sempre, visto o preço alto das coisas por lá) me tratam bem. Caem dois adesivos do peito pelo caminho, resta um, quase no ombro. Aperto pra ele ficar coladinho. Vamos ver como reagem.
Entro e encontro o catupiry, assim como o palmito, o aliche em conserva e o fundo de alcachofra. Fecho os olhos e decido levar tudo no meu cartão de crédito. Vou até a caixa e ela me olha por trás da máscara, a franja progressiva preta, solta, caindo sobre olhos. Penso: lá vem. Ela aponta meu ombro. “Esse sim!”, faz com um sinal de positivo. Ao nosso redor, ninguém. “Só não posso dizer isso aqui, mas é nele que vou votar”. Eu fico tão feliz e desconcertada a ponto de lhe dizer: “Isso aí, companheira!”
O corpo pesa. Cadê energia pra reescrever o texto titubeado e, ainda por cima, encontrar um título. Atraso a leitura do calhamaço pra resenha. As pedras rolam devagar. Bocejo. Colocar toda a roupa no varal foi Sísifo. Vou à hidro depois de ontem? Meu entrevistado me encostou na plateia. E eu, nesta vida, sempre tão boazinha pros outros. Inferno. Água morna. A prófi tá séria. Eu diria braba. Não pergunta nada, não conversa, não converso. A aula começa com Alceu Valença: tu vens, eu já escuto teus sinais. Depois Lulu: tudo muda o tempo todo no mundo. Tim: te espero para ver se você vem, não te troco nesta vida por ninguém. Percebo que a música popular do meu passado é só charme pela reconquista. A sedução humilhada em troca daquele quartinho com cama dos fundos. Nunca desistir de quem nos chutou, senão onde iremos dormir? Me dê motivo pra ir embora. Capoeiramos. A aula vai ser só MPB hoje. Talvez eu fique melhor. Na última, o pop Transamérica distraiu meus pensamentos. Prófi queria seus alunos relaxados pra domingo, mas agora se sente puta por ter acreditado nesses perus e bacanaços. Haja sequência subliminar pra importunar os véi. Abdominal vai fazer a barriga de vocês doer amanhã. Vocês estão trocando a mão pelo pé. Eu só faço hidro porque me sinto bem depois. Faltam dez minutos pro alongamento. Cinco. Três. O que será que vem? De olho nos teus sinais. Tu vens. Call me Elvis. We can’t go on together with suspicious minds. Gosto da parte em que, depois de esticar o braço, bato na água com força: toma, minion! Nós a aplaudimos. Ela nos aplaude de volta. Depois que suspiramos, o aviso: esta é a minha última aula pra vocês.
Espero a hora de minha fisio começar escondida num restaurantezinho árabe da Paulista, quando de repente me dou conta de que já entrei no modo que vai durar um mês: olho os passantes apenas pra identificar sua bolçonalidade.
Motoqueiros, todos, sim porque sim! Porteiros, check. Garçons, só os homens. Mendigos e bêbados, lulistas comigo pra pegar um troco. Donos de bancas de jornais, bolços desde antes de nascer. Consumidoras loiras de roupas no torra-torra, sim, claro. Fruteiros, um mistério. Chingling, nem escondem.
Outra característica interessante minha neste momento é que não tenho ideia do que estou fazendo. Vocês pelo menos gostam de televisão e se distraem com aquilo, pensem na vantagem.
Fiz jornalismo cultural a maior parte do tempo em que exerci a profissão, sempre a sofrer imensos problemas de saúde decorrentes dessa escolha, depressões, gastrites, síndromes irritáveis, cáries… Minhas complicações com o jornalismo brasileiro sempre foram totais, giraram em torno de seu modo de ser, de haver e de se impor a mim, fosse por assédio moral e sexual dos superiores ou por implicância com qualquer coisa que eu escrevesse e propusesse, como uma vez fizeram troça da minha ideia de falar sobre dança numa edição de quarta-feira…
Por exemplo, eu era bem jovem, 26 anos, quando me vi fundadora e editora de um caderno cultural. E depois de certo tempo a sofrer o de sempre, pressões e enxovalhos, pedi demissão do tal jornal. Nessa época ainda era possível requerer a um patrão que nos demitisse e ele aceitar isso, o que permitia a nós, demissionários, retirar nosso fundo de garantia (isto se o empregador tivesse depositado o valor devido todos os meses…) e usá-lo de nosso jeito. Demiti-me em 1990 e planejei a primeira viagem à Europa.
Ao comprar dólares com o valor da rescisão, vivi minha grande sorte. Quando Fernando Collor assumiu a presidência, eu me tornei quase a única pessoa com dinheiro no Brasil. A besta quadrada collorida, que mal andar sabia, não conseguira confiscar meu dinheiro! E assim fui a Paris, depois ao interior da França, ao litoral e ao norte da Itália, deslumbrada com tudo, visitando, fotografando, comendo e bebendo com prazer desse privilégio. Já sem um tanto desse dinheiro, retornei depois de um mês de viagem à mesma Paris por onde comecei. E lá morei mais um mês em troca de cuidar do filho pequeno de uma família que esperava outro nenê.
Neste mês a viver por ali com meu francês ruim, senti toda a ojeriza do parisiense a pessoas “inferiores” feito eu, ainda por cima em ousada flânerie. Uma vez passeava sozinha pela avenida Champs Elysées e uns jovens baixinhos italianos começaram a me cantar e a me sorrir. Eu tinha pernas bonitas e nem sabia mais o que fazer para afastá-los, eles que me perseguiam pela rua, quando o menorzinho se aproximou, me perguntando de que região da Itália eu era: “Di Napoli? Di Roma?” E então achei um jeito de me livrar deles, sorrindo também: “Sono brasiliana!” Fugiram de imediato de mim, e até hoje me divirto em pensar que talvez tivessem me achado uma travesti brasileira alta, muito da bonita e elegante.
Bem, continuei andando tranquilamente, às vezes sob olhos ruins, pela rua e de metrô, embora uma noite tenha sentido como ameaçadora a presença de um homem em um vagão vazio. Paris pode nos abraçar como não desejamos…
O resto dos meus dias foi no parque com o bebê de um ano, assistindo a shows como o de Marianne Faithful no La Pigalle ou andando pela cidade com minha câmera fotográfica analógica Yashica, que comprei graças à contribuição monetária do meu amado tio Bissa, seu presente a mim antes de morrer com câncer. Eu mal sabia focalizá-la direito manualmente, a única opção de foco que tinha.
Fotografava bobagens que poderia ver nos livros, quadros e esculturas do Louvre ou do d’Orsay, e às vezes, um pouco temerosa, a rua em si. Hoje meu filho descobriu um álbum pequeno com essas fotos em papel e me mostrou. Fotografei um sem-teto, clochard embriagado que fechou os olhos ao protestar contra mim diante da câmera, o clássico descanso ao sol das famílias no Jardin de Luxembourg, um elegante jogo de cartas à sombra das árvores, a fachada de um cinema de arte, as esculturas representando Marcello Mastroianni e Massimo Troisi em “Che Ora È?”, filme de Ettore Scola de 1989 que os franceses chamavam de “Quelle heure est-il?” (assisti à ficção atraída pela vitrine e a saudade da Itália me pareceu imensa…)
Entre as fotos, havia ainda a tímida tentativa de mostrar um homem a passear com uma mulher na cadeira de rodas, o céu de maio sobre o qual se formavam nuvens finas e, sim, o estranho veículo conduzido por jovens que sugava das calçadas o cocô dos cães…
Antes que eu empreenda novas buscas por esses arquivos, mostro-lhes estas imagens sentimentais.
O clochard embriagado fecha os olhos ao protestar diante da livrariaO clássico descanso ao sol no Jardin de LuxembourgO elegante jogo de cartas à sombra das árvores As esculturas representando Troisi e Mastroianni em “Quelle heure est-il?”, na vitrine do cinemaA fachada de um cinema de arte Um passeio bem assistidoO céu de outono O veículo que chupava o cocô dos cães
É bem verdade que não se faz mais jornalismo sem fotos com drone. Nas manifestações, só eles comprovam a multidão de verdade, coisa que antes se obtinha a uma distância pouco cósmica, posicionando-se à janela alta de um prédio próximo.
Os drones espaciais nos deixaram saber, ontem, que muitos e muitos seres humanos, como num imenso formigueiro de paz, recuperaram, para uso justo, a bandeira do Brasil.
Mas minha alegria veio de verdade quando as fotos foram pouco cartográficas. As imagens dadas no corpo a corpo, em terra, como essas que vocês fizeram, mostraram os homens no teatro da vida, os tipos simples, fantásticos, com suas cabeças de pássaro, os cocares guajajara, os ternos brancos da malandragem, as camisetas com opções políticas, às vezes filosóficas, os cartazes de mão. As crianças estavam na escola, que pena, não puderam estar lá!
Foram essas as fotos que me deram a perspectiva humana dos arredores, de quem esteve no largo mas nem pôde ver a cerimônia de perto, fotos de quem se misturou e festejou a democracia do seu jeito, naquele espaço onde quatro anos atrás reinaram as serpentes janaínas que interromperam um sonho de nação.
Obrigada a quem esteve no mesmo lugar ontem com renovados propósitos e nos colocou lá dentro (nós, os distantes) para celebrar a seu lado!