happy apocalipse

toda sexta entre o fim de tarde e o início da noite, os jovens ou nem tão jovens vindos da boemia alcoólico-cigarrenta da dom josé de barros, diante da bolsotóxica academia de ginástica smartfit (too smart), enlouquecem aglomerados pelas ruas em torno da praça da república, da ipiranga e da avenida são luís, eventualmente finalizando a noite com o grito de assombro pela rapinagem de seus celulares.

meu brasil, por quê?

Sem o dom

Todas as vezes que pego este caminho eu a vejo solitária, e isto muitos meses antes de a pandemia começar. Está acima do peso, usa óculos, os cabelos embranqueceram todos. Normalmente, senta-se e assim fica pelo dia, sem conversar com ninguém.

Ela usa máscara e não tem barraca, ao contrário de alguns outros sem-teto, que enfileiram suas casas bem arrumadas neste trecho como se estivessem em uma vizinhança, com cachorro de coleira na frente, até.

A construção dela, porém, é um amontoado dividido em sacos de plástico que a rodeiam. Em dois anos, de um lado da rua ela passou a outro, diante do paredão de um prédio abandonado que muda de fachada sempre. Revezam-se os lambes, as queixas, os poemas. Ela teria uma casa nova para observar todos os dias se isso lhe importasse fazer.

Não sei para onde ela vai quando chove.

Não sei o que faz à noite.

Onde está seu banheiro.

Hoje à tarde, quando passei por ali novamente, vi que ela dormia sentada. Me comovi e pensei em que poderia lhe ajudar. Fui pra casa, fiz uma trouxa e voltei.

“Quer esta roupa que lhe trouxe?”

Eu parecia interrompê-la em algum pensamento. Virou-se brava pra mim, os olhos diziam tudo. Pegou o saco com a mão direita, num movimento brusco. Colocou-o no chão, ao lado do caixote sobre o qual se sentava. E continuou a olhar para o horizonte, sem me agradecer.

Eu entendo. Eu mais que entendo. Tento imaginar o que ela passa e não consigo. As palavras foram abolidas. As paredes se fecharam há muito tempo dentro de si. E a mim não foi concedido o dom súbito de as abrir.

“não se adoente”

há dois dias, depois de uma quinzena de trabalho insano diante do computador, e ainda por cima em troca de dinheiro miúdo, minhas costas travaram completamente.
nem me virar na cama conseguia, então imaginem minha noite…

ontem fui ao médico, acompanhada pelo filho maravilhoso.
pegamos uber e abrimos as janelas.

o motorista, coitado, gordinho e atormentado por essa maldição, não deixava ninguém falar.
andamos 300 metros e ele já nos contou que seu amigo de 37 anos morreu de covid, assim pá-pum.
mas me garantiu que a sua própria família está bem.
o filho de 16 anos não dá a mínima se precisa ficar em casa todo o tempo.
(a vingança dos nerds).
e foi ele, o motorista, quem disse à esposa que filho seu não iria enfrentar presencial, não.

dou-lhe parabéns efusivos e chego ao médico.

um grande médico.

eu o conheci há duas décadas, quando desesperadamente procurava uma boa alma científica para curar uma tendinite incapacitadora.
todos os seus colegas disseram que eu não teria chance só com fisio, e que seria preciso operar, mesmo amamentando ainda.
até o tal de Osmar de Oliveira, lembram dele?
o comentarista corintiano de futebol.
ele me atendeu fumando e fumando permaneceu quando soube que eu editava o caderno de sábado do JT. “Quem lê aquilo?”

mas voltando ao ortopedista querido, esse que finalmente não precisou usar o recurso da operação para me estabilizar…
nunca antes fui atendida tão rapidamente no seu lindo consultório, desta vez vazio.

me examinou, receitou anti-inflamatório e me pediu:

“não se adoente que a coisa tá feia”.

e eu: “quem diria que a gente chegaria nesse ponto?”

e ele: “nunca foi muito melhor”.

e eu, riso amarelo: “ahhh”

jamais imaginei que ouviria um médico me dizer pra eu não ficar doente, em suma.

tudo muito aterrorizante, né?

mas amei esta chance que o travamento me deu de olhar de novo a cidade pela janela.

aliás, muito movimentada ainda para o que passamos, viu?

Pra que serve um editor?

Com Chico Anysio em seus últimos dias, no apartamento da Barra, 2010

Adorei umas partes do discurso do Lula, que li só agora. Esta me fez levantar da cadeira:

“E eu, como acho que tenho um pouco de experiência, fiquei feliz com a verdade, porque é pra isso que servem os meios de comunicação. Jornalista não existe pra sair pra rua pra cumprir a ordem do editor.”

Certíssimo!

Quantas vezes me senti coagida a escrever a verdade “exigida”, enquanto redatora de notícias? E aceitei isso pra garantir a droga do pagamento?

E quantas vezes, por outro lado, quando editora, pedi para os repórteres me trazerem a notícia e eles me retrucaram “que notícia”, achando que não tinham sido pautados direito? Como se eu tivesse que saber de antemão as coisas que eles deveriam descobrir? E quantas vezes meus chefes, editores executivos e diretores de redação, quiseram mudar o que eu escrevi enquanto repórter e colocar a sua própria “verdade factual”, simplesmente, no meu texto? Como se a verdade fosse uma questão de hierarquia? Como se eles pudessem mudar o fato, por exemplo, de que Tom Jobim foi um compositor importante?

Uma vez a coisa ficou até engraçada, porque escrevi minha reportagem sobre o Chico Anysio, humorista que eu entrevistei lá no Rio, e tive de mostrar meu texto pro diretor de redação ler, o Senhor Democracia, o SDM. E ele me disse o seguinte sobre determinado trecho: “o Hélio Souto não foi o cara que inspirou o Chico Anysio a fazer o Alberto Roberto”. E eu retruquei: “mas foi o que o Chico Anysio falou”. Mas ele: “Mas não é verdade.”

E eu: “Seu SDM, foi o que o Chico disse e acho que ele sabe mais do que nós o que ele próprio fez. Se o sr. quiser, o sr. tira o trecho todo, porque ninguém vai precisar dessa informação pra viver. Mas eu só vou assinar esta reportagem se nela estiver escrito o que o próprio Chico Anysio me contou sobre a origem de sua criação”.

E pronto.

E ele deixou eu publicar como eu tinha escrito.

“Deixou” eu publicar a verdade, entende?

Então eu amo ouvir isto partido de Lula – isto de que o repórter não tem de obedecer à verdade que o editor quer ver publicada -, embora morra de rir sabendo que Lula é amigo de SDM e lhe dita as pautas por telefone.

A vida é assim, o Brasil é assim, e o jornalista… O jornalista é menos que assim!

E é mesmo para desobedecer as tantas vontades pessoais sobre a verdade que o jornalismo deveria existir.

💜

Vergonha mata

À direita sou eu, mal ajambrada depois das noites difíceis que antecederam minha qualificação para o doutorado, nos bastidores do Auditório Ibirapuera, em outubro de 2014. Comigo na foto estão minha querida Thaís, que faz anos hoje, minha cunhada Tânia e Ela.

Elza, como veem.

Ela cantaria “O meu guri” numa homenagem a Chico produzida por meu marido, Mauricio, a quem Elza se afeiçoou. E quem é de seu conhecimento e afeto, ganha beijinho na boca… A boca de meu marido foi muito bem beijada, calculem.

Porém, como eu não a conhecia, ela apenas pegou minha mão e a beijou. Ficou feliz de ser apresentada à esposa do Mau. Pude sentir sua pele então, macia como poucas.

Esta noite foi bem maluca porque, enquanto eu estava nos bastidores, sozinha, antes de os shows terem início, um homem grande se ajoelhou diante de mim e também pegou minha mão, para em seguida me chamar de “minha flor”. Será que porque eu tinha flores na estampa do vestido? Não sei. Não sabia de quem se tratava. Pensei sorrindo: artistas são mesmo assim.

Contudo, do fundo do palco de onde depois assistiria a todos os shows, vi que um MC chamava esse mesmo rapaz adiante. Percebi com assombro que se tratava de Criolo, no fim das contas. Não lembro o que o menino ajoelhado cantou. E não o procurei para pedir desculpas nos bastidores novamente depois, embora ele sorrisse pra mim o tempo todo, até no caminho de volta, para o táxi.

Vergonha mata!

Eles nunca foram santos

Me lembro que um diretor de redação, Sr. Democrata (vou chamá-lo de SDM), passava sempre pela minha mesa cultural pedindo dica de filme em cartaz para ver com a namorada, e que isso em essência, se parássemos para pensar, era a finalidade de nosso trabalho, servi-lo pessoalmente, além de ele propagar nossas notícias, críticas e conclusões ao público que ia a sua casa aos sábados para beber seu vinho e comer sua comida enquanto ele distribuía sua revista à mesa e discursava sobre a própria importância jornalística.

O que escrevíamos servia também para SDM concluir que no Brasil éramos ridiculamente pequenos, especialmente em todas as artes, exceto talvez, olhe lá, na música, mas sem esses sambistas todos. Nós nos vestíamos em “andrajos” e éramos o povo “mais feio do mundo”, submetidos à “comida dos selvagens” como ela existe na Bahia (ou no Pará, mas “de que me interessa o Pará?”).

Me pergunto se alguém pensa com ingenuidade que só pela Globo fomos destruídos, primeiro culturalmente. Há tanto mais (neste caso, miúdo) a ter solapado aos poucos nossa identidade e manchado nossa história – a ponto de havermos acabado aqui – que serão necessários muitos anos de pesquisa acadêmica e isenção, com os quais possivelmente jamais um dia poderemos contar, para situar toda essa humilhação em perspectiva.

E escrevo isto talvez para o futuro, se futuro houver, para que não nos deixemos enganar pelas tolices hagiográficas que cercam certas figuras jornalísticas.

sem abraçar, sem ser

tem hora que sinto falta de abraços específicos, de pessoas determinadas, estas que não estão ao meu alcance neste momento terrível.

viajo me imaginando nos braços delas.

e pensando: quando vou poder novamente encontrar alguém na rua que não vejo há muito e lhe envolver daquele meu jeito meio aloucado e constrangedor?

outro dia joguei de longe um beijo para uma sem-teto deitada na mureta do ponto de ônibus – depois, é claro, de lhe dar um dinheirinho -, e ela quase perdeu o rumo de feliz, e me jogou outro beijo à distância.

(como amo essas pessoas. fico imaginando se elas sabem que fazem muito mais por mim do que eu por elas.)

quem não quer viver de novo, ser alguém de novo, andar, cheirar, sentir, ao lado de quem desejar?

mas nem para pensar nessas singelezas a gente se sente livre.

parece coisa luxuosa demais (e indevida) desejar um abraço aleatório se nem sabemos como tirar aquela monstruosidade do poder e reiniciar o ciclo da vida…

A bofetada e a ferida

arde o coração ir até a rua.
máscaras abaixo do queixo.
crianças no chão com suas mães.
velhos na agência bancária procurando um dinheiro que não há mais.
pedintes na padaria cheios de argumentos.
na frente do supermercado, três amigos entorpecidos brigam pela bolacha recém-doada.
a jovem, muito puta porque não tenho mais dinheiro trocado pra lhe dar, quer os 50 reais que me restaram.
não consigo aceitar essa face do brasil.
tento esbofeteá-la.
mas, em lugar disso, vou ao banheiro lavar as feridas.

Onde ficou perdida minha face?

“Tira minha foto?”

Este rapaz se aproximou de mim na avenida São João e pediu:

– Tira uma foto minha? Faz tempo que não me olho no espelho.

Fiz a foto, mostrei a ele, ficou feliz (e eu também, por proporcionar que se visse) e partiu antes que eu perguntasse seu nome.

Não deu três segundos, levei um baita susto com duas mulheres sem máscaras, gritando rente ao meu rosto:

– Esconde esse celular, vão roubar de você!

Agradeci (“Sim, senhora!”) e pensei. Não me assustei com o menino me pedindo para ser fotografado, fiquei, pelo contrário, lisonjeada. Sou muito mais incapaz de entender as mulheres sem máscaras. Deveria ter gritado pra elas: “Usem máscaras, negacionistas do inferno!”, mas não gritei.