Vergonha mata

À direita sou eu, mal ajambrada depois das noites difíceis que antecederam minha qualificação para o doutorado, nos bastidores do Auditório Ibirapuera, em outubro de 2014. Comigo na foto estão minha querida Thaís, que faz anos hoje, minha cunhada Tânia e Ela.

Elza, como veem.

Ela cantaria “O meu guri” numa homenagem a Chico produzida por meu marido, Mauricio, a quem Elza se afeiçoou. E quem é de seu conhecimento e afeto, ganha beijinho na boca… A boca de meu marido foi muito bem beijada, calculem.

Porém, como eu não a conhecia, ela apenas pegou minha mão e a beijou. Ficou feliz de ser apresentada à esposa do Mau. Pude sentir sua pele então, macia como poucas.

Esta noite foi bem maluca porque, enquanto eu estava nos bastidores, sozinha, antes de os shows terem início, um homem grande se ajoelhou diante de mim e também pegou minha mão, para em seguida me chamar de “minha flor”. Será que porque eu tinha flores na estampa do vestido? Não sei. Não sabia de quem se tratava. Pensei sorrindo: artistas são mesmo assim.

Contudo, do fundo do palco de onde depois assistiria a todos os shows, vi que um MC chamava esse mesmo rapaz adiante. Percebi com assombro que se tratava de Criolo, no fim das contas. Não lembro o que o menino ajoelhado cantou. E não o procurei para pedir desculpas nos bastidores novamente depois, embora ele sorrisse pra mim o tempo todo, até no caminho de volta, para o táxi.

Vergonha mata!

Eles nunca foram santos

Me lembro que um diretor de redação, Sr. Democrata (vou chamá-lo de SDM), passava sempre pela minha mesa cultural pedindo dica de filme em cartaz para ver com a namorada, e que isso em essência, se parássemos para pensar, era a finalidade de nosso trabalho, servi-lo pessoalmente, além de ele propagar nossas notícias, críticas e conclusões ao público que ia a sua casa aos sábados para beber seu vinho e comer sua comida enquanto ele distribuía sua revista à mesa e discursava sobre a própria importância jornalística.

O que escrevíamos servia também para SDM concluir que no Brasil éramos ridiculamente pequenos, especialmente em todas as artes, exceto talvez, olhe lá, na música, mas sem esses sambistas todos. Nós nos vestíamos em “andrajos” e éramos o povo “mais feio do mundo”, submetidos à “comida dos selvagens” como ela existe na Bahia (ou no Pará, mas “de que me interessa o Pará?”).

Me pergunto se alguém pensa com ingenuidade que só pela Globo fomos destruídos, primeiro culturalmente. Há tanto mais (neste caso, miúdo) a ter solapado aos poucos nossa identidade e manchado nossa história – a ponto de havermos acabado aqui – que serão necessários muitos anos de pesquisa acadêmica e isenção, com os quais possivelmente jamais um dia poderemos contar, para situar toda essa humilhação em perspectiva.

E escrevo isto talvez para o futuro, se futuro houver, para que não nos deixemos enganar pelas tolices hagiográficas que cercam certas figuras jornalísticas.

sem abraçar, sem ser

tem hora que sinto falta de abraços específicos, de pessoas determinadas, estas que não estão ao meu alcance neste momento terrível.

viajo me imaginando nos braços delas.

e pensando: quando vou poder novamente encontrar alguém na rua que não vejo há muito e lhe envolver daquele meu jeito meio aloucado e constrangedor?

outro dia joguei de longe um beijo para uma sem-teto deitada na mureta do ponto de ônibus – depois, é claro, de lhe dar um dinheirinho -, e ela quase perdeu o rumo de feliz, e me jogou outro beijo à distância.

(como amo essas pessoas. fico imaginando se elas sabem que fazem muito mais por mim do que eu por elas.)

quem não quer viver de novo, ser alguém de novo, andar, cheirar, sentir, ao lado de quem desejar?

mas nem para pensar nessas singelezas a gente se sente livre.

parece coisa luxuosa demais (e indevida) desejar um abraço aleatório se nem sabemos como tirar aquela monstruosidade do poder e reiniciar o ciclo da vida…

A bofetada e a ferida

arde o coração ir até a rua.
máscaras abaixo do queixo.
crianças no chão com suas mães.
velhos na agência bancária procurando um dinheiro que não há mais.
pedintes na padaria cheios de argumentos.
na frente do supermercado, três amigos entorpecidos brigam pela bolacha recém-doada.
a jovem, muito puta porque não tenho mais dinheiro trocado pra lhe dar, quer os 50 reais que me restaram.
não consigo aceitar essa face do brasil.
tento esbofeteá-la.
mas, em lugar disso, vou ao banheiro lavar as feridas.

Onde ficou perdida minha face?

“Tira minha foto?”

Este rapaz se aproximou de mim na avenida São João e pediu:

– Tira uma foto minha? Faz tempo que não me olho no espelho.

Fiz a foto, mostrei a ele, ficou feliz (e eu também, por proporcionar que se visse) e partiu antes que eu perguntasse seu nome.

Não deu três segundos, levei um baita susto com duas mulheres sem máscaras, gritando rente ao meu rosto:

– Esconde esse celular, vão roubar de você!

Agradeci (“Sim, senhora!”) e pensei. Não me assustei com o menino me pedindo para ser fotografado, fiquei, pelo contrário, lisonjeada. Sou muito mais incapaz de entender as mulheres sem máscaras. Deveria ter gritado pra elas: “Usem máscaras, negacionistas do inferno!”, mas não gritei.

Para que não se enganem sobre mim

Esclareço a vocês uma parte importante do que sou, para que não se iludam e decidam se querem ficar por aqui ou não, apesar de minhas posições.

Então:

Fui uma das pessoas em São Paulo que, para viabilizar a existência do Partido dos Trabalhadores, a ele se filiou.

Votei no PT na maioria das eleições e em Lula sempre, desde os tempos de deputado federal.

Da única vez que votei num conhecido, pai de amigo dos meus filhos, fora do espectro do PT-PSOL-PDT, me arrependi. E me arrependi votando no PT também ao escolher a Soninha.

Moro é um escroto e tem de pagar pelo que fez. Lula é inocente no processo que ele conduziu e a Lava Jato representou uma farsa desde seu inicial instante.

Sou pela ampliação do SUS e não por sua desintegração ou acomodação em parcerias com a iniciativa privada.

Quero que as fortunas sejam taxadas.

Defendo que o aborto seja uma decisão exclusiva da mulher, seu direito absoluto.

Sou santista no futebol. Fã de Marta quando vestiu a camisa do meu time, assisti-a vencer em campo maravilhosamente. E a amo ainda.

Fui fã de Robinho e Neymar. Hoje as duas pessoas se tornaram abjetas demais para que eu tome o impulso de vê-las jogar seu futebol tão bonito. Mas ainda acho seu futebol bonito.

As cotas nas universidades têm de se expandir, não se retrair.

Gosto de gente educada. Que responde aos meus posts com educação. Quando as pessoas não fazem isso, é muito fácil que eu simplesmente as retire da lista de amigos.

Gosto do facebook, apesar de saber o que representou neste processo de destruição da democracia. Entendo que ele possa ser usado como canal informativo. Aqui aprendi muito seguindo bons perfis, especialmente ligados à arte e à fotografia. Aqui tenho amigos, a maioria desconhecidos pra mim, que me apoiaram e consolaram e vibraram comigo nestes tempos difíceis. Não vejo dilema na rede neste sentido.

Não tenho preconceito contra o uso do gerúndio e dos adjetivos. Tento usá-los bem.

Não acho essencial o lide, uma invenção dos Estados Unidos na época da Guerra Civil. (Se o telex quebrasse, o essencial do texto estaria garantido logo). Não precisamos mais de telex, mas ainda precisamos de textos bons.

Não acredito na expressão “jornalismo literário”. Todo jornalismo deveria ser literatura.

Sou da poesia, da novela e do conto, mais até que do romance.

Acho a birra que fizeram entre apreciar Cortázar e Borges um mal estúpido. Os dois não foram rivais em vida e não há um melhor que o outro. O mesmo vale para Graciliano e Rosa. Competição é pra cavalos de corrida.

Gosto de selfies e autorretratos pela história, desde a pintura.

Gosto do cinema que se movimenta. Das boas escolhas de câmera. Não suporto o campo versus contracampo das novelas de tevê, que reduz a história à lida com personagens intensos e tensos, fotografados fixos da cabeça ao peito, mas falantes em demasia. Detesto como a computação gráfica vem sendo usada e abusada. O cinema também é o que não diz.

Conforme me lembre de mais divisórias, coloco aqui pra vocês, se acaso se interessarem.

Beijos meus.

Fake fashion, a onda

Quão chocante lhes parece que uma empresa cobre para vestir alguém virtualmente, como a Carlings tem feito na Noruega?

Para mim, o choque é quase zero.

Nossos olhos tristes já são maquiados por meio dos filtros de selfie do Instagram. E pagamos indiretamente por esse embelezamento. Os anúncios infindáveis que suportamos na rede constituem o preço.

E se pagamos de um jeito enviesado pelo direito à boniteza esfumaçada, arrasadora de espinhas, olheiras e rugas, por que não deixaríamos que uma marca de roupa nos “vestisse” por um custo menor do que o da roupa verdadeira?

Eu não pagaria por isso hoje. Mas talvez no futuro o próprio Instagram nos venda disfarçadamente a possibilidade, da qual eu talvez usufruísse como quem brinca.

Não queremos aparecer nas imagens ainda mais feios do que somos, certo? E isto desde a segunda metade do século XIX, quando a fotografia começou a ser comercializada, espalhando a onda da beleza filtrada dos retratos.

Já que a pandemia nos força a viver reclusos (pelo menos nós, os exaustos conscientes), não há por que a indústria deixe de tirar proveito também disso. Será mais uma oportunidade de incutir em nós o consumo em prol da jovialidade exigida pelo mundo de aparências.

Sete de Abril, um orgulho

A rua Sete de Abril, antiga rua da Palha, nasceu no século 18 e no seguinte abrigou célebres bordeis.
No 20, viu ser fundado o Museu de Arte de São Paulo em suas bases.
A história, pelo que sei, jamais lhe escapa.
Mas não gosto dela só por isso.
Gosto das linhas.
Da promessa de luz que ela enseja à distância, em seu início e no final, numa praça e em um antigo largo.
Um lugar aonde, criança, eu festejava ter de ir para tirar sangue, porque assim ganhava o direito de comer um pão de queijo de verdade, como não vejo mais, num bar ao lado do laboratório.
Um lugar onde hoje converso com minha costureira linda, onde compro vinho e livros novos mais baratos.
A Sete de Abril é oito, é nove, é dez, centenas de vezes eu mesma.
Me dá um orgulho demasiado ser sua vizinha.

Polícia é justiçamento na ordem pública

Esta é a calçada de um dos restaurantes que a Polícia Militar, sim, a Militar, mandou fechar em dezembro no meu bairro, diante de meu prédio.

A porta é do bar vizinho ao restaurante que nos enlouquecia com samba bom mas aglomeração todo santo dia desde o início da pandemia.

Numa noite de dezembro lucrativo os donos do restaurante musical romperam o acordo de concluir as atividades às 22h, varando pela meia-noite, e provocaram reação dos moradores.

Após a chegada da guarda metropolitana, os donos do bar insistiram em permanecer abertos. Guardas civis podem pouco e, irritados, chamaram os amigos PMs, que vieram em 20 viaturas, bateram em quem conseguiram e prenderam 12.

Esta é a justiça justiceira que nosso povo obliterado ama e para o qual se ajoelha. No caso específico, a regional da Sé poderia ter feito algo sobre esse absurdo de aglomeração há muito tempo, mas não fez. Então à truculência seguiu-se o bem-estar dos moradores.

Estamos em fevereiro e as colunas de cimento de contenção continuam aí, até que o jorro da proprina mude o quadro justiceiro. Por enquanto, as colunas têm servido para o amor furtivo, como a gente gosta de ver.

Me too

Os algoritmos leem meus pensamentos.
Mas que novidade há nisso?
Cerca de um mês atrás publiquei ligeiramente aqui a informação sobre o assédio sofrido na faculdade que quase me impediu de tirar o diploma de jornalismo.
E desde então começo a receber muitas postagens no facebook em torno do Drummond.
Meu poeta preferido da juventude!
E desde então, desde esse tempo longínquo, acresci a minha lista infinita Cecília Meireles, Conceição Evaristo, Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Ribeiro Couto, Roberto Piva e sei lá quantos; deus do céu, uma galáxia inteira.
Então, voltando ao que não deveria ter regresso, esse assediador começou sua luta comigo quando mostrei meu projeto de conclusão de curso, um texto em torno de Drummond, de quem ele, o “professor”, se gabava pessoalmente pela alegada amizade (sendo que Drummond era gentil com quem o procurasse), e de quem o acadêmico ridiculamente mostrava a dedicatória num livro sobre um suporte de mesa na sala onde recebia os alunos.
Eu queria investigar um conceito presente na poesia de Drummond que José Guilherme Merquior – sim, o scholar de direita desafeto de Marilena Chauí – intitulava “humour”.
Achava tão importante a distinção entre humor e humour então!
E até outro dia não havia me dado conta de que voltaria ao tema no meu mestrado e no doutorado…
Mas o fato é que o professor achou o texto bom demais para alguém em seus 18 anos e declarou:
“Você escreve bem demais.”
Talvez tenha desconfiado de mim. Talvez simplesmente fosse um macho de seu tempo, incrédulo de que uma mulher soubesse escrever.
Talvez um louco narcisista.
Na terceira reunião que éramos obrigados a ter com ele, reclamou que eu fizesse o gesto rotineiro de levantar a alça do sutiã por cima da camisa.
“Não precisa disso pra passar comigo.”
Simplesmente saí da sala.
E foram mais três anos fugindo desse obcecado para que me liberasse.
Sabem o que é não ter direito à fala nesse mundo, meninas?
Sabem.
Tanto sabem que mudaram tudo!
Obrigadas infinitos.

(E pare de me lembrar disso a cada segundo, facebook).