A leopardia de Delon

Alain Delon: máxima beleza, delinquência, caça

Uma vez ensaiei escrever por aqui o que tornava Alain Delon um homem tão bonito pra mim… Eu via razões, digamos, multiplicadas como os raios solares.

Daí uma amiga dessas executivas muito importantes e pragmáticas da universidade perdeu a paciência: é bonito porque é bonito, ora.

Mas não, né? Não comigo. É claro que eu vou tentar compreender melhor como a coisa funciona (e só comigo, entendeu?). Vou olhar a beleza de frente, como disse a querida Eliete Negreiros. Não tenho muito mais o que fazer, rs. E se quer ser minha amiga, me aguente, ora.

Poitier, um juiz para nossa alma imoral

É tanto homem bonito no cinema. Escolho os primeiros que me vêm. O Sidney Poitier, por exemplo. O Paul Newman. Geraldo Del Rey. Toshiro Mifune. E até nesse Henry Carvill, estrela dos pobres de hoje, é possível vê-la.

Carvill: ele quer te abraçar

Carvill é o bobo que pede cuidados, como se fôssemos nós a fulminá-lo. Sua beleza pressupõe o abraço.

Newman, só sensualidade
Del Rey, o tímido translúcido
Por que tanta
pressa,
Toshiro?

O Paul Newman veste o erotismo sem vicinais. O Del Rey, o translúcido, é também o tímido, o distraído. O Poitier olha de um pedestal e, com profundidade, crava nossa alma imoral. O Mifune quer resolver tudo logo e fica lindamente engraçado nessa pressa de se impor, que ele nem precisava ter.

Mas o Delon, olha… O Delon é só desafio. Competição. Vou chamar isso de leopardia. Como se ele nos dissesse: venha, venha você e você, vou lhes derrubar um a um. Com a pele forjada na delinquência das ruas, os olhos em fulgor, inspeciona, calcula e caça em poucos segundos de câmera. Aposto que este homem nunca plantou um tomate na vida.

Para além de todas as qualidades, essa é uma não-qualidade, uma força irresistível… que move o observador diretamente para a armadilha.

Nem me arrisco a falar muito sobre mulheres, embora outro dia eu tenha dito o que penso sobre o fator Chantal Akerman de atração. Quando viajo em torno delas tem sempre um eco sem noção no face de meu deus pra tentar desqualificar minhas tentativas. Homens são colibris desajeitados…

Ao cinema, gente!

É fim de semana.

Escolham bem.

💜

Quando o SUS é o melhor do dia…

Dormi mal. Tenho dormido assim há alguns anos. E ontem ainda tive uns dissabores, pequenos mas decisivos, que confundiram meu sono ainda mais. Me incomoda tanto a falta de graciosidade, de delicadeza por parte de pessoas adultas, que vocês nem calculam… O corpo estremece todo, como se chorasse. Mas não tenho direito de reclamar, pois, como sabemos, tantas coisas piores estão em curso.

E, felizmente, as melhores também.

Hoje de manhã, por exemplo, ainda com muito sono, fui informada de que duas agentes do SUS estavam à minha espera na portaria do prédio. Desci com a rapidez possível, com meu descabelo, e quase as abracei, como fazia antes.

As duas vieram especialmente para me entregar um formulário de agendamento da mamografia. Desde que a pandemia começou não vou a médicos, explico a uma delas, a mais inconformada com meu afastamento das rotinas. Claro, fui ao ortopedista e ao oftalmo em duas emergências, fiz exame num hospital lotado e acompanhei meu filho num procedimento. Só isso. “Mas na sua idade”, pareciam me responder…

Enfim, também me convidaram ao papanicolau sábado, dia em que será possível submeter-se ao exame na UBS sem marcação.

Essa preocupação comigo, não me acostumo… E no entanto é tão emocionante, tão procedente no nosso grande país.

Viva o SUS, como se diz, viva o Brasil.

Que estes dois possam novamente existir.

Teima triste

Leio que Claudia Abreu completa 51 anos e me dá vontade de lhe enviar meus parabéns, umas congratulações sem eira nem beira do tipo destas que todos nós aqui oferecemos aos distantes ilustres. Mas não vou.

Mal conheço Claudia Abreu como atriz. Sei que se trata de uma estrela de tevê, mas há décadas não vejo telenovela, minissérie, qualquer coisa que seja nascida da Globo, essa emissora da qual, me parece, a atriz não arreda pé. Mas gosto de algo em Claudia ligado a sua expressão, a sua doçura triste, à beleza de menina que Vera Fisher um dia proclamou ser maior que a sua, de mulher.

Há alguns anos, estive num jantar da Conspiração Filmes aqui em São Paulo, sem minimamente o desejar. E me lembro de Claudia Abreu ali na cabeceira da mesa, ao lado do marido, o filho do escritor Rubem Fonseca, enquanto todos sorriam a seu lado. Ela, não.

Creio que o jantar comemorava o lançamento de um filme de episódios da produtora, razão pela qual o marido, diretor de um deles, transpirava felicíssimo. O homem conversava com todos, ria de todos e para todos, mas com a esposa, não dividia nem o prato. Ele parecia adivinhar que ela olhava pra baixo, absolutamente desinteressada de um sorriso, e talvez por esta razão tivesse concluído ser mau juízo voltar-se à mulher num momento festivo.

Claudia parecia tão sozinha, e eu também, que tentei fazer um contato visual solidário, mas ela nem mesmo notou minha compulsão ao gesto.

O que tinha essa mulher-menina que lhe implodia o coração? Não soube dizer e não procurei averiguar.

Hoje, passados vinte anos, de vez em quando me lembro daquele monolito arrepiante, daquele seu incômodo de presença, e me pergunto o que pode ter havido. A arte não significa necessariamente alegria na vida do artista, muitas vezes, nem mesmo escolha. Espero que naquela noite ela apenas estivesse de mau humor, embora minha intuição (maldita, indesejada) diga que não.

Pega leve

Emily Blunt: Miu Miu para evocar Hedy Lamarr

As capas pesadas que imobilizaram os célebres no Met Gala significaram o quê? Coitada da Sharon Stone. Quase precisou ser carregada. Clóvis Bornay era quem entendia desse carnaval de pedras, meu bem.

Já a Emily Blunt usando Miu Miu para citar Hedy Lamarr se deu melhor. A elegância é leve!

Um dia no museu

Depois de exatos um ano e meio sem ir aos museus, fui ontem a dois. Os avisos sobre a pandemia são tão perceptíveis em cada canto, as pias dos banheiros, interditadas com tamanha fita isolante vermelha a intervalos frequentes, que é impossível esquecer de quem manda sobre nossa impotência, mas eu esqueci. Eu sou uma agitação interna tão grande depois de uma visita ao museu que é como se meu coração parasse por idênticos intervalos isolantes, e a química em minhas mãos para estancar o vírus não me atrapalhasse em nada.

Mário Cravo, eu e a praga do vidro sobre as molduras, no Masp

Deve ter pesado sobre essa intensidade o fato de que passo por uma suspeita ocular e a cada dia sinto necessário ver mais e mais, como se fosse a antepenúltima vez. Gosto de sentir isso, todas as urgências me confortam, porque também se tornam uma desculpa para, em casa, abrir meus livros de fotografia sem uma razão prática, sem um objetivo finito, sem a praga do dinheiro a queimar mais essa luxúria de perceber e sentir, e neles eu mergulho profundamente.

E eu me sinto livre, enfim, porque não gosto de colocar em prática o que vejo e sinto, e porque dificilmente serei compreendida quando exponho minha percepção. Conheço pessoas excelentes a compreender o que escrevo e a pedir um texto meu com alegria, até para sofrer de surpresa, mas, nestes últimos tempos, tenho escrito para gente ruim de novo, povo do dinheiro, dos editais e das assessorias de imprensa (me perdoem vocês, assessores, que não compreendo como aguentam). E me enraiveço ou rio.

Anteontem, por exemplo, uma galerista que desejava aparecer no meu texto informativo mais do que eu julgava ser de merecimento quis me machucar com uma estocada, dizendo que eu escrevera adjetivos. Não liguei. Sei que ela desconhece o significado de um adjetivo. E nunca, nunca mesmo, desde os tempos longínquos de submissão ao manual da Folha, liguei para essa interdição de classe gramatical. O que todo mundo tem contra os adjetivos? E os gerúndios? Leio os pobrezinhos como prêmios, anéis onde se esconde uma pedra vermelha, e luto para assentá-los bem na terra do meu jardim.

Mas isso não é importante. (A propósito, Senhor Democracia reclamava do “mas” em início de frase. “Você escreve bem demais para insistir nessa mania”. E eu ria por dentro, por saber a origem italiana da restrição). Importante é sentir que vivo três vezes mais quando vou aos museus. E aconselho a vocês que vivam também.

Fui ao Masp e percorri novamente tudo. Os moços das curadorias andam atrás do déficit histórico e expõem mais mulheres que antes. O acervo esteve bagunçado pro meu gosto, uma vez que deixaram a espantosa virgem com o menino de Bellini pro fim da viagem. Mas algumas autoras romperam o caminho da identificação nos cavaletes da Lina Bo Bardi, completando a composição no verso da tela, razão pela qual me diverti, doce vingança à necessidade que ela nos impõe de ter de olhar o tempo todo para trás em busca do nome do autor.

“O implacável”, de Maria Martins,
no Masp

Revi Maria Martins e senti o conforto de sua adjetivação. Seres míticos compostos de sentidos. Tormentos que nascem dos ventres de bronze. As figuras do “implacável” e do “impossível”. Que mulher. De Gertrudes Altschul, redescoberta aqui depois de exposição no MoMA (mas é claro), gostei deveras das sobreposições, como se a fotógrafa sonhasse explicitamente, e apreciei ainda mais os rostos raros e graves de seus personagens infantis (enquanto, nas fotos, a autora aparece rindo sempre).

No IMS, novas sobreposições, desta vez inesperadas, porque de Madalena Schwartz sobre Ney Matogrosso, para que seus movimentos não se perdessem. Que aparição representou o Ney no sopro do tempo! Mas o esforço de Madalena (que levava seu cachorrinho nas sessões) para capturá-lo na sua elasticidade expressiva o tornou interessantemente rígido. Os retratos de Madalena são poses estudadas, teatro explícito, e pelos filminhos ali exibidos sabemos que ela irritava os personagens com sua insistência e sua timidez. Alguns retratos de Paz Errázuriz também estão lá, e senti a diferença, a intensidade, a falta de intenção, a dor subjetiva de suas transexuais em comparação com as de Madalena.

Mário Cravo Neto também se expõe no IMS, e é previsivelmente um deslumbre. De Salvador a Nova York e à Dinamarca, captamos aquele seu furor de vida, que, ao contrário do que acontece com a doce Madalena, raramente se congela. Ele era escultor, como o pai, antes de se acidentar, imobilizar-se por um ano e passar a fotografar como gosto e necessidade. Mestre da subexposição com uma razão, a de viver com seus personagens, a de rodar como suas baianas, no caminho de exprimi-los, ele é um pintor também, e suas aquarelas são o que são, movimentos.

Saio do dia do museu como sempre, tentando, sem exatamente conseguir, expressar minha intensidade

Saí do dia do museu como saio sempre, com vontade de perceber o mundo à volta, mas meu telefone sobrecarregado dificultou os registros. De todo modo, contudo, porque a vida continua, eu seria interrompida, razão pela qual não liguei muito pra essa limitação, e sonhei à noite, e continuei feliz.

Ora direis

Ah pronto.

Agora não podemos manifestar solidariedade às mulheres afegãs porque elas podem ter “agenda própria” e será “pretensão demasiada” condenar o talibã já que temos nós mesmos nossos talibãs.

Gente.

Ouvi isto de uma mulher.

O que diriam Simone e Sartre de coisa semelhante, eles que viajaram o mundo para se solidarizar com as causas internacionais, com Che Guevara & bela companhia?

Simone e Sartre, intrusos imperialistas.

Sem “xadrez político”, por favor

Na escola, desde pequena, vi alunas se apaixonarem pelo professor.

Seriamente.

Mas eu nunca consegui.

Em geral, professores não me falavam nada pessoalmente. Permaneciam lá longe, inalcançáveis. E eu não era muito de professor, pra ser bem franca… Meu melhor professor era a Biblioteca Mário de Andrade.

Até que apareceu meu mestre de fotografia da faculdade.

E, muitos anos depois, meu orientador no mestrado e no doutorado.

Eles sabiam bem mais, pra não dizer tudo daquilo que eu jamais sonharia saber. Com todos os defeitos, com sua humanidade, dividiam um pouco de seu saber comigo, eu, esta pessoa torta.

Neles eu penso quando sei que as meninas do Afeganistão perderam essa chance de vivenciar a escola, para não falar de outras coisas ainda mais sérias que deixaram ou deixarão de fazer e ser.

Não tem “xadrez político” que abrande isso. E nunca houve motivo para “comemorar”.

Orwell faz falta

Passos da novilíngua neste novo Ministério da Verdade.

Primeiramente intitula-se derrotada a destruição bem-sucedida de um país por uma ocupação de 20 anos, precedida da formação de uma milícia de extrema-direita que manteve acesa a corrupção, a sevícia e a morte de homens e mulheres em prol de um xadrez geopolítico.

Depois intitula-se libertária a ação desse grupo de extrema-direita criado pelo invasor que já havia anunciado sua saída derrotada.

E agora é “governo que respeita a liberdade da mulher dentro da lei muçulmana” a milícia de extrema-direita instalada no poder sem eleição, que não vislumbra pagar por seus crimes e que precisa urgentemente governar para alguém com o dinheiro de todos, até das ainda incrédulas potências europeias.

Pena não aparecer um novo Orwell para pensar nossa história. Mas considerando tudo o que ele sofreu para manter o pensamento livre, tal vazio não é de surpreender.

Seria cômico

Como pode ser, para além de todo o absurdo, visto que se trata da demolição das condições feminina, educacional, sanitária, financeira e cultural de um povo, que um partido autoproclamado da causa operária aplauda o golpe patrocinado por organização evidentemente reacionária sobre um país em eterna reconstrução? Por que comemorar a “derrota” estadunidense se quem vence é o terror? Quando os senhores deixaram de usar suas cabeças para o propósito do pensamento? Expliquem-se, por favor, nós aguardamos por aqui.