Um presente de Crumb

Viver é isso.
Jantar com Gilbert Shelton, Lora Fountain, Aline Kominsky e Robert Crumb na casa de Leca e Rogério, em São Paulo.
E ainda ganhar este presente feito pelos convidados.
Achei a noite tão especial que escrevi um texto sobre ela.
Mas o Maurício ponderou que não se deve publicar intimidade.
Passados dez anos, ainda não sei.
O fato é que conversamos um tanto.
Aline, Lora e eu, especialmente.
Gavetas, suas lindas.

Quando Miranda morreu

De 25 de março de 2018

Às vezes, em noites caseiras e insones como esta, eu sabia que ele, entre outros amigos queridos igualmente idos, estaria por aqui, quase ao lado, observando com sentimento (com seu jeito bonito ou mesmo contrariado de olhar as coisas) uma foto que eu tivesse colocado, uns versos que houvesse exposto, uma alegria ou talvez uma angústia que me apertasse e que desapareceria pela manhã. (E ele nunca brigou com minha tristeza, nem me julgou esquisita ou estranha por isso, como seria de esperar, e talvez experimentasse, como escreveu, uma admiração de igual.)

Fazia sentido postar nessa abscência se eu intuísse que ele se situava perto para me ouvir. Às vezes estava acordado como eu naquela madrugada de morcegos e me dava sugestões, como a última, para que eu expusesse minhas fotos, especialmente as dos reflexos, e que meu marido desse um jeito com os vinhos para quem aceitasse vê-las numa noite de museu na minha casa.

Ele vivia acordado com seus sonhos, eu fugia dos meus.

Não tenho muitos amigos presentes, eles são circunstâncias, vivem em mim, eu converso com eles em imaginação todo o tempo, talvez a experimentar tardiamente as amizades invisíveis que nunca tive na infância.

Enquanto leio a insolência de Gógol e choro com as tragédias de sentimento sem final de Tchecov, enquanto converso em ondas com esses mares de Bergman, Buñuel e Murnau e busco meu retrato em Walker Evans ou Saul Leiter, prescindo de tudo e todos, de quem tenha sangue pra me ouvir.

Meu amigo à distância que não existe mais viverá.

Naquele dia de sua morte uma mariposa negra me atormentou no quarto, avantajada, inquilina, e eu me assustei a ponto de andar pelo cômodo de guarda-chuva aberto. Quando meu marido chegou em casa e soltou a persiana, ela saiu, mas o coração saltava.

Soube depois.

No momento em que a mariposa deixou nosso quarto, ele partiu também.

Desconfio contudo que ainda permaneça aqui em algum canto, desejando ficar e me ouvir seriamente, expondo um triste e familiar enredo de filme japonês, talvez inventado, no qual os filhos morrem por seus pais, numa transformação poética do esperado e conquistado.

Abro a janela.

Parta com paz, meu querido, para a terra das nuvens e do riso, mas ainda me traga desde o infinito seus brinquedos e perfumes.

Outbreak

queria dar a cada um de vocês uma palavra de carinho.
mas não sei se sou boa nisso.
conhecem uma pessoa direta?
sou eu.
a que não sabe disfarçar.
aquela que diz bobagens sinceramente, porque crê nelas.
e que, se precisa dar carinho, gosta de fazê-lo pessoalmente.
fisicamente.
vocês estão longe, embora perto…
mas não é só isso o que quero dizer.
neste momento, na rua onde moro, passam pessoas gritando por turnos.
ouço da janela da sala.
gritos como se quisessem se libertar de alguém.
ou parar alguém.
não sei do que tratam essas pessoas.
não sei se são os sem-teto sem comida que querem arrancá-la de alguém.
não tenho como saber.
estou a uma altura excessiva do prédio onde moro, aqui onde vejo as nuvens, meus personagens.
prometi à família que me comportaria e que não sairia à rua à toa.
minha família é meu tudo.
eles me amam na complicação.
e não vou complicá-los me aproximando de quem não conheço no meio da pandemia.
mas queria lhes pedir.
nunca mais reclamem se um médico abraçar um prisioneiro na cadeia de novo.
não importa a escrotidão que o preso tenha aprontado.
nem o médico!
não reclamem.
temos um tempo limitado pra viver e amar.
não vamos estragar tudo espirrando no outro uma moral que não precisa ser respeitada.
é tarde.
e eles não vão parar de gritar contra nós.

Música com sangue

www.netflix.com/title/80227122

A quarentena mal começou.

Vocês terão tempo.

Assistam a este documentário espetacular de Stanley Nelson, “Miles Davis: Birth of the Cool”.

Está na netflix, mas suspeito que seja fácil baixar.

Que edição de imagens.

Ritmo!

A música era tudo para Miles.

Principalmente, evoluir dentro dela.

Ou isto ou a arte não faria sentido.

Foi um perfeito condutor de instrumentistas para o exercício de suas próprias visões.

Mais importante que ensaiar, para ele, era improvisar no palco.

E improvisar significava exercer a música em profundidade, sem limites.

Irascível, desafiador do racismo e do establishment, amante de ferraris, Miles foi igualmente louco por mulheres.

Às vezes, louco de verdade.

Machista, espancador.

Enfraqueceu-se mais e mais pelo uso de drogas e por seu comportamento autodestrutivo.

O cool que ele inventou e que quiseram transformar em entretenimento para brancos chiques vinha extraído de sua verve áspera.

Miles nos deu a música com sangue.

Vi Miles ao vivo.

Viva Miles.

Enrouquecendo

Minha quarentena (às vezes involuntariamente interrompida) está pra lá de interessante.
Filmes, conversas inspiradoras pelo insta, face, WhatsApp.
Livros, fotos…
E até me esqueço da hora do panelaço.
Isto porque, aqui no centro, nem preciso me lembrar dele.
É tanto grito e buzina às 20h que lá vou eu pra janela…
Hoje foi especialmente lindo.
Estou enrouquecendo, migues.
Isto mesmo.
Ficando rouca.
Porque louca sou gradualmente pelos anos, até a batalha final.

Que momento para estar vivo, enquanto for possível estar

Ontem saí pra buscar trabalho. Um tempo angustiante fora de casa para uma reunião de três horas. Orai por nós, os precariados.

Hoje, porque não sou de ferro, saio rapidamente pra aproveitar a promoção do meu café querido, em grãos.

O local onde se dá a venda é um café-brinco, apesar de hipster, e ativo por Lula Livre. Na entrada, pisamos em um tapete com o Bolsonaro de boca aberta. O lugar está sempre cheio para lanches e drinks, porque singular na região, quiçá na cidade.

Pois bem. Hoje não há ninguém nas mesas naquele horário pós-almoço em que tomamos um café. Três funcionários atendem a dois clientes que vão levar rapidamente a promoção e sair. Contudo, em cada mesa, resta como um poema um lindo frasco pequeno de álcool gel.

É um cenário apocalíptico, mas inevitável. Espero que meus queridos hipsters sobrevivam, porque são bons. Não só o café é o melhor e mais barato. Eles também fornecem água filtrada de graça a todos, inclusive os sem-teto, a quem também distribuem cafezinhos.

Perto, entro numa farmácia pequena e peço própolis, que ontem já faltava na região. Mas ali eles ainda têm. E aproveito pra soltar a piada do álcool gel. Adoro ver a expressão de cada vendedor quando faço a pergunta. Este me responde da forma padronizada, mas com sinais de exaustão:

– Pff, senhora, álcool gel nem pensar. Ontem chegaram cem frascos às 10h e às 10h20 já não havia mais nenhum. Peço que o cliente tenha bom senso, mas ele vem sempre com uma desculpa: está levando pra mãe, pra sogra, pra avó.

– Esse maldito governo deveria limitar a compra, ao menos, não? – pergunto.

– Pff. – (ah, ele é perfeito). – Distribuíram camisinhas no carnaval. Então por que não distribuem álcool gel de graça?

Um VENDEDOR de farmácia, queridos.

Que momento para estar vivo, enquanto for possível estar.

Meu bom, meu velho

Que noite esta.
Antes de batalhar pelo sono, olho através da janela do quarto na direção das luzes acesas nos apartamentos dos meus vizinhos.
Quem serão eles?
Não os conheço pessoalmente, mas já lhes agradeço por tudo.
Pela liberação de um sentimento tão ruim (mais um) que me ocupou todo o dia. E que de modos diferentes me toma sempre desde 2016.
(Preciso de tanta energia amanhã. Alguém, eu mesma, haveremos de olhar por mim.)
Depois do panelaço, aproveitei o sinal aberto e vi Dunkirk.
Que filme.
Filmão de homens perdidos não em batalha, mas na fuga que a antecedeu.
A frustração, o desejo de voltar ao conhecido, de lutar pela permanência no mundo, de resistir.
Cinema, seu bom e velho.
Se não viram o filme ainda, quem sabe amanhã?
Ou pensando bem…
Não amanhã, com o coração aos pulos, mas talvez depois?

A noite no invisível

Às vezes me sinto uma câmera termográfica que fotografa o mundo escuro.

É uma sensação poderosa e reveladora.

Ninguém precisa concordar comigo, mas se digo que vi alguma coisa no invisível, pode crer, vi sim.

Acontece com vocês?

Não raro, quando assisto à maravilhosa série “Night on Earth”, na netflix (essa involuntária companheira), transponho suas revelações para minha vida, tipo “eu sei que aquele orangotango come à noite, por que nunca ninguém viu?” (metaforicamente, né gente).

Assisti ao último capítulo da série hoje, o making of em que o trabalho dos câmeras é revelado aos nativos e zoólogos.

A pesquisadora dos guepardos não conseguia provar ao mundo científico a perambulação noturna dos animais, embora tivesse fortes indícios disso, ao constatar suas coleiras desgastadas; as filmagens mostraram os guepardos bastante ativos à noite e assim validaram o trabalho de dez anos da cientista.

O orangotango nunca fora percebido comendo sob a lua, mas a fotógrafa o captou sem querer do alto da árvore de 30 metros, quando lá se encarapitara sozinha, de madrugada. Chorei junto com os pesquisadores nativos que se emocionaram ao constatar a vida noturna de um bicho querido.

Enfim, o importante é que vocês aproveitem a chance de assistir a essa preciosidade durante seu relativo confinamento.

Mesmo.

🌸

Rir na quarentena

Quarenteens, o grande público tem razão.
Dá pra se divertir bastante com Sex Education, na netflix.
As cores são vivas e impossíveis.
As palavras, quase interjeições.
E os atores sem idade adequada movem os rostos como se usassem máscaras.
A trilha sonora, então?
Tudo do bom passado.
A criadora é uma mulher que mescla o clima das comédias teen dos oitenta, as que conheci e curti, com as distopias e correções de agora.
Um sofá quente pra vocês.

Vamos dormir, john boy

os dias têm sido cheios de surpresas terríveis e notícias ruins.
mas vou tentar ver tudo por outro lado.
até porque hoje achei meus óculos escuros que imaginava perdidos.
e os exames da rotina feminina que me preocupavam foram bem.
principalmente, tenho amigos.
tantos de vocês que resistem com um sorriso mesmo quando conhecedores do que se passa.
obrigada por suas imagens e palavras.
obrigada aos índios que pela enésima vez (porque não poderia ser de outro modo) nos ensinaram como se deve lutar.
só faltava o meu querido ser aceito candidato a prefeito…
mas terei calma.
vamos dormir, john boy.
sonhar é viver.
boas coisas pra vocês.