Um sentir na pandemia

Ontem, daqui da janela, eu me encontrava conformada. Os passantes prosseguiam, grande parte deles (homens, em sua maioria) sem máscaras, mas não eram tantos assim.

Havia ônibus e filas de ônibus, porém os passageiros se postavam mais ou menos distantes uns dos outros. E muitas crianças, porque assim as entendo, carregavam suprimentos sobre motos e bicicletas.

Hoje, tudo está diferente.

Faz frio. No entanto, há gente considerável circulando todo o tempo, e mais: aproximam-se, conversam entre si. Os policiais, zeladores de estacionamento e vigias encaram os mendigos que chegam perto deles com idênticos braços cruzados, sem conceder ou se afastar diante de sua presença.

Carros e veículos iridescentes conduzidos por transportadores infantis revezam-se em número semelhante no calçamento.

Um ou outro personagem isolado (daqui a pouco os reconhecerei e lhe darei apelidos) grita “fora bolsonaro” das janelas longínquas, como um rápido desabafo. Mas há também pela rua os gritos alongados, parecidos com os daqueles vendedores antigos de beju na praia. E batuques.

Não sei o que as pessoas lá fora pensam.

Porque sei que pensam.

Porque pensar é um sentir.

A beleza dessemelhante

Em relação à psicanálise, estou e sempre estive ainda nas aulinhas de inglês. Mas adoro observar a escrita dessemelhante dos grandes livros.

A de Freud, pra mim, é a mais deliciosa, forte e proustiana das literaturas médicas, porque seus personagens saem das sombras para se postar diante de mim e se transformar em mim.

Jung eu aprecio como aquele dramaturgo muito bom que joga com os papéis e os símbolos para deles extrair um manifesto declamado por ardentes zé-celsos no fim.

Agora Lacan, aqui neste seminário sobre as psicoses, eu o estou entendendo (rs) como um colecionador de raciocínios. Ele vai abrindo as abas do pensamento, contestando e acolhendo seus predecessores, sem nos dar o prazer de chegar ao ponto, e assim nos reter; minha impressão é que não terá respostas ao fim, e que seu brilho será compreender o que existe na base de desconstruir o que compreendeu. Sinceramente, as páginas que li, não necessariamente compreendi (como aquelas dos demais), mas achei fascinantes.

Terei problemas na quarentena? Isn’t he a bit like you and me?

A seguir, pdfs de livros dos três autores:

https://omartelodenietzsche.com/10-livros-para-baixar-em-pdf-para-quem-gosta-de-psicologia-e-psicanalise/

Dostoievski por Joyce

Peguei do amigo querido Marcos Gomes e traduzi correndo este trecho, por sua vez extraído do blog Calle Del Orco.

Não sabia o que Joyce pensava sobre Dostoievski, e aqui está.

“Dostoievsi contribuiu mais do que qualquer outro escritor para forjar a prosa moderna e levá-la a sua intensidade atual. Foi sua potência explosiva a responsável por destroçar a novela vitoriana, com suas trivialidades perfeitamente dispostas e todas essas donzelas que sorriem com afetação: livros carentes de imaginação e violência. Sei que existem os que apontem as ideias amalucadas de Dostoievski, até mesmo sua própria loucura, mas certamente os elementos manejados em sua obra – a violência e o desejo – constituem o alimento mesmo da literatura. Falou-se muito de sua condenação à morte, comutada quando estava a ponto de ser fuzilado, e de seus quatro anos de cativeiro na Sibéria: uma experiência que, apesar dela, não forjou seu temperamento, embora possivelmente o tenha exacerbado. Sempre se enamorou de violência, e isto é o que o torna tão moderno, e o que explica, ademais, que resultasse desagradável a seus contemporâneos: por exemplo, a Turgueniev, que detestava a violência. Tolstói simplesmente não via seu talento literário, mas “admirava seu coração”. Este comentário guarda muita verdade, porque, ainda que os personagens de Dostoievski atuem de maneira extravagante, quase enlouquecidos, seus entendimentos morais são firmes.”

Longe de vocês

Não posso dizer que estranhe a quarentena. Nos últimos três anos, venho de repousos forçados por ligamentos rompidos nas calçadas paulistanas. Mais grave ainda, no ano passado quebrei o pé no largo da Batata, a caminho de um show. Se contar minhas desabilidades nesse tempo, sobre cadeira de rodas ou bengalas, que me fizeram desenvolver tendinite, dá quase um ano longe da cidade e perto das sombras.

Tenho amigos incríveis, que felizmente levam vidas distantes enquanto envelheço. Estão sempre em mim, como sonhos. Às vezes, nas redes sociais, encontro quem me ouça mais que eles, na nossa troca de nudes existenciais sob a pandemia. Viva vocês!

Espero que desses companheiros de hoje surjam alguns amigos olhos nos olhos nos próximos anos. Não é fácil, sendo frila e recolhida como me sinto, perder o abraço quem já gosto pelas palavras, concordâncias e emoticons.

Nenhum retrato melhor

Se eu sobreviver, uma coisa da quarentena restará em minha memória: a faxina virou lembrança.

Uma tia-avó dedurava minha mãe dizendo que ela havia me achado muito feia ao nascer, ao contrário do que aconteceria depois com meus irmãos. Mamãe nunca negou o que disse. E nela eu acreditei.

Me achei desengonçada a vida inteira. Às vezes, feia de doer. Especialmente quando me sentia de mal comigo, algo tão frequente na adolescência, quando era muito alta pros meninos e por isso (ou por qualquer outra razão) não me tiravam pra dançar. E eram eles quem mandavam no baile, sabem, meninas?

Com o tempo entendi que eu não era mesmo essa coisa extraordinária e que precisaria me virar com o que tinha. Uma força lá dentro, um prazer em observar o mundo – isso me bastaria. Haveria vida, sim, fora da sala dos apartamentos onde uns sortudos dançavam colados.

Até hoje procuro me divertir com a vida. Que uso melhor fazer dela? Me acho muito engraçada nesta montagem que era serviço fotográfico consagrado durante minha infância.

Na maioria das vezes, felizmente, ainda sou a Rosane do meio. Mas as Rosanes pensativas, desconfiadas e/ou irônicas acima dela tomam bastante meus dias. Essa desconfiança e esse pensamento me deram as rugas de agora. Eis por que jamais vou me esforçar em tirar qualquer sulco nascido em torno destes olhinhos. Não existe melhor retrato de mim que eu possa inventar, exceto esse que eu mesma, por décadas partícipe da vida, construí.

Não me iludo e contudo

Todos esses raciocínios que vislumbram uma era mais humana pós-corona me levam a ter carinho por quem os faz, embora, na real, me pareçam iludidos, infundados.

Basta observar que no meio da pandemia, por exemplo, o que se vê é guerra internacional por máscaras e sequestro universal de respiradores por parte de quem detém o poder.

Por que tudo será tão melhor depois que a pandemia for embora, então?

Enfim, não custa crer que em nível global o sonolento desperte após um longo sofrimento.

O que eu sei é que nós, eu digo nós, os fudidos, sempre nos lembraremos das lições que tivemos. E, se sobrevivermos, vamos mandar batatas pra eles quando parecerem vencer.

Operacionalizar meu ovo

Não sei por que de repente a minha irritação.

Melhor dizendo, não sei por que ela está maior do que a branda, cotidiana e costumeira irritação destes dias.

Me sentia tão bem hoje, até dancei meu Prince na sala…

Penso, penso e acho que o que me tirou do sério foi tanto ler sobre essa história de “presidente operacional”. Me perdoem o Kotscho e o Nassif, mas isto me cheira a ideia plantada, a fake. Não há previsão para “estado operacional” dentro da constituição, não existe nada disso a ser conjecturado ou realizado. Estão nos enrolando de novo.

Desde quando, a partir do início do mandato de Bozó, ele mandou em alguma coisa, coordenou algum projeto, tranquilizou a nação? Desde quando administrou o Brasil?

Até parece que querem nos fazer crer em uma “operacionalidade” recente, com o general, o posto ypiranga, o conje e o Mandetta anti-SUS à frente, a nos conduzir por um caminho sensato em meio à tempestade.

São só golpistas dentro do golpe que eles mesmos deram. Neste ponto, nem mesmo Bozó está tão errado assim.

Quem governa são os governadores. E não acho a ideia má. Andávamos necessitados de ser uma federação, não uma centralização de poder em um Planalto ensandecido.

F-se os operacionais.

Precisamos da reforma política.

Na banheira de lixo da história

Talvez alguns de vocês conheçam este episódio. Mas vou recontá-lo, porque parece ser uma boa hora para isso. Que hora é mesmo agora? Sábado, já?


Não importa. Isolei-me. Vou tardar a dormir.


A história breve que vou lhes contar ou recontar gira em torno desta foto de David E. Scherman.


Na banheira, está Lee Miller.


Sim, Miller, linda mulher que aprendeu a posar criança, modelo de um problemático pai. Musa de Picasso, amiga de Steinberg, estampou a capa da Vogue várias vezes, uma delas em autorretrato que ela mesmo exigiu fazer – um fato memorável, quiçá jamais repetido na história da turma da Condé Nast.

Aprendeu a estar atrás das câmeras com um vaidoso Man Ray, com quem se relacionou amorosamente. Um dia, foi fotografar as dores do mundo, a Segunda Guerra, o estrago num campo de concentração, e convenceu a glamurosa Vogue a publicar o que reportava, algo também inédito até ali.


Tudo parecia maravilhosamente inusual na vida de Lee Miller, principalmente este retrato na banheira, embora seus últimos anos não tenham sido tão mágicos assim.


O retrato foi feito logo após a capitulação alemã, 1945, na casa à praça Prinzregentenplatz, em Munique. Tomada horas antes pelo exército dos Estados Unidos, a residência pertencia a Adolf Hitler.


“A casa se encontrava em perfeitas condições. Havia eletricidade, água quente e aquecimento disponíveis, além de um refrigerador elétrico”, escreveu Miller, gozadora, máxima.

Enquanto estiveram rapidamente por ali, ela fotografou seu retratista, Scherman, na mesma banheira, mas ninguém parece querer republicar esse retrato, vai saber por quê. Ele sorria.


Me lembrei da história (e são tantas envolvendo essa grande mulher) por uma razão trivial.


Quando a gente tomar a casa bozolina depois deste pesadelo, duvido que tenhamos idêntica coragem de mergulhar em sua banheira, suja com o sangue roubado de nós pela família infame – infâmia esta pela qual jamais imaginaríamos um dia passar, vencidos tantos anos desde a destruição sem precedentes promovida pelo bigodudo da foto a quem Miller dá as costas.


Nem por uma imagem histórica sentaríamos numa banheira de leite condensado, não é?


Eu, pelo menos, é que não.

Vermeeeee

Estava demorando pra acontecer.


Tô aqui sossegada no meu panelaço diário das 20 horas quando aparece o vizinho.

– Mitooo!


Respondo:

– Bolsominion Lixooo!
(Eu grito bem.)


Panelas se insurgem contra ele e logo chega a resposta a mim:

– Putaaa!


Por que toda mulher é puta ou vaca, neném?


Não tenho problema com as duas.
Quase grito Puta com Orgulhooo, mas não dá pra ser sutil numa hora dessas, lembra meu filho.


Vou no tradicional:

– Vermee!


Mais panelas por cima dele e a boca do infeliz interrompe a evacuação.