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Em respeito a Deneuve
A atriz francesa, que apoiou Simone de Beauvoir na luta pela legalização do aborto, combate as militantes hollywoodianas contra o assédio. Por quê?

Catherine Deneuve ainda equivale à máxima beleza na imaginação pública. A confusão que causa ao opinar sobre o machismo no cinema é um indicativo nessa direção.
Que grande, difícil poder.
Eis por que talvez ela não o exerça sempre. Dá poucas entrevistas. Não se deixa fotografar com a família, embora ame brincar com os netos, que jamais a chamaram de avó. (Eles adotam um apelido que ela sabiamente se recusa a informar aos jornalistas.)
Nos últimos tempos, contudo, Deneuve tem deixado esse seu estado de paz possível para vir a público defender o diretor Roman Polanski, condenado por estupro de menor (ele não teria conhecimento da idade de sua vítima), e apontar o risco de as atrizes caçarem bruxas quando denunciam seus molestadores em Hollywood.
Ela é Catherine Deneuve. Por que, a esta altura, meter-se em tal confusão?
Tudo parece intrigante quando imaginamos as incontáveis vezes em que deve ter-se visto assediada (embora não pelo diretor polonês). Ao contrário de uma atriz como a americana Tippi Hedren, que responsabilizou o assédio sexual de Alfred Hitchcock pelo fim de sua carreira, ela continuou filmando, mais e sempre, sem se incomodar com os atravessadores.

Deneuve foi mais forte que as outras? Mais talentosa e determinada em sua arte, a ponto de desconsiderar o visível, ilimitado e opressivo poderio masculino no cinema de sua juventude?
É uma grande artista. Diferente a cada filme. Canta e dança, se lhe pedirem, e o faz com prazer. Capta o drama e a comédia com igual intensidade. Se ela aponta para um excesso na campanha hollywoodiana contra os homens, fala do que soube e do que viveu.
Em certa época, na qual sua beleza florescia, os diretores teimavam em fazê-la encenar mulheres frágeis e perturbadas. Alguém pode argumentar que a queriam deste modo porque ela pessoalmente exalava fragilidade. Quem sabe? Mas talvez não seja aconselhável pensar assim.

Fernando Rey e Deneuve em “Tristana”, de Buñuel: diversão em fragilizar a mulher inatingível
Os cineastas, especialmente os desse período, autorais, artísticos, dirigiam sonhos que se transformavam em matéria da vida nos seus filmes. Deneuve representava um enigma aos mestres, em sua vasta maioria, homens. Luis Buñuel, ele mesmo, disse que lhe causava extremo divertimento conduzi-la por ficções que destruíam sua imagem de mulher inatingível.
Muitos dos filmes que Deneuve protagoniza encenam sua submissão. Buñuel a fez frígida e incapacitada, respectivamente em “A Bela da Tarde” e “Tristana”. Polanski a quis psicopata em “Repulsa ao Sexo”. Marco Ferreri praticamente mandou que latisse para Marcello Mastroianni em “La Cagna”. (Me diverti quando li pelo Facebook que o ator batia nela. Sim, mas no filme de Ferreri, meus amores!)
Deneuve encarnava a serenidade intransponível, embora fosse agitada na vida, conforme declaravam os amigos. Mãe exemplar, orgulhosa da amizade que mantinha com os filhos, esteve com o ex-marido Mastroianni nos momentos finais de vida.

Em 2012, declarou ao jornal Daily Mail: “Sou feminista por experiência, não por escolha. Fui feminista desde o início porque nasci em uma família de mulheres, o que tornou tal posicionamento natural. Ao longo dos anos me envolvi em várias causas em favor das mulheres.” Por exemplo, ela assinou o “Manifesto das 343” a favor da legalização do aborto, escrito em 1971 por Simone de Beauvoir.
Novamente, por que então entrar agora na discussão hollywoodiana, liderada por uma entertainer bilionária e não declarada aspirante à presidência dos Estados Unidos?
A resposta talvez seja mais simples do que aparente. E ao se confrontar com as americanas, Deneuve, aos 74 anos, simplesmente defenda exercer o feminismo.
No manifesto que assina junto a 99 artistas, como a escritora Catherine Millet, célebre por narrar suas inúmeras aventuras sexuais, ela repudia a onda reivindicatória porque a vê perigosamente próxima do puritanismo. “O estupro é um crime. Mas a sedução insistente ou desajeitada não é crime, nem a galanteria, uma agressão machista”, diz a carta, que segundo a imprensa francesa encerra um hedonismo feminista. “Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual”.
As feministas francesas insistem que este libelo significa o retrocesso. E são rudes, porque, ao analisar o posicionamento das signatárias, miram em sua idade. “Os porcos e seus/suas aliados/aliadas têm razão de se inquietar. Seu velho mundo está desaparecendo”, argumenta Caroline De Hass.

São diferentes mundos, por certo. Mas por que aquele defendido por Deneuve mereceria menos consideração? Ela grita às mulheres que sejam mais espertas do que vêm sendo e exerçam o discernimento que ela própria teve ao descartar o inaceitável em relacionamentos profissionais. Mas quem consegue agir à moda de Deneuve? Como fazer o que ela fez? Faltou dizer. O que bastou a Deneuve certamente não foi suficiente para outras atrizes no decorrer do tempo. Como cidadã do mundo, ela talvez devesse defender uma regra geral em nome do bem-estar comum.
O manifesto das americanas baseia-se em certo pragmatismo, aspirante a uma sociedade organizada, regulada por leis específicas. O daquelas francesas, meditativo, aspira à prevalência de um certo senso comum, que desconsidera as relações de poder.
Um universo cultural quer prevalecer sobre outro, mas por que não se aproximam? Se seu objetivo é garantir a luta feminista, não deveriam buscar uma pauta comum?
Talvez esta polêmica refine as militâncias e as faça refletir. Os embates feministas, recentes pela história, requerem nossa paciência. Tornar-se mulher não tem fim.
oprah, a lula lá
o discurso de oprah,
como o de lula, é um daqueles
fatos impressionantes
de nosso tempo.
tão atento às ênfases e
às particularidades,
à enumeração dos
problemas e das categorias
profissionais…
um discurso rico, popular, perfeito!
sempre achei
(quero dizer, desde o início)
que os americanos escolheram
obama porque não puderam
optar por um ator melhor…
Ressuscita, Chaplin
Donald Trump.
Ele jamais esperava ganhar a eleição, diz Michael Wolff em “Fogo e Fúria”. O livro, que está pra sair, foi feito a partir de duas centenas de depoimentos de fontes próximas ao presidente dos EUA.
O velho, diz Wolff, queria apenas ter estado muito perto do poder, por calcular que isto daria um up nas suas empresas em baixa.
Não queria o poder político, por não saber do que se tratava.
Melania, a esposa, chorou desesperada na noite da vitória, enquanto Trump, ele mesmo, com o globo nas mãos, virou uma barata tonta resignada a viver fora da Trump Tower.
Ele não queria ou não sabia ler relatórios.
Pediu duas tevês para seu quarto na Casa Branca, enquanto a esposa dormia em outro cômodo. Dormia e chorava.
Trump quis trancar a porta de seu dormitório, mas o serviço secreto lhe disse: melhor não.
O presidente deixou suas camisas no chão, veio a limpeza e as pôs no guarda-roupa. Ele enfureceu-se. Ordem presidencial: o presidente põe as camisas onde quer.
Trump vigia sua velha escova de dentes, porque desconfia que será a arma para seu envenenamento.
Sem nomes pra sugerir aos ministérios, veta os homens que usam bigodes.
Seu chefe de gabinete o descreve como uma criança cujos desejos devem ser adivinhados.
(Tive um patrão igualzinho.)
A filha do presidente, Ivanka, é a única que pode ironizar sua ausência de cabelos e o decorrente penteado do pai. Convenceu Trump a nomeá-la ao governo, mas alguém no gabinete o alertou para uma palavra nova: nepotismo. Jared Kushner, marido de Ivanka, é seu testa-de-ferro. Eles têm todo o poder.
Ivanka sonha em ser a próxima (e primeira) presidenta americana. Ela, não Hillary.
Vamos ressuscitar Charles Chaplin, please?
Horror indistinto
Dois sem-teto estão ao meu lado.
O negro aproxima-se de mim profissionalmente.
Não o vejo chegar ao caixa onde eu pago um sorvete.
E, quando lhe dou dinheiro, todos na padaria riem de mim.
O segundo sem-teto não me vê.
Magro, loiro, barba, cabelos ondulados e longos, olhos azuis que o transformam em uma espécie de Jesus de calendário, ele se ajoelha à volta da igreja São Luiz.
Eu é que me aproximo.
Dou-lhe dinheiro, muito pouco.
Mas não sei se ele quer meu dinheiro ou um milagre.
Dou-lhe dinheiro por não saber o que fazer.
Peço-lhe seu nome.
Não diz.
Não sei se ele quer meu dinheiro ou um milagre.
A voz treme.
Ainda não é uma voz.
Minha boca de mãe
Ando com o amigo e mestre pelo centro quando ele se apieda de uma linda mulher abandonada à rua.
Sentada no chão, ela olha de lado como quem não vê ninguém, exceto a si. Todas as portas abertas à melancolia.
– Vou dar dez reais a ela. Você entrega? – meu amigo diz. Ele é tímido para estes contatos.
– Vamos juntos. – respondo. – Eu tenho mais seis.
Linda, negra, a sem-teto (anos indefiníveis; eu diria quarenta, mas pode ser que não tenha trinta) mal acredita em tanto dinheiro nas mãos.
– É muuuito, muito.
Sorri, meio que chora. Não abaixa a cabeça, contudo:
– Vocês estão me dando isto, mas vou gastar com pinga, tá?
E mostra com orgulho, a seu lado, aquele destilado que já vi rodar em festa na garrafinha de água de plástico.
– Mas você vai comer também? (Me arrependo da pergunta assim que sai da minha boca de mãe.)
Ela sorri.
– Pode gastar com pinga – diz meu mestre.
– Você tem amigos por aqui? Cães? (Pergunto porque quero experimentar o alívio de saber que ela sempre poderá contar com a solidariedade de um rosto.)
– Vou sozinha. Não gosto de ninguém comigo. Sou… perturbante.
Nos despedimos. Meu amigo pede que ela fique bem e eu lhe jogo um beijo.
– Vão felizes, casal mais lindo! – ela diz, quase como se cuidasse de nós.
Rimos. Tudo nela corresponde à tristeza. Não sei o que fazer por alguém tão inteligente que perdeu as esperanças.
Adivinhe quem vem
50 Anos de “Adivinhe quem Vem para Jantar”.
Você sabe quem vem pra jantar?
Os pais do “negro”.
A tensão racial em época de luta pelos direitos civis é a razão do filme teatral de Stanley Kramer, que bem poderia tê-lo rodado em preto&branco, mas, de qualquer modo…
… o filme é feito para Spencer Tracy brilhar.
O ator que Marlon Brando julgava ser o melhor do mundo, a reviver o cinema de um quarto de século atrás.
Spencer Tracy, que reluz em todo espectro de atuação, mas aqui, especialmente, evidencia o mais espinhoso, o humorístico.
Os homens que tudo entendem depois das mulheres.
Katherine Hepburn, atriz luminosa transformada em escada para Tracy.
Que altivez ao desfilar tão horríveis figurinos!
E uma grande entrada para Sidney Poitier, sobre quem nem todas as palavras bastariam.
Animais tristes do cinema
Escrevi este texto em 2012, em minha página no facebook onde tudo é veloz. Eu acabara de ver o filme Era Uma Vez na América, de Sergio Leone, pela inumerável vez, agora ao lado de meus filhos, então com 15 e 14 anos.

Era pouco mais que uma menina quando pela primeira vez assisti a este filme de Sergio Leone. Conheci Era uma Vez na América no momento em que ele chegava aos cinemas, creio, 1983. E o vi a ponto de persegui-lo, talvez porque ele mexesse com o que minha cabeça, ou seria o coração, julgasse estar em jogo na vida à espera. O amor, a hipocrisia, a perda, a solidão, um universo sem pais, sem o sim da família, ao menos o não, nada de escolas, a violência da existência social no confronto direto, a mulher como ocorrência colateral, à sombra. Um mundo em que não se poderia vacilar sob pena da morte, como ocorreu ao menininho no qual atiraram por trás, um pouco à moda da Rita de meu bairro, que o PM matou por ciúme. E nos braços do amigo a criança do filme ainda se desculpou por errar. O menino seria minha amiga morta ou apenas eu?

Um bairro judeu que eu parecia sentir como meu Bexiga, confuso, gritado muito alto e esquecido por deus. O filme me fez andar pela rua do tempo. Acho que fez qualquer um. Sente-se o esgoto, a molhadeira, o frio, em cada estupenda reconstituição de cena coletiva, vista à distância de uma máquina de fotografar que, para não tremer, se põe sobre o tripé no chão. Quanta beleza quando podemos viver dentro de um filme. Corri a ele, em suas quase quatro horas, duas ou três vezes naquele 1983. Não havia cinemax nem conforto nem ar refrescante para que eu pudesse mergulhar em tanta verdade, e eu tinha de pagar ingressos. Mas, sem conforto, é fácil ver.

Melhoradas as salas de cinema para que o cinema em si declinasse, nestes quase trinta anos nunca mais voltei a esta obra de Sergio Leone, cheia de música, a lírica épica orquestrada por Morricone à revelia do filme, como se fosse a única possibilidade ficcional dentro de uma narrativa que é a verdade. Eu embaralhara o filme em minha cabeça, talvez por temer não suportá-lo outra vez. Quatro horas e lá estava a história do mundo. Era uma vez a própria América e eu também era. Sem ser a fã ardorosa de Robert de Niro, mas entendendo que fora estupendo, o truque (hoje esquecido) da maquiagem mínima para envelhecer, andando como um velho, o rosto pelas fechaduras das mentes próximas, as decisões tomadas como quem é um animal triste, um boi, às vezes um touro idiota, a cabeça rumo a pender, eu o entendia como a mim. Uma pessoa sem os princípios doutrinados. Alguém que só tem a si quando age e intui.

Insisti muito que meus filhos vissem o filme comigo. Coisa de mãe inalienável de sua antiguidade. Clube da Luta é sangue conservador, eu lhes dizia, enquanto Era uma Vez na América nascia de quem sangrava antes do tiro. Um dos filhos dormiu. O outro ficou para ver. Nós nos abraçamos no fim. Nós nos abraçamos sempre. Mas é que desta vez, como quase nunca faço, chorei escondida no ombro dele que cresce. Não vou sorrir sob o ópio, como De Niro naquele belo fim. Só vou sorrir, a droga em si.
