Feitio de oração

Mostra de cinema egípcio traz esta narrativa poética sobre o luto, de 2014

A palavra é imprescindível ao cinema. Ela estrutura o drama. Mas um filme não precisa necessariamente de narradores ou diálogos. A ausência da palavra na tela obriga ainda mais à criação de imagens para expressar um sentimento. Se você quer demonstrar que um personagem está distraído de tristeza, pode colocá-lo sentado na polia de um trem antigo, como fez Buster Keaton, e fazê-lo cabisbaixo enquanto o veículo se move. O cinema, por ser mudo, não dispensa o drama, porque cinema é arte dramática em primeiro lugar.

Contudo, pode também ser arte dramática poética, como esta de Karim Hanafy, O PORTÃO DE PARTIDA (2014). É um filme sem diálogos sobre o luto. Sobre a ausência materna incessante. Sem sua mãe, o pretenso narrador perde-se de si mesmo e se funde nela. Intensificado por um silêncio verbal com música, o filme parece existir para que saibamos como se ligam os seres interiormente. E como a existência é um exercício coletivo da memória onírica.

A mãe embarca atravessada pela luz da janela, paramentada pelos vestígios do passado, as pérolas e o vestido de casamento. O filme evoca a história e o tempo por meio de caminhos e portais. E há também o cemitério, aquele vizinho constrangido da morte. As atuações são pungentes, marcadas por vezes pela câmera lenta. A fotografia ensolarada oscila entre o preto e branco e a cor. É um filme, como poderia ser uma oração.

O PORTÃO DE PARTIDA
Diretor: Karim Hanafy
EGITO, 2014, 65 min

Onde
http://www.cinemaegipcio.com/

Comigo sempre

estava comentando com uma amiga:
cancelamento é o que mais aprontam comigo.
porque sou jornalista, historiadora e sou mulher.
e vivo neste amado brasil onde minha condição de ser pensante é um atrevimento.
e, pior que muita gente, não tenho influência empresarial, nem dinheiro, nem nada que me defenda.
mas é preciso pensar uma coisa.
não existe cancelamento pra sempre.
existe debate.
existe o que se é.
e basta esperar.
embora a espera seja difícil, eu a espero sonhando, conforme aconselhou o jorge.
e tudo um dia se resolve, porque a verdade é como a força de uma serpente…
de duas cabeças.

Febeapá com Bey

Não sei se vocês leram o artigo de retratação de Lilia Schwarcz. Não o reproduzo aqui, mas, segundo ela diz ali, escreveu de maneira errônea e irrefletida sobre o pretensamente inadequado luxo hollywoodiano em Beyoncé, razão pela qual se desculpa.

Acontece que li e reli as linhas de Schwarcz e mal pude constatar a ausência de admissão real de um erro. Quem errou, ela diz, e isto parece explícito no artigo, foi o redator que aplicou título e linha fina ao que ela escreveu. Quem errou, ela diz, foi a Folha ao exigir de uma pesquisadora de seu porte um texto tão rápido sobre questão primária. E o erro dela foi sua submissão.

Porque Lilia não é de errar. Porque errando, isto é, achando que saberia escrever sobre um assunto aparentemente banal como este sozinha, sem ouvir seus pares e o movimento negro, estrepou-se. E precisou se desculpar de algum modo com as comunidades que dão sustentação a seu trabalho de historiadora.

Sei bem como são intrínsecas e entrelaçadas as relações dos Schwarcz com a Folha. Interdependência, interligação, nem sei que nome dar aos telefonemas da editora de seu marido para garantir aos jornalistas da casa exclusividade em entrevistas e leituras antecipadas de cópias de livros.

Toda a vida da Cia das Letras está tão estritamente ligada à da Folha que é difícil que eu imagine, apontada sobre a cabeça acadêmica de Lilia, uma arma qualquer empunhada pela ralé jornalística.

Até fantasio que uma bela noite num desses jantares com a direção do jornal ela tenha se animado a lamentar o luxo consumista de Beyoncé e algum presente, no momento de montar a pauta, apenas pediu que a historiadora transcrevesse seu pensamento tão informalmente bem expresso antes.

Alegar irreflexão é um pouco melancólico da parte de Lilia, que vive de refletir, e nos últimos tempos o tem feito de peito aberto, de modo a nos alertar sobre a perda gradual de nossas liberdades sob este regime de milícias. Mas – fico com isto – pelo menos ela provou uma retratação. Ninguém suporta tanto febeapá cotidiano, ademais partido de uma de nossas mais festejadas intelectuais.

Enredar-se

Em 29 de julho de 2017

Sei lá onde isto me coloca.
Ao lado de quem.
Mas a palavra empoderamento me entristece.
Não somente por tornar um equívoco de tradução eternamente visível, esforço canhestro (na melhor hipótese, risonho) de verter ao português uma palavra inglesa.
Sonoramente, este vocábulo, que parece represar todo o vigor, me traz à visão o emparedamento de um cárcere.
O pó de arroz empedrado nos estojos de metal que jamais abrem e nos quais vigora a ferrugem…
Sou muito mais o enredamento de gênero que seu empoeirado poder.

O sonho de Orin

“A Balada de Narayama”, rodado em 1983 por Shohei Imamura, e que
permanece em streaming no Belas Artes À La Carte, devolve-nos os segredos entre a imanência e a transcendência numa vila esquecida do Japão

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Ken Ogata e Sumiko Sakamoto, filho e mãe em A Balada de Narayama

É como se A Balada de Narayama (1983) fosse a caricatura de um paraíso neoliberal. Numa vila onde impera a escassez, todo ser humano, ao completar 70 anos, deve subir a montanha e morrer no topo, em prol da sobrevivência de todos.

Contudo, com este mote, o que o diretor Shohei Imamura discute mesmo é a distância entre o céu e a terra, entre o efêmero, imanente, e o que constitui a transcendência, o eterno.

A matriarca Orin (Sumiko Sakamoto) quer a morte logo. Ela crê que um deus a receberá em Narayama, seu céu. Neste primeiro longa japonês a ganhar Cannes, e nos outros filmes deste diretor, a mulher encarna a força primordial. Ela é a terra. 

Orin precisa resolver o futuro dos filhos antes de partir. Eles têm aspirações como casar, fazer sexo e comer, que ela precisa encaminhar. Suas necessidades terrenas não diferem tanto daquelas dos animais. 

Os homens entoam melodias da tradição local durante o trabalho enquanto serpentes, corujas ou mariposas surgem de modo a alertá-los para a intensidade de viver, para algo profundo (talvez inconsciente) dentro deles.

O efêmero é muito bem descrito neste clássico cinematográfico. Imamura orienta à ferocidade atores excepcionais como Ken Ogata, que percorre paisagens de azul constante.

Mas e a transcendência? 

É a fotografia, extraordinária e transformadora, que parece indicá-la por todo o filme. A montanha está sempre ali, imponente à distância, porém chapada como em um cartão postal. O transcendente é, portanto, uma ilusão fotográfica. Mas, ainda assim, uma imagem poderosa, a alimentar o sonho de eternidade de Orin.

(abaixo, veja a impressionante diversidade de pôsteres para anunciar este filme)

Jogo minhas tranças

estou abrigada, como e durmo bem, o quanto precisar.
sou uma privilegiada até mesmo entre as centenas de habitantes da minha rua, onde justamente agora, no meio da noite, alguns seres humanos caçam os outros, sempre aos gritos, pela calçada.
ouço tudo o que se passa, aqui do alto da torre.
e tenho bons ouvidos.
mas suspeito que não será só esse o barulho a chegar até mim.
depois de setembro tudo isto ficará muito pior.
sem auxílio emergencial, o resto de civilidade que as pessoas ainda exercem será difícil de manter.
hoje passei um dia improdutivo porque descobri ser privilegiada demais por ter um cartão de crédito, esse que uso para fazer as compras durante a pandemia.
e ninguém nunca mais vai deixar isso barato pra mim nem pra ninguém.
os cartões continuarão sendo clonados agressivamente para que os bandidos roubem… carros alugados na localiza, roupas e bonés no mercado da street wear.
estamos perdidos.
é por isso que me afundo nos livros e nos filmes.
suspeito que seria menos devoradora da arte se este país fosse mais feliz.

Um pouco mais distante dos outros

Me emocionei demais com o professor de bicicleta, sob a chuva, entregando as tarefas a seu aluno na periferia pernambucana (leia reportagem aqui). Nunca tive um professor assim.
Durante a infância morávamos no Bixiga, perto das malocas saudosas. Éramos periferia no centro. Estudávamos como bolsistas em um colégio pago porque o Caetano de Campos, a escola pública mais bem reputada da região, não nos aceitou.
Eu sentia uma grande solidariedade em relação aos meus vizinhos. Fiquei muito doente na infância, hepatite, catapora, sarampo, caxumba, rubéola, e faltava às aulas o tempo todo. No período de resguardo, quando eu já estava bem, os amigos vinham me ensinar as lições que eu havia perdido. Me lembro de seus rostinhos corados, de suas pastinhas com papéis. Me sentia viva no mundo, inteira e agradecida a eles.
E tentava fazer o mesmo, sempre, com quem faltava. Meus pais achavam até que era minha obrigação ir até a casa deles para lhes ensinar o que perderam. E eu ia procurá-los feliz.
Até que um dia bati na porta da casa de uma amiga que faltara alguns dias e ela me recebeu assim: “Legal você ter vindo, mas não veio aqui me passar as lições, veio?”
Meu mundo caiu de verdade. Suspeito que pela primeira vez. Tudo em que eu e meus pais acreditávamos era uma balela pra minha amiga. Uma chateação, um motivo de vergonha.
Isto me distanciou um pouco mais dos outros. Soube que seria sozinha nessa vida, sozinha com o que aprendera. E quando vi o lindo professor sob a chuva, foi primeiro nisso que pensei.

Chantal Akerman em filme-sensação

Este longa permanece por tempo indeterminado na plataforma de streaming Mubi, e você não deve perdê-lo. Na resenha a seguir, que fiz a pedido da página “Histórias de Cinema”, explico por quê

loucura de almayer

Stanislas Merhar em “A loucura de Almayer”, de Chantal Akerman, a partir de obra de Joseph Conrad

O que é a dor?

A dor é o que não passa.

Talvez todo o cinema de Chantal Akerman (1950-2015) seja sobre esta constatação. E seu penúltimo filme, “A loucura de Almayer” (2011), baseado em obra de Joseph Conrad, multiplica-a porque a encara literalmente.

Seus longos, intrigantes e muito bem iluminados planos-sequência repentinamente se transformam em um só, fixo, como se fosse vetado à câmera andar, como se ela pesasse mil quilos, como se estivéssemos nos primórdios do cinema e no fim da aventura sobre o palco, o drama do ator.

Este filme é a diretora e seus personagens, os olhos perscrutadores que ela esconde na mata, e a mata: a chuva que se adensa sobre o rio de tal forma que nós, espectadores, também a sintamos. A epítome do filme-sensação.

O protagonista, interpretado por Stanislas Merhar, é um comerciante que imaginou fazer fortuna na Malásia, e na Malásia se afundou, com uma mulher nativa não desejada e uma filha mestiça (a Nina de Aurora Marion) a quem venerou sobre todas as coisas, desejando a ela um futuro europeu. O lugar distante, planejado paraíso, não mudou seu etnocentrismo, seu racismo, sua insensibilidade. Ele sai dessa confusão ainda mais dolorido, ou, como quer Chantal, de fato enlouqueceu de amor.

QI de abelha

Não me emociono se penso que Toller votou no Tolo. Ou deixou o Tolo ganhar. Ou se nada fez para que o Tolo perdesse, até ganhando causa de 200 mil contra Haddad e o PT pelo uso (que ideia mais boba do partido, gente) da canção do QI de Abelha na campanha.

Nana também votou em Bolsonaro. Toquinho também. Djavan também, talvez. Desejo a Nana e a Toquinho toda a felicidade. Djavan está em mim. Vou ouvi-lo sempre, forever and ever.

E Toller, meus amigos, bonita ou não, conservada ou não (todas nós cinquentonas podemos nos orgulhar de nós mesmas neste aspecto, certo?), nunca habitou meu panteão.

Mas se habitou o seu, não ligue pra nada disso. Essas pessoas escrevem e interpretam canções, não necessariamente veem a vida como nós.