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Um dia no museu

Depois de exatos um ano e meio sem ir aos museus, fui ontem a dois. Os avisos sobre a pandemia são tão perceptíveis em cada canto, as pias dos banheiros, interditadas com tamanha fita isolante vermelha a intervalos frequentes, que é impossível esquecer de quem manda sobre nossa impotência, mas eu esqueci. Eu sou uma agitação interna tão grande depois de uma visita ao museu que é como se meu coração parasse por idênticos intervalos isolantes, e a química em minhas mãos para estancar o vírus não me atrapalhasse em nada.

Mário Cravo, eu e a praga do vidro sobre as molduras, no Masp

Deve ter pesado sobre essa intensidade o fato de que passo por uma suspeita ocular e a cada dia sinto necessário ver mais e mais, como se fosse a antepenúltima vez. Gosto de sentir isso, todas as urgências me confortam, porque também se tornam uma desculpa para, em casa, abrir meus livros de fotografia sem uma razão prática, sem um objetivo finito, sem a praga do dinheiro a queimar mais essa luxúria de perceber e sentir, e neles eu mergulho profundamente.

E eu me sinto livre, enfim, porque não gosto de colocar em prática o que vejo e sinto, e porque dificilmente serei compreendida quando exponho minha percepção. Conheço pessoas excelentes a compreender o que escrevo e a pedir um texto meu com alegria, até para sofrer de surpresa, mas, nestes últimos tempos, tenho escrito para gente ruim de novo, povo do dinheiro, dos editais e das assessorias de imprensa (me perdoem vocês, assessores, que não compreendo como aguentam). E me enraiveço ou rio.

Anteontem, por exemplo, uma galerista que desejava aparecer no meu texto informativo mais do que eu julgava ser de merecimento quis me machucar com uma estocada, dizendo que eu escrevera adjetivos. Não liguei. Sei que ela desconhece o significado de um adjetivo. E nunca, nunca mesmo, desde os tempos longínquos de submissão ao manual da Folha, liguei para essa interdição de classe gramatical. O que todo mundo tem contra os adjetivos? E os gerúndios? Leio os pobrezinhos como prêmios, anéis onde se esconde uma pedra vermelha, e luto para assentá-los bem na terra do meu jardim.

Mas isso não é importante. (A propósito, Senhor Democracia reclamava do “mas” em início de frase. “Você escreve bem demais para insistir nessa mania”. E eu ria por dentro, por saber a origem italiana da restrição). Importante é sentir que vivo três vezes mais quando vou aos museus. E aconselho a vocês que vivam também.

Fui ao Masp e percorri novamente tudo. Os moços das curadorias andam atrás do déficit histórico e expõem mais mulheres que antes. O acervo esteve bagunçado pro meu gosto, uma vez que deixaram a espantosa virgem com o menino de Bellini pro fim da viagem. Mas algumas autoras romperam o caminho da identificação nos cavaletes da Lina Bo Bardi, completando a composição no verso da tela, razão pela qual me diverti, doce vingança à necessidade que ela nos impõe de ter de olhar o tempo todo para trás em busca do nome do autor.

“O implacável”, de Maria Martins,
no Masp

Revi Maria Martins e senti o conforto de sua adjetivação. Seres míticos compostos de sentidos. Tormentos que nascem dos ventres de bronze. As figuras do “implacável” e do “impossível”. Que mulher. De Gertrudes Altschul, redescoberta aqui depois de exposição no MoMA (mas é claro), gostei deveras das sobreposições, como se a fotógrafa sonhasse explicitamente, e apreciei ainda mais os rostos raros e graves de seus personagens infantis (enquanto, nas fotos, a autora aparece rindo sempre).

No IMS, novas sobreposições, desta vez inesperadas, porque de Madalena Schwartz sobre Ney Matogrosso, para que seus movimentos não se perdessem. Que aparição representou o Ney no sopro do tempo! Mas o esforço de Madalena (que levava seu cachorrinho nas sessões) para capturá-lo na sua elasticidade expressiva o tornou interessantemente rígido. Os retratos de Madalena são poses estudadas, teatro explícito, e pelos filminhos ali exibidos sabemos que ela irritava os personagens com sua insistência e sua timidez. Alguns retratos de Paz Errázuriz também estão lá, e senti a diferença, a intensidade, a falta de intenção, a dor subjetiva de suas transexuais em comparação com as de Madalena.

Mário Cravo Neto também se expõe no IMS, e é previsivelmente um deslumbre. De Salvador a Nova York e à Dinamarca, captamos aquele seu furor de vida, que, ao contrário do que acontece com a doce Madalena, raramente se congela. Ele era escultor, como o pai, antes de se acidentar, imobilizar-se por um ano e passar a fotografar como gosto e necessidade. Mestre da subexposição com uma razão, a de viver com seus personagens, a de rodar como suas baianas, no caminho de exprimi-los, ele é um pintor também, e suas aquarelas são o que são, movimentos.

Saio do dia do museu como sempre, tentando, sem exatamente conseguir, expressar minha intensidade

Saí do dia do museu como saio sempre, com vontade de perceber o mundo à volta, mas meu telefone sobrecarregado dificultou os registros. De todo modo, contudo, porque a vida continua, eu seria interrompida, razão pela qual não liguei muito pra essa limitação, e sonhei à noite, e continuei feliz.

Diante da beleza

Quando penso em mulher bonita, talvez por eu mesma ser mulher, não me vem a imagem de uma Lupita Nyong’o, com aquela exuberância e nobre perfeição, nem a de uma sensual Scarlett Johansson, embora considere esta uma atriz muito inteligente, a ponto de estar casada com um comediante.

Alguém muito bonita pra mim é como a Chantal Akerman era, com esses olhos translúcidos de paixão e sofreguidão, corajosa e doce ao mesmo tempo, ousada em expor o ritmo da vida e das paisagens, além daquilo tudo que se passa dentro de nós mulheres comuns e explode em gestos de apreensão e demora.

“O diretor nu”, uma das melhores coisas que a Netflix tem para nós

A mulher que sou aconselha os leitores que tenho a acompanhar esta encenação da trajetória de um diretor pornô

Takayuki Yamada vive Toru Muranishi em “O Diretor Nu”

Meu blog, meus problemas.

Tive sempre muitos deles ao escrever sobre cinema na valorosa imprensa deste grande país.

Meu principal, talvez único obstáculo na direção desse intuito, foi mesmo ser mulher. Eterna fonte de contraditório, paradoxo e energias ruins, minha expressão nessa área jamais se viu autorizada por ninguém. E não fui a única interrompida, claro. É fácil contar quantas mulheres receberam admissão nesse círculo em tantas décadas de ofício nacional. Enquanto os homens o percorreram infinitamente.

E talvez porque quase não houvesse espaço para uma sensibilidade, diga-se assim, feminina e sutil de escrita sobre o cinema, tratava-se no fim de uma condição vetada a nós. Como se ser mulher não dialogasse com a criação, a linguagem cinematográfica, com sua invenção. Elas eram tão boas montadoras, excelentes produtoras, figurinistas e fofoqueiras de Hollywood! Mas críticas de cinema? Que exagero, gente. Só faltava quererem dirigir filmes…

Ainda assim, sempre que pude, enquanto jornalista cultural, escrevi sobre o assunto. E nunca temi dizer o que pensava. Mas sofri. Escorraçada pelo meio, pelos próprios colegas, jogada num canto da sala, como se meus comentários sofressem de uma espécie indesejada de exotismo, fui seguindo, como sempre, distraída para a exclusão.

Voilà, isto tudo passou. Mas só porque não escrevo mais para a imprensa. Pesquisei o assunto no meu mestrado e doutorado. Escrevo aqui. Escrevo pra vocês. Escrevo pra mim. É muito melhor assim.

O diretor Toru Muranishi, que inspirou a série, e suas atrizes

E tudo isso só pra introduzir que o melhor da netflix, por exemplo, vou dizer eu sozinha por aqui. O melhor pra mim é algo como a série japonesa “O Diretor Nu”, que espetaculariza a trajetória de Toru Muranoshi, de 73 anos, um diretor pornô a ter revolucionado a indústria a partir do VHS com a câmera na mão, a abertura a novas abordagens, o desafio a vender suas ideias e se ver, adivinhe só? Interrompido em todas as áreas, da polícia à máfia, dos bancos às empresas.

Amei a série porque ela não romantiza nada. Ou, pelo menos, não o essencial. Fazer qualquer cinema de verdade é mesmo uma questão de vida ou morte, dizem os roteiristas de “O Diretor Nu” (dez ao todo). É arriscar-se não só com a yakuza, mas com seus amores no cotidiano, sua liberdade de ir e vir, o próprio direito de exercer a felicidade. E é também errar bastante, especialmente com as mulheres que se dedicam a você.

Com Yuri Tsunematsu

As coisas nesta série em duas temporadas são muito bem feitas desde a interpretação de grandes atores e cômicos, a direção de arte, a fotografia funcional brilhante, o figurino de época, a trilha pop livre de compromisso histórico, até os ângulos e paisagens. “O Diretor Nu” não aborrece, antes diverte, tensiona, ridiculariza o próprio meio, o país, sua polícia corrompida. Tem drama, humor, exagero, ritmo, tudo na tradição de excelência japonesa.

Se eu pudesse dar um conselho aos loucos por “Breaking Bad”, diria que olhassem na direção Leste…

O DIRETOR NU (2019-2020)

Diretores: Masaharu Take, Hayato Kawai, Kôtarô Gotô e Eiji Uchida.

Elenco: Takayuki Yamada (Toru Muranishi), Shinnosuke Mitsushima (Toshi), Misato Morita (Kuroki), Yuri Tsunematsu (Mariko Nogi) e outros.

Netflix, duas temporadas.

Ora direis

Ah pronto.

Agora não podemos manifestar solidariedade às mulheres afegãs porque elas podem ter “agenda própria” e será “pretensão demasiada” condenar o talibã já que temos nós mesmos nossos talibãs.

Gente.

Ouvi isto de uma mulher.

O que diriam Simone e Sartre de coisa semelhante, eles que viajaram o mundo para se solidarizar com as causas internacionais, com Che Guevara & bela companhia?

Simone e Sartre, intrusos imperialistas.

Billy Porter, o avião-elevador e eu

Sonhei que minha máscara diminuía, escorregava e aos poucos não cabia mais no meu rosto. Mas eu continuava andando assim mesmo, porque estava atrasada pra trabalhar. Como de uso, nos meus sonhos recentes, ninguém na rua via necessidade de se proteger, descobertos e felizes.

Eu chegava ao prédio do trabalho e entrava num elevador que era como uma ampla área de primeira classe numa aeronave. Me sentava numa poltrona do corredor. Ao meu lado, um jovem assistia a um filme erótico sem se importar com minha presença. Eu não saía da poltrona porque estava muito cansada e não havia outros assentos vagos. Mas me encostava no lado oposto dele, distanciando-me do rapaz, pra ver os rostos de quem ocupava o grande elevador/avião.

Em um dos assentos da frente, sentado no braço da poltrona, estava o Billy Porter, de “Pose”, vestido de branco com um véu de noiva, ao lado de Mos Def, vestido tranquilo. Eu queria me aproximar para pedir um autógrafo ao Billy – mas, se fosse até lá, essa não seria eu.

O sexto andar nunca chegava. Eu estaria presa nesse elevador? Billy Porter reclamava de fome.

Quando finalmente o elevador chegou ao meu andar, as portas se abriam para um estacionamento labiríntico. Eu descia nele mesmo assim e só encontrava a entrada porque sabia de um importante sinal à porta, a estátua brilhante de um orixá indefinível.

O lugar onde eu trabalhava era uma redação indiferente e praticamente vazia. E eu me perguntava por que correra tanto, enfim, e principalmente por que saíra do elevador sem o autógrafo do Billy.

Sem “xadrez político”, por favor

Na escola, desde pequena, vi alunas se apaixonarem pelo professor.

Seriamente.

Mas eu nunca consegui.

Em geral, professores não me falavam nada pessoalmente. Permaneciam lá longe, inalcançáveis. E eu não era muito de professor, pra ser bem franca… Meu melhor professor era a Biblioteca Mário de Andrade.

Até que apareceu meu mestre de fotografia da faculdade.

E, muitos anos depois, meu orientador no mestrado e no doutorado.

Eles sabiam bem mais, pra não dizer tudo daquilo que eu jamais sonharia saber. Com todos os defeitos, com sua humanidade, dividiam um pouco de seu saber comigo, eu, esta pessoa torta.

Neles eu penso quando sei que as meninas do Afeganistão perderam essa chance de vivenciar a escola, para não falar de outras coisas ainda mais sérias que deixaram ou deixarão de fazer e ser.

Não tem “xadrez político” que abrande isso. E nunca houve motivo para “comemorar”.

Orwell faz falta

Passos da novilíngua neste novo Ministério da Verdade.

Primeiramente intitula-se derrotada a destruição bem-sucedida de um país por uma ocupação de 20 anos, precedida da formação de uma milícia de extrema-direita que manteve acesa a corrupção, a sevícia e a morte de homens e mulheres em prol de um xadrez geopolítico.

Depois intitula-se libertária a ação desse grupo de extrema-direita criado pelo invasor que já havia anunciado sua saída derrotada.

E agora é “governo que respeita a liberdade da mulher dentro da lei muçulmana” a milícia de extrema-direita instalada no poder sem eleição, que não vislumbra pagar por seus crimes e que precisa urgentemente governar para alguém com o dinheiro de todos, até das ainda incrédulas potências europeias.

Pena não aparecer um novo Orwell para pensar nossa história. Mas considerando tudo o que ele sofreu para manter o pensamento livre, tal vazio não é de surpreender.

Seria cômico

Como pode ser, para além de todo o absurdo, visto que se trata da demolição das condições feminina, educacional, sanitária, financeira e cultural de um povo, que um partido autoproclamado da causa operária aplauda o golpe patrocinado por organização evidentemente reacionária sobre um país em eterna reconstrução? Por que comemorar a “derrota” estadunidense se quem vence é o terror? Quando os senhores deixaram de usar suas cabeças para o propósito do pensamento? Expliquem-se, por favor, nós aguardamos por aqui.

Elsa Morante defende sua visão de arte e literatura em ensaios que chegam ao Brasil

A seguir, a resenha que escrevi sobre o livro de ensaios “Pró ou Contra a Bomba Atômica”, publicado no suplemento Aliás, do Estadão, em 8 de agosto de 2021

O novo não envelhece. É aquilo de bom e moderno que, segundo a escritora Elsa Morante (1912-1985), está adormecido na eternidade e deve ressurgir para o combate quando solicitado pelo presente. Para esta romana de ascendência judaica, autora dos clássicos literários La Storia e A Ilha de Arturo, somente com os olhos novos será possível desfazer a insistência humana em patrocinar a própria desintegração. Ela prega a sobrevivência desse ser pleno em 13 ensaios que, produzidos entre 1950 e 1985, foram publicados dois anos após sua morte na coletânea Pró ou Contra a Bomba Atômica, agora disponível no Brasil pela editora Âyiné, com tradução de Davi Pessoa.

Morante foi casada com o escritor Alberto Moravia entre 1941 e 1961, período no qual desenvolveu amizade com o poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini. Para o diretor, atuou como a prisioneira Lisa no filme Desajuste Social (Accattone), de 1961, e junto a ele lutou contra a destruição da tradição popular na Itália do pós-guerra. Eram os três amigos, de certa maneira, representantes da “força do passado” que Pasolini se orgulhava em encarnar.

Havia nesses intelectuais o entendimento de que o que estava enraizado no país, sua tradição cultural, não deveria sucumbir à uniformidade pregada pelos novos tempos de ‘boom’ econômico, em que se destacavam a prática de sonegação fiscal e o surgimento de um italiano médio sem escrúpulos. Eles raciocinavam que a burguesia igualava todos os habitantes do país pelo consumo, destruindo com isso as diferenças de origem, a alegria, o erotismo. Tais monstros burgueses produzidos “pelo sono da razão”, numa paráfrase a Francisco Goya, deveriam ser combatidos pela arte em prol de uma beleza original.

Ensaísta especialíssima, para quem o sublime equivalia a um sentimento religioso, Morante usa seus recursos ficcionais de modo a refletir sobre o caos que drenou o frescor de toda a sociedade, mesmo sabendo que alguns dos conceitos por ela defendidos, como a beleza, perdiam prestígio na reflexão artística de então. Para ela, os opositores que a difamavam como conservadora eram maus críticos, novidadeiros, “escreventes” em lugar de escritores, e não traziam para a arte a essência da renovação. Entre os anos 1950 e 1960, ainda vingava a ideia de que um bom literato deveria submeter-se a cânones “neorrealistas” de engajamento, enquanto Morante julgava ser preciso acordar o ideal clássico e criar um novo Ressurgimento, este sim capaz de reconduzir a vida social à multiplicidade.

Seus ensaios não praticam isenção. Antes, produzidos em tempos de crise, a refletem. E seu ponto de vista crítico é quase geométrico. Para ela, a arte deve ser nítida como as composições renascentistas: “O informe é o contrário da poesia, assim como é o contrário da vida, uma vez que a poesia, do mesmo modo que a vida (e a coisa soa muito comum para ser dita!), deseja realmente dar uma forma e uma ordem absoluta aos objetos do universo, tirando-os do informe e da desordem, isto é, da morte”, escreve em O Poeta de Toda a Vida, em homenagem ao escritor Umberto Saba.

Para afinar a leitura desses textos escritos em linguagem direta, é preciso entender que a autora, enquanto cobra a existência social múltipla, quer da arte uma função unificadora. Por exemplo, em relação ao romance, ela acredita que não deve ser restrito à medida de um gênero literário fixado por convenções acadêmicas. “O gosto de inventar a história inexaurível da vida é uma disposição humana natural, comum a todas as épocas e a todos os países (até mesmo as lendas mitológicas e populares são uma espécie de romance coletivo). O romance em prosa, que prevaleceu (embora não exclusivamente) do século 17 em diante, não é nada mais que o sucessor direto do poema narrativo.” Ela lamenta que, segundo a ideia corrente, mereça o título de romance qualquer narrativa em prosa com peso não inferior a cem gramas. “Qualquer um que tenha preenchido trezentas páginas com fofocas ou alongado até a página trezentos uma novelinha agradável presume-se autor de romance.” Morante vê o romancista como alguém além dessas medidas, diverso do tipo que hoje vingou, autoficcional. “Ao romancista (como a qualquer outro artista) não basta a experiência contingente de sua aventura. Sua exploração precisa se transmutar num valor para o mundo: a realidade corruptível precisa ser transformada por ele numa verdade poética incorruptível. Essa é a única razão da arte, e esse é seu realismo necessário.”

Para Beato Fra Angelico (1395-1455) vão suas palavras mais ternas. O pintor italiano de afrescos com temas bíblicos equivale a um ideal artístico, visto que representou o Renascimento inicial. Um homem que se apaixonou pela luz e a entregou a quem merecia: “Para aqueles que não conhecem a verdadeira, íntima alquimia da luz, as minas terrestres são o lugar do tesouro escondido. E, assim, para a exaltação de seus olhos ignorantes, esse pintor da ordem dos mendigos constrói para a mãe e para a criança, como se fossem dois ídolos, tronos de ouro, quartos ostentados por ouro, pisos de mármore, tapetes orientais.”

A prosa ensaística de Morante tem verve deliciosa e também humor. Para ela, o gato siamês deveria ser coroado rei dos animais. “Estamos certos de que esse título não fará com que ele perca sua discrição natural e sua afabilidade. De fato, como não comeu o fruto da ciência do bem e do mal, ele dá menor importância ao título de rei do que a um peixinho; e jamais empinará sua cabeça.” Também louva a praça Navona, em Roma, por não ser perfeita, ao contrário de suas irmãs, “muito bonitas para que alguém tenha a petulância de ir ali simplesmente tomar um café”.

Contudo, lamenta que os bailes, antes feitos para mirar o céu nos lustres dos salões, evocando ascensão e eminência, agora mirem sob o chão. “Jerônimo Savonarola, para persuadir a austeridade do costume, não poderia inventar meio mais oportuno do que aquele de nossos contemporâneos, os quais imitam, por prazer mundano, o estilo do inferno. Hoje, vamos aos bailes em subsolos magníficos de teto baixo, nos quais o som ensurdecedor exprime furor, agitacão ou sonolência angustiante. Sobre a pista de dança são projetadas luzes de um vermelho sanguíneo ou de um amarelo sulfúreo. E as figuras que dançam parecem fazer referência ao choque das almas culpadas e atormentadas.”

Morante não perdoava nada dos burgueses, nem mesmo um alegado despojamento. “Ó Austeridade, quantos pecados foram cometidos em seu nome!”, exclama no ensaio Defesa de Certa Frivolidade no Hábito Viril contra os Perigos da Austeridade. Segundo ela, os ditadores e os homens de Estado exercem a “leveza rústica” do mesmo modo que os “camisas negras” italianos se tornaram sinônimo de fascismo ao adotar o ‘orbace’, tecido de lã tingido sempre de cor neutra, cinza ou preto. “Leviano quem procura a sobriedade também na gravata!”, escreve. “Façam-na com bordado, renda, cetim e arminho; pintem-na florida e com alguma espécie de surpresa, decorem-na com plumas e fios de ouro e prata. Nenhuma outra será tão audaz. A gravata é a última ponte entre o homem e a fantasia; é o último fosso entre ele e a barbárie.”

Se se ocupassem de suas vestes com mais imaginação, os homens valorizariam a vida de outro modo? Certamente, ela imagina, não teriam pensado na explosão atômica como uma ameaça constante a dividir o mundo. “As famosas bombas são orcas que se encontram dormindo nos bairros mais protegidos da América, da Ásia e da Europa, preservadas, defendidas e mantidas no ócio como se estivessem num harém dos totalitários, dos democráticos e de todos; elas, nosso tesouro atômico mundial, não são a causa potencial da desintegração, mas a manifestação necessária desse desastre já ativo em nossa consciência.” Eis por que, a seu ver, a arte não cabe nos regimes totalitários: sua razão de existir é integrar, não separar: “A arte é o contrário da desintegração. E por quê? Simplesmente porque a razão da arte, sua justificação, seu único motivo de presença e sobrevivência, ou, caso se prefira, sua função, é exatamente a seguinte: impedir a desintegração da consciência humana.”

Como a arte poderia combater a pandemia narcísica?

*ROSANE PAVAM É JORNALISTA, PESQUISADORA E AUTORA DE ‘O SONHO INTACTO’ E ‘O CINEASTA HISTORIADOR’