Kubrick, ou quando o irracional explode

Documentário sobre o diretor presente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo explora as entrevistas concedidas pelo artista ao crítico Michel Ciment e o material de arquivo em torno de sua produção de 40 anos

Com Malcolm McDowell durante as filmagens de “Laranja Mecânica”, 1971

Por quarenta anos e 13 filmes, a carreira do diretor estadunidense Stanley Kubrick foi tida como a melhor possível entre as dos artistas viventes, como sugere este documentário dirigido pelo francês Grégory Monro. Fizesse ele um filme sobre a guerra e seria, se não o mais visto, o melhor de todos os tempos. Assim também ocorreria com todo o novelo que o artista desfiasse sobre o desejo, a história, a ficção científica, o terror. No fim das contas, Kubrick não exerceria um gênero, mas radicalmente a si mesmo, em busca de precisão existencial para seus filmes.

O crítico francês Michel Ciment: 30 anos de entrevistas

Quando as palavras do crítico Michel Ciment pousaram sobre ele na revista Positif, o diretor encantou-se. Decidiu então conceder-lhe entrevistas por 30 anos, detalhando seus ímpetos e intenções, até que a conclusão sobre a obra do artista pudesse ser descrita pelo crítico. Para Ciment, todas as tramas do cineasta parecem ocorrer numa época de grande cultura e racionalidade, até que, de repente, o irracional explode.

Na residência londrina a 15km das locações, o próprio diretor montava seus filmes

O filme usa as gravações feitas por Ciment em três décadas e os arquivos mantidos pela família do diretor, morto aos 70 anos, em 1999, enquanto realizava “De olhos bem fechados”. Seu trabalho como fotojornalista na revista Look, que o ajudou a tratar com originalidade a composição e a luz no cinema, é exemplificado numa passagem. Sua atividade como baterista de jazz, que lhe trouxe um sentido rítmico na direção e na montagem das cenas, aparece como informação surpreendente. Não raro eram as filmagens realizadas em cenários a 15km de sua residência inglesa, onde vivia com a mulher e as filhas e onde também mantinha os equipamentos para editar seus filmes.

Kubrick com Hardt Kruger e Ryan O’ Neal em “Barry Lyndon”, 1975:
a luz das velas era a única iluminação

O mais intrigante parece ter sido sua obsessão ao filmar. Trinta e oito tomadas até que Sterling Hayden mostrasse terror em seus olhos, mais outras tantas para o furor de Jack Nicholson surgir naturalmente…

Kubrick gostava de se comparar a Napoleão Bonaparte, um estrategista do ritmo da batalha no set. Muitos poderiam tê-lo acusado de perfeccionismo, mas, como lembra Malcolm McDowell, Kubrick de nada sabia, muito menos onde colocar a câmera, até chegar o dia de filmar. E, se gostasse do ator, incorporaria suas ideias e se orientaria a partir delas, como aconteceu com ele próprio, que decidiu cantar “Singin’ in the rain” numa sequência de estupro de “Laranja Mecânica”, ou com Peter Sellers, que em “Doutor Fantástico” decidiu manter incontrolável o braço direito, esticado ao bel-prazer para a saudação nazista.

O braço direito que se levanta involuntariamente para a saudação nazista:
uma ideia de Peter Sellers que Kubrick incorporou em “Dr. Fantástico”

KUBRICK POR KUBRICK é um documentário tradicional, que não renova depoimentos, mantendo apenas aqueles colhidos no passado. Aliados às falas do próprio artista, compõem uma crítica estática em relação a esta importante obra que o tempo se encarrega de continuamente movimentar.

Onde colocar a câmera, um mistério que Kubrick só resolvia no set

Kubrick por Kubrick (Kubrick Par Kubrick)

Dir. Grégory Monro

França

2020

72 min

https://mostraplay.mostra.org/film/kubrick-por-kubrick/https://mostraplay.mostra.org/film/kubrick-por-kubrick/

Eleanor Marx, a saga e o rock

No longa em exibição na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a filha mais nova do pensador alemão tem a trágica trajetória narrada pela cineasta italiana Susanna Nicchiarelli

Romola Garai interpreta Eleanor, filha caçula de Marx e socialista dedicada à obra do pai

Antes de sua morte em 1883, aos 65 anos, Karl Marx assistiu ao perecer de cinco de seus familiares mais íntimos, quatro filhos e a mulher Jenny. Foi um marido apaixonado e um pai tão bom para todos que, enquanto se concentrava para a escrita de “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, por vezes interrompeu o trabalho e se atrelou, como um cavalo, a uma fila de cadeiras de pés quebrados. Atrás dele, os filhos usavam sobre suas costas um chicote imaginário, e assim ele fazia a carruagem andar.

Patrick Kennedy vive Edward Aveling, militante marxista que significou a ruína para Eleanor

Eleanor, a Tussy, era a filha mais nova a puxar pelo pai. Estudiosa de sua obra, ela inicialmente, como a irmã Jennychen, desejou os palcos, mas o pai a proibiu de ser atriz. Suas filhas, preocupava-se Marx, deveriam casar-se bem para evitar a miséria e a exclusão social. Ainda assim, elas prosseguiram a pensar, traduzir e ler. Nascida na Inglaterra, Eleanora formulou parâmetros para a ação libertária feminina dentro da Liga Socialista. Mas, no meio disso, uniu-se ao eminente militante marxista britânico Edward Aveling, um mulherengo e perdulário que foi sua ruína. Suicidou-se aos 43 anos, da mesma forma que a irmã Laura, morta junto ao marido Paul Lafargue.

Eleanor em foto de 1871, aos 16 anos
A eletrizante biografia da família Marx, aqui publicada em 2013


MISS MARX, longa-metragem da italiana Susana Nicchiarelli, parece sabedor das informações apontadas neste texto, muitas delas organizadas na eletrizante biografia familiar “Amor e Capital”, de Mary Gabriel (Zahar, 2013). Mas as utiliza displicentemente, como se falasse apenas aos marxistas sabedores dos bastidores históricos. O filme sofre de mimetizar a ousadia de Sofia Coppola, que um dia transformou Maria Antonieta em uma figura hollywoodiana sobre os tênis do presente.

Susanna Nicchiarelli, a diretora de Miss Marx

Eis que Nicchiarelli se sente livre, depois de Sofia, para afogar o desespero de Eleanora no bom punk do Downtown Boys. Seu filme tem uma fotografia de qualidade, como se ela trouxesse a nossos corpos a umidade londrina, a se espalhar por tecidos, casacos e tapetes entre o verde e o vermelho. De resto, contudo, MISS MARX é uma oportunidade perdida.

Um punk dos Downtown Boys para a triste Eleanor desabafar

Miss Marx (Miss Marx)

Dir.: Susanna Nicchiarelli

Itália, Bélgica

2020

107 min

https://mostraplay.mostra.org/search.html?q=miss+marx

Chechênia, onde matar gays virou obrigação de família

Filme de David France na Mostra Internacional em São Paulo retrata uma dor em andamento. Na república ao sul da Rússia, os homossexuais são reprimidos sem que nada seja feito para impedir a ação policial fora de ordem

Maxim Lapunov e o namorado Bogdan: fuga e afirmação

Welcome to Chechnya é o retrato de uma grande dor em andamento. Na Chechênia, república ao sul da Rússia liderada por um certo Ramsan Kadyrov, fantoche barba-ruiva de Vladimir Putin, os gays são localizados pela polícia, espancados, presos, torturados e mortos sem que nada seja feito para reprimir uma autoridade francamente fora de ordem e vil. 

O líder Ramsan Kadyrov, que com a ajuda de Putin fecha os olhos ao massacre de jovens

Mais. Embora se trate de um país laico, uma maioria populacional muçulmana tem ditado as regras de existência. Quase certamente, ao receber em casa os torturados, as famílias terminarão o serviço iniciado por esses policiais, a seu conselho. Simplesmente matarão os parentes homossexuais feridos – e o filme chega a mostrar uma câmera de rua no momento em que alguém joga uma grande pedra sobre o corpo tirado de um camburão.

O ativista David Isteev, que coordena as fugas dos perseguidos a Moscou

Contudo, não foi sempre assim, conforme diz o ativista David Isteev, coordenador responsável por Crises na organização Rede LGBT Russa. Isteev recebe as ligações de jovens em desespero e encaminha sua fuga para um abrigo em Moscou, até que os refugiados encontrem passaporte para viver em outros países associados à organização não-governamental, como Bélgica ou Canadá. (Foram 151 os repatriados em dois anos de atividade da organização, enquanto nem Rússia nem os Estados Unidos de Trump aceitam acolher chechenos homossexuais).

No abrigo em Moscou, a espera constante por asilo

O trabalho de Isteev, assim como o de Olga Baranova, diretora do centro comunitário para Iniciativas LGBT em Moscou, fez-se necessário ou imprescindível desde que, em março de 2017, uma batida da polícia chechena localizou drogas com dois contraventores. No celular de um deles, os policiais encontraram mensagens e fotos de sexo explícito gay. Os traficantes foram torturados para que delatassem mais dez de seus colegas homossexuais. E, a partir da coerção à delação, que se transformou em hábito no país, o número de perseguidos, torturados e mortos aumentou exponencialmente.

Gisha, pseudônimo de Maxim Lapunov, torna-se protagonista do filme. De início, o diretor lhe aplica um recurso adotado para todos os personagens sob risco: altera digitalmente seu rosto. Gisha nem checheno é. Foi à região para trabalhar, mas, detectado como gay, viu-se preso por um ano numa cadeia onde a tortura era rotineira. Solto e de volta a sua Rússia, prosseguiu caçado e as ameaças se estenderam a sua família – mãe, irmã e sobrinhos que se recusaram a patrocinar sua eliminação. Eles vão penar para encontrar lugar. “Sabe do que fugimos?”, considera sua mãe. “Não de um país, mas de um povo que, ao ganhar poder, começa a abusar dele.”

Mulheres homossexuais como Anya estão sujeitas à violência constante

Mais do que Gisha, o filme materializa a dificuldade em amparar as mulheres homossexuais. Elas vivem já cerceadas, escondidas em casa. Detectada sua sexualidade, sofrem torturas e abusos violentos. Foi o que aconteceu com Anya, uma jovem rica de 17 anos chantageada pelo tio: ou transava com ele ou ele a delataria ao pai, que certamente decidiria matá-la. Isteev a acolhe depois de uma complicada operação para enganar sua família, mas as coisas não correrão como imaginadas em prol de sua libertação.

Um filme sem fotografia especial, com o fôlego, a apreensão e o coração de uma transmissão televisiva. Um filme a pedir ajuda, desesperadamente.

Welcome to Chechnya (Welcome To Chechnya)

Dir.: David France

EUA, 2020

107 min

https://mostraplay.mostra.org/film/welcome-to-chechnya/

Uma resposta mexicana para os bacuraus

“Nova Ordem”, em cartaz até a meia-noite de hoje na Mostra Internacional,
é o avesso dessas fantasias revolucionárias que inundaram o cinema recente. Nele, um enxame de realidade adentra em nós. Uma velha ordem, crudelíssima, se vê reimposta diante de nossos corações aos pulos

No centro da ação, a coisificação do sequestro

Acompanhe esta receita cinematográfica.

Imagine Bacurau concebido por Francesco Rosi ou Costa-Gavras nos anos 1970, com seu perfeito timing para multidões, acrescido de toques do terror giallo de Sergio Corbucci, mas sem o humor ou o cinismo do Reality Z de Claudio Torres na netflix.

Imagine mais. Um filme sempre sério, sem investigação psicológica e com fotografia sólida, um belo contraste de cores primárias.

Você estará perto de entender Nova Ordem, de Michel Franco, diretor de 41 anos que apareceu para o público da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em 2015, com o ótimo e amargo Chronic.

Para inserir a Louis Vuitton no caos selvagem

Tudo neste seu novo longa-metragem é violento, frio e verdadeiro, como infelizmente o mundo em que vivemos. Ainda assim, algo nos escapa no filme. A rapidez com que a realidade se desfigura na trama, talvez. Os olhos permanentes do caos. Os sinais da cruz risonhos antes de um roubo de joias ou de um fuzilamento.

Uma doméstica, um sinal da cruz, um roubo, um sorriso

É uma ficção científico-política que responde com furor frio a qualquer arrefecimento da percepção de desigualdade na América Latina e também a qualquer ilusão de fortaleza entre os vencidos, em contramão direta ao que o brasileiro Kleber Mendonça concebeu com seu sucesso de crítica, de público e de tapete vermelho.

Nova Ordem é o avesso disso tudo. Um enxame de realidade adentra em nós. Uma velha ordem, crudelíssima, se vê reimposta diante de nossos corações aos pulos.

Na festa de casamento, o regabofe do trigal loiro

O filme desenvolve-se durante uma festa de casamento em Pedregal, bairro assemelhado ao Jardim Europa das mansões paulistanas, na capital do México. E, com todas as armas do suspense e do terror, muito bem ritmadas dentro do filme, vamos conhecendo o trigal loiro dos burgueses arrogantes que celebram enquanto se anuncia o submundo sem trégua dos oprimidos de origem indígena que lhes servem. São universos incomunicáveis, que se tocam pela má educação e pelas más palavras.

Verde é a cor das pixações dos manifestantes. Verde serve para marcar um território e isolar os burgueses, coisificando-os como mercadorias em um rentável jogo de sequestro. De verde serão manchados igualmente os oprimidos. Verdes são oliveiras, mas também exércitos. 

Um novo tom preponderante para os bens da arte

Quanto sangue você tem? Quanto sangue você vale?

Isto nunca se saberá ao certo nesta obra que exemplifica magistralmente como tudo muda, nos sistemas da desigualdade, para que tudo permaneça como está.

Um mundo fechado para nós que somos ricos

Nova Ordem (Nuevo Orden)
Dir. Michel Franco

México, França

88 min

2020

https://mostraplay.mostra.org/film/nova-ordem/

 da 0h01 às 23h59 do dia 23 de outubro

Um sonho ruim

Em “Elegia de Osaka”, o diretor Kenji Mizoguchi olha nos olhos da mulher

Isuzu Yamada como Ayako no esfumaçado “Elegia de Osaka”, 1936

À moda de um cabo USB gasto, eu talvez tenha tardado a ligar algumas baterias do cinema, nem sempre acesas para Kenji Mizoguchi (1898-1956). No passado, os contos da lua ainda pareciam por demais vagos à jovem que eu era, ansiosa pelo presente. Que difícil assistir a seus filmes sobre o Japão antigo enquanto aquele Ozu dos relativamente recentes anos 1960 sentava-se à minha mesa baixa, servia-me o chá e me dava bom dia em pedra pomes, todos os dias…

O cinema japonês me enchia de respostas, e eu não lia, nele, preciosas interrogativas. Infortúnio de quem consome a todo instante a própria juventude: ou esse cinema espelhava meu momento, e tive tantos fincados na adolescência, ou ele pouco me serviria à vida, à minha formação de lacunas.

Recentemente, contudo, ao contrário de 30 anos antes, tenho me visto boquiaberta com Mizoguchi. O apreço do diretor pela mulher como um emblema de renovação, contra todos os sinais do fascismo, deve ter sido vital para que Shohei Imamura, por exemplo, construísse nos anos 1970 alegóricas narrativas sobre a figura feminina, tornando-a a terra, a base, o chão em que o japonês pisa. Mizoguchi começou tudo isso sendo um interrogador direto das opressões encobertas à véspera da Segunda Guerra, numa encenação avançada, realista, promovida dez anos antes dos neorrealistas.

Estrito, geométrico, esfumaçado como um sonho ruim, seu “Elegia de Osaka”, de 1936, a que acabo de assistir em DVD (O Cinema de Mizoguchi vol.2, da Versátil), é uma explosão miraculosa, a começar pela primeira sequência, quando o letreiro iluminado da noite urbana lentamente se apaga ao chegar o dia – e o espetáculo inventivo de luz desemboca na aurora cinza. Somente esta abertura, ao aludir à distopia, bastaria para pressentir o ocaso a aguardar aquela Osaka pulsante, ocidentalizada, miserável, moderna.

A história, que transcorre por ruas reais da cidade, seu metrô e seus conjuntos habitacionais, gira em torno de Ayako (pela brilhante Isuzu Yamada), telefonista de indústria farmacêutica à mercê do jogo masculino. O pai, que cometeu uma falcatrua, apoia-se no seu trabalho e espera poder melhorar de vida quando o filho, a quem a família sustenta, se formar na universidade. E o presidente da empresa onde Ayako trabalha, que a assedia para fugir da mulher (esta curiosamente ocupada em dirigir uma associação feminina), vai lhe abrigar numa garçonnière. Ela contudo insistirá em ser transparente e altiva, comportamentos que a sociedade tornará vizinhos da delinquência.

Um teatro de bonecos
para evocar o real

Ah, esse Japão tão sofrido, traduzido em um momento do filme por um teatro de bonecos… A clareza com que tudo é dito em planos que tudo abarcam, mesmo antes de a profundidade de campo surgir!

O que será de nós se a história não puder ser contada pelos filmes? 

ELEGIA DE OSAKA

Dir.: Kenji Mizoguchi

1936

No dvd “O Cinema de Mizoguchi vol 2” (Versátil)

“A Câmera de Claire”, um naïf intrigante

“A Câmera de Claire”, disponível gratuitamente online até o dia 31 de outubro, dentro da Mostra Cinema e Reflexão, caminha para desdobrar sentidos em uma mis-en-scène quase anticinematográfica

Isabelle Huppert e Kim Minhee em “A Câmera de Claire”: retratos de finitude

Deve haver, na posada ingenuidade, uma razão a mais para que as obras deste cineasta sul-coreano de 60 anos, vencedor do Urso de Prata no festival de Berlim 2020 por “The Woman Who Ran”, calem fundo seu público. “A Câmera de Claire”, realizado por Hong Sangsoo em 2017, traz a francesa Isabelle Huppert no papel de uma professora vestida de amarelo que tira fotografias em Cannes. A irrealidade de sua figura luminosa se faz constante, como se ela fosse um meme vivo de auto-ajuda a passar pela timeline do facebook ou uma figura de coro grego a alertar os escolhidos sobre seus erros e perigos.

Jung Jin-young e Isabelle Huppert: poética fotográfica

Porém, antes que possamos nos dar conta desta sua qualidade que permeia o inconsciente (as profundas camadas de motivações dos personagens), nós a vemos saborear as férias como qualquer turista. Claire vaga pela cidade francesa onde se dá o célebre festival de cinema porque uma amiga irá se apresentar ali e a convidou. E, como um passatempo, ou como uma maneira de aprisionar o tempo em si, Claire porta uma polaroide que retrata os moradores da cidade antes que se modifiquem – porque a mudança dos olhos, ela vê, é constante de um segundo a outro. Talvez a razão para este desejo de aprisionamento venha de uma perda, somente relatada ao final do filme.

“A Câmera de Claire” parece aludir à “Câmara Clara” do célebre ensaio de Roland Barthes publicado em 1980. Nesse livro, Barthes observa que uma fotografia pode ser objeto de três intenções: fazer, suportar e olhar. O operator é o fotógrafo. O spectator somos todos nós que assimilamos e colecionamos fotos. E o spectrum, o alvo, o referente, é o simulacro, o objeto nascido da captura da luz. A relação da palavra spectrum se dá com o espetáculo tanto quanto com o terror presente em toda fotografia: “o retorno do morto”.

Eis que a partir disto fica “claro”, iluminado, quem sabe nítido, o que Claire faz pelo filme. Ela é o alerta sobre a finitude, a figura irônica da morte que passeia a veraneio. A professora se relaciona a uma teia de dramas individuais, a começar por aquele vivido pela linda Gam-hee (Kim Minhee), funcionária de uma agência de filmes que é despedida diretamente pela patroa, ciumenta de sua suposta relação com um cineasta embriagado. Claire anota, aponta, apreende, amplia e reduz todos os personagens envolvidos nessa história a uma só cena, como uma fotografia faria, eternizando-os em seus dramas supérfluos.

Huppert, Jung Jin-young e Chang Mi-hee: os dramas escondidos

Se a trama surpreende, mais ainda, sua realização. É como se “A Câmera de Claire” inventasse um novo naïf cinematográfico. Os movimentos quase não existem, exceto os de zoom, sem aparente razão. Os personagens nunca se tocam. Estão invariavelmente lado a lado na praia, num café, no restaurante ou na biblioteca, não raro situados diante do público de perfil, até de costas. A fala sugere espontaneidade, um interrompe o outro, de modo a sugerir que os diálogos não foram ensaiados direito. É como se Hong Sangsoo radicalizasse a montagem em tempo real de Bresson ou Rohmer, esticando a ingenuidade de sua mis-en-scène até alcançar uma espécie de anti-cinema.

Pode ser o que você não espera de um filme.

Pode ser que o filme não espere por você.

“A CÂMERA DE CLAIRE”

(Coreia do Sul/França, 2017)

Direçao: Hong Sang-soo

Com Isabelle Huppert

online e gratuito até 31/10

www.mostracinemaereflexao.com.br

A quem se destina

Aproveite a chance rara de assistir de graça a “Todas as horas do fim”, o documentário sobre Torquato Neto que é só poesia

Nosferatu como um profeta triste

Há três anos apareceu com imenso lirismo este filme dirigido a partir de depoimentos, da pontuada narração de Jesuíta Cardoso e de outros filmes – os de Torquato Neto, em super-8, e aquele de Ivan Cardoso, por exemplo, em que o poeta da literatura e da música do Brasil é um vampiro convicto, de sandálias e cabelo longo.

Três anos e este “Todas as horas do fim”, dirigido por Eduardo Ades e Marcus Fernando, ainda dói na gente. Em quem é gente no Brasil. Em quem não se cansa de penar para entender por que um poeta da vida tenha escolhido a morte, suicidado com gás, aos 28 anos, em 1972.

E no entanto Torquato surgia pleno no mundo, gênio precocemente, poeta desde os 9, filho único de pais amorosos, magro, seco e severo como eles na Teresina que era a sina de todos…

E mesmo sendo pai de Thiago, outra realização de amor, marido de Ana, sua santa, isto não o impedia de imaginar que, tendo concluído sua obra, viver não seria mais preciso… E o que dizer daquela ditadura que não parecia ter mais fim, nem nada de si?

Caetano e Gil eram seus amigos da Tropicália, em que Torquato nem mesmo acreditava de início. Hélio Oiticica podia dizer-se fartamente admirado por ele, assim como Glauber Rocha, assim como o cinema. Um poeta a observar toda a arte, toda a vanguarda, todo o sentido.

É um filme de ritmo e canção, que busca a poesia com simplicidade, razão pela qual a encontra, embora não a discuta nas linhas próprias de Torquato Neto nem trace os paralelos entre elas e os versos, por exemplo, de um conterrâneo como Mário Faustino.

É madrugada, passou das três, e eu tive de reescrever isto tudo! O texto primeiro, o blog comeu…

Torquato, é você aí?

Poeta desde os 9 anos que ele foi

Aqui vai o streaming do documentário “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, dentro do projeto “Em Casa com o Cine 104”:

https://vimeo.com/460725286

senha: torquato_104

Até as 20h de 9 de outubro de 2020

Um filme que todos mereceríamos ver

“Precárias e Resilientes”, o longa-metragem documental
de Luan Cardoso sobre a luta das mulheres da periferia, aguarda financiamento para ser finalizado, já que a prefeitura de São Paulo
não pagou a segunda parte necessária à conclusão do projeto

Renata Adrianna, de uma ilusão de igualdade à vida periférica

Luan Cardoso é um cineasta da luz reflexiva, íntima. Luz de quem pensa. Ele a tem estendido a muitos músicos, como Rodrigo Campos, nos últimos anos, e é como se, através dela, compreendêssemos um pouco o misterioso processo criativo de todo artista.

A luz certa é tão difícil de obter. Exige olhar o personagem com sua densidade, ao mesmo tempo que com sua leveza; seu volume, mas também a superfície. Em 2017, Luan ganhou um edital da Prefeitura de São Paulo para estender essa observação aguda às mulheres de todos os lugares periféricos, de modo a que elas nos contassem suas histórias de superação. Pessoas com seus problemas, sim, tão duros às vezes, mas gente sorridente também, disposta ao enfrentamento com altivez.

O que sobrou de uma ocupação após a passagem do trator, conforme uma narrativa em off

O problema agora é que, tendo realizado os depoimentos, o cineasta procura meios para finalizar o documentário, que já intitula “Precárias e Resilientes”. A municipalidade decidiu não lhe dar o dinheiro que faltava para apresentar o longa-metragem  _ este que sem escusas, por exemplo, condena, por meio de depoimento em off, uma violenta desocupação de sem-teto. A questão é que esconder este filme da Quixó Produções representaria um vazio a mais na nossa cultura combalida. Uma obra tão essencial, se finalizada até março, alcançaria o mês das mulheres que lutam e expõem sua luta.

Em “Precárias e Resilientes”, Luan Cardoso traz à luz uma cabeleireira, uma faxineira, uma atriz, uma artista plástica, escritora, dona de casa, dona de casa sem casa, dona de casa homossexual, mãe de filhos mortos… E, conduzidos com naturalidade, seus depoimentos nos fazem aquele retrato nítido do Brasil excludente dos direitos das mulheres, ademais negras ou pobres.

Raquel Trindade, artista, professora, artista plástica, um sorriso de resistência

Há a senhora que vai ao julgamento sobre a morte de seu segundo filho, estraçalhado feito um porco, e exalta-se diante da juíza ao apontar a autoria naqueles policiais no banco dos réus. A cabeleireira que, militante do movimento negro, vê no mote evangélico um subsídio essencial à luta: o amor. Uma atriz branca que não se deu conta, na infância, da mãe sacrificada em seus ganhos como doméstica enquanto ela estudava, via desconto salarial, em um bom colégio de Recife. Dois depoimentos importantes de mulheres que recentemente nos deixaram, a artista plástica e professora Raquel Trindade e a escritora Tula Pilar Ferreira, ativam-nos ao otimismo, à força que é preciso ter para vencer o racismo que cresce todos os dias.

“As pessoas são diferentes, não anormais”, diz Genaína Dias. Sua fala é essencial ao filme e à vida. A mentalidade fascista que toma nosso entorno esqueceu-se do princípio de igualdade na diferença, algo que “Precárias e Resilientes”, quando concluído, nos ajudará um pouco mais a perceber.

A liberdade celestial

Em “A Ponte de Bambu”, Marcelo Machado vê a ligação mantida
pelo amigo e jornalista Jayme Martins com a China desde os anos 1960

Em Pequim, a partir de 1962, Jayme Martins atua como professor

Se um lugar não lhe dá liberdade, você pode procurar outro lugar para ser livre. Ou talvez encontre esta condição dentro de si. O jornalista Jayme Martins, hoje com 90 anos, não se sentia tão livre assim no Brasil. Ele buscou por sistemas filosóficos que lhe garantissem uma ação libertária, mas não parou em nenhum até encontrar o marxismo. Em 1962, ser comunista não parecia coisa boa. Ele então decidiu experimentar a China que lhe oferecia trabalho, e a sua mulher, além de moradia em um hotel para estrangeiros. Teve duas filhas lá e não pensava em voltar ao seu lugar, então francamente antilibertário, até que a anistia chegasse aos brasileiros e ele pudesse estar em Jundiaí para espalhar o que aprendeu com os chineses.

Jayme Martins vestido com o rigor da tradição

É, em linhas gerais, o que diz o documentário de Marcelo Machado, A Ponte de Bambu. Não que o diretor tenha conseguido aprofundar a história de Martins desde a infância de suas vocações. Em verdade, trata-se de mais um filme sobre a China em que a perspectiva precisa ser familiar, resistente como aquela gramínea. A mulher do diretor é chinesa, e Jayme Martins nunca perdeu a fé nos comunistas dali, nem mesmo quando deixou às pressas a Pequim onde as filhas estudavam. O massacre na Praça da Paz Celestial, conforme ele informou à época em reportagens ao JT, ao Estadão e ao SBT, foi desnecessário e cruel. Tropas com seus tanques chegaram a Pequim naquele 1989 desinformados das manifestações políticas crescentes, achando que combateriam uma enchente.

As filhas Raquel e Andrea com os colegas da escola para chineses
Raquel com os estudantes da Praça da Paz Celestial durante as manifestações que resultaram no massacre de 1989

Marcelo Machado é um documentarista sensível, com belo entendimento do ritmo musical e dos depoimentos, obtidos com a naturalidade de quem divide a cozinha com seus personagens. Não se posiciona a favor da China, e não precisa. Martins ainda acredita nela. A seu ver, o país adaptou a economia de mercado ao comunismo, transformando a mais-valia em bem-estar social. E o jornalista acredita que isto vai dar em coisa boa, com certeza.

A família reunida em Jundiaí
Com amigos e a esposa Angelina na Muralha da China

A PONTE DE BAMBU

Diretor: Marcelo Machado

Brasil, 77 min

Onde: bit.ly/3mI4SJI

exibições: 27/9, às 21h, 28/9, às 15h

Para sustentar a leveza

Documentário presente no festival É Tudo Verdade mostra a história de superações, o humor e os filmes do diretor tcheco Milos Forman

O diretor Milos Forman com os filhos Petr e Matej em Praga, 1965

Milos Forman (1932-2018) é o diretor cujas marcas de linguagem estão no volteio das curvas dos corpos impressionistas, em especial na fase tcheca, e nas expressões exacerbadas dos personagens operísticos. Um diretor para quem toda a exasperação se sustenta em leveza, a contrariar o título do romance de um conterrâneo seu. Contudo, o documentário Forman versus Forman, assim intitulado para evocar uma batalha de boxe interna, mas também para parodiar um filme inquisidor de entrevistas com o diretor (Chytilova Versus Forman, 1982), não se concentrará nessas explorações. Ele explicará este grande cineasta algo esquecido por meio de sua personalidade bem-humorada e de sua inacreditável história de superações, entremeada por seus filmes.

Pedro e Paula, realizado na Tchecoslováquia em 1964

Nasceu em cidade de seis mil habitantes na Tchecoslováquia, de mãe expansiva e pai professor, ambos mortos em campos de concentração. A partir dos 10 anos, vagou de família em família até ser internado num colégio para órfãos onde conviveu com Vaclav Hável, intelectual que se tornou presidente do país. O stalinismo deixou-lhe marcas profundas, ele que, depois de rejeitado pela escola de teatro, estudou em escola de cinema exuberante e seguiu uma carreira de êxito mesmo impedido de se manifestar livremente. Seus ídolos, como o italiano Pietro Germi, eram realistas novos, de pulso forte, necessários como modelo para eliminar a dura ideologia de arco-íris que amarrava a arte do país.

Procura Insaciável, filme inicial de sua fase estadunidense, 1971

Auto-exilado nos Estados Unidos, morador do Chelsea Hotel sem precisar pagar a conta, encontrou uma explicação para a liberdade: “Sei que ela está onde se pode duvidar publicamente de sua presença”. O documentário de Jakub Hejna e Helena Trestíková traz momentos preciosos, retirados de outros filmes, em que ele por exemplo dirige os atores lado a lado, com ímpeto alegre, e os faz sorrir. Forman versus o Mozart de Amadeus: “Pessoalmente me sentia como Salieri invejando Fellini, Antonioni e Bergman.” O medíocre não precisa ser ruim.

FORMAN VS FORMAN

Diretores: Helena Trestíková e Jakub Hejna

República Tcheca, 77 min

onde: bit.ly/3mI4SJI