Feitio de oração

Mostra de cinema egípcio traz esta narrativa poética sobre o luto, de 2014

A palavra é imprescindível ao cinema. Ela estrutura o drama. Mas um filme não precisa necessariamente de narradores ou diálogos. A ausência da palavra na tela obriga ainda mais à criação de imagens para expressar um sentimento. Se você quer demonstrar que um personagem está distraído de tristeza, pode colocá-lo sentado na polia de um trem antigo, como fez Buster Keaton, e fazê-lo cabisbaixo enquanto o veículo se move. O cinema, por ser mudo, não dispensa o drama, porque cinema é arte dramática em primeiro lugar.

Contudo, pode também ser arte dramática poética, como esta de Karim Hanafy, O PORTÃO DE PARTIDA (2014). É um filme sem diálogos sobre o luto. Sobre a ausência materna incessante. Sem sua mãe, o pretenso narrador perde-se de si mesmo e se funde nela. Intensificado por um silêncio verbal com música, o filme parece existir para que saibamos como se ligam os seres interiormente. E como a existência é um exercício coletivo da memória onírica.

A mãe embarca atravessada pela luz da janela, paramentada pelos vestígios do passado, as pérolas e o vestido de casamento. O filme evoca a história e o tempo por meio de caminhos e portais. E há também o cemitério, aquele vizinho constrangido da morte. As atuações são pungentes, marcadas por vezes pela câmera lenta. A fotografia ensolarada oscila entre o preto e branco e a cor. É um filme, como poderia ser uma oração.

O PORTÃO DE PARTIDA
Diretor: Karim Hanafy
EGITO, 2014, 65 min

Onde
http://www.cinemaegipcio.com/

O sonho de Orin

“A Balada de Narayama”, rodado em 1983 por Shohei Imamura, e que
permanece em streaming no Belas Artes À La Carte, devolve-nos os segredos entre a imanência e a transcendência numa vila esquecida do Japão

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Ken Ogata e Sumiko Sakamoto, filho e mãe em A Balada de Narayama

É como se A Balada de Narayama (1983) fosse a caricatura de um paraíso neoliberal. Numa vila onde impera a escassez, todo ser humano, ao completar 70 anos, deve subir a montanha e morrer no topo, em prol da sobrevivência de todos.

Contudo, com este mote, o que o diretor Shohei Imamura discute mesmo é a distância entre o céu e a terra, entre o efêmero, imanente, e o que constitui a transcendência, o eterno.

A matriarca Orin (Sumiko Sakamoto) quer a morte logo. Ela crê que um deus a receberá em Narayama, seu céu. Neste primeiro longa japonês a ganhar Cannes, e nos outros filmes deste diretor, a mulher encarna a força primordial. Ela é a terra. 

Orin precisa resolver o futuro dos filhos antes de partir. Eles têm aspirações como casar, fazer sexo e comer, que ela precisa encaminhar. Suas necessidades terrenas não diferem tanto daquelas dos animais. 

Os homens entoam melodias da tradição local durante o trabalho enquanto serpentes, corujas ou mariposas surgem de modo a alertá-los para a intensidade de viver, para algo profundo (talvez inconsciente) dentro deles.

O efêmero é muito bem descrito neste clássico cinematográfico. Imamura orienta à ferocidade atores excepcionais como Ken Ogata, que percorre paisagens de azul constante.

Mas e a transcendência? 

É a fotografia, extraordinária e transformadora, que parece indicá-la por todo o filme. A montanha está sempre ali, imponente à distância, porém chapada como em um cartão postal. O transcendente é, portanto, uma ilusão fotográfica. Mas, ainda assim, uma imagem poderosa, a alimentar o sonho de eternidade de Orin.

(abaixo, veja a impressionante diversidade de pôsteres para anunciar este filme)

Chantal Akerman em filme-sensação

Este longa permanece por tempo indeterminado na plataforma de streaming Mubi, e você não deve perdê-lo. Na resenha a seguir, que fiz a pedido da página “Histórias de Cinema”, explico por quê

loucura de almayer

Stanislas Merhar em “A loucura de Almayer”, de Chantal Akerman, a partir de obra de Joseph Conrad

O que é a dor?

A dor é o que não passa.

Talvez todo o cinema de Chantal Akerman (1950-2015) seja sobre esta constatação. E seu penúltimo filme, “A loucura de Almayer” (2011), baseado em obra de Joseph Conrad, multiplica-a porque a encara literalmente.

Seus longos, intrigantes e muito bem iluminados planos-sequência repentinamente se transformam em um só, fixo, como se fosse vetado à câmera andar, como se ela pesasse mil quilos, como se estivéssemos nos primórdios do cinema e no fim da aventura sobre o palco, o drama do ator.

Este filme é a diretora e seus personagens, os olhos perscrutadores que ela esconde na mata, e a mata: a chuva que se adensa sobre o rio de tal forma que nós, espectadores, também a sintamos. A epítome do filme-sensação.

O protagonista, interpretado por Stanislas Merhar, é um comerciante que imaginou fazer fortuna na Malásia, e na Malásia se afundou, com uma mulher nativa não desejada e uma filha mestiça (a Nina de Aurora Marion) a quem venerou sobre todas as coisas, desejando a ela um futuro europeu. O lugar distante, planejado paraíso, não mudou seu etnocentrismo, seu racismo, sua insensibilidade. Ele sai dessa confusão ainda mais dolorido, ou, como quer Chantal, de fato enlouqueceu de amor.

Os olhos arrancados do Brasil, segundo Pasolini

Eu me sentia em dívida com vocês, uma vez que tanta leitura teve outro post deste blog sobre a produção poética de Pasolini, intitulado “Pasolini em Recife”. E agora creio que acalmo minha consciência ao lhes mostrar o outro grande, imenso poema que o cineasta fez sobre o Brasil.

Em 1970, durante sua viagem à América do Sul para participar de um festival em Mar del Plata, no qual apresentaria “Medeia, a feiticeira do amor” (1960), Pasolini visitou brevemente o País. Fez uma escala no Rio de Janeiro, foi obrigado a um pouso de emergência em Recife, na ida, e rumou a Salvador, por fim. O Rio de Janeiro inspirou-lhe a escrever “Hierarquia”, que segue aqui com tradução de Mariarosaria Fabris.

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“É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados”

HIERARQUIA

Pier Paolo Pasolini, 1971

Se chego a uma cidade
além do oceano
Muita vez chego a uma nova cidade, levado pela dúvida. Tornado de um dia para outro em peregrino
de uma fé na qual não creio;
representante de mercadoria faz tempo sem valia,
mas é grande, sempre, uma estranha esperança –
Desço do avião com o passo do culpado,
o rabo entre as pernas, e uma eterna vontade de mijar,
que me leva a andar meio dobrado, com um sorriso incerto – Livrar-se da aduana, e, muita vez, dos fotógrafos:
fato corriqueiro que cada um encara como se fosse exceção.

 

Depois o incógnito.

Quem passeia às quatro da tarde
por canteiros cheios de árvores
e alamedas de uma desesperada cidade onde europeus pobres vieram criar de novo um mundo à imagem e semelhança do seu, levados pela pobreza a fazer do exílio sua vida?
Com um olho em meus afazeres, minhas obrigações –
Depois, nas horas vagas,
começa minha busca, como se ela também fosse uma culpa –
A hierarquia, porém, está bem clara na cabeça.
Não há Oceano que aguente.
Desta hierarquia, os últimos são os velhos.
Sim, os velhos a cuja categoria começo a partencer

(não falo do fotógrafo Saderman que, com a mulher já amiga da morte, me acolhe sorrindo
no pequeno estúdio de toda uma vida)
Sim, há algum velho intelectual que na Hierarquia
está à altura dos mais belos michês
os primeiros que se encontram nos pontos logo achados e que, como Virgílios, conduzem com popular delicadeza algum velho

é digno do Empíreo,
é digno de ficar perto do primeiro garoto do povo
que se oferece por mil cruzeiros em Copacabana
os dois são meu guia
a segurar-me pela mão com delicadeza,
a delicadeza do intelectual e a do operário (quase sempre desempregado)
a descoberta da invariabilidade da vida
requer inteligência, requer amor.
Vista do hotel de Rua Resende, Rio –
a ascese exige sexo, exige caralho –
aquela janelinha do hotel onde se paga pelo quartinho – se olha dentro do Rio, num aspecto da eternidade,
a noite de chuva que não traz refrigério,
e molha as ruas miseráveis e os entulhos,
e os últimos beirais do art nouveau de portugueses pobres sublime milagre!
E assim Josué Correia é o Primeiro na Hierarquia,

e com ele Haroldo, veio menino da Bahia, e Joaquim.

A Favela feito Cafarnaum debaixo do sol –
Cortada pelas valetas do esgoto
um barraco em cima do outro, vinte mil famílias
(ele, na praia, pedindo-me um cigarro como se fosse um puto)

Não sabíamos que aos poucos iríamos nos revelar, prudentemente, uma palavra depois da outra,
dita quase distraidamente:
eu sou comunista, e: eu sou subversivo:
sou soldado de uma divisão expressamente treinada
para lutar contra os subversivos e torturá-los;
mas eles não sabem;
as pessoas não se dão conta de nada;
elas pensam em viver
(me fala do lumpemproletariado).
A Favela, fatalmente, nos aguardava
eu grande entendedor, ele guia –
seus pais nos acolheram, e o irmãozinho nu
que acabara de sair de trás da lona –
pois é, invariabilidade da vida,

a mãe
falou comigo como Maria Limardi, preparando a limonada sagrada para o hóspede; a mãe encanecida, mas de carnes firmes; envelhecida como envelhecem as pobres, e ainda garota; sua gentileza e a do companheiro,
fraternal com o filho que só por sua vontade
agora era um mensageiro da Cidade –
Ah, subversivos, busco o amor e encontro vocês.
Busco a perdição e encontro sede de justiça.
Brasil, minha terra,
terra de meus amigos à vera,
que não se interessam por nada
ou então se tornam subversivos e feito santos são cegados.
No círculo mais baixo da Hierarquia de uma cidade,
imagem do mundo que de velho se faz novo,
coloco os velhos, os velhos burgueses,
pois um velho da cidade, se é do povo, fica garoto
não tem nada a defender –
vestindo camiseta e calção surrado como Joaquim, o filho.

 

Os velhos, minha categoria,
quer queiram ou não queiram –
Não se pode fugir do destino de deter o Poder, ele se coloca por si
lenta e fatalmente nas mãos dos velhos, apesar de eles serem mãos-furadas
e sorrirem humildes feito mártires sátiros –

Acuso os velhos de terem vivido seja como for, acuso os velhos de terem aceitado a vida

(e não podiam não aceitá-la, mas não existem vítimas inocentes)
a vida, ao acumular-se, deu o que ela queria – acuso os velhos de terem feito a vontade da vida.

De volta à Favela onde não se pensa em nada
ou se almeja ser mensageiros da Cidade
lá onde os velhos são americanófilos –
Entre jovens que jogam, bravos, futebol
diante de cumes encantados sobre o frio Oceano,
quem quer algo e sabe, foi escolhido ao acaso –
inexperientes em imperialismo clássico
em delicadezas para com o velho Império a ser explorado.
Os americanos dividem entre si os irmãos supersticiosos
sempre aquecidos pelo próprio sexo como bandidos por uma fogueira –

É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados.
Joaquim nunca poderia ter sido diferente de um sicário.
Então, por que não amá-lo, se assim fosse?
O sicário também está no vértice da Hierarquia,
com seu traços simples, mal esboçados,
com seu olhar simples,
sem outra luz do que a da carne.
Assim, no topo da Hierarquia,
encontro a ambiguidade, o nó inextricável.
Oh, Brasil, minha desgraçada pátria,
voltada sem escolha à felicidade,
(de tudo são donos o dinheiro e a carne,
enquanto você é tão poético)

Em cada habitante seu, meu concidadão, há um anjo que não sabe de nada, sempre curvado sobre seu sexo,
e se agita, velho ou jovem, para pegar em armas e lutar,
pelo fascismo ou pela liberdade, é indiferente – Oh, Brasil, minha terra natal, onde
as velhas lutas – bem ou mal já vencidas –
para nós velhos tornam a fazer sentido – respondendo à graça de delinquentes ou soldados, à graça brutal.

 

Pietrangeli, cineasta das mulheres

Mastroianni, Magali Noel, Simone Signoret: os vis são eles

ÁDUA E SUAS COMPANHEIRAS
por Rosane Pavam

(republicado do site Histórias de Cinema)

Repare nas mulheres deste filme. Cada beleza é uma fortaleza diante dos homens. E repare nos homens, até em Mastroianni. Todos vis.

Você sai de “Ádua e Suas Companheiras” (1960) sem confundir os personagens porque se trata de um filme de Antonio Pietrangeli, nítido, belo, triste.

Ele aqui ainda não tinha se tornado um dos grandes da commedia all’ italiana, resposta do cinema ao teatro medieval da fria essência humana. E detestava este filme talvez por não ser, neste sentido, “cômico”.

“Ádua” ainda correspondia ao neorrealismo heróico. Pietrangeli sabia disso porque trabalhou como assistente de Visconti e lutou pelo movimento quando se tornou crítico de cinema, depois de cursar medicina.

Ele queria mais, bem mais que a Cabíria de Fellini, encenada três anos antes. Era o diretor das mulheres. Estava no mundo em breve passagem para mostrar o abismo diante delas, seus corpos trágicos insubmissos.

Neste filme, elas habitam o bordel de Simone Signoret, florido por Magali Nöel e firmado por Emmanuelle Riva no papel de mãe. Mas Signoret não é aqui a Joan Crawford de “Johnny Guitar”. Não há redenção para ela, embora tudo o que o cinema peça esteja lá, como esteve em Mizoguchi: um fruto da criação do espaço público para discutir nosso destino circular, em eterno retorno a seu início.

Rosane Pavam é doutora em História Social pela USP com a tese “Retratos do Épico Cômico: Totò, De Sica e a commedia all’italiana”

ÁDUA E SUAS COMPANHEIRAS

Diretor: Antonio Pietrangeli
Itália, 1960, 106 min

Disponível na Amazon Prime Video

Pasolini em Recife

Pier Paolo Pasolini (1922-1975) não teve tempo para desenvolver a ideia, mas planejou estudar o Terceiro Mundo por meio de sua obra. De volta à Itália, na companhia de algumas pessoas, dentre as quais Maria Callas, depois da apresentação de “Medeia, a feiticeira do amor ” (1969) no Festival de Mar del Plata, o diretor fez uma escala no Rio de Janeiro e de lá rumou para Salvador. O avião que ocupava pousou de emergência no aeroporto do Recife na viagem de ida, em 13 de março de 1970. Enquanto aguardava a nova hora de partir, o diretor escreveu o poema a seguir, traduzido ao português por Mariarosaria Fabris.
 
 
pasolini na africa
COMUNICADO À ANSA (Recife)
 
Porque é um fato de crônica, começa
com um pouso de emergência no Recife.
Aqui chove; no aeroporto em construção, passando diante de um grupo de peões que trabalham, olhos se erguem para os passageiros.
É assim que o Brasil me saúda.
Retribuo a saudação com meu coração burguês
que já sabe o que recebe pelo que doa.
Nesses bancos desolados, à espera de um novo avião, de emergência, não há nada de novo: eu sei quais as novas.
O corpo não banhado e a melancolia.
Minha companheira com sua ansiedade, no morno ar da chuva,
e sua sede de graça: cegada para sempre –
este peso que nós, burgueses, carregamos no coração
por tudo o que não sabemos e a ânsia de louvores,
por isso a vida nos cobre como uma veste úmida e suja,
e os poucos momentos de felicidade logo viram lembranças,
e nos vangloriamos; e o peso aumenta,
as chagas de um insucesso obrigam a calmarias consoladoras,
a cômicas levantadas de ombros,
a hilaridades superiores,
lá sentados nesses bancos desolados do Recife.

Ugo Giorgetti e meu texto sobre “Dora e Gabriel”

Daquelas coisas que nos deixam felizes por dias.

Publico a seguir o e-mail que me mandou hoje o diretor Ugo Giorgetti. E, abaixo dele, a pequena resenha que escrevi de “Dora e Gabriel”, seu filme mais recente, a pedido de Cássio Starling Carlos, que administra a página Cinemas Luz no Facebook.

“Rosane, de início preciso dizer que você está em grande forma como escritora, intelectual e jornalista. Mesmo se o que escreveu não fosse sobre mim e meus filmes, acho que conseguiria perceber a finura, a sofisticação e agudeza de seu raciocínio. O que você escreveu é curto, direto e muito original. Não porque é sobre o que faço, repito, mas como raciocínio em si mesmo. É muito importante e talvez seja a função mais relevante do crítico apontar na obra questões e propósitos de que nem o artista se dava conta. De fato nunca tinha pensado no que você escreveu, mas vejo claramente que tem razão. O Caminho da porta e a trajetória dos personagens, tomando a porta não como metáfora apenas mas como algo real – uma espécie de leit motiv – sua conclusão sobre o que dizem meus filmes é de uma precisão única. Acho que certamente é o melhor resumo sobre todo o meu trabalho. Só não sei se é justo. Agradeço essa oportunidade rara, esse diálogo que se dá muito dificilmente entre crítico e artista, e que você estabeleceu de maneira perfeita. Vou colocar essa peça entre as minhas preferidas para falar de Dora e Gabriel, quando o lançamento nos cinemas se der.

Um beijo e, de novo, muito obrigado.”

O CAMINHO DA PORTA

Por Rosane Pavam


Não há coisa no mundo mais viva que uma porta. Vinicius de Moraes tinha razão. Desde sua descoberta pelos filmes silenciosos, a porta ampliou os dramas e os ambientes de ação. Sem ela, o cinema não teria história.


Ugo Giorgetti parece saber disso melhor do que nós. E por isso tranca seus personagens. Para que a história continue. Seu modo de prosseguir o diferencia, porque nos seus filmes não há alento em liberdade. Ninguém é livre, aliás, nem se transforma depois da porta arrombada.


É portanto um diretor que contraria nossa expectativa de que uma nova humanidade surja da catástrofe. Seus personagens trancados no elevador, em bares, no porão, no navio, no subsolo, no andar debaixo da festa, em plena rua, saem pela porta vazios como entraram.


“Dora e Gabriel” chega quando nosso isolamento social é excruciante, porque os filmes de Giorgetti são o que são, premonitórios. Um casal, ela jovem brasileira, exasperada e de bons dentes, ele velho libanês, conformado e lúcido, veem-se fechados por sequestradores no porta-malas de um carro em movimento.


O casal que jamais teria se relacionado lá fora discute o tempo todo a experiência por que passa, sonorizada pelos ruídos enigmáticos da rua. O que o espera? Mais do que nunca, neste filme do diretor, não é o quê, mas como, o que importa.

Arma dos impotentes

Sou estranha mesmo.
Difícil.
Lenta.
Sorrio.
Acho que a comédia liberta.
Que o riso é a arma dos impotentes.
Busco o cinema silencioso mais do que o falado.
E procuro o silêncio nos filmes que falam.
Seria mais feliz se tivesse amigos que me compreendessem, amassem os filmes que amo e juntos conversássemos sobre eles a noite inteira?
Mas eu sou feliz.
Eu os tenho.

Sobre “Dora e Gabriel”

amei o convite pra escrever 💜

Via Cinemas Luz

DORA E GABRIEL
por Rosane Pavam

Não há coisa no mundo mais viva que uma porta. Vinicius de Moraes tinha razão. Desde sua descoberta pelos filmes silenciosos, a porta ampliou os dramas e os ambientes de ação. Sem ela, o cinema não teria história. Ugo Giorgetti parece saber disso melhor do que nós. E por isso tranca seus personagens. Para que a história continue.

Seu modo de prosseguir o diferencia, porque nos seus filmes não há alento nem liberdade. Ninguém é livre, aliás, nem se transforma depois da porta arrombada. É portanto um diretor que contraria nossa expectativa de que uma nova humanidade surja da catástrofe. Seus personagens trancados no elevador, em bares, no porão, no navio, no subsolo, no andar debaixo da festa, em plena rua, saem pela porta vazios como entraram.

“Dora e Gabriel” chega quando nosso isolamento social é excruciante, porque os filmes de Giorgetti são o que são, premonitórios. Um casal, ela jovem brasileira, exasperada e de bons dentes, ele velho libanês, conformado e lúcido, veem-se fechados por sequestradores no porta-malas de um carro em movimento.

O casal que jamais teria se relacionado lá fora discute o tempo todo a experiência por que passa, sonorizada pelos ruídos enigmáticos da rua. O que o espera? Mais do que nunca, neste filme do diretor, não é o quê, mas como, o que importa.

Rosane Pavam é jornalista, autora de “Ugo Giorgetti – O Sonho Intacto” (2004)

DORA E GABRIEL
Diretor: Ugo Giorgetti
Brasil, 2020, 90 min

Em exibição até as 23h59 de 27/6

Quanto: R$ 10 (20% do valor destinado à APRO – Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais, que vai auxiliar os profissionais de cinema afetados pela pandemia).

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