UMA SALA DE AULA, UM VIOLÃO

Quando eu era criança, nos anos 1970, aprendi uma piadinha e decidi contá-la a meu professor de português.

Não a um professor qualquer.

Decidi contá-la a Herr Frehse ele-mesmo.

Alemão na minha escola alemã, ele era implacável por fora mas amoroso lá dentro. Um apaixonado pela cultura brasileira. O melhor professor de línguas que eu tive. Não só de alemão, como também de português.

Alto, magro, usava o cabelo curto grisalho com topete. Na sua arcada superior faltavam os dentes de trás, algo muito evidente quando ele decidia nos bronquear (e desafiar, porque improvisava com humor sobre nossas respostas) com um sarcasmo de príncipe.

Ia trabalhar de terno e gravata. Tinha apenas dois ternos, um azul e um marrom, mas preferia o marrom (e eu ficava alerta quando ele vestia o azul: o que estava tentando nos dizer?). De terno amassado mesmo vigiava o recreio e ironizava os engraçadinhos que surfavam no corrimão.

Ele era o professor que enfrentava qualquer problema. Por “qualquer” entenda nós, os bolsistas, “problemas” vespertinos separados dos estudantes particulares matutinos. Os pobres que precisavam de vigilância acima de todos. Mas eu era criança. Que se danassem os vigias.

Herr Frehse tinha mais uma particularidade. Uma fraqueza? O filho danadíssimo, que desafiava sua inteligente rigidez. Eu o apelidei de Sobrinho do Capitão, numa referência ao desenho do Rudolph Dirks que meu pai me ensinara a amar (eu era a única menina entre as amigas a ler quadrinhos), obra que, por sua vez, simplificava o clássico Max und Moritz, do Wilhelm Busch.

O filho do Frehse parecia um Frehse em miniatura. Mas tinha a franja lisa. Mas era baixinho. Por isso, surfava no corrimão melhor do que nós.

Logo o filho do capitão…

O menino estudava entre os refinados da manhã, mas era um incontrolável em classe e não se intimidava com as proibições. Como deveria ter sido o professor criança, imaginei. Misturava-se a nós à tarde porque precisava esperar o pai sair do trabalho e levá-lo pra casa de fusca.

Só uma vez Herr Frehse me chocou pra pior. E justamente quando mostrou se encaixar no terrível estereótipo alemão, ao ironizar a “avareza” do judeu. Justo ele, que tratava com um carinho bávaro os pretos que éramos e os nordestinos de quem descendíamos. Até hoje não sei se ele disse o que disse ou fui eu que não entendi a brincadeira.

Eu o admirava. Eu o seguia. Todo o tempo quis ser rápida como ele. Irônica como em seus raciocínios. Não era uma ironia que me humilhasse.

E eu queria desafiá-lo pelo menos uma vez, mesmo sem saber contar piada. (Até hoje não sei, enquanto meu marido é um mestre).

Então decorei a pegadinha que roubei de uma amiga. Ou melhor, pensando bem, apenas eu entre as amigas me dispus à coragem de contá-la a Herr Frehse. Ele não esperava coisa semelhante partida de mim, quietinha lá atrás. Só eu poderia lhe causar o efeito humorístico da surpresa.

(E me orgulho disso, pensando bem. Fui bastante cruel, como ele me ensinou a ser. Encontrei seu ponto fraco nessa paixão pelo Brasil e, rá, o ataquei.)

Fui até sua mesa com a cara triste.

– Professor, aconteceu uma coisa terrível.

– O quê?!

– Eu soube hoje.

– Diga logo.

– O Vinicius morreu!

– O Vinicius de Moraes??! Como??

– Pisou no Toquinho, professor!

Nunca antes havia sentido tão perto de mim a ausência de seus dentes de trás.

ÁGUA SANGRANDO NAS PEDRAS DOS MEUS VINCOS

Após tantos dias acometida de eleição e de gripe, enfrento o chuvisco frio para ir à ioga noturna.

Adoro meu professor, um paraense de baixa estatura que faz nu artístico e celebra o amor homossexual no seu instagram.

Sou a primeira a chegar. Ele parece ter sentido a ausência. Me pergunta como estou. Entendo que são dias tristes.

Frios?

E tristes, sigo.

(Eu não tenho sabedoria.

Muito menos espírito de cautela.

Nem sei como envelheci.)

O professor capta meu ponto e tem uma opinião:

“De todos eles, só estou feliz com o Moro.”

Claro.

“Não acredito nele”, respondo.

E sorrio.

Porque não conheço antídoto pra água maldita.

“Temos de espalhar a luz”, assevera o professor.

Mas é claro.

Me resigno.

Noite de meditação.

Fazemos respiração de fogo, saudação ao sol, vela, torção.

E só depois meditamos, aquecidos.

Tanto movimento resulta que eu esqueça o Morostê.

O professor pede que meditemos sobre uma deidade de nossa própria religião.

Ou que pensemos em alguém de luz.

Na hora vejo meu pai.

Mas combato a ideia.

Não sei por quê.

Procuro mais alguém.

Não chega.

E então me fito menina, animada e pensativa, nas fotos dele.

Numa imagem incomum que extraiu de mim aos seis anos, com ares de atrevimento, na praça 14 Bis.

Não sei se as lágrimas começaram antes ou depois de visualizar o que eu fui.

Mas elas ficaram incontroláveis quando finalmente nos sentamos pra meditar.

Água sangrando nas pedras dos meus vincos.

Todos de olhos fechados.

Todos, menos o professor.

Eu sempre estou pronta para cantar a canção, mas não vou conseguir agora. Limpo as maçãs com as duas mãos, pego o papel pra assoar o nariz, viro pra trás, arrasto o tapete.

Pai que não terminou o que pôde.

Pai que acreditou no tempo.

Pai para quem a morte jamais vingaria.

Pai nascido humilde dos humildes.

Sou filha despreparada dele.

Que errou mais que ele.

Que se sente só quando ele não está por perto para valorizar o seu pensamento sobre qualquer coisa, a sua beleza, a sua carreira, os seus livros, a sua viagem, a sua casa, os seus filhos, e até mesmo para dar a suas fotografias uma benção de corado orgulho.

Meu pai amava tudo o que eu tentasse.

Até dissesse.

Quietinho pra me ouvir e complementar, nós dois falando esquisitices com os olhos na direção do céu.

Um pai para perdoar o fato de que eu às vezes não conseguia sair do lugar nesta vida.

Coisa natural!

Era ele comigo.

Pus óculos pra disfarçar os rios.

E atrapalhei o namastê final, que o professor de ioga disse bem baixo, a observar meus olhos de ressaca do Tamanduateí.

No final me procurou para saber (porque havia lhe contado e porque precisava puxar assunto) como eu me saíra na banca de qualificação da Simone, e eu disse que sim, que gostei, que foi bom ajudar um pouco quem quisesse, ademais uma menina tão inteligente.

Tchau.

E fui tomar um suco.

Daí pra rua.

E desde então o choro no meu pé.

Meu pai nunca entendeu a ditadura. Achava que lhe falavam a verdade.

Depois descobriu que não.

Eu sou pior, pai.

Não entendo se o que vejo é o que existe. Gosto só do que não existe. Não da paisagem lá fora, mas de olhá-la pelo vidro que a entorta e intensifica.

Vai haver sempre alguém mentindo pra mim, pai.

Como houve pra você.

Mas nós teremos um lugar lá em cima onde olhar.

Um lugar inventado, distorcido pela nossa arte.

Crentes de que o fogo em nossas mãos vai tocar o coração de tudo.

O grito mesmo

Andei o dia inteiro pela Paulista, fui a bancos, cartório, academia.

E senti uma nova histeria.

O grito mesmo, desmedido.

O cara com a mãe de sua filha, ao telefone, profere baixezas, como lhes contei. Mas também a mulher do milho chama a atenção para seu produto mais do que o sem-teto, para sua dor. A transeunte grita para os pedestres que insistem em atravessar no vermelho: “Nem o Bolsonaro vai educar essa gente!” E o homem diante da companhia de seguros me faz rir: “Mas o dólar não baixou!”

Onde fica Paris?

Não podia mais evitar a “academia” e pra lá fui hoje.

Nunca conversei sobre política naquele ambiente. Nas poucas vezes que tentei fazer isso, precisei lidar com a ignorância básica dos instrutores.

Uma dessas professoras, muito bonita, negra, de aspecto doce, e que apoia a ação da PM em qualquer circunstância, me perguntou onde ficava Paris.

São professores formados pela uninove, em sua maioria com pós-graduação/especialização. Sendo a uninove a única faculdade de cujo nome eu me recorde agora entre as cursadas pelos instrutores, em sua maioria pobres que puderam usar o Fies.

Então passei toda a eleição sem falar com ninguém lá a respeito do Brasil, da política. Me abstive de sofrer.

E também porque academia de ginástica, pra mim, nunca pareceu exatamente um lugar pra fazer amigos, embora eu tenha amizades do fundo do meu coração nascidas lá. Nos últimos tempos, academia é templo de fascismo, como o shopping. Não gosto de nenhum dos dois.

Exercício foi e será minha tediosa obrigação. Se não precisasse fortalecer os tendões, jamais pisaria em uma academia, como por anos não pisei.

E embora não converse com ninguém nesses ambientes, sou educada com as pessoas. Aprendi assim. Sorrio. E não sou nova. Então, por via das dúvidas, me tratam como anciã. Tudo bem com a senhora? A senhora não precisa de ajuda? Tem certeza, senhora?

Até aí ok. Qualquer velho é tratado como criança neste mundo. Somos tão fofos.

Mas hoje veio o instrutor de meu treino de musculação, brasileiro de origem negra, a me perguntar se eu estava animada depois da eleição.

– Claro que não – respondi.

– Mas que é isso, Rô! – retrucou. Você tem de ser otimista com o Brasil!

(Pra que usar “você” se vai me tratar feito coroca?)

– Até o último dia desse governo serei oposição.

– Ah, mas que é isso!?! (Paternal.) Nosso pensamento tem de ser positivo, de evolução!

– Concordo. Então por que o Brasil, pelo jeito você, elegeu à presidência a regressão? Não posso crer que um ser humano igual a mim tenha votado em um homofóbico machista, apologista do crime, armamentista, entreguista de nossas riquezas, que vai tentar passar uma reforma da previdência pra nos fazer trabalhar mais no mínimo 14 anos!

– Mas e a reforma da Dilma, como era?

– O quê?!

– É só uma pergunta.

– Não teve reforma da Dilma.

– Do Temer, que é a mesma coisa, não teve?

– O Temer traiu a Dilma e o Brasil. Não é a mesma coisa. Ele a golpeou. E ela não cometeu crime nenhum.

– Mas você queria que a gente virasse Cuba ou Venezuela?

– Me poupe.

– Sério, queria?

– O PT esteve alguns anos no poder e não tivemos Cuba ou Venezuela. Você sabe a história de Cuba?

– De Cuba?

– Sabe que os Estados Unidos mantiveram um ditador por anos lá, que Cuba era quintal de jogo e prostituição, que os Estados Unidos traíram Cuba, que tentaram invadir a ilha depois que o ditador caiu, que Cuba precisou da ajuda da União Soviética, que a União soviética acabou e que Cuba sofreu severo embargo econômico? E que apesar disso ninguém passa fome em Cuba, que há educação pra todos em Cuba e que a saúde é de excelência em Cuba?

– Bem, não sou professor de história.

– Não precisa ser professor de história pra saber dessas coisas.

– E Lula?

– Amigo, sinceramente, tá feio… Eu sou cliente aqui.

– Eu sei!

– Pois então. E só continuo aqui porque esta academia não financiou Bolsonaro, responsável pelo clima de ódio que vivemos nos últimos dias.

– Ele não é responsável por essas mortes, é?

– Ele incita ao ódio e não tem culpa? Os assassinos destes últimos dia mataram em seu nome.

– É… te faço novo treino semana que vem.

– Faça, por favor. E leia livros, porque eles faltam em sua vida.

– Tá bom.

zoolander 3

zoolander 2 está no netflix.

o maior e mais complexo filme dos últimos dois anos, amores.

quem dera tivéssemos um ben stiller, este novo mel brooks, para protagonizar nossos desatinos.

(e eu poria menino ney no filme 3).

O fim do mundo como você o conheceu

Curioso como um horizonte do futebol que eu julgava eterno está mais ou menos perdido.

Talvez por culpa do próprio futebol, domesticado como tem vindo.

Na minha infância e na minha vida de mãe de crianças esportistas experimentei outra realidade.

Coisas como drible, passada, enrolação de tempo, teatro, falta, drama, cambalhota, empurrão ou fingimento eram necessidades do espetáculo.

E quando roubávamos a bola e fazíamos o gol, lutando dentro das regras com nossas armas não-violentas, nada mais importava.

Lealdade nunca significou ter um fraque em campo.

Os príncipes destacavam-se justamente pela majestade.

E o time, coisa imperfeita, especializava seus ilusionistas.

Como reclamaríamos da malandragem do jogador vencedor, especialmente se pertencesse ao nosso time?

nós não entendemos o verbo vencer

@Rosane Pavam

não sei bem qual é a do ator inglês contra ele,

nem do pai do goleiro dinamarquês, o importante,

muito menos sei por que usar suas declarações como argumento de autoridade,

embora talvez suspeite a razão da bronca do técnico mexicano.

só não entendo mesmo é o porquê da ira brasileira, meus amigos, meus inimigos.

a motivação para um sentimento que ecoa no espaço sideral (redes sociais é melhor?) contra nós mesmos, apesar de havermos vencido um jogo importante.

parece que ninguém está feliz.

parece que o méxico era time fácil de bater, vindo de vitórias como aquela contra a alemanha.

nós não entendemos o verbo vencer.

parece que ninguém mais na copa, além dele, atua para as câmeras, que agora realmente podem decidir (a burrice do videotape) sobre lances capitais.

parece que somos um lixo irremediável, e que lakaku, de origem pobre no futebol, representa um fenômeno desconhecido, razão pela qual ganhará de antemão o próximo jogo.

casemiro, william, firmino, gabriel, marcelo, alisson, thiaguinho, fagnerzinho, titinho, coutinho, paulinho e rolinho, tudo tão pequenininho quanto o canarinho pistola.

ninguém inventou nada melhor do que complexo de vira-latas pra explicar o brasileiro, nelsinho de deus.

Les bleues de vez

pensei.

di maria é tão bom.

a cara e o corpo do jogador dos anos 1940.

vou torcer pra argentina, vai.

pra essa bagunça toda, pro treinador-torcedor com a tatuagem “outubro” em vermelho no braço.

a cara do latino-americano esse time, pensei, dependente de raça e talento individuais para o time avançar, sem se dar conta, contudo, que deixa avenidas pro inimigo organizado e adulto percorrer…

mas daí me lembro outra vez que não há negros nessas seleções argentinas, reflexo de histórico extermínio, enquanto na França é bem o contrário…

Pogba, gigante africano correndo em batalha, picado pelos pigmeus. Um Mbappé alegre e oportunista, que o Brasil teve às centenas no seu futebol. E esse técnico ponderado, racional e emocional em suas ações e declarações, a soma dos saberes que é preciso possuir pra exercer o esporte-metáfora com a velha galhardia.

Tudo isso me faz olhar por cima do muro, embora preferisse que os dois lados usassem menos as mãos…

Com os gols inacreditáveis da França, tão bem testemunhados por essas câmeras-drones, grandes lançamentos sem erro no espaço e no tempo, e com Maradona em sono profundo, viro Les Bleues de vez.

A visita da velha senhora

Nos anos 1980, apenas para visitar apartamentos em São Paulo com o objetivo de escolher qual deles alugaria, tive de mentir aos porteiros dizendo que era uma noiva prestes a casar, além de levar meu “noivo” às visitas.

Ninguém alugava apê decente para as solteiras.

Nas redações, por essa época, era quase certo que quem lhe desse carona de noite, após o trabalho, tivesse intenções adormecidas.

A gente não podia fazer muito a respeito então, exceto driblar os zagueiros, como uma Sofia Loren nas comédias. Ou procurar a justiça masculina, sem chance de gritar “me too”.

O mundo andou, mas o preconceito ainda constitui uma praga, amizades. Se você é jovem, como a Manuela D’Ávila, querem lhe calar, porque não deve saber mesmo o que diz… E se você não é jovem, como eu, nem conservadora politicamente, como seria de esperar, acham que você não entende do que fala, porque envelheceu.

Vocês não imaginam o machismo que sofri para editar cultura em nosso jornalismo, sempre caçada por meninos famintos, conservadores ou não. E o “ageísmo” é mesmo aquele de que falou Madonna num discurso. As mulheres frequentemente o praticam contra mulheres. Passe dos cinquenta anos pra ver.

Li que 104 países ainda proíbem por lei a mulher de realizar certas atividades (como levantar mais de 20 quilos, no Brasil) e achei bem normal, pra ser sincera.

Queria era ler uma pesquisa como essa em torno de mulheres com a coragem de envelhecer publicamente enquanto lutam no mercado de trabalho. Mas pelo jeito ninguém ainda se ligou de que esse é um assunto a considerar.

Auf Wiedersehen

Vocês são chatos e desinformados.

Temos um Philippe Coutinho extraordinário no time.

Um Paulinho que faz gol memorável, mas não comemora nem sorri.

Um Thiago Luiz sem choro desde o desastre de 2014.

O mesmo Thiago declarou hoje, em entrevista oficial à Fifa na saída do campo, que seu mestre (Tite, imagino) lhe disse que ele ainda precisa aprender a sofrer.

Vocês têm a acne do goleiro hipster de olhos claros.

Vocês podem pronunciar o melhor nome de jogador brasileiro em muitos anos, Ca-se-mi-ro, um menino criado exclusivamente pela mãe, como é, em grande parte, a educação dos meninos do futebol no Brasil.

Vocês possuem histórias em cascatas, hipérboles e anedotas.

Mas vocês acabam sempre em gifs de Neymar rolando em campo até a Patagônia.

Que coisa mais velha, mais John Travolta em meme de Pulp Fiction!

Criadores, de que servem suas criações?

Vocês não perceberam ainda?

Vou ser obrigada a lhes explicar até isso?

Não tem nada de novo no rolinho do Neymar, camaradas!

FUTEBOL É ENROLAÇÃO!

Contanto que o goleiro fique no gol…

Auf Wiedersehen!