para furar nossos olhos

Eu me lembro que, jovem, não morria de amores por homem bonito, não. Nem queria saber. E nem eles, é verdade, queriam saber de mim. Homem bonito não servia pra nada, enrolado em si.

A gente chamava os meninos de Alain Delon pra sacanear, especialmente quando eram feios e se achavam, ainda por cima.

Cresci e me amedrontei de Delon porque não era um ator deste mundo. Sem medo algum. A câmera que se virasse em segui-lo. Não se submetia a nada, furava nossos olhos de espectadores e seguia na maior calma.

Valerio Zurlini o chamou pra trabalhar com ele naquele monumento que foi “A Primeira Noite de Tranquilidade”, queria estar com seu aparato de arte pra discutir o papel, jantar e almoçar, e qual o quê. Delon ia dormir.

E depois, como todo homem bonito demais, varou as mulheres sem qualquer preocupação, até prometendo amor. Romy Schneider, Mireille Darc, Norma Bengell, vixe! E talvez se apaixonasse mesmo por elas por muitos segundos intensos. Com Monica Vitti, eram dois moleques em cena, uma entre mil razões pelas quais acho a Vitti um caso tão especial, pra não dizer sozinho.

Pra mim, Delon é um italiano de alma, e dos brabos. Com a imensa vantagem de não ser um italiano de verdade, com todo o meu perdão aos italianos, eu que sou neta de um Danielle que conquistou minha vó Guilhermina lá dos Açores justo por ser, no entendimento dela, um veneziano bonitão.

Eu tive amigos capazes de delonizar o coração da gente não por serem bonitos como ele, mas por nos arrastarem até seus olhos, mesmo em situações inglórias, sei lá, debaixo de um erro colossal como o Minhocão. Homem bonito é uma qualidade interior. Encontro bonitos todos os dias na rua e meu facebook está cheio deles. Mas são sacanas, ousados diante desta vida miserável que vivemos, como o Delon foi?

Então, adoro falar dele como amo gastar algum minuto a pensar em Sidney Poitier, Geraldo del Rey, Paul Newman, homens tão maravilhosos do cinema. Tenho certeza de que se tornaram bem mais interessantes quando envelheceram, sabedores. Ninguém mora com alegria nos palácios do passado, a menos que desista do encantamento da vida, como Delon desistiu.

só um pouco mais, delon

sim, Delon, você tem razão quando diz que envelhecer é uma merda e que tem o direito de escolher, por meio da eutanásia, o momento de partir.

certeza que não chegarei a seus 86 anos e que se tivesse sido você nesta vida muito teria lamentado a perda do meu rosto magnífico, da minha sabedoria nascida nos arrabaldes, do meu olhar sem fim.

desejo-lhe o melhor processo para que sua tristeza atual acabe, mas por meu egoísmo, por reconhecimento de seu imenso talento e de sua presença na arte e no sonho, desejo também que fique entre nós e que possamos ouvi-lo ainda um pouco mais.

Uma mulher adiante dos modernos

Autorretrato de Emma Voss (1910-1911)

Este é o autorretrato de Emma Voss, a artista que supostamente primeiro realizou uma exposição de arte moderna em São Paulo, em 1910. É o que informa a curadoria da exposição “Era uma vez o moderno”, no Centro Cultural Fiesp até 29 de maio. Eis a descrição da pintura, finalizada em 1910 ou 1911:

“Em seu autorretrato que pertence hoje ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo podemos observar o rosto da artista, ainda jovem, a três quartos, olhando-nos de soslaio da direita para a esquerda (enquanto o movimento da cabeça gira em sentido contrário); o seu ar é altivo, as proporções são corretas, assim como a sugestão de luzes e sombras.

Não há um centímetro sequer da pintura que revele tibieza ou indecisão. O fundo do quadro é construído a partir da justaposição de tonalidades que se repetem no colo, no rosto e nos cabelos: lembra-nos um pouco as pinturas impressionistas de Max Liebermann ou de Max Slevogt, que a artista, talvez, tenha conhecido.

Nesse retrato, dissolve-se por certo o lugar-comum do “temperamento habitual feminino” referido pelo crítico do Estado de São Paulo à época em que foi pela primeira vez exibido.

A sua figura é construída com pinceladas curtas e enérgicas, demonstrando uma preocupação com o modelado da figura a partir das sobreposições de diversas camadas de tinta. Tudo é tratado por uma fatura espessa e uma gestualidade expedita do pincel.


Se não se pode ainda considerá-la uma pintura expressionista, também não é possível classificá-la como um trabalho puramente impressionista.

A sua posição – nesta pintura, pelo menos – aponta para experiências derivadas do pós-impressionismo, por exemplo, para a primeira pintura de Cézanne, como também para a de Van Gogh, assim como para os trabalhos de outros artistas que não mais se satisfizeram em tão somente imitar os efeitos luminosos rebatidos nas superfícies das coisas, como no caso do impressionismo, ou pelo uso de técnicas de divisão das cores por meio das pinceladas, como no divisionismo.”

O texto que acompanha o backlight do autorretrato na exposição “Era uma vez o moderno”, na Fiesp

Meta-aversão

Jane Wyman em “Tudo que o céu permite”, de Douglas Sirk, 1955

Hoje percebi uma coisa difícil de dizer. Até porque ninguém parece acreditar em mim. Mas eu não me importo mais de estar só. Não que esteja completamente sozinha, é claro. Tenho a grande sorte de viver com a família que amo. Mas admito que construo uma espécie de solidão íntima ao lado de todos.

Estou só, mas intermediada. Vivo do que vejo. De minhas telas, várias: a janela de meu apartamento que mostra a cidade desde o alto, a tevê que concretiza os filmes, o computador que me permite acompanhar palestras e escrever textos, o celular que me dá o prazer das fotos e do bate-papo com uns queridos à distância. E todas as telas que são páginas.

Me encaminho para uma espécie particular de metaverso, creio, desde a eleição do monstro e da pandemia.

Devo me assustar?

Criei aversão ao mundo lá fora. Seria, então, uma meta-aversão. Toda a miséria da rua me machuca. Não consigo dizer não a tantos que me pedem sim.

Em casa, contudo, na solidão construída, posso viajar. Do Japão da era Edo aos chineses em Mogi, da excelência cômica às lágrimas nos rostos de Douglas Sirk. Sou realizada com os sentidos que crio para as coisas. Fantasio pra não morrer.

Sozinha, até me reconheço no espelho. Vejo alguma beleza neste rosto velho, que lá fora parece causar eterna indiferença. Sozinha, sou cantora dos meus tons, fã de purê de batata e melancia, feliz na rede e no sofá.

Lá fora, enquanto isso, não tenho palavras pra instaurar alegria ou pra cessar a tristeza dos outros. Nem carisma nem dinheiro a oferecer. Às vezes, quando dou moedas a alguém, jogo um beijo através da máscara e sou bem retribuída – até parece que o beijo valeu mais que o troco. Mas em outras ocasiões, nada. Pegam a marmita de comida e nada. E o que sou torna-se mais um lugar para o nada acontecer.

A pandemia vai passar, o verme vai passar. Até lá, a aversão sairá ou ficará? Será o tempo de ver o que restará de humano em nós. Em mim.

Mil e uma Mônicas

Amo esta foto feita por Giancarlo Botti em 1973, no ateliê da Dior, porque nela está Monica Vitti de fato, mulher cultíssima e plena de talento, que em sua longa carreira, interrompida por uma doença degenerativa nos últimos anos, foi bem mais que uma só, tendo atuado do teatro à dublagem, atriz das maiores no cinema, diretora, escritora. A seguir deixo pra vocês uma tradução que fiz do obituário de Chiara Ugolini no jornal La Repubblica. É preciso conhecer mais de seu trabalho, não apenas com Antonioni, os cômicos também. Adeus, Monica, e nosso obrigado infinito!

“Monica Vitti, imenso talento do cinema italiano, está morta. Ela havia completado 90 anos em novembro, há anos afastada da vida pública devido à doença que a atingiu. Trabalhou com os maiores. Foi musa de Michelangelo Antonioni, companheira de aventuras de Alberto Sordi, mas também autora e diretora. A notícia de sua morte foi dada pelo marido Roberto Russo através de Walter Veltroni, que escreveu no Twitter: “Roberto Russo, seu parceiro de todos esses anos, me pede para comunicar que Monica Vitti se foi. Faço isso com dor, carinho, lamento”.

Monica Vitti foi capaz – única em sua geração – de cobrir toda a gama de expressões do cinema italiano. A mulher burguesa, neurótica, dolorosa da incomunicabilidade, de Michelangelo Antonioni. A plebeia, grosseira, de alegria contagiante, com Alberto Sordi. Referência essencial para todas as atrizes que vieram depois, Monica Vitti foi tudo: profunda, enigmática, sensual, espirituosa. Intelectual, popular, melancólica, inteligente. Extremamente bonita.

Nos últimos anos, devido a uma doença degenerativa, deixou de aparecer em público, mas seu legado se manteve muito forte no mundo do cinema, que, por ocasião de aniversários e aniversários, não deixou de lhe retribuir o carinho com exposições fotográficas e críticas de seus mais de cinquenta filmes.

Uma carreira extraordinária e muitos prêmios: 5 David di Donatello como melhor atriz (mais quatro outros especiais), 3 Nastri d’Argento, 12 Globo de Ouro (incluindo dois pelo conjunto da obra), um Ciak de Ouro e um Leão de Ouro pela carreira em Veneza, um Urso de Prata em Berlim, Cocha de Plata em San Sebastián, indicação ao Prêmio BAFTA.

E de pensar que Monica Vitti nem tinha intenção de se dedicar ao cinema! Sua paixão era o teatro, descoberto ainda criança durante a guerra (nasceu Maria Luisa Ceciarelli em Roma, 3 de novembro de 1931), quando brincava com seus irmãos, encenando espetáculos de marionetes para distraí-los da realidade que os cercava.

A estreia, ainda menina, aconteceu no teatro com “A inimiga” de Dario Niccodemi. Foi estudar na Academia Nacional de Arte Dramática (onde se formou em 1953) e manteve uma curta mas intensa atividade teatral, interpretando de Shakespeare a Molière, de Brecht a “Seis histórias para rir”, de Luciano Mondolfo. Depois veio a dublagem e foi ali mesmo, na sala de controle, enquanto Monica emprestava sua voz para a atriz Dorian Gray em “O Grito”, que Antonioni disse a frase destinada a mudar sua carreira e sua vida: “Você tem uma bela nuca, poderia fazer cinema”.

O encontro com Antonioni implodiu todos os projetos da atriz, que estava prestes a se casar com um namorado arquiteto. Vitti se tornou a musa do diretor e daquela página de seu cinema dedicada às neuroses de casal, às angústias da mulher moderna. Um após outro, vieram Aventura (1960), A noite (1961), Eclipse (1962) e Deserto rosso (1964): quatro mulheres diferentes mas semelhantes, quatro variações sobre o mesmo tema, a atormentada Claudia que procura a amiga entre as ilhas Eólias, a sedutora Valentina que “rouba” Mastroianni de Jeanne Moreau, a misteriosa e descontente Vittoria que é cortejada sem entusiasmo pelo corretor Alain Delon e a deprimida e atormentada Giuliana, esposa de um empresário insatisfeito com a vida.

Na segunda metade da década de 1960, separou-se de Antonioni e de seu cinema para frequentar a comédia, que havia exercido no teatro. Com Mario Monicelli (La ragazza con la pistola, 1968) finalmente conseguiu libertar sua visão cômica, já claramente anunciada por seu professor na academia, Sergio Tofano. Linda e elegante, ela foi uma das primeiras atrizes a conseguir demonstrar que para fazer as pessoas rirem não era preciso ser feia ou indesejável. Ao lado de Alberto Sordi (que sofre muito por ela em Amore mio aiutami) começou uma parceria que os levaria ao grande sucesso Polvere di stelle, em 1973. Fez colaborações com Ettore Scola (Ciúme à italiana, ao lado de Giancarlo Giannini e Marcello Mastroianni), Dino Risi (Noi donne siamo fatte così), Luciano Salce (Pato com laranja), Nanni Loy, Luigi Comencini (dois dos episódios de Basta che non si sappia in giro).

Na década de 1970, a atriz foi dirigida três vezes por seu então parceiro, o diretor de fotografia de Antonioni, Carlo Di Palma, que passou a atuar como cineasta. Ela é Teresa a Ladra, filme de estreia de Di Palma (1973), depois Qui comincia l’avventura (1975), uma motociclista que veste couro e capacete em filme com Claudia Cardinale (antecipando Thelma e Louise) em Mimì Bluette…fiore del mio giardino, de 1976. Nos anos setenta houve também algumas incursões na televisão, enquanto continuou a frequentar o teatro. Em 1974, com Raffaella Carrà e Mina cantou Bellezze al bagno no espetáculo de variedades Milleluci, quatro anos depois atuou para a televisão na comédia O cilindro, de Eduardo De Filippo.

A partir dos anos 1980 Monica Vitti começou a diminuir as aparições no cinema, trabalhando especialmente nos filmes dirigidos por seu novo parceiro, o fotógrafo still que mais tarde se tornaria o diretor Roberto Russo (Flirt, 1983; Francesca è mia, 1986), com quem, após 27 anos de relacionamento, se casou em 2000. Dez anos antes, sua estreia como diretora do filme Escândalo Secreto, escrito e interpretado por ela, deu-lhe uma última grande satisfação, o prêmio David di Donatello como melhor estreia. É a história de Margherita, a própria Vitti, que recebe de presente de um amigo diretor uma câmera muito moderna, automática e completa, com controle remoto; sua vida mudará radicalmente e a máquina revelará não apenas a traição de seu marido com sua melhor amiga (Catherine Spaak), mas também a desolação de sua própria existência. Em sua vida, escreveu dois livros: em 1993 “Seven Skirts”, uma autobiografia que recebeu o título do apelido que tinha em criança, “Sete vestidos”, pois, se estivesse com pressa, conseguia colocar um vestido por cima de outro… E depois, em 1995, “A cama é uma rosa”, em que escreveu: “A perda me aperta pela garganta como uma jibóia transparente. Não posso provar que existe, mas me envolve e rasteja no meu rosto, prometendo horrores …”

Em 35 anos de cinema, fez 55 filmes. Ao nos despedirmos de Monica Vitti damos adeus às muitas mulheres que ela interpretou com graça, feminilidade e coragem. As mulheres atormentadas de Antonioni, a espiã Modesty Blaise de Joseph Losey, a siciliana seduzida e traída que voa até Londres para se vingar e descobre a liberdade, a Giuliana de Natalia Ginzburg trazida à tela por Luciano Salce em Casei com você por alegria, a mulher que inventou o movimento: Mimì Tirabusiò. E na floricultura de Scola, a Adelaide dividida entre o pedreiro Mastroianni e o pizzaiolo Giannini. Monica, muitas mulheres em uma só.”

Sadao Yamanaka, presente

O sargento Yasujiro Ozu e o soldado Sadao Yamanaka em 1938.

Os dois grandes amigos e cineastas preparam-se aqui para servir o exército japonês na Manchúria. E Yamanaka morrerá pouco tempo depois do dia em que esta foto é feita, em 1938.

Yamanaka partiu aos 28 anos. Havia feito 24 filmes em cinco anos. Apenas três restaram. Um deles, “Humanidade e Balões de Papel”, de 1937, fez tudo antes de tudo – do neorrealismo, da commedia all’italiana.

Eis um artista que se tentou, sem sucesso, apagar.

a náusea

queria sinceramente ter a paciência de assimilar o bbb como se fosse um filme e me viciar em suas situações, à moda do que o Brasil faz.

seria um meio de me comunicar com boa parte de nós, não?

contudo, das poucas vezes que tentei ver o programa, senti vergonha alheia, náusea.

minha existência anônima e quieta, com família ao lado, me parece tão mais estimulante.

sou do movimento, das vidas que percorrem as ruas, das nuvens passando, do barco que chega à ilha, do caminho até o mar.

sem piscina, sem latinhas de cerveja, sem ar domesticado, sem assédio, sem plano-contraplano de cabeças falantes, que nisso tudo, onde está o encanto?

além da pena que eu sinto do orwell por tamanha usurpação.

A Folha não mudou

Ler a Folha é pra dias específicos na minha rotina, em geral quando algo inconsciente em mim quer reafirmar uma decisão tomada há décadas, a de me demitir da empresa.

Aprendi muito lá, contudo. Ali vislumbrei uma realidade profissional antes desconhecida por mim: a de que, uma vez dentro do jornal, seu pensamento não é seu. Você trabalha para uma empresa com pensar próprio sobre como o mundo deva funcionar. Especialmente, sobre seus próprios interesses financeiros. Melhor entender quais são antes de aceitar trabalhar para/por eles. Melhor que coincidam com os seus.

A Folha, contudo, nunca deixou de me pagar em dia, nem jamais tergiversou sobre meus direitos trabalhistas. Vocês podem pensar que isto seja algo de seu estrito dever, e é, mas não imaginam como outros veículos brasileiros, até mesmo ou principalmente os de esquerda, tratam nossa força de trabalho. A adesão à esquerda por parte deles, na maioria das vezes, é só um discurso conveniente. Se as pessoas soubessem como são feitas certas salsichas, não as comeriam mais.

Abaixo-assinados de jornalistas-funcionários deveriam ser livres, não? Não. Um abaixo-assinado contrário a diretrizes do jornal é entendido como força contrária a ele como empreendimento patrimonial. E ponto. Na Folha e em qualquer outro lugar. Parece que este último, circulado assumidamente contra a edição, no diário, de artigos com certo viés ideológico, era para ser interno, e sua publicação pelo jornal vinha sendo “avaliada”. Mas o conteúdo vazou para a concorrência e agora a Folha prepara “seminário interno” para explicar aos seus funcionários… como a Folha funciona.

Imagino o clima na redação. E imagino a cara dos signatários ao participar desses seminários, idênticos jornalistas que não reagiram quando as armações da Folha resultaram em golpe contra Dilma e a democracia – armações que, no fim das contas, ajudaram a eleger este governo de atitudes racistas, mimetizadas por setores da população.

No longínquo ano de 1985, uma menina em seu primeiro trabalho na grande imprensa, também eu assinei um manifesto interno contra as diretrizes da Folha, mal aterrissada lá. Deveria antes ter entendido como funcionavam os jornais burgueses – e deles desistido, talvez. Mas não. Continuei funcionária e o abaixo-assinado me fez respirar mal.

Leio as primeiras páginas da edição da Folha de hoje, 20 de janeiro de 2022, e constato o de sempre. Artigo de ex-ombudsman explica a treta sob a perspectiva do jornal (alegando que os signatários do abaixo-assinado não quiseram fazer comentários) e glorifica-o por treinar os jornalistas negros com aulas específicas.

É um cinismo, claro, mas aqui a equação é simples. Se continuamos a ler o jornal e não o confrontamos em suas posições, nós, leitores, o fortalecemos. As pressões não devem ser apenas internas – têm de partir da sociedade como um todo. É a sociedade quem deve ensinar a Folha a mudar. É ela quem deve estar atenta a tudo, ao modo como o jornal edita as coisas, desde as imagens. Por exemplo, a foto de um Lula irado e ameaçador, publicada hoje na seção de política, diz tudo sobre o texto que virá e sobre o Brasil que o jornal quer.

Continuo lendo a Folha? Às vezes. Como disse no início, eu a espio até inconscientemente, para reiterar as razões que me fizeram abandoná-la. Mas não assino o jornal nem o compro na banca, além de criticá-lo quando julgo necessário. Sou uma desempregada em crise financeira, que ainda dorme sobre um travesseiro quente.

A inteligência teimosa de Nara Leão

“O Canto Livre de Nara Leão”, série documental em cinco episódios pela globoplay, traz de volta o doce sabor das revoluções da intérprete na música popular

Nara Leão em 1964, quando
gravou seu primeiro disco

O dia de ver o documentário seriado de Renato Terra sobre Nara Leão chegou aqui graças à oferta de uma amiga querida, assinante da Globoplay, e eu não poderia me sentir mais satisfeita com o presente.

Nara, que mulher para mim. Não pela voz, exatamente, mas que grande personalidade havia dentro dela para caminhar à vontade naquele universo imperativo dos homens, fingindo, ainda por cima, não fazer nada demais.

Quantas vezes ouviu que desafinava, que era desanimada e “mixuruca”? Muitas. Todas. Mas nos momentos em que ouvia isso parecia dirigida pela impetuosidade, uma espécie de teimosia da inteligência, esta que a tornava a um tempo graciosa (os joelhos de Nara, como brincava o Otelo Zeloni do programa humorístico “Família Trapo”) e plena de generosidade, a mulher de família bem de vida que sabia reunir, destacar, dividir e compartilhar seu talento. Mulher do desafio que nos últimos anos parecia esquecida, como acontece usualmente com figuras cruciais da arte brasileira.

Então, sim, eis o documentário “O Canto Livre de Nara Leão”, que tantos amaram. E entendo por quê. Ele a traz de volta aos nossos corações. Ouvi-la falar, em depoimentos no mais das vezes desconhecidos, como aquele ao Museu da Imagem e do Som, para Sérgio Cabral e Roberto Menescal, é uma aula de posicionamento. Uma figura pra lá de gentil mas também assertiva, a ponto de dizer a um jornal simpático aos militares de 1964 que o exército não servia pra nada, e com isso ganhar uma crônica de Drummond em seu apoio, além do abraço dos amigos em seu apartamento – o que felizmente bastou, além do apoio do pai advogado, para que não se visse presa por conta da declaração.

No célebre apartamento de
Copacabana, com Tom Jobim e
Ronaldo Bôscoli ao lado

Mulher complicada, como ela diz ao MIS, para que Menescal a apoie. E maravilhosamente única, desinteressada do profissionalismo e do sucesso.

O documentário contribui para iluminar essa Nara desconhecida. Sabemos por meio dele que a artista nem mesmo imaginou que se tornaria cantora – gostava mesmo era de cinema e achava que iria trabalhar nesse meio, no qual começou como montadora, ao lado do futuro marido, Cacá Diegues, com quem teria os filhos Isabel e Francisco. E quando, adolescente, destacou-se por manejar voz e violão no seu apartamento, começou a entender que seu papel no mundo da arte não seria só o de cantar, antes o de mexer no panorama musical a ponto de desvelá-lo e redirecioná-lo. Uma ambição maior que todas, certo? E que Elis Regina, a rival que não lhe atribuía talento vocal, também experimentou.

Com o produtor Aloysio de Oliveira
(no alto), Carlinhos Lyra e
Vinícius de Moraes

Neste documentário em cinco partes, Nara diz, com objetiva e usual sinceridade, que nos seus tempos de bossa nova não conhecia o povo brasileiro. E ao descobri-lo em sua porção de miséria e fome, por meio de Carlinhos Lyra, que lhe apresentara o morro de Nelson Cavaquinho e Cartola, começou a se deslocar do grupo. A bem da verdade, afastou-se dele de uma vez quando Ronaldo Bôscoli, a quem começara a namorar no apartamento dos pais, Jairo e Altina (célebre lugar diante do mar de Copacabana onde o movimento da juventude carioca começou), traiu-a com a cantora Maysa.

“Opinião”, em 1964, acompanhada
por Zé Kéti e João do Vale

Bossa nova, espere sua vez! Zé Kéti e João do Vale se tornariam então tudo o que havia de melhor e com eles ela arrebentaria no show-teatro “Opinião” – este do qual desistiu também, depois de dois meses, por não ter estofo físico e se sentir nauseada justamente por seu sucesso. Foi ela quem sugeriu a substituta Maria Bethânia, que à época estudava recuperação para passar em matemática na escola.

Com Chico Buarque nos anos 1970, amigo de vida e de bom humor

Os melhores depoimentos sobre Nara, os mais deliciosos e esclarecedores, por anedóticos e bem-humorados, são mesmo, neste filme, os de artistas como Bethânia, que lhe aponta incentivadora e namoradeira, e Chico Buarque, que lhe fornece um perfil muito especial, em que o bom humor não coincide com o gosto pela piada e com a distração. Mulher séria que sabia sorrir, crava Chico, a quem acompanharia em sua fase posterior à do “Opinião”, com “A Banda”, ela ganharia a algo indesejada fama pop dos festivais.

Na capa do disco “Tropicália”, ela aparece num retrato exibido por Caetano Veloso

Depois de Chico, foi a vez da Tropicália; depois da Tropicália, os nordestinos feito Fagner; depois dos nordestinos, os gaúchos como Kleiton, secreto namorado; depois dos gaúchos, Erasmo e Roberto Carlos; e até morrer precocemente de um tumor cerebral, aos 47 anos, a companhia bossa-novista do violão de Menescal, sucesso no Japão. Com Nara por perto, qualquer novo movimento musical se redobrava em brilho, como se ela lhes desse chancela artística, quebrando padrões e preconceitos precedentes.

Nara e Menescal no Japão, anos 1980

Porém, o documentário em si tem muitos problemas. Com tanto BBB na produção – um Brêtas, um Boni, dois Bial, o Pedro ele-próprio, que se casou com Isabel, e seu filho José, neto de Nara – seria de esperar mais? Infelizmente, sim.

A série, no fim das contas, desfila a aristocracia musical do Rio e dá pouco espaço para além dela – mas Nara era nacional, com o gosto pelo povo em toda parte. No documentário, por exemplo, nem mesmo o bordão do Zeloni na “Família Trapo”, programa ao qual ela compareceu, é mencionado.

Em lugar disso, exibem-se fileiras de videoclipes do “Fantástico” de gosto duvidoso – em um deles, Nara canta a necessidade de viver “uma vida sem frescura”, na canção “Além do Horizonte”, de Roberto e Erasmo, espichada num iate… E haja Leda Nagle a entrevistá-la, com a explícita intenção de dirigir suas respostas.

Com Otelo Zeloni, joelhos à mostra, informação que a série não traz

Além disso tudo, nos surgem sonegados seu rosto de infância, muito sobre seu violão, suas preferências de instrumento e noções de estilo, o nome do violonista no primeiro disco, de 1964 (Geraldo Vespar), o fato de Elis ter-se casado com Bôscoli (o que explicaria melhor a rivalidade entre elas), mesmo o seu local de nascimento (Vitória, Espírito Santo), as datas em que nasceu (1942) e morreu (1989), a profissão do pai, mais sobre sua relação com Johnny Alf ao piano, onde se esconde Alaíde Costa em sua história, etc., enquanto frases e fatos inteiros são repetidos e salpicados pelos episódios, como se não tivéssemos tido condições de absorvê-los desde a primeira vez. A função “supervisão artística” é assinada por Pedro Bial.

Está certo que o final é belo, algo inspirado pelos deuses, e a gente dá muito valor ao que tem. Contudo, Nara Leão, como ela mesma queria, é assunto sério, sempre à espera de um novo exercício fílmico-historiográfico por meio do qual se possa ampliar.

Nara, reflexões à espera

O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO

Dir.: Renato Terra

Série em 5 episódios

2022

https://globoplay.globo.com/o-canto-livre-de-nara-leao/t/fcfQvBWKVY/

penso, logo desmorono

uma coisa é você entrar numa polêmica furada porque foi obrigado, porque o editor do jornal lhe mandou entrar e você é um idiota que não sabe dizer não e ainda por cima não tem como pagar o aluguel no fim do mês.

outra coisa é você entrar em polêmica furada sem ser funcionário, pra divulgar sem a mínima fundamentação seu próprio trabalho, apenas porque não tem como pagar o aluguel no fim do mês e muita gente sem preparo, ao contrário de você, tem.

sim, é um post cifrado porque não sou obrigada.

e toda essa destruição do pensamento causada por quem poderia incentivá-lo me deixa triste de um jeito desconcertante.