sonhei que me mandaram fazer uma matéria no shopping onde uns artistas se apresentavam.
queriam seus perfis.
contudo, eu não identificava artistas entre as figuras com quem cruzava. muitas mulheres falavam alto, para um grande público, mas eu não entendia o que diziam, se eram artistas ou não, e passava adiante.
então comecei a conversar com a moça que engraxava sapatos sorrindo.
tirei fotos dela, acompanhei-a até encontrar seu filho e saí do shopping em dúvida.
A gente luta pra dormir sem livro e não consegue. Então a gente pega um livro de histórias curtas pra ver se o sono embala rápido essa nossa cabeça culpada e doída, na velocidade da historieta.
Toda noite isso.
E nada acontece.
O tempo não existe na literatura. E as imagens são poderosas mesmo se longas ou pequenas. Não adianta usar a literatura pra nada, porque, usada, ela nos rejeita.
Mas isto de ler novelas de Proust na cama na hora de dormir funciona às vezes pra mim, sim. Assim como as novelas e os cachorrinhos nos contos de Tchecov. Bulgakov, que ousei comprar na feira do livro, vai ser interessante absorver no que tem de riso, tristeza e potencial sonífero.
Hoje foi a vez de Conceição Evaristo e seus Olhos d’Água. A passagem do tempo, a profundidade do rio, a cor dos olhos de minha mãe, o espelho que vem a ser nosso inconsciente, a fome, a mulher, quem é a mulher, quem são suas filhas.
Sergio Moro dando consultoria para empresas que ele mesmo quebrou na Lava Jato me lembra uma situação comum no seriado Os Três Patetas, em que eles jogavam ratos nas casas das pessoas para depois oferecer a elas seus serviços como exterminadores.
trabalhei na folha com thais oyama quando ela começava como repórter e eu, como redatora.
escrevia bem e rápido e os homens a amavam. o glauco cartunista, por exemplo.
não era minha amiga. mal nos cumprimentávamos. mas estava na cara que se destacaria na carreira.
acho que a veja fez a cabeça dessa mulher. e dela extraiu para sempre um lado obscuro, como acontece a muitos jornalistas de passagem por lá.
isto nada tem a ver com o debate no uol no qual ela fez papelão. no fundo, era o papel exigido dela como jornalista de linha golpista burguesa brasileira.
acho que foi o uol quem pisou na bola. não tem de correr segundos como fez. nenhum anunciante está na grade exigindo a hora de aparecer. deixa o povo falar, gente. é importante para o eleitor. e com bom senso tudo se consegue.
Eu me lembro de um constrangimento vivido ano passado aqui no centro em um supermercado O dia, que pertenceu à rede Carrefour até 2011.
Um senhor negro que balbuciava palavras e não parecia plenamente em condições de estar lá reclamava das duas mulheres do caixa, também negras, que ameaçavam chamar a polícia outra vez. Ele não queria passar mais três dias detido, disse, só porque havia pegado bolachas pra comer.
Perguntei o que estava havendo. Uma das caixas me disse, zangada e sarcástica, não ter pena dele, mas de si mesma. As unidades de O Dia não contavam com seguranças. Elas, mulheres, é quem cuidavam de tudo. Abriam e fechavam a unidade, horas e horas trabalhando sem qualquer proteção. Os ataques dos noias e ladrões eram frequentes.
Fiquei desagradada com tudo. O Dia não cuidava de seus funcionários, não tinha o menor respeito por eles. Mas, obviamente, as funcionárias estavam pressionando um ladrão de galinhas indefeso, já que com os noias e ladrões jovens elas não podiam ter.
Perguntei o que fariam com o velho. A segunda caixa piscou o olho pra mim. Disse que não faria nada, mas lhe daria um sermão. Sem esperança de que ele a ouvisse.
Este Brasil dói no sangue e na alma. Se a gente boicota o supermercado, pessoas como ela ficam sem trabalho. E no Extra e em outros estabelecimentos há condições horrorosas idênticas sob as quais essas pessoas trabalham por precisar. No Carrefour, que tem mais dinheiro, terceirizam a segurança para uns bostas de PMs de modo a não pagar direito trabalhista enquanto martirizam o público negro.
O problema é esse sistema. Nada disso vai parar de acontecer, ademais sob um governo miliciano, legítimo capacho do capitalismo financeiro que quer destruir nossa vida e nosso planeta.
Ontem na votação vi pela rua mais gente usando máscara do que nos últimos tempos. Porém, um uso irregular. Parece que em alguns momentos a máscara se torna uma obrigação de estilo, tendência de verão, até pertencimento. Um acessório pendurado pela orelha, como um brinco. Ou fixada no queixo, como barba. Depende de quem a veste – que nem são todos – e algum sinal de personalidade, individual ou de grupo, é expresso.
Tive um colega de redação que reclamava do brasileiro: “Um povo que não sabe nem atravessar a rua”. Desconfio que ainda não saibamos. Mas é isso mesmo, a deseducação, a impaciência, a desesperança, a incredulidade no que é o estudo, o que nos torna esse povo eriçado, à flor da pele, constantemente. Pro mal, como no caso de espelhar-se nos judas da política. Pro bem, quando humoriza no cotidiano, visando à crítica de todos e tudo, tornando-se, assim, um verdadeiro “povo” indivisível, com quem nem mesmo o mal pode contar.
não identifiquei ninguém da esquerda na minha seção. eu estava de vermelho e roxo e mesmo assim, nada, nadinha. zero olhares cúmplices! aliás, o sujeito que deveria estar a um metro de distância atrás de mim quase me empurrou pra dentro do elevador de tão próximo… mas no fim, né? no fim, ri por último. os bozós se ferraram tanto na sua pretensão de almoço executivo, hahahaha! aqui é tucanistão brabo, gente, tenham respeito… não é qualquer evangélico que vai puxar nossos tapetes!
Meu filho decidiu que era hora de ligar a tevê no mute pra ver a apuração dos resultados pela Globonews.
(Uma insanidade de quem gosta de assistir ao programa do Neto, fazer o quê).
E saiu.
E me deixou sozinha na sala com essa turma de jornalistas peçonhentas agora felizmente separadas por bancadas covid.
Não ouço nada do que dizem, mas descubro pelas infos ao estilo de restaurante prato-feito o que eu já sabia, que terei de andar a Brigadeiro inteira no segundo turno só pra votar no Celtinha.
A tevê a cabo é meu paraíso.
Fico imaginando a Saadi no ponto detestando o mundo, maltratando o cabeleireiro, praguejando contra a Christiane Pelajio, a Khloé gordinha dessas Kardashians do Leblon, e me encho de alegria…
Minha mente ficcional é minha única companheira.
E a Globonews, um serpentário, migues!
Mas tá faltando alguém mais na bancada covid.
Que tartaruga murcha é essa mexendo o bocão no cativeiro do Butantã?
Gabeira, please no.
Na janela da sala dele tem rede de proteção! Aposto que contra si mesmo!
Ai, meu deus, só deixo a Globonews agora, diretamente do holoceno, pela Karen Walker do Will & Grace.
Quadrinhista e antropólogo lança livro onde reúne hqs que interpretam as narrativas desses povos
O artista fala para nós em live da página “Viagem ao Fundo do Baú”
Aqui, a live na qual conversamos com André Toral sobre seu livro “A Alma que Caiu do Corpo”, pela editora Veneta, em torno de histórias sobre os indígenas brasileiros.
Queridos, aqui vão depoimentos gravados meus sobre o encontro que tive com a grande fotógrafa chilena Paz Errázuriz, cujo trabalho permanece em exposição no IMS até 3 de janeiro.
Paz Errázuriz como eu a captei timidamente em Santos, outubro de 2016: fotógrafa doce, elegante, cúmplice