
Sergio Moro dando consultoria para empresas que ele mesmo quebrou na Lava Jato me lembra uma situação comum no seriado Os Três Patetas, em que eles jogavam ratos nas casas das pessoas para depois oferecer a elas seus serviços como exterminadores.

Sergio Moro dando consultoria para empresas que ele mesmo quebrou na Lava Jato me lembra uma situação comum no seriado Os Três Patetas, em que eles jogavam ratos nas casas das pessoas para depois oferecer a elas seus serviços como exterminadores.
trabalhei na folha com thais oyama quando ela começava como repórter e eu, como redatora.
escrevia bem e rápido e os homens a amavam. o glauco cartunista, por exemplo.
não era minha amiga. mal nos cumprimentávamos. mas estava na cara que se destacaria na carreira.
acho que a veja fez a cabeça dessa mulher. e dela extraiu para sempre um lado obscuro, como acontece a muitos jornalistas de passagem por lá.
isto nada tem a ver com o debate no uol no qual ela fez papelão. no fundo, era o papel exigido dela como jornalista de linha golpista burguesa brasileira.
acho que foi o uol quem pisou na bola. não tem de correr segundos como fez. nenhum anunciante está na grade exigindo a hora de aparecer. deixa o povo falar, gente. é importante para o eleitor. e com bom senso tudo se consegue.

Eu me lembro de um constrangimento vivido ano passado aqui no centro em um supermercado O dia, que pertenceu à rede Carrefour até 2011.
Um senhor negro que balbuciava palavras e não parecia plenamente em condições de estar lá reclamava das duas mulheres do caixa, também negras, que ameaçavam chamar a polícia outra vez. Ele não queria passar mais três dias detido, disse, só porque havia pegado bolachas pra comer.
Perguntei o que estava havendo. Uma das caixas me disse, zangada e sarcástica, não ter pena dele, mas de si mesma. As unidades de O Dia não contavam com seguranças. Elas, mulheres, é quem cuidavam de tudo. Abriam e fechavam a unidade, horas e horas trabalhando sem qualquer proteção. Os ataques dos noias e ladrões eram frequentes.
Fiquei desagradada com tudo. O Dia não cuidava de seus funcionários, não tinha o menor respeito por eles. Mas, obviamente, as funcionárias estavam pressionando um ladrão de galinhas indefeso, já que com os noias e ladrões jovens elas não podiam ter.
Perguntei o que fariam com o velho. A segunda caixa piscou o olho pra mim. Disse que não faria nada, mas lhe daria um sermão. Sem esperança de que ele a ouvisse.
Este Brasil dói no sangue e na alma. Se a gente boicota o supermercado, pessoas como ela ficam sem trabalho. E no Extra e em outros estabelecimentos há condições horrorosas idênticas sob as quais essas pessoas trabalham por precisar. No Carrefour, que tem mais dinheiro, terceirizam a segurança para uns bostas de PMs de modo a não pagar direito trabalhista enquanto martirizam o público negro.
O problema é esse sistema. Nada disso vai parar de acontecer, ademais sob um governo miliciano, legítimo capacho do capitalismo financeiro que quer destruir nossa vida e nosso planeta.

Ontem na votação vi pela rua mais gente usando máscara do que nos últimos tempos. Porém, um uso irregular. Parece que em alguns momentos a máscara se torna uma obrigação de estilo, tendência de verão, até pertencimento. Um acessório pendurado pela orelha, como um brinco. Ou fixada no queixo, como barba. Depende de quem a veste – que nem são todos – e algum sinal de personalidade, individual ou de grupo, é expresso.
Tive um colega de redação que reclamava do brasileiro: “Um povo que não sabe nem atravessar a rua”. Desconfio que ainda não saibamos. Mas é isso mesmo, a deseducação, a impaciência, a desesperança, a incredulidade no que é o estudo, o que nos torna esse povo eriçado, à flor da pele, constantemente. Pro mal, como no caso de espelhar-se nos judas da política. Pro bem, quando humoriza no cotidiano, visando à crítica de todos e tudo, tornando-se, assim, um verdadeiro “povo” indivisível, com quem nem mesmo o mal pode contar.

não identifiquei ninguém da esquerda na minha seção.
eu estava de vermelho e roxo e mesmo assim, nada, nadinha.
zero olhares cúmplices!
aliás, o sujeito que deveria estar a um metro de distância atrás de mim quase me empurrou pra dentro do elevador de tão próximo…
mas no fim, né?
no fim, ri por último.
os bozós se ferraram tanto na sua pretensão de almoço executivo, hahahaha!
aqui é tucanistão brabo, gente,
tenham respeito…
não é qualquer evangélico que vai puxar nossos tapetes!

Meu filho decidiu que era hora de ligar a tevê no mute pra ver a apuração dos resultados pela Globonews.
(Uma insanidade de quem gosta de assistir ao programa do Neto, fazer o quê).
E saiu.
E me deixou sozinha na sala com essa turma de jornalistas peçonhentas agora felizmente separadas por bancadas covid.
Não ouço nada do que dizem, mas descubro pelas infos ao estilo de restaurante prato-feito o que eu já sabia, que terei de andar a Brigadeiro inteira no segundo turno só pra votar no Celtinha.
A tevê a cabo é meu paraíso.
Fico imaginando a Saadi no ponto detestando o mundo, maltratando o cabeleireiro, praguejando contra a Christiane Pelajio, a Khloé gordinha dessas Kardashians do Leblon, e me encho de alegria…
Minha mente ficcional é minha única companheira.
E a Globonews, um serpentário, migues!
Mas tá faltando alguém mais na bancada covid.
Que tartaruga murcha é essa mexendo o bocão no cativeiro do Butantã?
Gabeira, please no.
Na janela da sala dele tem rede de proteção! Aposto que contra si mesmo!
Ai, meu deus, só deixo a Globonews agora, diretamente do holoceno, pela Karen Walker do Will & Grace.
Quadrinhista e antropólogo lança livro onde reúne hqs que interpretam as narrativas desses povos

Aqui, a live na qual conversamos com André Toral sobre seu livro “A Alma que Caiu do Corpo”, pela editora Veneta, em torno de histórias sobre os indígenas brasileiros.
Queridos, aqui vão depoimentos gravados meus sobre o encontro que tive com a grande fotógrafa chilena Paz Errázuriz, cujo trabalho permanece em exposição no IMS até 3 de janeiro.

A seguir, a live de que participei com o pessoal da página “Viagem ao Fundo do Baú” sobre o mais recente trabalho do artista, antropólogo, professor e pesquisador André Toral.
Foi imenso.
Só faltou Luiz Melodia para tornar “Sem Arrependimentos”, na competição de novos da Mostra Internacional, mais ainda do que ele já é, o filme mais bonito de gênero desprezado a que pude assistir neste festival

“Sonhei que morríamos juntos”, diz o jovem Parvis a seu amor, Amon.
Você já ouviu alguém falar isto num filme? Ou mesmo sonhou isto? Eu não. Ou não me lembro.
“Sem Ressentimentos” (“No Hard Feelings”, ou “sem duros, pesados sentimentos”, no original, para que se entenda que o sexo é uma alusão direta presente na narrativa) diz esta e tantas outras coisas.
Transforma-se o filme num poema de despedida a cada frame inusual, raciocinado, mágico como o pensamento do iniciante diretor alemão Faraz Shariat, que sente ao imaginar o cinema, coisa em desuso franco.

Um dos mais belos, senão o mais belo filme a que pude assistir entre as cabines virtuais concedidas gratuitamente a jornalistas cadastrados nesta 44 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
A história do filme é em parte a dele, diretor alemão de origem iraniana, incerto sobre se sua origem determina o que é. Parvis (Benjamin Radijaipour), protagonista com tanto de seu, exerce a liberdade como adolescente o quanto possível. Seus pais, migrantes iranianos de três décadas, construíram uma vida sólida em pais alheio, ali gerindo um supermercado, mas agora querem voltar ao Irã teocrático, onde aguardam Parvis a humilhação e a perseguição. Ele tem uma irmã mais velha, de quase trinta anos, alemã também.

Todos na família sabem que Parvis é gay, queer, com os gestos sinuosos, a excitação nos braços e no mover da cabeça pintada de loiro no alto. Todos o amam sabidos disso, reverentes a isso, enfim.
Sua espécie de orixá é a deusa Sailor Moon, que na animação japonesa, ele diz, representa a justiça e o amor. Numa festa sem ânimo, ele veste este cosplay para que ao fim, em plena pista de automóveis no alvorecer, bêbado, desfaça sua fantasia, em quase alusão ao personagem de Alberto Sordi em “I Vitelloni”, filme em que Fellini analisa as dores de uma adolescência prolongada.
O fato é que Parvis fala um persa estranho, que ninguém no Irã ou do Irã entende, algo (mais um) que o desobriga a se sentir ligado ao país. Um dia, contudo, após cometer uma contravenção, ele passa a cumprir serviços comunitários num abrigo da Cruz Vermelha para migrantes de sua origem. Precisa dar assistência aos temporários em busca de residência fixa na Alemanha, precisa brincar com as crianças, recolocar uma rede de futebol sem entender o que é futebol, até mesmo traduzir o apelo de uma iraniana por permanecer no país, mas incapaz de compreender o que ela diz.
Não compreende e não é compreendido igualmente por todos no abrigo, exceto por Banafshe (Banafshe Hourmazdi), irmã de Amon (Eidin Jalali), que pouco a pouco o levará a seu amor. Os iranianos temporários são em vasta maioria homofóbicos por formação e pela violência.
Tudo isto vai se passando com a bela leitura visual dos corpos, gestos e rostos movidos num espaço particularizado mas alongado, enquanto as coisas do mundo, e o mundo, se tornam paisagem secundária.
É um filme sobre adolescência. Que coisa tão comum, não?
Pois… não.

A fotografia de Simon Vu é extremada, cores e luminosidade se alteram para dar nitidez, passo a passo, à caracterização dos belos personagens. Novamente, quase: é quase como assistir ao caminho de Fritz Lang por Hollywood, quando a inventividade na composição se renovava quadro a quadro com o objetivo de contar uma história policial.
É o que Shariat, de 29 anos, consegue aqui, narrar uma trama de gênero adolescente desprezado. Mas uma história que de banal, nada tem.

SEM RESSENTIMENTOS
Dir.: Faraz Shariat
Alemanha
2020
92 min.