Marcello Quintanilha sobre sua carreira e o novo romance em live da página “Viagem ao Fundo do Baú” em 31 de outubro de 2020
Convidada por Francisco Ucha e acompanhada por Ana Gisele França, Toni Rodrigues e Rui Brito, converso aqui com o quadrinhista Marcello Quintanilha sobre seu primeiro romance, “Deserama”, pela editora Veneta.
Uma conversa deliciosa, reflexiva, solta e risonha.
Em documentário na Mostra Internacional, Jia Zhangke ouve três escritores chineses sobre a arte no país a partir dos anos 1950
Jia Pingwa: “Escrever poesia não significa viver uma vida poética”
Nadando até o mar se tornar azul é mais que um título de filme, antes um verso concreto, dito com alguma naturalidade pelo escritor Yu Hua ao final deste belo documentário de Jia Zhangke. O autor conta ao cineasta que realmente, em sua vida, nadou em um mar amarelo até que o enxergasse azul…
Adepto de uma fotografia que traduz a reflexão do artista entrevistado, focalizando seu rosto enquanto todo o entorno parece borrar-se, o cineasta caminha com calma para desvendar esse tão bem falado horizonte chinês. Os depoimentos parecem ter sido muito desejados pelos depoentes. Há intensidade, risos e lágrimas em tudo o que dizem ao diretor.
A escritora Liang Hong: as emoções pesam
Existiria um modo melhor que usar a literatura das últimas décadas, desde aquela imediatamente posterior à revolução, nos anos 1950, para esclarecer esse horizonte? Talvez sim, mas talvez, igualmente, ninguém tenha pensado nisso antes de Jia Zhangke.
O cineasta vale-se tanto do depoimento intenso e bem-humorado de Hua como da memória do célebre autor morto Ma Feng e dos depoimentos de Jia Pingwa e da escritora Liang Hong, tão emotiva, para recompor a história do fazer literário no país. É como se, durante as conversas com o cineasta, os escritores nos ensinassem coisa demais sobre ser chinês. O valor da solidariedade. A intensidade de desejar a literatura, mesmo que ela lhe tenha sido vetada pelas circunstâncias do trabalho braçal. Tentar reescrever o final e o início de um belo livro cujas páginas foram arrancadas pela revolução cultural. Tornar-se escritor na China! O equivalente a transpor o mar.
Jia Zhangke: boa conversa e inusual fotografia para traduzir quem escreve
Ainda assim, não será tudo. Tornar-se um poeta estará longe de dar um salto verdadeiro na existência. “Escrever poesia não significa viver uma vida poética”, lembra-nos Jia Pingwa. E o que ele aconselha para que isto se dê? Ele não diz. Mas podemos ler um de seus versos. “Lance um olhar frio sobre o mundo”, escreve Jia Pingwa sobre as pedras.
Tentar imaginar o final e o início de livros cujas páginas foram arrancadas pela revolução cultural tornou-se um exercício para Yu Hua
Nadando até o mar se tornar azul Dir.: Jia Zhangke China
“Walden”, da diretora tcheca Bojena Horackova, presente na Mostra Internacional, revisita a burocracia distópia da Lituânia nos anos 1980 por meio do desenvolvimento de um amor adolescente
Uma dificuldade de entender o presente
Tanto a história não se destaca excessivamente neste filme que seu final é antecipado em inserções sobre a vida de um dos personagens, vindo da França para a Lituânia trinta anos depois. Parece interessar à cineasta tcheca Bojena Horackova que recuperemos junto a esse protagonista o que ele sentiu, a simplicidade vivida na adolescência, e entendamos por que ela ainda o atrai. “Walden” vai e vem na cronologia, incerto sobre se os dois protagonistas viveram um enlaçamento por amor ou pelo desejo de fugir do stalinismo.
A diretora tcheca Bojena Horackova
Adolescentes de Ensino Médio, Jana e Paulius se encontram pela primeira vez na pista de patins de Vilnia, na Lituânia dominada por burocratas nos anos 1980. Ele joga hóquei, ela nada na piscina. Ele é um outsider destituído de utopias que faz câmbio ilegal com alemães para adquirir os objetos de consumo que julga importantes, uma bicicleta e um carro, e ela, filha de médico, uma das primeiras da classe, começa a trilhar seu caminho. Paulius já escolheu que vai transigir, Jana acompanha-o com seus olhos grandes. Um dia entram num lago dentro da floresta, que o tio de Paulius apelidou de Walden, e pensam se esconder do mundo.
É uma trama nada intrincada. E faz desse “Walden”, que jamais cita diretamente a obra homônima de 1854, escrita por Henry David Thoreau em recusa à industrialização e à urbanização, uma gargalhada triste e distópica. A fotografia, que tem a participação de Agnès Godard, a fotógrafa de Wim Wenders, propõe algum brilho em meio à aridez que a juventude desse tempo precisa enfrentar.
Fabienne Babe (Paulius) e Jana (Ina Marija Bartaité) em “Walden”: é amor ou desejo de fugir?
Minha classe de primeiro ano primário no colégio segregado: confesso que aprendi
Tenho o cuidado parecido com o do meu pai em guardar as fotos milenares. Esta é de minha classe do primeiro ano primário. Eu era bolsista de colégio alemão, que nos mantinha distantes dos alunos dos cursos pagos. Distantes mesmo, pois estudávamos à tarde, enquanto eles, de manhã, e não estávamos autorizados a frequentar a lanchonete, exceto excepcionalmente, para assim evitar abrir conversas com os ricos.
“Pobre não tem dinheiro pra comprar lanche”, me dizia a mestra azeda e esquelética. Eis por que sei de racismo e luta de classes desde cedo. Acho até que deveria escrever algo maior, um livreto sobre essa experiência, quem sabe um dia.
Éramos todos, os 41 desta foto, amigos e vizinhos na Bela Vista e nas regiões do centro de São Paulo. O Porto Seguro ficava no que é hoje a praça Roosevelt, antes de se mudar para o Morumbi. Não havíamos conseguido vaga no Caetano de Campos, o melhor colégio público de nossa região, na praça da República (hoje justamente transferido ao prédio do antigo Porto Seguro), e por isso penávamos por lá mesmo.
Dois de meus colegas nesta foto morreram aos 20 e poucos anos, com Aids, no alvorecer brasileiro da epidemia. O restante não sei se vive ou já morreu. Uma das garotas nesta foto concorreu e chegou às finais de um concurso do Chacrinha para eleger a menina mais bonita do Brasil – um concurso no qual, anos mais tarde, a apresentadora Angélica chegou em segundo lugar.
Um menino entre esses, que eu saiba, gostava de mim e eu não dava conta de corresponder a seus sentimentos. Os nerds, os atrapalhados, os tímidos, as almas simples, tenho o orgulho de havê-los atraído a vida toda. Eu fui sempre das mais altas da classe, precisava subir no banco para a foto anual e às vezes isto significava ficar atrás só com os meninos, para meu ser envergonhado, e ainda assim sorrir pro fotógrafo.
Sempre fui desse jeito, sorridente, comprida e desajeitada. Detestava meu pescoço longo, meu cabelo fino. Eu realmente não me apreciava muito. Aqui, alguns dentes permanentes não haviam ainda nascido, e eu já não curtia ser banguela. Não gostei de me ver nesta fotografia até outro dia. Mas que bobagem! Vejam que classe mais linda.
Olho para esta foto e noto que o menino tido por mais belo, até paquerado pelo professor de inglês da quinta série, não era o mais belo. Bonito mesmo era aquele sardento com cabelo cor de fogo que não parava de enrolar a pálpebra para se fazer de monstro e me assustar. Contudo, pelo contrário, ele sempre me matava de rir. Eu lhe ajudava nas lições e ensinava o que podia, sempre ousada para passar cola nas provas.
A amiga ao meu lado também me fazia gargalhar, e eu a ela, uma mulher que hoje virou promotora, mas na época sonhava em ser secretária. Eu só imaginava para mim um futuro onírico. Queria ser noviça voadora, como na série com Sally Field, ou professora, como minha querida dona Monica nesta foto, a única do primário que amei. Mas acabei no jornalismo por desejar ser correspondente de guerra, como me ensinou o Manual do Peninha. O tempo me afastou pouco a pouco, eu diria melancolicamente, de meu sonho.
Três meninas na classe eram zoadas por ser gordinhas, e eu passava meus recreios com elas. Uma envergonhada demais, as outras duas, sempre felizes.
Uma amiga era a filha bastarda de um alemão com a empregada negra. Seus meio-irmãos estudavam de manhã, no colégio pago. Vítima sentida da segregação, ela era sempre brava, e me ensinou um certo orgulho em a gente ser o que é.
Uma outra era filha de austríacos que trabalhavam como zeladores do Instituto Goethe, na rua Augusta, onde hoje está o Espaço Itaú de Cinema. No que atualmente é a sala 4 funcionava o almoxarifado do instituto. Ali, eu e a menina perfeitamente falante do alemão nos servíamos de tintas e papéis de todas as cores para fazer nossos trabalhos. Eu adorava ter de ir até lá para desenhar livremente, pintar e colar. Até hoje penso se ser dona de papelaria seria uma ideia assim tão má.
Indígenas, pretos, italianos, portugueses, éramos brasileiros, principalmente, felizes como as crianças podem ser quando a vida, mesmo imersa na pobreza ou na guerra, lhes permite.
E hoje já não me recordo com intensidade das dores que sentíamos.
“Malmkrog”, filme de quase quatro horas do romeno Cristi Puiu, presente na Mostra Internacional de Cinema, é um falar constante sobre deus, o diabo e o cristianismo na Rússia que logo irá perdê-los. Quem está em quarentena, gosta de filosofia, aprecia o sarcasmo e a atuação de bons atores enfrentará as longas horas com algum prazer.
Uma cena inicial de “Malmkrog” a evocar a geometria clássica da pintura
Este filme existe como se o russo Andrei Tarkovsky (1932-1986) tivesse se unido ao espanhol Luis Buñuel (1900-1983) para comporem juntos uma obra de cunho filosófico com o objetivo elevado de cutucar deus, o diabo e o cristianismo. Seria um longa-metragem de fato, com quase quatro horas de duração, como este “Malmkrog”, em que os personagens discutiriam a quase seriedade de sua decadência de classe, entre a sala de estar e a de jantar, servidos por homens e mulheres a quem jamais cumprimentariam ou agradeceriam. E isto, evidentemente, não poderia dar-se em um ambiente excessivamente sério, daí a presença jocosa de um surrealista anticlerical (fantasma de Buñuel) para esquentar o argumento, às vezes com uma briga de criança e sua babá no fundo da cena, ou quem sabe tiros.
O diretor de “Malmkrog”, o romeno Cristi Puiu
“Malmkrog” realiza-se assim, como uma atualização inventiva a ecoar a obra dos dois grandes diretores. O cineasta romeno Cristi Puiu, de 53 anos, é também, e obviamente pelo que se vê neste longa, um encenador dos palcos que estudou pintura e cinema. Seu filme, baseado em roteiro próprio para o livro “Três conversações”, do filósofo místico russo Vladimir Solovyov (1853-1900), é constituído por estranhos movimentos. Muitos dirão que não há movimento algum por três horas e vinte minutos de filme, mas isto será um exagero, é evidente.
Há movimento na geometria rígida e clássica dos enquadramentos. Os atores, muito bons, mexem-se com mínimos volteios entre as portas, colunas, mesa, cadeiras, poltronas. Em tomadas exteriores à distância, na neve, tornam-se pontos a caminhar. Suas expressões faciais se prolongam ou se congelam, ao bel-prazer do que suas palavras dizem, com sarcasmo, mormente. Sorrisos, um levantar de longas taças, um vestido que gira dali para cá, e o filme se faz.
Estamos na Rússia czarista e o que esta nobreza discute em francês (um proprietário de terras e seus amigos influentes) é se faz sentido ter paz. E o que é a paz. E a quem serve um mundo pacificado. A deus? Quem ele é? Pode ser bom por natureza ou apenas um pregador da bondade, que não convence ninguém sobre o íntimo de suas intenções. A guerra deve ser glorificada ou a não-violência é divina? Por que não somos todos europeus? A Europa, este continente também reivindicado pelos russos, seria um objetivo de todos os seres. Seria deus. Ou a cultura. E todos discutem sobre se a ressurreição será a prova dos nove para a religião cristã.
É um filme que nada nos facilita, e em que as palavras são jogadas em tal velocidade que podemos perdê-las ocasionalmente e ainda assim estaremos diante do cerne. De um mundo que vai findar-se, mas que ainda será discutido hipnoticamente, para que todos se convençam de sua seriedade e eternidade.
Alguém por favor apresente Cristi Puiu à reunião do ministério de Bolsonaro vazada por Moro. Nós também chegamos a imaginar que seria a última.
Fantasmas da liberdade: a gente filósofa do czar e seus serviçais de pé
Malmkrog
Dir. Cristi Puiu
Romênia, Sérvia, Suíça, Suécia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia do Norte
Na Mostra Internacional de Cinema, “Sibéria”, do cineasta Abel Ferrara, procura reproduzir as estruturas imagéticas do sonho, em uma busca do protagonista pelo autoconhecimento
Dafoe pelo deserto, conduzido pelos huskies: a Sibéria é um estado interior
Deve ser o paraíso para o estadunidense Abel Ferrara contar com a parceria fílmica de seu conterrâneo Willem Dafoe, um ator “sem idade”, robusto, profundo, e que para o cineasta, por exemplo, interpretou até mesmo Pasolini (em 2014). Dafoe tem no rosto uma máscara poderosa, flexível. Sua energia se impregna nela, assim como sua jovialidade. A ironia e o olhar investigativo tampouco escapam ao bom espectador.
É um ator ideal para situações da cinematografia independente, que abraça sempre com muito simpatia, talvez porque, ao atuar nesta espécie de filme aberto, tem o dom de reescrevê-lo. E não haveria outro exceto ele, possivelmente, a enfrentar este “Sibéria” de Ferrara sem deixá-lo resvalar no ridículo. O filme é uma viagem incandescente pela vida deste homem que ele interpreta, retirado à região gelada (numa Sibéria que não é real, mas um estado interior), depois de sofrer traumas e desejar esquecê-los.
Sem Dafoe, talvez fosse difícil entender essa procura íntima sem resvalar no ridículo
O protagonista interpretado por Dafoe recomeça do lugar mais distante possível. Clint trabalha em um bar com reluzente balcão de madeira por onde passam nativos indígenas, russos, gente falando outras línguas, enquanto ele se comunica em inglês. As russas são duas, e com uma delas, por exemplo, em condição surreal, Clint faz amor.
Um momento onírico, para representar a surrealidade das expectativas
Ele passeia pelos desertos com seu trenó movido por huskies siberianos, e os animais comentam as sequências muito bem, já que seus olhares têm expectativas. Cada segmento do roteiro mistura o tempo real da narrativa com as abstrações oníricas, nas quais Clint, por exemplo, fala consigo mesmo por meio de sua imagem projetada na água, em irônica remissão ao Duende Verde que Dafoe interpretou em Homem-Aranha.
Abel Ferrara, diretor de “Sibéria”
É como se aqueles que lhe ensinam sobre a vida, nessas conversas evocadas por sonhos, sejam miniaturas do Dersu Uzala de Kurosawa. Os diálogos que expõem religiosidades e filosofias são muito bons.
– Eu não quero ganhar.
– Por quê?
– Eu não quero perder.
Ou:
– Respeite a presença do sono. Fuja de quem não dorme. Seja alegre durante o dia. Não entregue ao estômago o pão da aflição que lhe perturbará à noite.
As paisagens são espetaculares, brancos e vermelhos se alternam, e não há ordem definida para que o protagonista encontre, por meio da memória viva e palpável, o filho, a mãe, a ex-mulher, a grávida e principalmente o pai, morto sem que Clint o tivesse compreendido.
Um espaço “Duende Verde” para que Clint possa dialogar consigo mesmo
Talvez por sua narrativa errática, este filme se veja condenado a um público reduzido. Mas é muito interessante que por meio dele Abel Ferrara tenha tentado reproduzir as estruturas do sonho e da memória, o que significa bastante coisa. Este foi o interesse que revolucionou o pensamento ocidental no século 19, tornou-se tema de exploração pelo filósofo-escritor Henri Bergson e fez Marcel Proust promover uma revolução literária.
Trata-se de uma intenção poderosa e de uma investigação muito interessante, portanto, sobre o formato de nosso inconsciente e sobre nossa constante remissão ao sonho, este que nos coloca no caminho do autoconhecimento. Aqui e ali “Sibéria” perde em movimento e congela o interesse de quem o observa, mas não é absolutamente um filme ruim.
Dersu Uzala às avessas, à procura da sabedoria em lugar de ensiná-la
A ficção de Agnieska Holland “O Charlatão”, presente na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, movimenta a linguagem do filmão hollywoodiano para mostrar uma essência humana
O curandeiro Jan Mikolásek (Ivan Trojan) e seu assistente Frantisek Palko (Juraj Loj): um desafio às imposições stalinistas contra a homossexualidade
Houve esse tempo em que um filmão de Hollywood ainda era possível, e vencia Oscar. Era uma espécie de obra que, embora expusesse fatos terríveis, abria com competência narrativa e bela fotografia uma possibilidade psicológica de futuro e esperança.
Eis que a célebre tcheca de 72 anos Agnieska Holland exerce essa linguagem tradicional em O Charlatão, indicado por seu país para concorrer ao Oscar de melhor obra estrangeira. E talvez este seu filme seja a contrafacção de muitos outros, a exemplo de “O Jogo da Imitação” (2014), do norueguês Morten Tyldum, em que se descreve como o matemático Alan Turing, apesar de ter quebrado as criptografias nazistas, acabou na sarjeta por ser homossexual, gênero interditado na Grã-Bretanha de então.
Agnieska Holland: sem se curvar à consolação psicológica
O mínimo que se pode dizer é que Agnieska não se curva à consolação psicológica ao fim, bastante precisa sobre a existência de maldade ou bondade nos homens. O charlatão aqui é um curandeiro que trata de pacientes ao observar o estado de sua urina. O herbalista, traumatizado pela participação como soldado na guerra, sobrevive, contudo, em alto estilo: com o tempo, a cura em massa lhe rende dinheiro e ele adquire uma grande casa onde vive e atende a uma fila constante de pacientes.
Apaixonado por seu assistente, que mora com ele apesar de casado com uma mulher, compra-lhe um automóvel fabricado nos Estados Unidos, isto quando a população já sentia os efeitos da escassez sob uma controladora administração comunista. E, sim, a homossexualidade também lhe pesa como um crime.
Um banco dos réus para a liberdade
O estilo de Agnieska opera por flashbacks constantes a nos esclarecer sobre a figura rígida e enigmática do curandeiro. Ele escapa dos interrogatórios porque a todos atende, e salvou da morte até nazistas e comunistas poderosos, que por isso sempre o liberaram de constrangimentos. O filme é feito de planos médios, predominantemente escuro. Volta-se aos interiores onde a luz principal mimetiza a da janela, por onde o curandeiro analisa a urina. Nas situações românticas ou positivas dentro do filme, abre-se o sol, e o vento movimenta o trigal.
Sem a surpresa ao fim, não se entende este filme sobre um complô. Esta cineasta sorridente assimila procedimentos humorísticos que incluem surpresa e deslocamento. Seu filme não acaba com um estouro, como “Parente é Serpente”, de Mario Monicelli, mas com um pequeno gesto de carinho.
O curandeiro, seu assistente e a urina observada na fresta de luz
“Masters in Short”, presente na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, costura homenagens ao cinemasilencioso
Em “A Visita”, de Jia Zhangke, uma dupla cômica usa máscaras para esconder palavras
Este filme de episódios, em sua maior parte, homenageia o silêncio dentro da arte. Uma homenagem para lá de justa, já que se tem privilegiado a palavra no cinema e deixado para segundo plano o movimento, seu sentido. Masters of Short seria essencialmente harmônico das origens cinematográficas não houvesse a seu término, em “Escondida”, as palavras sem fim do diretor Jafar Panahi. Mas estas operam numa constância tal que até nos fazem esquecê-las… Curioso perceber como, por meio delas, ao observar o movimento dentro de um tradicional automóvel iraniano, operamos na vibração mágica dos mudos.
Como todo filme de episódios, este é irregular e diverso. Começa Jia Zhangke com A Visita, uma graça rápida sobre a hesitação do toque na era pandêmica, relembrando a ação das duplas cômicas que aperfeiçoaram o cinema silencioso. Depois, com “O Adivinhador” e “Os Caçadores de Coelhos”, de Guy Maddin, Evan e Galen Johnson, nos vemos diante de mínimas superproduções que escancaram a paródia aos filmes monumentais do início soviético, em suas situações de comicidade e sonho.
“Uma Noite na Ópera”, de Sergei Loznitsa, parece ser o experimento mais radical e minimalista do filme. Em seu curta, o diretor edita os telejornais antigos que registraram, silenciosos, os momentos a anteceder um concerto de Maria Callas na Ópera Nacional de Paris, em 1958. Ao teatro acorrem, banhados em flash e sorrisos, as estrelas da época, Charles Chaplin, Brigitte Bardot, Grace Kelly e Rainier, Charles De Gaulle, a rainha Elizabeth e Philip… Loznitsa nos coloca dentro do teatro, mas, principalmente, de um tempo. E somos presenteados com a voz mixada de Callas ao fim.
Não bastasse esse sonho memorial, o belo encerramento de Panahi evocará a tragédia feminina e presente da mulher iraniana, escondida por trás de um pano, mas ainda viva.
O artista plástico Ai Weiwei precisa voltar ao Brasil urgentemente para compreender por que seu filme sobre a pandemia nos parece estranho em muitos momentos. A China errou, e muito, ao ignorar o potencial do vírus no início, mas nunca esteve nos planos do governo matar deliberadamente seus cidadãos contaminados
Nos hospitais, os incansáveis procedimentos de urgência
De 1 de dezembro do ano passado, quando o primeiro caso foi detectado, até o estabelecimento do lockdown na China, em 23 de janeiro de 2020, um grande silêncio foi imposto aos habitantes do país sobre o potencial letal da Covid-19. Este parece ser um dos lamentos centrais do artista plástico Ai Weiwei, que dirigiu remotamente o documentário “Coronation”, exibido até o dia 5 de novembro durante a 44 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ao organizar imagens aéreas e terrenas de Wuhan, a cidade por onde a contaminação primeiro e rapidamente se espraiou.
A polícia controla os papeis de quem se dirige à cidade que é foco de contaminação
Médicos, enfermeiros, trabalhadores de construção, doentes e seus familiares foram registrados por meio de câmeras e celulares particulares para que ocorrências relacionadas ao estouro da pandemia se vissem exibidas em ritmo cinematográfico, de modo a “coroar” os verdadeiros responsáveis pelos erros que resultaram na contaminação acelerada e transformaram a China, inicialmente, na nação do coronavírus, esta a que o diretor alude ironicamente no título do filme como “coronation”.
Para Weiwei, que reflete enquanto expõe, errado é um sistema político que prende seus habitantes à burocracia controladora de suas vidas, ignorando dores e necessidades particulares, como aquelas envolvidas na luta pela sobrevivência dos doentes. Parentes que não podem dispor facilmente das cinzas de seus mortos, por razões não esclarecidas, e que acabam por queimar seus restos em plena rua, nas sequências finais do filme, são expostos em sua impotência diante da morte evitável. Há humor quando uma idosa servidora do partido reflete sobre a grandeza da união em prol do bem comum no país: ela saberá que a cúpula chinesa mente aos seus cidadãos?
A idosa servidora do partido e seu filho, em uma sequência com elementos de humor: ela sabe que a cúpula chinesa omite informações a seus cidadãos?
O brasileiro que vê este filme deve se preparar para o sofrimento dobrado. Toda a lamentação chinesa lhe parecerá estranha, desde aquela dos pacientes curados, a quem foi imposto o confinamento sem diagnóstico contundente final. Por que reclamar, se se salvaram?
A vestimenta sem erro e a rigorosa esterilização dos funcionários nos hospitais
Depois de um grande tropeço de avaliação inicial, nada parece errado no que a China faz para curar seu povo e impedir que a contaminação ande além. Todos os que partem de locais contaminados ou a ele se dirigem são rigorosamente inspecionados. Há medidores de temperatura nos locais públicos, incluindo transportes. Depois de certa altura, se sair à rua sem cuidados, e quando não recomendado, um chinês será obrigado a pagar pelo tratamento, que durante a pandemia foi gratuito. Nenhum médico está sozinho na hora de se higienizar: dentro dos hospitais, uma câmera rastreia seus procedimentos e alguém, ao observar a cena por monitores, avisa ao profissional se não limpou direito seus sapatos.
Drones medem a amplitude de um país continental
Não é um filme sobre particularidades, antes sobre contextos. Weiwei preza a observação extensa, continuada, incansável e irônica de seus personagens em linha de montagem, que podem, por exemplo, estar sujeitos a um juramento de fidelidade ao Partido Comunista quando isto nem de longe seria o esperado em pleno estouro de uma crise sanitária.
Ai Weiwei: em “Coronation”, os olhos abertos para as grandes dimensões
Vivenciamos as dimensões continentais do país no seu cotidiano. Um médico anda por vários minutos por entre labirínticos corredores até alcançar seu local de trabalho num hospital em que tudo, desde a vestimenta de proteção, funciona a contento e com cuidado. Câmeras em drones demonstram a imensa malha de trilhos e estradas que fazem daquele um vasto território acordado para o mundo em todas as horas da noite e do dia.
Por que reclamar da China, se somos brasileiros nas mãos de genocidas?
Weiwei, volte ao Brasil, e rápido.
O fechamento de uma urna funerária diante dos parentes dos mortos, que ficam de costas
Documentário sobre o diretor presente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo explora as entrevistas concedidas pelo artista ao crítico Michel Ciment e o material de arquivo em torno de sua produção de 40 anos
Com Malcolm McDowell durante as filmagens de “Laranja Mecânica”, 1971
Por quarenta anos e 13 filmes, a carreira do diretor estadunidense Stanley Kubrick foi tida como a melhor possível entre as dos artistas viventes, como sugere este documentário dirigido pelo francês Grégory Monro. Fizesse ele um filme sobre a guerra e seria, se não o mais visto, o melhor de todos os tempos. Assim também ocorreria com todo o novelo que o artista desfiasse sobre o desejo, a história, a ficção científica, o terror. No fim das contas, Kubrick não exerceria um gênero, mas radicalmente a si mesmo, em busca de precisão existencial para seus filmes.
O crítico francês Michel Ciment: 30 anos de entrevistas
Quando as palavras do crítico Michel Ciment pousaram sobre ele na revista Positif, o diretor encantou-se. Decidiu então conceder-lhe entrevistas por 30 anos, detalhando seus ímpetos e intenções, até que a conclusão sobre a obra do artista pudesse ser descrita pelo crítico. Para Ciment, todas as tramas do cineasta parecem ocorrer numa época de grande cultura e racionalidade, até que, de repente, o irracional explode.
Na residência londrina a 15km das locações, o próprio diretor montava seus filmes
O filme usa as gravações feitas por Ciment em três décadas e os arquivos mantidos pela família do diretor, morto aos 70 anos, em 1999, enquanto realizava “De olhos bem fechados”. Seu trabalho como fotojornalista na revista Look, que o ajudou a tratar com originalidade a composição e a luz no cinema, é exemplificado numa passagem. Sua atividade como baterista de jazz, que lhe trouxe um sentido rítmico na direção e na montagem das cenas, aparece como informação surpreendente. Não raro eram as filmagens realizadas em cenários a 15km de sua residência inglesa, onde vivia com a mulher e as filhas e onde também mantinha os equipamentos para editar seus filmes.
Kubrick com Hardt Kruger e Ryan O’ Neal em “Barry Lyndon”, 1975: a luz das velas era a única iluminação
O mais intrigante parece ter sido sua obsessão ao filmar. Trinta e oito tomadas até que Sterling Hayden mostrasse terror em seus olhos, mais outras tantas para o furor de Jack Nicholson surgir naturalmente…
Kubrick gostava de se comparar a Napoleão Bonaparte, um estrategista do ritmo da batalha no set. Muitos poderiam tê-lo acusado de perfeccionismo, mas, como lembra Malcolm McDowell, Kubrick de nada sabia, muito menos onde colocar a câmera, até chegar o dia de filmar. E, se gostasse do ator, incorporaria suas ideias e se orientaria a partir delas, como aconteceu com ele próprio, que decidiu cantar “Singin’ in the rain” numa sequência de estupro de “Laranja Mecânica”, ou com Peter Sellers, que em “Doutor Fantástico” decidiu manter incontrolável o braço direito, esticado ao bel-prazer para a saudação nazista.
O braço direito que se levanta involuntariamente para a saudação nazista: uma ideia de Peter Sellers que Kubrick incorporou em “Dr. Fantástico”
KUBRICK POR KUBRICK é um documentário tradicional, que não renova depoimentos, mantendo apenas aqueles colhidos no passado. Aliados às falas do próprio artista, compõem uma crítica estática em relação a esta importante obra que o tempo se encarrega de continuamente movimentar.
Onde colocar a câmera, um mistério que Kubrick só resolvia no set