O mal, o bem e o curandeiro

A ficção de Agnieska Holland “O Charlatão”, presente na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, movimenta a linguagem do filmão hollywoodiano para mostrar uma essência humana

O curandeiro Jan Mikolásek (Ivan Trojan) e seu assistente Frantisek Palko (Juraj Loj): um desafio às imposições stalinistas contra a homossexualidade

Houve esse tempo em que um filmão de Hollywood ainda era possível, e vencia Oscar. Era uma espécie de obra que, embora expusesse fatos terríveis, abria com competência narrativa e bela fotografia uma possibilidade psicológica de futuro e esperança.

Eis que a célebre tcheca de 72 anos Agnieska Holland exerce essa linguagem tradicional em O Charlatão, indicado por seu país para concorrer ao Oscar de melhor obra estrangeira. E talvez este seu filme seja a contrafacção de muitos outros, a exemplo de “O Jogo da Imitação” (2014), do norueguês Morten Tyldum, em que se descreve como o matemático Alan Turing, apesar de ter quebrado as criptografias nazistas, acabou na sarjeta por ser homossexual, gênero interditado na Grã-Bretanha de então.

Agnieska Holland: sem se curvar à consolação psicológica

O mínimo que se pode dizer é que Agnieska não se curva à consolação psicológica ao fim, bastante precisa sobre a existência de maldade ou bondade nos homens. O charlatão aqui é um curandeiro que trata de pacientes ao observar o estado de sua urina. O herbalista, traumatizado pela participação como soldado na guerra, sobrevive, contudo, em alto estilo: com o tempo, a cura em massa lhe rende dinheiro e ele adquire uma grande casa onde vive e atende a uma fila constante de pacientes.

Apaixonado por seu assistente, que mora com ele apesar de casado com uma mulher, compra-lhe um automóvel fabricado nos Estados Unidos, isto quando a população já sentia os efeitos da escassez sob uma controladora administração comunista. E, sim, a homossexualidade também lhe pesa como um crime.

Um banco dos réus para a liberdade

O estilo de Agnieska opera por flashbacks constantes a nos esclarecer sobre a figura rígida e enigmática do curandeiro. Ele escapa dos interrogatórios porque a todos atende, e salvou da morte até nazistas e comunistas poderosos, que por isso sempre o liberaram de constrangimentos. O filme é feito de planos médios, predominantemente escuro. Volta-se aos interiores onde a luz principal mimetiza a da janela, por onde o curandeiro analisa a urina. Nas situações românticas ou positivas dentro do filme, abre-se o sol, e o vento movimenta o trigal.

Sem a surpresa ao fim, não se entende este filme sobre um complô. Esta cineasta sorridente assimila procedimentos humorísticos que incluem surpresa e deslocamento. Seu filme não acaba com um estouro, como “Parente é Serpente”, de Mario Monicelli, mas com um pequeno gesto de carinho.

O curandeiro, seu assistente e a urina observada na fresta de luz

O Charlatão (Charlatan)

Dir. Agnieska Holland

República Tcheca, Irlanda, Eslováquia, Polônia

1h58min

2020

https://mostraplay.mostra.org/film/o-charlatao/

Silêncio, ação!

“Masters in Short”, presente na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, costura homenagens ao cinema silencioso

Em “A Visita”, de Jia Zhangke, uma dupla cômica usa máscaras para esconder palavras

Este filme de episódios, em sua maior parte, homenageia o silêncio dentro da arte. Uma homenagem para lá de justa, já que se tem privilegiado a palavra no cinema e deixado para segundo plano o movimento, seu sentido. Masters of Short seria essencialmente harmônico das origens cinematográficas não houvesse a seu término, em “Escondida”, as palavras sem fim do diretor Jafar Panahi. Mas estas operam numa constância tal que até nos fazem esquecê-las… Curioso perceber como, por meio delas, ao observar o movimento dentro de um tradicional automóvel iraniano, operamos na vibração mágica dos mudos.

Como todo filme de episódios, este é irregular e diverso. Começa Jia Zhangke com A Visita, uma graça rápida sobre a hesitação do toque na era pandêmica, relembrando a ação das duplas cômicas que aperfeiçoaram o cinema silencioso. Depois, com “O Adivinhador” e “Os Caçadores de Coelhos”, de Guy Maddin, Evan e Galen Johnson, nos vemos diante de mínimas superproduções que escancaram a paródia aos filmes monumentais do início soviético, em suas situações de comicidade e sonho.

“Uma Noite na Ópera”, de Sergei Loznitsa, parece ser o experimento mais radical e minimalista do filme. Em seu curta, o diretor edita os telejornais antigos que registraram, silenciosos, os momentos a anteceder um concerto de Maria Callas na Ópera Nacional de Paris, em 1958. Ao teatro acorrem, banhados em flash e sorrisos, as estrelas da época, Charles Chaplin, Brigitte Bardot, Grace Kelly e Rainier, Charles De Gaulle, a rainha Elizabeth e Philip… Loznitsa nos coloca dentro do teatro, mas, principalmente, de um tempo. E somos presenteados com a voz mixada de Callas ao fim.

Não bastasse esse sonho memorial, o belo encerramento de Panahi evocará a tragédia feminina e presente da mulher iraniana, escondida por trás de um pano, mas ainda viva.

Masters in Short

Vários

2020

1h11

https://mostraplay.mostra.org/film/masters-in-short/

Chineses, reclamar por quê?

O artista plástico Ai Weiwei precisa voltar ao Brasil urgentemente para compreender por que seu filme sobre a pandemia nos parece estranho em muitos momentos. A China errou, e muito, ao ignorar o potencial do vírus no início, mas nunca esteve nos planos do governo matar deliberadamente seus cidadãos contaminados

Nos hospitais, os incansáveis procedimentos de urgência

De 1 de dezembro do ano passado, quando o primeiro caso foi detectado, até o estabelecimento do lockdown na China, em 23 de janeiro de 2020, um grande silêncio foi imposto aos habitantes do país sobre o potencial letal da Covid-19. Este parece ser um dos lamentos centrais do artista plástico Ai Weiwei, que dirigiu remotamente o documentário “Coronation”, exibido até o dia 5 de novembro durante a 44 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ao organizar imagens aéreas e terrenas de Wuhan, a cidade por onde a contaminação primeiro e rapidamente se espraiou.

A polícia controla os papeis de quem se dirige à cidade que é foco de contaminação



Médicos, enfermeiros, trabalhadores de construção, doentes e seus familiares foram registrados por meio de câmeras e celulares particulares para que ocorrências relacionadas ao estouro da pandemia se vissem exibidas em ritmo cinematográfico, de modo a “coroar” os verdadeiros responsáveis pelos erros que resultaram na contaminação acelerada e transformaram a China, inicialmente, na nação do coronavírus, esta a que o diretor alude ironicamente no título do filme como “coronation”.

Para Weiwei, que reflete enquanto expõe, errado é um sistema político que prende seus habitantes à burocracia controladora de suas vidas, ignorando dores e necessidades particulares, como aquelas envolvidas na luta pela sobrevivência dos doentes. Parentes que não podem dispor facilmente das cinzas de seus mortos, por razões não esclarecidas, e que acabam por queimar seus restos em plena rua, nas sequências finais do filme, são expostos em sua impotência diante da morte evitável. Há humor quando uma idosa servidora do partido reflete sobre a grandeza da união em prol do bem comum no país: ela saberá que a cúpula chinesa mente aos seus cidadãos?

A idosa servidora do partido e seu filho, em uma sequência com elementos de humor:
ela sabe que a cúpula chinesa omite informações a seus cidadãos?

O brasileiro que vê este filme deve se preparar para o sofrimento dobrado. Toda a lamentação chinesa lhe parecerá estranha, desde aquela dos pacientes curados, a quem foi imposto o confinamento sem diagnóstico contundente final. Por que reclamar, se se salvaram?

A vestimenta sem erro e a rigorosa esterilização dos funcionários nos hospitais

Depois de um grande tropeço de avaliação inicial, nada parece errado no que a China faz para curar seu povo e impedir que a contaminação ande além. Todos os que partem de locais contaminados ou a ele se dirigem são rigorosamente inspecionados. Há medidores de temperatura nos locais públicos, incluindo transportes. Depois de certa altura, se sair à rua sem cuidados, e quando não recomendado, um chinês será obrigado a pagar pelo tratamento, que durante a pandemia foi gratuito. Nenhum médico está sozinho na hora de se higienizar: dentro dos hospitais, uma câmera rastreia seus procedimentos e alguém, ao observar a cena por monitores, avisa ao profissional se não limpou direito seus sapatos.

Drones medem a amplitude de um país continental

Não é um filme sobre particularidades, antes sobre contextos. Weiwei preza a observação extensa, continuada, incansável e irônica de seus personagens em linha de montagem, que podem, por exemplo, estar sujeitos a um juramento de fidelidade ao Partido Comunista quando isto nem de longe seria o esperado em pleno estouro de uma crise sanitária.

Ai Weiwei: em “Coronation”, os olhos abertos para as grandes dimensões

Vivenciamos as dimensões continentais do país no seu cotidiano. Um médico anda por vários minutos por entre labirínticos corredores até alcançar seu local de trabalho num hospital em que tudo, desde a vestimenta de proteção, funciona a contento e com cuidado. Câmeras em drones demonstram a imensa malha de trilhos e estradas que fazem daquele um vasto território acordado para o mundo em todas as horas da noite e do dia.


Por que reclamar da China, se somos brasileiros nas mãos de genocidas?

Weiwei, volte ao Brasil, e rápido.

O fechamento de uma urna funerária diante dos parentes dos mortos, que ficam de costas

Coronation (Coronation)

Dir. Ai Weiwei

China

115 min

2020

https://44.mostra.org/filmes/coronation

Kubrick, ou quando o irracional explode

Documentário sobre o diretor presente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo explora as entrevistas concedidas pelo artista ao crítico Michel Ciment e o material de arquivo em torno de sua produção de 40 anos

Com Malcolm McDowell durante as filmagens de “Laranja Mecânica”, 1971

Por quarenta anos e 13 filmes, a carreira do diretor estadunidense Stanley Kubrick foi tida como a melhor possível entre as dos artistas viventes, como sugere este documentário dirigido pelo francês Grégory Monro. Fizesse ele um filme sobre a guerra e seria, se não o mais visto, o melhor de todos os tempos. Assim também ocorreria com todo o novelo que o artista desfiasse sobre o desejo, a história, a ficção científica, o terror. No fim das contas, Kubrick não exerceria um gênero, mas radicalmente a si mesmo, em busca de precisão existencial para seus filmes.

O crítico francês Michel Ciment: 30 anos de entrevistas

Quando as palavras do crítico Michel Ciment pousaram sobre ele na revista Positif, o diretor encantou-se. Decidiu então conceder-lhe entrevistas por 30 anos, detalhando seus ímpetos e intenções, até que a conclusão sobre a obra do artista pudesse ser descrita pelo crítico. Para Ciment, todas as tramas do cineasta parecem ocorrer numa época de grande cultura e racionalidade, até que, de repente, o irracional explode.

Na residência londrina a 15km das locações, o próprio diretor montava seus filmes

O filme usa as gravações feitas por Ciment em três décadas e os arquivos mantidos pela família do diretor, morto aos 70 anos, em 1999, enquanto realizava “De olhos bem fechados”. Seu trabalho como fotojornalista na revista Look, que o ajudou a tratar com originalidade a composição e a luz no cinema, é exemplificado numa passagem. Sua atividade como baterista de jazz, que lhe trouxe um sentido rítmico na direção e na montagem das cenas, aparece como informação surpreendente. Não raro eram as filmagens realizadas em cenários a 15km de sua residência inglesa, onde vivia com a mulher e as filhas e onde também mantinha os equipamentos para editar seus filmes.

Kubrick com Hardt Kruger e Ryan O’ Neal em “Barry Lyndon”, 1975:
a luz das velas era a única iluminação

O mais intrigante parece ter sido sua obsessão ao filmar. Trinta e oito tomadas até que Sterling Hayden mostrasse terror em seus olhos, mais outras tantas para o furor de Jack Nicholson surgir naturalmente…

Kubrick gostava de se comparar a Napoleão Bonaparte, um estrategista do ritmo da batalha no set. Muitos poderiam tê-lo acusado de perfeccionismo, mas, como lembra Malcolm McDowell, Kubrick de nada sabia, muito menos onde colocar a câmera, até chegar o dia de filmar. E, se gostasse do ator, incorporaria suas ideias e se orientaria a partir delas, como aconteceu com ele próprio, que decidiu cantar “Singin’ in the rain” numa sequência de estupro de “Laranja Mecânica”, ou com Peter Sellers, que em “Doutor Fantástico” decidiu manter incontrolável o braço direito, esticado ao bel-prazer para a saudação nazista.

O braço direito que se levanta involuntariamente para a saudação nazista:
uma ideia de Peter Sellers que Kubrick incorporou em “Dr. Fantástico”

KUBRICK POR KUBRICK é um documentário tradicional, que não renova depoimentos, mantendo apenas aqueles colhidos no passado. Aliados às falas do próprio artista, compõem uma crítica estática em relação a esta importante obra que o tempo se encarrega de continuamente movimentar.

Onde colocar a câmera, um mistério que Kubrick só resolvia no set

Kubrick por Kubrick (Kubrick Par Kubrick)

Dir. Grégory Monro

França

2020

72 min

https://mostraplay.mostra.org/film/kubrick-por-kubrick/https://mostraplay.mostra.org/film/kubrick-por-kubrick/

Eleanor Marx, a saga e o rock

No longa em exibição na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a filha mais nova do pensador alemão tem a trágica trajetória narrada pela cineasta italiana Susanna Nicchiarelli

Romola Garai interpreta Eleanor, filha caçula de Marx e socialista dedicada à obra do pai

Antes de sua morte em 1883, aos 65 anos, Karl Marx assistiu ao perecer de cinco de seus familiares mais íntimos, quatro filhos e a mulher Jenny. Foi um marido apaixonado e um pai tão bom para todos que, enquanto se concentrava para a escrita de “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, por vezes interrompeu o trabalho e se atrelou, como um cavalo, a uma fila de cadeiras de pés quebrados. Atrás dele, os filhos usavam sobre suas costas um chicote imaginário, e assim ele fazia a carruagem andar.

Patrick Kennedy vive Edward Aveling, militante marxista que significou a ruína para Eleanor

Eleanor, a Tussy, era a filha mais nova a puxar pelo pai. Estudiosa de sua obra, ela inicialmente, como a irmã Jennychen, desejou os palcos, mas o pai a proibiu de ser atriz. Suas filhas, preocupava-se Marx, deveriam casar-se bem para evitar a miséria e a exclusão social. Ainda assim, elas prosseguiram a pensar, traduzir e ler. Nascida na Inglaterra, Eleanora formulou parâmetros para a ação libertária feminina dentro da Liga Socialista. Mas, no meio disso, uniu-se ao eminente militante marxista britânico Edward Aveling, um mulherengo e perdulário que foi sua ruína. Suicidou-se aos 43 anos, da mesma forma que a irmã Laura, morta junto ao marido Paul Lafargue.

Eleanor em foto de 1871, aos 16 anos
A eletrizante biografia da família Marx, aqui publicada em 2013


MISS MARX, longa-metragem da italiana Susana Nicchiarelli, parece sabedor das informações apontadas neste texto, muitas delas organizadas na eletrizante biografia familiar “Amor e Capital”, de Mary Gabriel (Zahar, 2013). Mas as utiliza displicentemente, como se falasse apenas aos marxistas sabedores dos bastidores históricos. O filme sofre de mimetizar a ousadia de Sofia Coppola, que um dia transformou Maria Antonieta em uma figura hollywoodiana sobre os tênis do presente.

Susanna Nicchiarelli, a diretora de Miss Marx

Eis que Nicchiarelli se sente livre, depois de Sofia, para afogar o desespero de Eleanora no bom punk do Downtown Boys. Seu filme tem uma fotografia de qualidade, como se ela trouxesse a nossos corpos a umidade londrina, a se espalhar por tecidos, casacos e tapetes entre o verde e o vermelho. De resto, contudo, MISS MARX é uma oportunidade perdida.

Um punk dos Downtown Boys para a triste Eleanor desabafar

Miss Marx (Miss Marx)

Dir.: Susanna Nicchiarelli

Itália, Bélgica

2020

107 min

https://mostraplay.mostra.org/search.html?q=miss+marx

Chechênia, onde matar gays virou obrigação de família

Filme de David France na Mostra Internacional em São Paulo retrata uma dor em andamento. Na república ao sul da Rússia, os homossexuais são reprimidos sem que nada seja feito para impedir a ação policial fora de ordem

Maxim Lapunov e o namorado Bogdan: fuga e afirmação

Welcome to Chechnya é o retrato de uma grande dor em andamento. Na Chechênia, república ao sul da Rússia liderada por um certo Ramsan Kadyrov, fantoche barba-ruiva de Vladimir Putin, os gays são localizados pela polícia, espancados, presos, torturados e mortos sem que nada seja feito para reprimir uma autoridade francamente fora de ordem e vil. 

O líder Ramsan Kadyrov, que com a ajuda de Putin fecha os olhos ao massacre de jovens

Mais. Embora se trate de um país laico, uma maioria populacional muçulmana tem ditado as regras de existência. Quase certamente, ao receber em casa os torturados, as famílias terminarão o serviço iniciado por esses policiais, a seu conselho. Simplesmente matarão os parentes homossexuais feridos – e o filme chega a mostrar uma câmera de rua no momento em que alguém joga uma grande pedra sobre o corpo tirado de um camburão.

O ativista David Isteev, que coordena as fugas dos perseguidos a Moscou

Contudo, não foi sempre assim, conforme diz o ativista David Isteev, coordenador responsável por Crises na organização Rede LGBT Russa. Isteev recebe as ligações de jovens em desespero e encaminha sua fuga para um abrigo em Moscou, até que os refugiados encontrem passaporte para viver em outros países associados à organização não-governamental, como Bélgica ou Canadá. (Foram 151 os repatriados em dois anos de atividade da organização, enquanto nem Rússia nem os Estados Unidos de Trump aceitam acolher chechenos homossexuais).

No abrigo em Moscou, a espera constante por asilo

O trabalho de Isteev, assim como o de Olga Baranova, diretora do centro comunitário para Iniciativas LGBT em Moscou, fez-se necessário ou imprescindível desde que, em março de 2017, uma batida da polícia chechena localizou drogas com dois contraventores. No celular de um deles, os policiais encontraram mensagens e fotos de sexo explícito gay. Os traficantes foram torturados para que delatassem mais dez de seus colegas homossexuais. E, a partir da coerção à delação, que se transformou em hábito no país, o número de perseguidos, torturados e mortos aumentou exponencialmente.

Gisha, pseudônimo de Maxim Lapunov, torna-se protagonista do filme. De início, o diretor lhe aplica um recurso adotado para todos os personagens sob risco: altera digitalmente seu rosto. Gisha nem checheno é. Foi à região para trabalhar, mas, detectado como gay, viu-se preso por um ano numa cadeia onde a tortura era rotineira. Solto e de volta a sua Rússia, prosseguiu caçado e as ameaças se estenderam a sua família – mãe, irmã e sobrinhos que se recusaram a patrocinar sua eliminação. Eles vão penar para encontrar lugar. “Sabe do que fugimos?”, considera sua mãe. “Não de um país, mas de um povo que, ao ganhar poder, começa a abusar dele.”

Mulheres homossexuais como Anya estão sujeitas à violência constante

Mais do que Gisha, o filme materializa a dificuldade em amparar as mulheres homossexuais. Elas vivem já cerceadas, escondidas em casa. Detectada sua sexualidade, sofrem torturas e abusos violentos. Foi o que aconteceu com Anya, uma jovem rica de 17 anos chantageada pelo tio: ou transava com ele ou ele a delataria ao pai, que certamente decidiria matá-la. Isteev a acolhe depois de uma complicada operação para enganar sua família, mas as coisas não correrão como imaginadas em prol de sua libertação.

Um filme sem fotografia especial, com o fôlego, a apreensão e o coração de uma transmissão televisiva. Um filme a pedir ajuda, desesperadamente.

Welcome to Chechnya (Welcome To Chechnya)

Dir.: David France

EUA, 2020

107 min

https://mostraplay.mostra.org/film/welcome-to-chechnya/

Magina!

Se tem uma expressão paulistana que adoro é esta:

“Imagina”

querendo dizer

“De nada”, quando se responde ao “obrigada”

“Gentileza sua”, quando se responde a um “que linda você está hoje”

“Não conte com isso”, quando se responde a “você entende do assunto!”

“Você tá maluco”, quando se responde a “esta pandemia vai fazer nascer um mundo melhor!”

E também, em lugar de “imagina”, pode-se dizer “magina”, tão mais humilde.

Uma resposta mexicana para os bacuraus

Nova Ordem”, em cartaz até a meia-noite de hoje na Mostra Internacional,
é o avesso dessas fantasias revolucionárias que inundaram o cinema recente. Nele, um enxame de realidade adentra em nós. Uma velha ordem, crudelíssima, se vê reimposta diante de nossos corações aos pulos

No centro da ação, a coisificação do sequestro

Acompanhe esta receita cinematográfica.

Imagine Bacurau concebido por Francesco Rosi ou Costa-Gavras nos anos 1970, com seu perfeito timing para multidões, acrescido de toques do terror giallo de Sergio Corbucci, mas sem o humor ou o cinismo do Reality Z de Claudio Torres na netflix.

Imagine mais. Um filme sempre sério, sem investigação psicológica e com fotografia sólida, um belo contraste de cores primárias.

Você estará perto de entender Nova Ordem, de Michel Franco, diretor de 41 anos que apareceu para o público da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em 2015, com o ótimo e amargo Chronic.

Para inserir a Louis Vuitton no caos selvagem

Tudo neste seu novo longa-metragem é violento, frio e verdadeiro, como infelizmente o mundo em que vivemos. Ainda assim, algo nos escapa no filme. A rapidez com que a realidade se desfigura na trama, talvez. Os olhos permanentes do caos. Os sinais da cruz risonhos antes de um roubo de joias ou de um fuzilamento.

Uma doméstica, um sinal da cruz, um roubo, um sorriso

É uma ficção científico-política que responde com furor frio a qualquer arrefecimento da percepção de desigualdade na América Latina e também a qualquer ilusão de fortaleza entre os vencidos, em contramão direta ao que o brasileiro Kleber Mendonça concebeu com seu sucesso de crítica, de público e de tapete vermelho.

Nova Ordem é o avesso disso tudo. Um enxame de realidade adentra em nós. Uma velha ordem, crudelíssima, se vê reimposta diante de nossos corações aos pulos.

Na festa de casamento, o regabofe do trigal loiro

O filme desenvolve-se durante uma festa de casamento em Pedregal, bairro assemelhado ao Jardim Europa das mansões paulistanas, na capital do México. E, com todas as armas do suspense e do terror, muito bem ritmadas dentro do filme, vamos conhecendo o trigal loiro dos burgueses arrogantes que celebram enquanto se anuncia o submundo sem trégua dos oprimidos de origem indígena que lhes servem. São universos incomunicáveis, que se tocam pela má educação e pelas más palavras.

Verde é a cor das pixações dos manifestantes. Verde serve para marcar um território e isolar os burgueses, coisificando-os como mercadorias em um rentável jogo de sequestro. De verde serão manchados igualmente os oprimidos. Verdes são oliveiras, mas também exércitos. 

Um novo tom preponderante para os bens da arte

Quanto sangue você tem? Quanto sangue você vale?

Isto nunca se saberá ao certo nesta obra que exemplifica magistralmente como tudo muda, nos sistemas da desigualdade, para que tudo permaneça como está.

Um mundo fechado para nós que somos ricos

Nova Ordem (Nuevo Orden)
Dir. Michel Franco

México, França

88 min

2020

https://mostraplay.mostra.org/film/nova-ordem/

 da 0h01 às 23h59 do dia 23 de outubro

da vida de quem vê

por que esse jeito de olhar?
olho sem querer.
sem disfarçar.
meu olho é meu coração.
ânimo!, exige-me o patrão supremacista,
velho jornalista tido de esquerda, amado por vocês.
eu lhe dirijo meus olhos mudos.
era difícil viver e alimentar os filhos.
e pode ser ainda.
hoje talvez olhe menos, mas menos não é raso.
menos é fundo.
um segundo de coragem contra a covardia da vida.

Um sonho ruim

Em “Elegia de Osaka”, o diretor Kenji Mizoguchi olha nos olhos da mulher

Isuzu Yamada como Ayako no esfumaçado “Elegia de Osaka”, 1936

À moda de um cabo USB gasto, eu talvez tenha tardado a ligar algumas baterias do cinema, nem sempre acesas para Kenji Mizoguchi (1898-1956). No passado, os contos da lua ainda pareciam por demais vagos à jovem que eu era, ansiosa pelo presente. Que difícil assistir a seus filmes sobre o Japão antigo enquanto aquele Ozu dos relativamente recentes anos 1960 sentava-se à minha mesa baixa, servia-me o chá e me dava bom dia em pedra pomes, todos os dias…

O cinema japonês me enchia de respostas, e eu não lia, nele, preciosas interrogativas. Infortúnio de quem consome a todo instante a própria juventude: ou esse cinema espelhava meu momento, e tive tantos fincados na adolescência, ou ele pouco me serviria à vida, à minha formação de lacunas.

Recentemente, contudo, ao contrário de 30 anos antes, tenho me visto boquiaberta com Mizoguchi. O apreço do diretor pela mulher como um emblema de renovação, contra todos os sinais do fascismo, deve ter sido vital para que Shohei Imamura, por exemplo, construísse nos anos 1970 alegóricas narrativas sobre a figura feminina, tornando-a a terra, a base, o chão em que o japonês pisa. Mizoguchi começou tudo isso sendo um interrogador direto das opressões encobertas à véspera da Segunda Guerra, numa encenação avançada, realista, promovida dez anos antes dos neorrealistas.

Estrito, geométrico, esfumaçado como um sonho ruim, seu “Elegia de Osaka”, de 1936, a que acabo de assistir em DVD (O Cinema de Mizoguchi vol.2, da Versátil), é uma explosão miraculosa, a começar pela primeira sequência, quando o letreiro iluminado da noite urbana lentamente se apaga ao chegar o dia – e o espetáculo inventivo de luz desemboca na aurora cinza. Somente esta abertura, ao aludir à distopia, bastaria para pressentir o ocaso a aguardar aquela Osaka pulsante, ocidentalizada, miserável, moderna.

A história, que transcorre por ruas reais da cidade, seu metrô e seus conjuntos habitacionais, gira em torno de Ayako (pela brilhante Isuzu Yamada), telefonista de indústria farmacêutica à mercê do jogo masculino. O pai, que cometeu uma falcatrua, apoia-se no seu trabalho e espera poder melhorar de vida quando o filho, a quem a família sustenta, se formar na universidade. E o presidente da empresa onde Ayako trabalha, que a assedia para fugir da mulher (esta curiosamente ocupada em dirigir uma associação feminina), vai lhe abrigar numa garçonnière. Ela contudo insistirá em ser transparente e altiva, comportamentos que a sociedade tornará vizinhos da delinquência.

Um teatro de bonecos
para evocar o real

Ah, esse Japão tão sofrido, traduzido em um momento do filme por um teatro de bonecos… A clareza com que tudo é dito em planos que tudo abarcam, mesmo antes de a profundidade de campo surgir!

O que será de nós se a história não puder ser contada pelos filmes? 

ELEGIA DE OSAKA

Dir.: Kenji Mizoguchi

1936

No dvd “O Cinema de Mizoguchi vol 2” (Versátil)