são faróis

deixe em paz meus olhos,
traga-os de volta a mim.
devolva-os agora que incendeiam
sob o amanhecer de maio,
longo mês das noites claras e dos sonhos frios.

traga-os calmos, pacientes, fundos, ainda que soçobrados em dor,
fera cotidiana.

eu estarei à espera do que eles dirão
à inocência deste coração
em brasas que é o meu,
e que palpita triste,
por nele caberem todos a quem os déspotas apontam, em riste,
negros fuzis de balas reluzentes.

estou só, sem os olhos que
arrancou de mim,
ocultos em nuvens vermelhas, despedaçados na bandeira
roubada de seus primeiros horizontes.
encontro-me sem sentido,
brasileira, longe de vislumbrar o caminho de retorno.

deixe em paz meus olhos roubados,
traga de volta a mim aqueles
cujo brilho o mês de maio verterá
em inverno, em ausência.

À sombra

fico cansada de me decepcionar com as pessoas.
mas não tenho este direito.
tudo isto é nada diante de viver na rua sozinha, em meio à pandemia, com o filho no colo entre os prédios de passado glorioso das grandes avenidas do centro.
e ter de gritar por ajuda pra alguém indefinido lá em cima, na madrugada, sem poder contar com quem desça pra enxugar o suor do seu rosto, a fuligem da pele.
eu tenho uma rede.
ouso me alimentar de sonho e poesia na manhã ensolarada.
esta é minha verdade.
ou minha solidão.

A secretária do Gado e a lição que eu tive

Vocês talvez não tenham idade pra saber que a secretária do Gado, outrora atriz, rejeitou no passado o título de Namoradinha do Brasil.

Rejeitou-o violentamente por uma única razão. Porque não pegava bem. Ela havia sido formada por Antunes Filho no teatro. E, nos anos 1970, o prestígio de todo ator era o palco.

Depois de namorada, embora bem-sucedida na doçura televisiva, ela foi encenar O Santo Inquérito e outras barras pesadas, com grande carga de sexualidade, em plena ditadura. Queria que a vissem como Mulher mesmo antes da Malu.

Eu achava muito bonito esse seu percurso. E me lembro do ato generoso dela ao oferecer seu Troféu Imprensa de melhor atriz a Eva Wilma, que naquela época, em Mulheres de Areia, havia atuado bem melhor.

Uma vez, quando eu já estava na universidade, andávamos à noite pelas imediações do TBC quando ela apareceu. Tínhamos um amigo maluco que trazia consigo uma câmera de tevê de papelão para entrevistar os passantes. Ele não teve dúvida: partiu pra cima da Regina.

– Pô, você deve ganhar um dinheirão na Globo, né?

E ela sorrindo, sempre sorrindo, despida de maquiagem, mal vestida e de óculos, respondeu com calma:

– Pior que não, pior que não.

Uma única vez nessa época me veio uma ponta de dúvida sobre essa sua personalidade, partida de Betty Faria. Acho que ela era a antiga mulher de Daniel Filho, que agora esposara Regina, então creditei sua fala a uma rivalidade específica.

Perguntaram a Betty como via a nova opção artística da colega e ela não teve dúvida:

– A Regina é a única atriz que eu conheço que lutou pra se tornar objeto sexual.

A gente deve aprender a ouvir direito as pessoas.

É a lição que eu tiro.

Para Migliaccio

Ofereço a Flavio Migliaccio, cujo bilhete de despedida, assim como sua vida, agora incluo em minha memória literária:

“I have had my invitation to this world’s festival,
and thus my life has been blessed.

My eyes have seen and my ears have heard.

It was my part at this feast to play upon my instrument, and I have done all I could.”

Tagore

As cartas suicidas não são ridículas

Amo vocês, saibam.

Mas não aguento mais sua discussão sobre publicar ou não a carta de Migliaccio, que certamente a fez pra ser lida como um último ato.

No dia em que a imprensa parar de publicar as ofensas de Bolsonaro e seus encontros sorridentes com notórios torturadores;

no dia em que os jornais se negarem a espetacularizar os massacres nas favelas, o heroísmo dos tropas de elite sumindo com amarildos, no dia em que pararem de dar cartaz para os fuzilamentos na escola do Realengo;

no dia em que a imprensa deixar de noticiar os fogos que destroem as creches municipais onde morrem as crianças sufocadas depois do soninho da tarde;

no dia em que se esquecerem que uma mãe no Paraná, há 25 anos, entregou o filho ao sacrifício ritual de uma seita de falsos macumbeiros;

nesse dia em que, espero, o capitalismo esteja morto e enterrado, juro que defenderei o dever sagrado de silenciar o Migliaccio e sua dor.

Por enquanto, eu a difundo e ainda publico aqui uma carta de outro suicida, entre tantos e tantos da história cujos bilhetes finais dariam um livro pro Rogerio de Campos publicar.

Eis a carta que o poeta Vladimir Maiakovski nos deixou:

“A todos

Ninguém é culpado da minha morte e, por favor, nada de fofocas. Ao defunto não lhes gostava.

Mãe, irmãs e camaradas, sinto muito, este não é o caminho – não recomendo a ninguém – mas não tenho outra saída.

Lília, ama-me.

Camarada governo: minha família é Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Veronika Vitodóvna Polánskaia. Se lhes fazes a vida suportável, obrigado.

Os poemas inacabados dá-los aos Brik. Eles os decifrarão.

Como se costuma dizer:

“Acabou-se”,

o barco do amor

se arrebentou contra a vida cotidiana.

Estou em paz com a vida, não vale a pena recordar

sofrimentos,

desgraças

e mútuas ofensas.

Sejam felizes.

Vladimir Maiakovski, 12-4-1930

Amigos do VAPP não penseis que sou frágil. De verdade, não podíeis me ajudar. Cumprimentos.

Dizer a Yermilov que me arrependo de haver tirado a nota, era necessário haver lutado até o final. VM

Sobre a mesa há 2.000 rublos, para pagar os impostos.

O resto cobrar ao Giz.

Não vejo problema em publicar as cartas dos suicidas. Nem em noticiar os suicídios. A divulgação dos suicídios torna as pessoas suicidas? Então a divulgação de tiroteios em massa e dos crimes cotidianos, também.

No caso do Migliaccio, me parece claro que ele escreveu pra ser ouvido.
E gosto de tê-lo ouvido. Gosto de saber de sua inteligência até no ato final. Me consolaria se Mario Monicelli, o diretor italiano, nos tivesse esclarecido por que pulou do quinto andar de um hospital mal se viu informado sobre um câncer de próstata. Parece óbvia a razão, mas gostaria de conhecê-la, por me importar com ele e seu legado, por ser uma pesquisadora de seu trabalho.

Agora, a publicação de qualquer coisa relativa ao morto deve ser autorizada pela família, ou não ser feita. No caso do Migliaccio, seu filho informou hoje que a polícia transmitiu as imagens da casa sem autorização. E que vai processar o Estado, o que me parece perfeito, por intromissão indevida.

Mas pelo jeito a carta foi autorizada pela família, sim.

De que fotografia se fala

Bolsonaro convidou Orlando Brito, fotógrafo veterano de presidentes agredido domingo por apoiadores golpistas, a almoçarem juntos hoje. E o fotógrafo foi até lá.

Brito disse pra Bolsonaro, na ocasião, que ele deveria acenar com um gesto de apoio e visitar o comitê de imprensa do planalto, o que nunca fez desde que assumiu a presidência.

Brito aceitou o convite de Bolsonaro? Pra almoçar neste momento, sem máscaras com esse verme, e ele foi?

E Bolsonaro, aceitará o convite dele?

Se depois desse almoço o miliciano realmente visitar o comitê de imprensa, vai ser interessante de ver. Um belo truque midiático. Se eu fosse ele, neste momento, iria sim. Apareceria por cima. Mas não creio que ele vá.

Nunca trabalhei com Orlando Brito. Mas o conheci durante o primeiro curso Abril de jornalismo, ao qual fui selecionada, entre tantos estudantes de jornalismo de São Paulo, em tempos muito antigos. O curso era constituído de um ciclo de palestras com os luminares locais em todas as áreas, da política à moda e à fotografia. No final, selecionavam um jornalista pra estagiar lá. Não passei na seleção, hoje posso imaginar por quê, e agradeço.

Me lembro que o Orlando Brito levou uma de suas fotos de Figueiredo, feita para uma edição de Veja, para acalorar a discussão. Achei-o corajoso. Era uma imagem sua em que Figueiredo aparecia sorridente, sendo erguido por uma multidão de fazendeiros e trabalhadores rurais. Os jovens jornalistas pareciam chocados. E ele respondeu que não via razão, já que aquele fato tinha se dado assim. Foi vaiado por grande parte da plateia, aquela que justamente buscava trabalhar na empresa. Já então, naquele tempo, sabia-se que o ângulo, o fotógrafo escolhe…

O Brito é um profissional de carreira que mostra os presidentes a uma certa distância, sempre clássicos e respeitosos. Não é um fotógrafo ruim, pelo contrário, a depender do que se espera da fotografia.

Ter ido almoçar com o presidente hoje faz parte de sua rotina profissional, e ele depende disso para continuar trabalhando naquela posição. Triste, mas é isso mesmo. Foi um trabalho que ele escolheu fazer e do qual não arredou pé em cinco décadas. E não arredaria agora.

Prefiro outros fotógrafos e outros temas. Creio que jamais seria uma fotojornalista, especialmente em torno de palácios oficiais. Sou do que ocorre à volta, além e dentro de nós.

Mas penso.

Ao Brito o que é de Brito.

Cada um no seu quadrado e no seu sonho.