A crítica que morreu antes de nascer

não conhecia esta hq.

quero dizer, esta modalidade de resenha literária sequencial.

me deu vontade de pular no livro resenhado.

checar se faz sentido o que a resenhista diz.

sinto falta deste tipo de crítica que todo o mundo civilizado faz para atrair um leitor.

muito pessoal, intuitiva, mas com embasamento na leitura da obra.

e que nós nunca fazemos.

admito que enquanto jornalista cultural tentei, mas fui pisada no coração, nas minhas melhores intenções.

então deixei pra lá.

todo mundo, enquanto parecia sério, era tão estúpido neste “jornalismo literário” impessoal, candidamente “neutro”, do brasil fundo.

quero dizer, findo.

e eu penso: muita coisa realmente tinha de acabar por aqui para um dia renascer, feito a crítica dos livros.

(se você não for assinante da New Yorker, use o outline)

https://www.newyorker.com/culture/culture-desk/dreaming-with-patti-smith?source=EDT_NYR_EDIT_NEWSLETTER_0_imagenewsletter_Daily_ZZ&utm_campaign=aud-dev&utm_source=nl&utm_brand=tny&utm_mailing=TNY_Daily_011220&utm_medium=email&bxid=5d066f027ace5a712145c15b&cndid=57544614&esrc=&mbid=&utm_term=TNY_Daily&verso=true

Meu encontro com V. S. Naipaul

Os melhores e breves momentos de um jornalista são vividos em extrema dificuldade. Ou somos habitados pela ousadia ou não saímos de casa. Dói abrir a porta para a guerra no quinto andar. As desculpas não interessam. Tenha ou não sapatos para a neve, o fuzil precisa caber no ombro e é melhor remendar o furo do capacete. Esteja lá, forte e atento. Tenha sorte.

Entrevistar V.S. Naipaul, morto ontem, aos 85 anos, foi uma dessas horas de guerrear. Ele era impossível. Amargo. Pinicava. A “New Yorker” disse que uma jornalista tinha caído aos prantos diante dele. E a Companhia das Letras não queria me incluir entre os entrevistadores deste Prêmio Nobel sobre seu novo livro. Eu trabalhava no pequeno Jornal da Tarde, que credencial era essa? Mas havia uma pessoa querida na assessoria da editora, a Ruth Lanna. E ela me ajudou a entrar.

Não fiz nada demais antes do dia da entrevista, apenas li o livro. Acho bom ler o livro antes de entrevistar. E muito mais eu não poderia fazer, o tempo era curto. Tinha sido tão bom ler. Me transportei até Balzac, que eu percorria muito na época, 1994.

Naipaul estava em São Paulo para a promoção do livro. Fiquei aliviada. Telefone é do outro mundo. E cara a cara tenho menos medo desses enfrentamentos culturais ou do meu inglês imperfeito, eu diria ruim.

Entrei na sala e ele me olhou de cima abaixo. Analisava meus olhos como um diretor de escola ou um dirigente da polícia secreta. Com uma curiosidade a mais. Eu soltei a língua. Não me lembro direito o que perguntei, mas o comparei a Balzac. “Em que página do meu livro você encontrou a comparação?” Abri a página e a li em português. Ele era casado então com uma argentina. Não achou difícil entender. Divertiu-se.

E nos divertimos. “Não sei por que jornalistas acham difícil me entrevistar. É só ler até a página 100.” Perguntei de sua vida em Trinidad. “Lá não há pessoas tão finas e cultas como você e o Luis Schwarcz.” Ri só por dentro, mas ele ali falava sério. “Em São Paulo, a única coisa terrível é o trânsito.” Perguntei por que fora jornalista: “Pelas viagens.” (Dizer isso pra mim, que viajei tão pouco na profissão… Foi a única vez em que me envergonhei diante de alguém mais inteligente do que eu.)

Continuamos a conversar e ele não queria que o papo acabasse. Do nada me convidou pra jantar. Deus meu. Disse que não podia, porque eu ainda precisava escrever o texto. “Vocês têm muito pouco tempo”, admirou-se. Mas não era pelo tempo. Escrevemos o que podemos, mesmo, em prazos impossíveis. Meu medo era que tudo desse errado num jantar. (Contei essa história a uma ex-amiga, e ela concluiu que ele estava interessado em mim. E cometi o erro de relatar isto também durante uma palestra para jornalistas iniciantes. Gente ruim.)

A reportagem saiu e vai neste pdf V. S. Naipaul (1). Não se esqueçam de que escrevi rápido realmente e que o espaço a mim concedido no jornal resultou bem pequeno.

O Luis Schwarcz me contou que no dia seguinte deu a notícia ao escritor: “A melhor matéria foi a da Rosane.”

E a resposta de Naipaul:

“I knew it.”

O riso de Kafka

Aos 134 anos do nascimento do grande escritor, o retrato até hoje supreendente que dele fez o biógrafo Max Brod: “Nós, os amigos, morremos de rir quando ele nos fez conhecer o primeiro capítulo de O Processo. E ele mesmo ria tanto que por momentos não podia continuar lendo. Bastante assombroso, se se pensa na terrível seriedade desse capítulo. Mas acontecia assim.”

 

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“Assinalo o que se esquece facilmente quando se contempla a obra de Kafka: sua dobra de alegria do mundo e da vida”, escreveu Max Brod

Um sorriso na contramão.

Franz Kafka tinha grande senso de humor, escreveu o amigo e biógrafo Max Brod.

A seguir, na tradução que fiz de alguns dos trechos da edição em espanhol de Kafka, pela Emecé Editores de Buenos Aires, 1951, Brod explora este aspecto usualmente negado na personalidade e na obra do grande escritor.

 

Sobre conviver com seu humorismo:

Com renovada experiência adverti que os cultores de Kafka, aqueles que somente o conhecem por seus livros, têm uma imagem totalmente falsa dele. Creem que também no trato fosse triste, desesperado. Pelo contrário. Era bom estar com ele. A plenitude de seus pensamentos, que expunha quase sempre em tom festivo, o convertia pelo menos (e me refiro unicamente ao grau mais baixo) em uma das pessoas mais interessantes que conheci, apesar de sua modéstia e sua calma. Falava pouco; em reuniões grandes se calava frequentemente durante horas inteiras. Mas, quando dizia algo, prestava-se imensa atenção nele. Porque era transcendental, dava em que pensar. E na conversação íntima soltava às vezes assombrosamente a língua, chegando a entusiasmar-se, a se tornar encantador. As piadas e as risadas não tinham fim. Ria à vontade e cordialmente, e fazia rir os amigos. E mais: em situações difíceis era possível confiar sem reparos em sua experiência do mundo, em seu tato, seu conselho, porque bem poucas vezes errava. Era um amigo maravilhosamente útil. Só se sentia desorientado e desvalido consigo mesmo, impressão esta que, por conta de seu autodomínio, dava muito poucas vezes em seu trato pessoal, embora se aprofundasse nela indubitavelmente por meio de seus Diários. Um dos motivos que me impulsionam a escrever estas recordações é o seguinte: da leitura de seus livros e, sobretudo, dos Diários, pode-se chegar a ter uma imagem totalmente distinta dele, muito mais lúgubre do que aquela cotidiana. A biografia de Kafka que nosso círculo conserva na memória deve ser adicionada a seus escritos e reclama sua inclusão no julgamento total.

 

 

Sobre o sentido de humor em Kafka:

 

Que um ser puro não possa tocar o impuro é tanto sua força quanto sua debilidade. Força, porque significa sentir a distância entre ele e o absoluto, senti-la até o fim. Mas esta mesma distância é algo negativo, é debilidade. De modo que a força do ser puro só se pode manifestar enquanto o ser puro persiste em não querer escamotear sua distância do absoluto, em extremar sua debilidade através de lentes de mil aumentos. Porém, enquanto quer manter sua posição, não pode nem deve admitir que sua força é precisamente essa. Se origina assim um duplo fundo, e onde há duplo fundo há humorismo. Sim, ainda que em meio ao horror de tal perseverança, de tal persistência na mais perigosa de todas as atitudes (pois se trata de vida ou morte), brota um sorriso amável. E um sorriso novo, que caracteriza a obra de Kafka, um sorriso próximo às questões últimas, quase, diríamos, um sorriso metafísico; e às vezes quando ele lia alguns contos àqueles de nós que éramos seus amigos, crescia esse sorriso e lançávamos uma sonora gargalhada. Mas logo nos calávamos. Não era um sorriso destinado a seres humanos. Somente aos anjos é lícito rir dessa maneira (anjos que não se deve imaginar os anjinhos, angelotes, de Rafael; não, anjos, serafins masculinos com três gigantescos pares de asas, seres demoníacos entre o homem e Deus).

Agora, bem, qual é a razão para que o homem não chegue ao verdadeiro em si, por que, não obstante animado de ótima vontade, equivoca seu caminho, como aquele médico rural que seguiu os “sons enganosos da campainha noturna”? Kafka não se via inclinado por seu caráter a fazer promessas ou concessões à vida feliz. Admirava quem era capaz de fazê-lo; ele mesmo permanecia em suspense. Mas em suspense seria vazio e deserto, como se ele não houvesse sentido o absoluto como algo indescritível em si. Em meio a sua insegurança se pressente uma distante segurança, a única que pode fazer possível, a de sustentar a insegurança. Já disse que esse rasgo positivo se percebe acaso com menos firmeza em seus escritos (razão pela qual muitos os acham deprimentes) que em sua serenidade pessoal, no suave, discreto, nunca precipitado, de seu caráter. Mas quem lê sua obra com atenção também vislumbra repetidamente, através de zonas sombrias, o núcleo luminoso, ou melhor, suavemente radiante. Na superfície, no que se relata há desgarramento e desespero; mas a serenidade e a extensão com que se expõe o argumento, a acidez enamorada do detalhe, quer dizer, da vida real e da descrição fiel, o humorismo resultante da construção das orações comprimidas por tantos giros estilísticos que seu efeito é muitas vezes análogo ao curto-circuito (os devedores “se voltaram pródigos e dão uma festa no jardim de uma osteria, enquanto outros interrompem um momento seu voo à América e assistem à festa”), tudo alude já por sua forma ao “indestrutível” em Kafka, à natureza humana comum que ele conheceu.

Tal humorismo se fazia particularmente claro quando era Kafka mesmo quem lia suas obras. Por exemplo, nós, os amigos, morremos de rir quando ele nos fez conhecer o primeiro capítulo de O Processo. E ele mesmo ria tanto que por momentos não podia continuar lendo. Bastante assombroso, se se pensa na terrível seriedade desse capítulo. Mas acontecia assim.

Claro, não era uma risada boa e prazerosa. Contudo, havia a partícula de um riso bom, junto às cem partículas de desassossego que não pretendo negar. Só quero assinalar o que se esquece facilmente quando se contempla a obra de Kafka: sua dobra de alegria do mundo e da vida.

 

Uma raiz para seu peculiar humorismo:

 

As exigências que Kafka impunha a si mesmo eram as mais rigorosas. Quase nunca acreditava satisfazê-las. Não era, contudo, nenhum “crítico cultural” no sentido corrente. Pois muito do que ocorria ao seu redor, muitas pessoas bem medíocres com quem travava conhecimento, lhe pareciam realizadas, dignas de admiração por sua efetividade e força, e até agraciadas por Deus. A única certeza nele era a de não haver ninguém com uma consciência mais ardentemente firme que ele acerca da “distância de Deus”. Porém, nesse estar consciente de tal distância, Kafka, de puramente piedoso, não via virtude, senão unicamente insegurança, quer dizer, debilidade. No entanto, como a condição prévia de toda a vida era para ele a faculdade de sentir claramente e sem rituais nem dissimulações místicas a distância de Deus (a distância da perfeição da conduta reta), seu elogio e sua admiração pelo homem corrente (pelo homem “pedestre”, como disse Kierkegaard) tinham em si frequentemente algo de ironia suave, não premeditada, brincalhona e ao mesmo tempo comovente. Sua bondade, por assim dizer, caridosa, cedia de forma fictícia a dianteira aos vencedores cotidianos. Conhecem o abismo como eu e, no entanto, se balançam felizes sobre ele. Deveras o conheciam? A cômica hipótese da premissa iluminava a tragédia pessoal em sua vida, era uma das raízes de seu peculiar humorismo.