Independência ou morte: o estranho caso do verme que queria ser rei

O filme de Carlos Coimbra, obrigatório aos jovens em 1972, talvez ajude a explicar a atmosfera mental absolutista em que Verme mergulhou cinco décadas depois

Tarcísio Moreira vive Dom Pedro I
em “Independência ou Morte”:
em algum lugar do futuro, quem
sabe alguém tente absorver
o estilo em suas lives de quinta

Minha determinação cumprida foi a de não assistir ao Verme avacalhar os nossos 200 anos. Neste Sete de Setembro, preferi ver cinema brasileiro, uma ideia de meu filho para pular este capítulo ruim.

Ele queria “Carlota Joaquina, princesa do Brazil”, que eu vira apenas à época do lançamento em 1995, antes de seu nascimento. Mas não encontramos um streaming que transmitisse o filme de Carla Camurati. Paramos então em “Independência ou Morte”, de 1972, que ele desconhecia, no Canal Brasil. Meu filho é fã de Mazzaropi e conhece muitas comédias italianas que estudei. Não iria estranhar o tom.

Eu enfrentei com vontade nossa sessão porque sinto certo carinho pela patacoada do diretor Carlos Coimbra. Não pela obra em si, mas porque ela me remete à infância, quando assistíamos ao filme sempre pela tevê, às vezes por obrigação escolar. Estávamos na ditadura e o passado mostrado daquele modo interessava ao controle ditatorial.

Os atores de “Independência ou Morte” haviam nascido em sua maioria no teatro e faziam época na tevê com boa postura e voz projetada. As cores eram as da botânica do Rio, a paixão de Leopoldina. Tinha tudo pra dar certo, mas não deu. Porque a gente vai sentindo o sufoco no ar. Aquele Rio parece Marte. Onde foi parar a gente preta? O filme passa e você não vê.

Os pretos presentes funcionam como árvores sem galhos naquelas espécies de subgravuras de Debret que o filme vai compondo. Eles carregam sinhás na rede, metem-se nas atividades de ganho e limpam a mesa do Patriarca da Independência sem que conheçamos seus rostos. Nem “E o Vento Levou”, 33 anos antes, cometeu tal ousadia. Haja vatapá, servidos nos tabuleiros, com as baianas de costas!

O Pedro I de Tarcísio se casa
com a Leopoldina de Kate Hansen:
ah, saber portar um vestido!

Os vestidos caem deselegantemente nas atrizes que representam a Corte. Quantas fitas pregadas, meu deus. A imperatriz Leopoldina de Kate Hansen é uma exceção. Ela porta aquilo tudo com insuspeito deslumbre – ou seus vestidos são os melhores ou ela sabe transformá-los assim.

Escravizados no tronco? Pode esquecer. Queriam repetir Debret no filme, mas sem incluir os flagelos, a violência dos capatazes e os carregadores de fezes. A ditadura vivia o auge. Bastava que Médici não quisesse para que jamais víssemos a beleza ou a ousadia daqueles pretos que, no filme, eram figurantes amedrontados.

Na batalha pela Marquesa
de Santos, a infantil fútil e
útil, segundo o filme

Tarcísio Meira, para sempre nosso Pedro I, era Gulliver entre os de Liliput. Glória Menezes, como Marquesa de Santos, operou na camada da infantilidade fútil, como se sua personagem nada tivesse aprendido após a violência do marido, que tentou esfaqueá-la duas vezes. Dionísio Azevedo, que escreveu o roteiro, foi também o patriarca rotundo, um Bonifácio tão sério quanto um poste branco. Emiliano de Queiroz estava à vontade no papel insidioso de Chalaça, compondo uma espécie de duo cômico lateral com Glória.

Dom João VI (Manoel da Nóbrega) com Carlota Joaquina (Heloísa Helena): a fama de glutão favoreceu sua imagem

Quantos profissionais de primeira ordem pra emoldurar o vazio! Tinha me esquecido de Manoel da Nóbrega no papel de dom João VI… Me conformei ao perceber que o imperador ficou na nossa história ao menos por seu pacto com a glutonaria, já que não conseguimos emplacar nele a imagem da covardia.

Ouvir todos esses atores cujas vozes eu havia conhecido nos comerciais e desenhos animados da minha infância acionou novas camadas à experiência do filme, estas que meu filho não pôde experimentar. O longa terminou e ele riu. Bem Brasil, achou. Uma bagunça inacreditável, um absolutismo assumido. A putaria em grande estilo, não só por parte das mulheres, mas dos militares também.

Depois de assistir ao filme percebi algo que não havia notado nele antes. Aquela atmosfera detestável é a mesma que nosso Verme na presidência vive. Ele certamente viu esse filme várias vezes na juventude. Deve ter-se encantado com a possibilidade de viver no topo de um mundo igual.

Grito, espada, cavalo:
um Pedro-Tarcisio no

topo é para sempre

Verme quer ser aquele Pedro. Um novo Pedro para o Brasil. Mais exatamente, um Pedro-Tarcísio para si. Um comandante que grita o que quer, na hora em que tem vontade, sentado à mesa cheia de papeis, esta que se parece com aquela de suas lives de quinta. Um Pedro-Tarcísio que tira férias em Santos e não acha necessário dar satisfação por isso ao país. Que impõe a namorada como marquesa como poderia ter feito do cavalo, um cônsul. Que trata como quiser os seus no trabalho, na hora em que desejar, mas que não resolve os problemas familiares. Que tem um filhinho loiro. Que acumula ex-mulheres. Que come e bebe às custas do povo, mas ignora que este não tenha o que comer e beber. E que espera vê-lo a seus pés indefinidamente, como viram os reis.

Me pego pensando que esse Verme de hospício se acha ele próprio a reencarnação desse Pedro-Tarcísio, bastante cuidadoso para que a transmissão de seu poder se dê, sem intercorrência e com muita proteção, aos filhos delinquentes. Como se seu destino fosse “imbrochável” para sempre.

Não à toa a cardiologista Nise Yamaguchi lhe sugeriu o coração de Pedro I e ele mandou trazer de Portugal. Ô mulher madrasta! Ô Planalto da Branca de Neve, Liliput!

Não sei se leram em algum lugar, porque eu não encontrei a informação. Mas aposto que quando esse coração chegou ao Brasil nosso Pedro-Tarcísio se sentiu o próprio dono. Deve ter pedido para vê-lo sozinho numa sala grande. Dirigiu-lhe um pacto com palavras de conciliação. Meu reino por você.

“Independência ou morte”,
de Carlos Coimbra, em versão
integral no YouTube

Emanoel Araújo e sua reflexão de 2014 sobre um projeto cultural para o Brasil

O curador, historiador e artista plástico Emanoel Araújo, nascido em Santo Amaro da Purificação há 81 anos e morto agora, significava o mundo inteiro para jornalistas culturais como eu. Uma elegância fosse no vestir, no sorrir, no duro dizer ou no brincar. E aquela imensa sabedoria vinha traduzida da forma mais simples para quem de nada sabia, feito nós. Reproduzo aqui a entrevista que fiz com ele antes da primeira posse de Dilma Rousseff na presidência, em dezembro de 2010. A fala baiana de Emanoel, mansa mas livre, fez mal, contudo, a alguns leitores da revista dita de esquerda onde eu infelizmente trabalhava. Não compreenderam este a quem hoje quiçá intitulem um dos maiores. Combateram em especial o fato de ele ter dado a letra: antes do modelo estatizante europeu, deveríamos seguir a política estadunidense que pressupõe a responsabilização social e a cobrança financeira dos ricos na construção de sua cultura. Reproduzi o que ouvi e isto não importou a ninguém. Fui trollada pelas milícias capilerianas do mesmo jeito, como se o pensamento brilhante de Emanoel fosse o meu. Naquele dia, o homem deixou de brincar: “Não se pode fazer da cultura um fato isolado de prestígio, centrado na figura do ministro. Gilberto Gil tem seu prestígio e por seis anos aconteceu do ponto de vista internacional. Mas é como se você desse o Ministério da Cultura para o Pelé, sendo que Pelé tem mais prestígio do que ele.” Eu tremi ao ouvir e Emanoel, nem um pouco ao falar. Tempos depois, voltamos a conversar sobre divertimentos. Adeus, meu querido! E por tudo e tanto, obrigada.

A simpatia, a empatia e o brilho de Emanoel, captados por Olga Vlahou

Um projeto cultural para o Brasil é o que pede com urgência, mas também descrença, o artista plástico Emanoel Araújo, criador do Museu Afro-Brasil e de outras iniciativas que tiraram o País de sua condição de envergonhado vira-latas da cultura no mundo. O Brasil não tem projeto algum neste quesito, ele crê. Como o cientista político Antonio Gramsci, otimista na ação e pessimista enquanto pensa, Emanoel afirma que o país oferece enorme complexidade a quem vá gerir sua cultura. O assunto é tão difícil que ele hesita ao transformar suas reflexões em sugestões para o futuro Ministério da Cultura de Dilma Rousseff.

 

“Para começar, em um país tão grande como este, não sei se a política cultural deveria emanar de um centro político”, ele considera. “Quando você sai de São Paulo e alcança o Rio, já enxerga um patamar abaixo. Então, como unir as políticas? Nem mesmo o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, pode expor inteiramente o seu acervo. Os museus federais, aqueles que ainda existem, lidam com salas limitadas e a impossibilidade de fazer suas exposições circularem. Há os pontos de cultura, e mesmo nós, no Afro-Brasil, somos um pontão. Mas se não há banda larga para esses pontos, o que fazer? Piranhas, em Alagoas, como fica? Talvez nem seja preciso viajar. Na zona sul de São Paulo os pontos não funcionam”, ele situa.

 

As dúvidas de quem administra a cultura brasileira começam pela escolha de uma prioridade quando nem mesmo a saúde, a habitação e a educação estão resolvidas no país. A seu ver, é somente ao priorizar a cultura que ela florescerá, à moda do que aconteceu nos Estados Unidos, um país assemelhado ao Brasil por ser americano, colonizado, diversificado etnicamente, recente em sua formação. “Os norte-americanos não são hegemônicos por acaso. A cultura foi seu único acerto. A pop art e o expressionismo abstrato se espalharam como, na antiguidade, a civilização Greco-romana ditou seus princípios. E os norte-americanos lidaram com o assunto por meio do compromisso de toda a sua sociedade com a cultura.”

 

Para Emanoel, mais vale seguir o exemplo do lado de cá do Atlântico do que o modelo estatizante europeu. Nos Estados Unidos, os museus são em sua maioria particulares, ele argumenta, e a questão cultural não fica inteiramente no âmbito do governo. Há os endowments for arts, que estabelecem a doação de dinheiro ou propriedade, muitas vezes anônima, a uma instituição da cultura. Os museus são organizados de maneira mais livre, no sentido de que são organizações independentes do Estado, muito embora existam aqueles geridos pelo Smithsonian Institute. 

 

“Nos Estados Unidos, existe o que não há aqui, o compromisso social com a cultura. Não vigora nos espectadores norte-americanos do museu, da orquestra ou do teatro, uma situação de passividade. Eles não apenas assistem ao espetáculo. Fazem com que o evento aconteça. Não são meros captadores.” Por isso, o compromisso social deve ser fomentado como meta brasileira, ele crê. Os ricos têm de ser levados a contribuir, já que também usufruem do espetáculo. Um ato pelo “compromisso ativo” dos afortunados, encena Emanoel: “Eles não podem lavar as mãos, viajar e achar que vão se integrar na cultura europeia sem tomar conhecimento da sua.”

 

O Ministério da Cultura, colocado nos moldes atuais, deveria empenhar-se na construção de uma instituição profissional, disposta a promover estratégias e políticas públicas que pudessem estruturar culturalmente o país. “Não se pode fazer da cultura um fato isolado de prestígio, centrado na figura do ministro. Gilberto Gil tem seu prestígio e por seis anos aconteceu do ponto de vista internacional. Mas é como se você desse o Ministério da Cultura para o Pelé, sendo que Pelé tem mais prestígio do que ele.”

 

Um grande projeto cultural para o Brasil, “que a essa altura não tem um grande projeto cultural”, envolveria a iniciativa privada, os ricos e o Estado. Bolsas de estudo concedidas nos moldes dos endowments e das instituições smithsonians seriam mais do que desejáveis. “Dar incentivo fiscal aleatoriamente a projetos culturais não basta. Também não adianta só patrocinar um filme. Seria preciso definir questões. De que maneira as filarmônicas e os museus poderiam funcionar?”, ele projeta.

 

Emanoel lembra também que a legislação é antiga sob o ponto de vista da preservação do patrimônio histórico. “Não adianta insistir em restaurar pelos mesmos processos segundo os quais os monumentos foram construídos. Este é um país tropical sujeito a todas as intempéries, a todas as pragas. Se você não restaura, ou restaura errado, o patrimônio vai embora, irrecuperável, como tem ocorrido agora. Veja as igrejas de Salvador, a Igreja São Francisco de Assis, totalmente ameaçada.”

 

O agitador teme a letargia local, por exemplo, ao taxar as obras de arte que saem do país. A arte brasileira, mesmo diante de sua importância histórica, desde o barroco, está fora do mercado, ao contrário do que acontece no Chile, Colômbia, Venezuela e Uruguai, sem contar o que ocorre no México ou Estados Unidos, ele lembra. “É preciso investir nas pessoas, na arte, na educação, para que um país se possa apresentar ao mundo.” À moda do que ocorreu com a implantação da lei do ensino da música, a ser imposta às escolas brasileira sem nenhum preparo ou formação cultural de professores, propõe-se avançar no Brasil deixando o irresolvido pelo caminho. “Nós vivemos pulando, como se não fosse necessária uma sequência natural das coisas. Pulamos dos anos 1940, quando se formou um projeto cultural com Getúlio Vargas, para a ditadura e os anos 1960, os movimentos populares de cultura, e depois a censura.”

 

E a única maneira de incentivar a cultura brasileira é gostar de ser brasileiro, ele diz. “A minha sensação é a de que persiste a vergonha de ser brasileiro. No século 21, a gente ainda tem de se envergonhar disso? Por que, ao chegar um visitante por aqui, temos de levá-lo à favela, como fizemos com o Bill Clinton ou a rainha da Suécia? Por que não os levamos aos museus? Essas pessoas não têm responsabilidade perante a situação social do Brasil. A constatação de mudança social não tem de partir da consciência estrangeira, mas nacional. E, neste sentido, a saída para a cultura no Brasil é a de fazer como no México, que promoveu uma grande campanha nacionalista, com os murais de Diego Rivera e da arte de Siqueiros. É preciso gostar do Brasil, com todos os senões.”

Emanoel Araújo em seu ateliê, foto sem data, cortesia da Galeria Simões de Assis, em São Paulo

Engasgados na conjunção

Os textos jornalísticos de alguns portais existem por si, sem se importar com quem os lê.

A moda por lá é enfileirar a conjunção “que” em orações infinitamente subordinadas.

Imagino que emendar uma coisa na outra ajude a quem tenha pouco tempo pra escrever e publicar.

Porém, fica feio. A gente engasga de ler aos socos.

Já temos tantos problemas!

Que Bruno Morais venha com o sol

O cantor e compositor paranaense transforma seu “Poder supremo” em celebração

O figurino brilhante, o sorriso:
Bruno Morais tem muito a
celebrar em “Poder Supremo”

Bruno Morais é meu querido. E a quantos, neste mundo, realmente quero? Um querido porque, por mim, viveria de ouvir vozes como a sua. E de conversar com ele, apreciando sua estética para a música, as artes plásticas, a fotografia, as roupas. Viveria de ouvir os casos que me conta, sua arguta delicadeza ao conversar.

Uma vez quando a banda de meu marido, o Nouvelle Cuisine, completava 30 anos, em um megashow no Auditório Ibirapuera, sentei-me ao lado de Carlos Fernando, o cantor que vinha enfrentando tantos problemas com sua voz. Disse ao Carlos que me emocionava aquela homenagem, embora nenhum convidado a lhe prestar tributo tivesse a sua voz. “Mas aquele menino, o Bruno, é bom, não é?” Sim, Carlos, é sim!

Bruno Morais acaba de finalizar uma temporada com seu show “Poder Supremo” no Centro Cultural São Paulo. Por conta de minha dor no tornozelo, só pude estar presente à apresentação no último dia, hoje. Uma pena, porque gostaria de tê-lo recomendado a vocês antes. Mas já sabem, não? No spotify ou em outro desses streamings musicais, até no YouTube, a gente tem acesso a essas coisas de valor.

Não esperava que o show do Bruno, em torno de um disco que me relatou fazer tem uns seis anos, fosse ser toda essa celebração à vida. Um espetáculo de verdade, no meio de toda a tristeza de existirmos no Brasil. Uma banda maravilhosa, cinco caras, cinco minas, metais, bateria, percussão, guitarra, que é tudo de melhor com que qualquer profissional pode contar. Saí meio extasiada do show, esperando o sol nascer de novo. Let the sunshine in!

Que tranquilo e infalível
é o trompete de Larissa Oliveira

Os figurinos, as túnicas brilhantes, falam por si. É um show que celebra o poder supremo de viver. Não consigo entender direito as letras de canção nos shows brasileiros, as técnicas de som que escondem a voz me são incompreensíveis, mas este parecia melhor que os outros. O que compreendi de Bruno é que observa, contradiz, engrandece seu cotidiano com sua arte de comentar a natureza. E tem humor também. “Quero parar seu avião!” É um artista de muita força, de vento e de tempestades.

Bruno Morais, sobre raios de luz

Vocês já sabem, o disco está no ar pra gente curtir.

https://open.spotify.com/album/5gzFIDKBwUzSTSAKGrqkA6?si=o60j2Z52SF2izvEUHZw-Kg

Deitando e rolando num lambe
da rua Consolação, em São Paulo

Elvis não estava lá

A cinebiografia de Baz Luhrmann entra no streaming da HBO Max com uma cena de vaudeville a emoldurar a vida do rei do rock

Austin Butler vive Elvis
na apresentação televisiva
de 1968: ele imita bem

É curiosa a obsessão do diretor Baz Luhrmann com o tema vaudeville. Muito representativa desde “Moulin Rouge”, no qual nada poderia estar tão distante do que fez Max Ophüls, o mais bem-sucedido intérprete cinematográfico desse teatro de variedades. Naquele filme de 2001, Luhrmann criava um jeito pop de reler o estilo, em alto e bom som, sem contudo atingir a magia de Ophüls.

O que Luhrmann faz agora em “Elvis” é transpor essa atmosfera mental de um vaudeville do século 19, como se esperava que ele fosse (múltiplo, encantador, incessante), para a vida de um dos maiores ídolos da música popular estadunidense, senão o maior, surgido no século seguinte. Neste filme, ele usa o que pode para Elvis baixar em você, como numa bela aventura de terreiro, já que a cultura negra assimilada por ele foi uma inspiração nas performances musicais. Mas o problema é que Elvis já baixou em nós há muito tempo. Sabemos como ele fez, não sabemos?

Tom Hanks como Coronel Parker,
o ilusionista, e Elvis como sua
criatura de vaudeville

E talvez não tenha sido exatamente do jeito que Luhrmann mimetizou. Nesta versão, o rei do rock vira figura artística de talento excepcional a operar esse ilusionismo de super-herói. E está a serviço de alguém semelhante a um chefe de companhia mambembe, o tal Coronel Parker, “ilusionista” de vaudeville interpretado por Tom Hanks.

Hanks vive seu personagem como convém ao teatro de variedades, com comicidade, um deboche compenetrado, inalterável. A ponto de o filme parecer ser mais sobre o empresário de Elvis (que nem Parker era na verdade, muito menos coronel) do que sobre Elvis em si. 

Hanks está caracterizado com o chapéu de Orson Welles em “A Marca da Maldade”. Importante: isto quer dizer que Baz Luhrmann reverencia o cinema, já que cita indiretamente um de seus maiores diretores. Ele põe a câmera para girar e saltar, como Welles fazia na medida certa, e introduz uma sequência no labirinto de espelhos que evoca “A Dama de Shangai” (1947), outro filme de Welles, no qual seu par era Rita Hayworth. Ao evocar esse cineasta maior, Luhrmann está autorizado a falar de cinema como se falasse de vaudeville. Ou terá sido o contrário, falar ligeiramente sobre cinema enquanto busca hipnotizar o espectador como fazia o vaudeville?

Enfim, não importa. O século 19 parece ser mesmo uma obsessão do cineasta. E todo mundo tem o direito de ver a história de Elvis sob sua perspectiva, porque ele cabe em praticamente qualquer versão. Sua vida é um labirinto, um fenômeno em muitas direções. E esta, francamente, parece ser bem original.

Original porque atravessa o tempo.

Um liquificador a
centrifugar o maligno

Mas o problema aqui é que Luhrmann não pode ser tão fiel assim a Elvis se busca uma outra atmosfera, que não lhe pertence. Os números musicais são caprichados. Mesmo assim, o ator a interpretar Elvis, Austin Butler, está obrigado a se sacudir como um liquidificador que centrifuga o maligno quando se apresenta ao público. Lembra mais um brinquedo em palco antigo que a figura pulsante, poderosa e jovem do músico, até hoje compreendida deste modo por nós.

Vaudeville outra vez. Ilusionismos, alucinações, como aconteceu no século 19. O teatro de variedades começava a acolher as imagens captadas pela luz. O cinema inicial era uma atração inferior nesse palco. As fotografias circulavam pela cidade do século 19 como um assombro, uma fantasmagoria. E viravam cinema como uma ilusão a mais.

Encaixar Elvis nessa atmosfera mental do passado é tarefa laboriosa, embora estejamos cansados de saber que ele nos hipnotizou como um bruxo. Quando Elvis surgiu para o público, na segunda metade do século 20, tudo tinha se tornado bem mais frio e controlado do que havia sido no século anterior. A cena onde Elvis começou era recolhida. Os shows e as missas afro-americanas se davam no quintal dos pretos, nas suas igrejas. Depois Elvis observou como funcionavam os clubes de stripper e repetiu o que viu. Colocaram-no na gravadora, na rádio, na mídia massificada, e ele estourou. Tudo muito diferente do vaudeville, quando os ilusionistas cabiam em tendas, quando ainda havia um clima de fantasmagoria e sonho ao ar livre a pesar sobre o espectador, a embriagar seu corpo.

Luhrmann quer nos fazer crer que Elvis se encaixa na sua manobra do tempo, e em parte talvez se encaixe. O vigor de Elvis sobre o palco é quase uma possessão revivida. Mas Elvis não era só isso, um ser religioso. Ele tinha de exercer a razão terrena todo santo dia para passar o trator na censura e dominar os bastidores. Tinha de magnetizar uma multidão extra-palco, dar entrevistas, cantar com Frank Sinatra, posar com Sofia Loren. E se não existe esse embate no filme, é porque ele busca mostrar Elvis como uma marionete sofrida e literal de seu ilusionista.

O diretor tem esse mérito de creditar Elvis à cena afro-americana – à cena musical que ele acompanhou criança, família empobrecida, num bairro negro de Memphis. E por isso vale o filme, com suas novas caracterizações para o amigo B.B. King, para Little Richard, Fats Domino (que Elvis aponta como verdadeiro rei do rock), Rosetta Tharpe ou Mahalia Jackson.

No reino da Priscilla
vivida por Olivia DeJonge

De resto, o ator que interpreta o ídolo parece ter o freio de mão puxado. Austin Butler está a serviço do ilusionista Luhrmann, seus movimentos são muito caprichados e lembram Elvis – mas só lembram. O ator parece comandado, contido. A sensualidade também virou uma evocação. Na segunda metade do filme, surge a atriz que interpreta sua mulher Priscilla (Olivia DeJonge) e ela parece ir bem melhor, a nos convencer psicologicamente de sua presença. A gente a sente na sua pulsão de menina sonhadora, embora ela não se pareça fisicamente com a Priscilla real.

O que eu acho é que se você vai ousar dirigir a história de Elvis, um fenômeno imenso e complexo demais, não pode transformar seu ator numa marionete de Elvis. Não é culpa de Austin Butler que cause essa impressão, acho eu. Me parece ser escolha do diretor, que se vê na figura do ilusionista, do manipulador mental, do Caligari que precisa de Frankenstein para ser doutor.

De todo modo, há bastante encenação no filme pra nos distrair, muito giro, cor, e a gente não passa desconforto vendo aquele palco por quase três horas. Bem que Luhrmann poderia ter encaixado Ann Margret, a paixão intensa de Elvis, nessa história ainda comandada por Priscilla! Porém, se nem o rei do rock a cinebiografia conseguiu direito envolver… Ia chegando o fim do filme e eu parecia ainda estar esperando Elvis aparecer. Apareceu? Para mim, infelizmente, Elvis não estava lá.

Fechei o livro

Me ponho a ler o texto de um desses curadores/historiadores da arte que gostam de meter seu pitaco sobre fotografia.

A certa altura, o pensador diz que no trabalho de determinada fotógrafa “não se percebia nenhum cacoete da fotografia direta, por exemplo, ainda muito valorizada naquele período”.

Chego a ter pena.

Fotografia direta, “cacoete”?

“Ainda muito valorizada”?

Talvez esses críticos/historiadores/curadores não passem mesmo de avaliadores de mercado.

Fechei o livro.

As cópias imperfeitas

No primeiro passeio ao ar livre, pela praça 14 Bis, em São Paulo, eu tinha quatro meses. Curti? Não sei. Talvez tivesse sono. Talvez desconfiasse…

As fotos foram feitas por Walter Pavam, meu pai, reveladas e ampliadas em formato pequenino no banheiro de nosso apê alugado de um quarto no Bixiga. Nunca vi estas imagens coladas nos álbuns, estes que ele compunha como se diagramasse livros.

Esperava o foco perfeito da sua Flexaret, o enquadramento ideal, o sorriso de seu personagem ou a surpresa. E estas imagens não resultaram no que pretendia exatamente. Mas, como prezava a fotografia como entidade, não jogava nada fora, nem seus erros.

As duas imagens estavam localizadas em uma das pastas nas quais ele acumulava suas frustrações, as cópias imperfeitas, fosse pela foto em si, fosse pela ampliação malsucedida.

A primeira imagem não tem meu sorriso, e talvez ele estivesse insatisfeito com a composição. A segunda, compôs como queria, com essa diagonal rumo ao infinito, meu sorriso e o esplendor da praça ao fundo. Mas o fundo, justamente, parecia estourado e indefinido.

Então guardou tudo. Para usar depois? Era muito comum que ele desse cópias aos parentes, amigos presentes nas fotos. Muita gente que conheci só teve imagens de infância porque meu pai lhe deu. Uma grande generosidade da parte dele, porque levava a sério a infância. Mas o papel fotográfico era caro, suado para ele, que o usava também profissionalmente, para ampliar seu horizonte na pintura.

De todo modo, estas são tentativas muito bonitas da forma como foram feitas. O tempo as valorizou. Ou ganharam imenso valor pra mim.

Obrigada, menino velho, por tudo e em tudo que me fez.

O comunismo segundo meu conhecido de classe média paulistana

Eu não resisto e de vez em quando vou a um desses perfis de facebook pra ver como eles estão espumando agora. Na verdade, vou a um específico, de um sujeito de classe média paulistana meu conhecido, que sempre intercala as fakes com orações pra Virgem Maria.

Desta vez o achei original. O sujeito coloca o trecho real de uma fala de Lula na qual ele diz não fazer sentido alguém comprar um iate de 400 milhões e mais outro iate só pra guardar o avião. “Pra que isso?”, pergunta. “Ele não vai fazer nada com isso.”

Pensei: tem razão!

E então vem o toque do jênio. Em cima do vídeo postado por meu conhecido, uma faixa vermelha avisa: “Atenção, isto é o comunismo”.

Pensei: que pena!

O comunismo vai acabar com a chance de meu conhecido, com o salário que ganha, gastar seus futuros bilhões comprando dois iates e um avião.

Um segundo debate será de lascar

eu tenho trauma de Lula em debate desde 1989.

naquele tempo, nervoso num paletó claro que não lhe caía bem, ele suava ao ouvir a baixeza em série proferida pelo collor, ontem substituída por aquela do ciro.

na época eu achava que o Brasil não daria bola para um estúpido como o collor claramente era, mas deu.

o brasil é presa fácil, o que fazer?

lula debatendo num formato que não permite o debate, diante de candidatos inviáveis, falas mentirosas e jornalistas mal-intencionados, ademais interrompido por um sino e olhando pra câmera mal terminado cada raciocínio, é angústia desnecessária pra mim, sinceramente.

ganhe no primeiro turno, meu querido, porque um segundo debate vai ser de lascar.

Iara Rennó, o deslumbre

Iara Rennó, musa e estrela de “Oríkì”, um show de arrepiar no Sesc 24 de Maio até domingo 28, às 18h

Iara Rennó é só luz pra mim. Amo cada show, cada uma de suas pronúncias. E este “Oríkì”, no Sesc 24 de Maio até amanhã, domingo 28, segue aquela maravilha de sua escrita, desta vez com uma narrativa sobre os orixás.

Com essa banda, com esse figurino, todo o esplendor

Tudo se encaixa. A banda é inacreditável e o figurino obedece a um outro mundo de beleza e significados. Não percam! Mas tenham paciência com o tratamento que o técnico de som deu a esta história. O som embola, é alto como se seu destino fosse a avenida, e frequentemente não compreendemos as belas letras. Corram lá, de todo modo, porque é preciso. Iara, parabéns! Iara merece. 💜