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Abraço não é polêmica

Não morro de amores pelo Drauzio Varela. Sou impaciente com gente vaidosa. Da primeira vez que me deu entrevista, há milhares de anos, nem me olhou nos olhos. Falou ao infinito, como se lá estivesse uma câmera de tevê. E, sim, no futuro haveria no infinito uma câmera de tevê.

Também lidei semanalmente com ele por alguns anos, quando escrevia pra Gazeta Mercantil e pra Folha de São Paulo em dias alternados da semana. Suas colunas para os dois veículos eram sempre sobre o mesmo assunto. Ganhava o dobro para dizer coisas idênticas de modos diferentes, resumindo.

O procedimento me dizia mais alguma coisa indesejável sobre ele, embora nos tratássemos bem ao telefone. A gazeta era ordinária, mal me pagava salário e quase ninguém lia aquela coisa mesmo. Se eles queriam o Drauzio replicador, ficassem com ele.

Dito isto, o que tenho a considerar sobre o episódio da trans encarcerada é que ao abraçar um preso o Drauzio não comete crime algum, indiscrição ou falta de ética. E não por ser médico.

Não sou médica e no entanto abraço trans sob o viaduto sem lhe perguntar por que foi parar no viaduto e o que faz pra ganhar a vida sob o viaduto. Se quero me aproximar de um ser humano, me aproximo.

Me perdoem, mas, pensando bem, ele tinha mais era que abraçar a presa. Tomou seu tempo, certamente sem nada lhe pagar, expôs seu rosto ao mundo e ganhou visibilidade por meio dela – embora tudo tenha dado no que deu.

Ela é uma presa, melhor dizendo: cometeu um crime e não fugiu de pagar com o encarceramento pelo que fez.

Para mim, melhor abraçar uma pessoa nessas condições do que muito safado(a) com quem trabalhei no jornalismo.

Aliás, ou abraçamos o mundo ou ele nos abraça feito cobra depois de nos picar.

Padilha exterminador

José Padilha é um produtor que assina como diretor. Não sabe dirigir. Aliás, precisou contratar um cineasta estadunidense que sacasse minimamente o raio dessa coisa chamada cinema para realizar seu primeiro filme, Os Carvoeiros.

Tropa de Elite, aquele do fascismo imagético fundador, só virou história-símbolo com Wagner Moura (esse democrata) porque Daniel Rezende, hoje cineasta, montou o filme de modo a que Capitão Nascimento, representado pelo melhor ator do elenco, fosse o protagonista. Pensem nisso: Padilha dirigiu um filme sem nem mesmo saber quem seria seu personagem principal.

O manipulador que se diz das artes mas no fundo é o que sua formação original como economista dita, um homem da grana, já provou ser incapaz de ver o Brasil com independência. É no máximo e tão-somente o Robocop cuja saga tanto quis “dirigir” nos Estados Unidos e aos trancos e barrancos “dirigiu”.

Não há nada nesse biltre obscuro que se pareça com Spike Lee, o diretor citado pela roteirista do Marielle na Globo para humilhar todos os diretores negros do Brasil. Nem Spike Lee acerta em todo filme, então imagine…

Ela, a Globo, e possivelmente a família de Marielle, mais ainda a roteirista Antonia Pellegrino, mulher do Freixo, querem grana e visibilidade internacional por meio de um projeto sensível, de uma história que nem mesmo desfecho teve ainda. Quem mandou matar Marielle, filha? O Lula??

Visibilidade vão ganhar, embora ao custo de muita vergonha alheia. E se querem grana de verdade, deveriam ter chamado outro diretor brasileiro internacional meia-boca para colocar rodas nesse projeto, tipo o Meirelles.

Nada justifica um Padilha na história, exceto (e condescendendo muito) se um ghost fizer seu trabalho minimamente correto como diretor.

A perversão exala por todos os poros do Brasil.

E a história está cara a cara com seu anjo exterminador.

Sou de Freud

“Isto não é pra mim, Jane”, diz Marilyn

Em 1953, durante as filmagens de “Os Homens Preferem as Louras”, de Howard Hawks, a atriz Jane Russell, uma das protagonistas e a mais experimentada em representação, tentou converter a parceira de cena, Marilyn Monroe, ao cristianismo.

Depois de muito pregar, Jane convenceu Marilyn a assistir a uma das reuniões do grupo Christians in Hollywood durante um dos intervalos das filmagens.

A colega, contudo, detestou a experiência:

“Isto não é pra mim, Jane.”

Tempos depois, Marilyn explicou à atriz Susan Strasberg (filha de Lee Strasberg, o Senhor Actor’s Studio) o que realmente se passara:

“Jane tentou me conduzir à religião enquanto eu quis convertê-la a Freud.”

o capacete da noiva do führer

sonhei com a regina duarte.
(creio que o sonho foi motivado por um story elogioso de parente à figura).
durante o sonho, brigávamos feio, gritos dela contra os meus, cada vez mais altos, porque eu não aceitava que ela usasse fotos de minha família para fazer propaganda de suas ações, como vinha ocorrendo em rede nacional.
enquanto discutíamos, o cabelo da mulher crescia e eriçava, até formar uma espécie de capacete que diminuía sua cabeça.
acordei com os dentes rangendo.
só isso mesmo.

eu rio sim

não sei usar revólveres nem fuzis.

e sou oprimida pelo estado de coisas.

como vou me defender?

se não puder usar o humor como arma, ou como correção para um estado de coisas, à moda do que ensinou aristóteles, do que raciocinou bergson ou do que escreveu pirandello, o que restará de mim?

vou rir, sim, enquanto posso.

vou desmontar risonhamente o cinismo deles, os que me oprimem.

não particularizo minha crítica em micheque, porque nem mesmo isto ela merece de mim.

mas talvez devesse.

desmontando Maria Antonieta (“comam brioches”) nos panfletos satíricos, os oprimidos franceses contribuíram para a revolução.

contudo, não espero revolução nenhuma por aqui.

nem mesmo uma correção.

meu riso é só liberador.

é meu alívio.

por que rio?

porque é sublime.

rio do caos deles.

um dos meus jeitos de enfrentar as coisas.

rio enquanto espero o impossível.

Em 28 de fevereiro de 2018

vivo entre as britadeiras de são paulo.
quando não britam no andar de cima, britam aqui dentro.
para superar esses ruídos, que calam a calma, as pessoas acostumam-se a gritar.
gritam lá embaixo, agora, enquanto tento escrever.
não deve ser assalto desta vez.
minha rua tem muitos sem-teto, às vezes fixados nos bancos do calçadão.
falam consigo, com seus cães e com um ser que somente eles podem ver.
desta vez, a voz potente com aflição (creio que de um negro, rivalizando com os britos cheia de docilidade) agita-se.
grita, aparentemente, com alguém que eu poderia ver.
como se falasse comigo.
“ouve, porra, o que eu digo! ouve!”
ou falasse por mim.

Não tem país

Outro dia meu filho me levou ao restaurante Syria, na avenida São João.

Caseiro. Comida maravilhosa. A espuma de alho serve de molho. A esfiha achatada, quente, é feita de massa fina recheada.

Fui pagar o que comi no balcão e apareceu a dona, que me lembrou alguém conhecido. Perguntei-lhe de onde ela era. “Damasco”, respondeu.

Aproveitei para lhe dizer que meu avô materno nasceu em Malula, uma linda cidade terrosa, cheia de montanhas, em que grutas escondem igrejas.

Ela sorriu. E, com o sorriso, rejuvenesceu. Era mesmo uma das minhas.

Malula, contou, é “o interior de Damasco”. Um povoado tão maravilhoso como outros (me disse seus nomes, creio que em aramaico, mas eu não os conhecia).

Mostrou-me seu filho ruivo de cabelos crespos, como os do meu avô. O jovem distante, sentado à mesa do restaurante, não falava português. Nem língua alguma, naquele momento. Em lugar disso, quieto, olhava pela janela o movimento da São João. Tinha seus 26.

“Eu cheguei a São Paulo faz três anos, ele finalmente veio agora”, ela me contou, alegre, no seu português que mal usava verbos.

“Ele fica aqui ou volta?” – perguntei.

“Aqui.”

“Não tem família em Damasco?” – insisti.

“Não tem mais Damasco”, ela então me respondeu. “Não tem mais Malula”, sorriu. “Síria não tem”.

Era como se houvesse arremessado pedras no meu rosto. Mas eu não perdi a linha. Raramente perco.

E sorri também.

Até porque não convinha lhe contar o que sei.

“Não tem mais Brasil, senhora.

Não tem país”.

Imagens de mim

Meu Instagram é basicamente o que vejo. E para comemorar a publicação de número 10 mil, escolhi fotos aleatórias que tirei nestes últimos tempos.

Nem de longe será uma seleção das imagens que me representam. Muitas permanecem por aí, perdidas, porque não sei armazenar essas desimportâncias.

O indiscutível é que gosto de olhar. Um pouco, às vezes muito, fotografar me ajuda a suportar. Também diria viver.

Nos últimos dias, depois de um skatista abalroar meu pobre pé já calejado pelas ruas esburacadas, fiquei em casa repousando com minhas imagens. Separei mil delas, que um dia espero transformar em um caderno. Quem sabe ele faça surgir a sensação de que não estive à toa, de que por meio da fotografia conheci o mundo dentro de mim?

quem precisa de fuzil com a retroescavadeira à mão?

bem sei.

o senador é um coronel.

não tinha nada que estar lá.

isto, pelo menos, nos diz a verdade constitucional.

mas pense.

estamos no brasil, país criador do fascismo entreguista.

e vivemos atualmente sob um estado de terror policial.

o coronel agiu então como um brasileiro no tiroteio.

moveu-se sem mediações, haja vista nossa debilidade institucional.

fez certo, fez errado?

a partir de agora, impõe-se a retroescavadeira contra os milicianos na iconografia humorística do país vilipendiado.

ninguém, nem mesmo reinaldo azevedo, ignorará o que ocorre no Brasil de hoje depois do que o episódio mostrou ao jornalista “liberal”:

a milicianização da polícia brasileira comandada pelo braço político dos milicianos do rio, amigos do presidente.

e mais.

o importante.

não sendo um fuzil, a retroescavadeira tornou-se um símbolo de guerrilha…

tô nem aí pros gomes!

o que me salta aos olhos é a história rolar.

ou atropelar.

Meu problema central com as redações brasileiras desde os longínquos anos 1980 foi sempre ter de me ver com a estupidez geral e fingir que nada acontecia, imaginando que um leitor lá longe iria pagar por tudo isso, por minha tristeza inclusive.

A mediocridade alegre dos confinados não impedia, era claro, que houvesse gente maravilhosa e genial a sobreviver nesses locais insalubres. Invariavelmente, embora nem sempre, os bons eram os párias. Cito o Renato Pompeu porque ele se foi e muito sinto sua ausência deste mundo.

Renato me dava uns sorrisos de canto quando ouvia coisas como estas, que me faziam enrubescer e, como sempre, sem sucesso, contra-argumentar entre as máquinas de escrever:

– O melhor jornalista brasileiro é William Waack.

– O Augusto Nunes tem um texto maravilhoso.

– O Bial é um poeta.

Para Renato, tudo era uma contrapartida à célebre frase que um dia ele ouviu no boteco (boteco como a instituição onde se anunciava o fim do mundo):

– Pelé, cego de bola!

O Bial é um ignorante machista, nunca deixou de ser. Só se espanta quem quer. (Meu teclado vermelho escreveu: “quem queer”).

Mas, como eu disse antes, não é o único jornalista a criticar a diretora antes de criticar o filme.

Aparentemente os mesmos que viram na trash & comic Bacurau uma leitura revolucionária do Brasil e nas novelas de Muylaert, tratados de sociologia sobre a senzala, acham o Democracia um lixo. Mas por que um lixo?

Ah, a voz da Petra.

Menininha rica.

O filme não tem outro lado.

É a história dela, não a do Brasil.

Tudo bem você, como espectador, detestar a voz dela e sua fala em primeira pessoa. Tudo bem você pedir mais ação quando se põe diante da Netflix depois de um dia cheio. Mas não o crítico. Crítico não deveria ser rasteiro, machista, estúpido, violento.

Nem sei se ainda existem redações. Mas que lixo, gente. Que lixo de pensamento. Depois não adianta reclamar do Weintraub.