I love Lily

Não sei o que me faz amar Lily Tomlin tanto assim.
Desde Nashville, de Nine to Five a All of Me…
Que estrela!
Mal chega uma temporada de “Grace and Frankie” e eu a devoro inteira por causa dela…
Em primeiro lugar, uma comediante que sorri!
E que parece feliz.
Que sabe o seu lugar.
E que jamais desistiu de lutar com elegância por ele.
Que se recusou a sair do armário numa capa pra Time.
E que acabou capa da Time do mesmo jeito anos depois, em 1977, celebrada como “Rainha da Comédia”.
Uma comediante, mulher comediante, é sempre uma heroína.
Vocês sabem que Lily é o nome da mãe dela?
Que seu verdadeiro nome é Mary Jean, quase uma Norma Jean?
Que ela estudou medicina, como Graham Chapman, o Brian de Monty Python?
Que sua esposa se chama Jane? Que são uma dupla de trabalho também? Que ela cria e escreve papeis pra Lily?
E que sua preferência como atriz é atuar diante da plateia, improvisando e trocando energias com ela?
Pois então.
Sinto falta de chamar os amigos pra falar sobre Lily Tomlin.
Não que eu tenha muitos, mas…
Pelo menos tentaria reuni-los, não fosse a tristeza atual.
Mas Lily não é triste.
Não vou ser.
💜

Dance!

Nesta casa onde há músicos tão bons, sou o patinho feio da canção.

Mesmo assim, me ponho a cantar toda manhã “O Amor”, a grande versão de Caetano para o poema de Maiakovski. É um compromisso que assumo, uma reanimação para as noites em que os sonhos têm sido estranhos, vingativos contra mim.

Tenho até mesmo cometido gravações no celular ao balançar na rede, à tarde e à noite, certa de que isto não melhorará minha voz, que é um falar. E tenho dançado com ela, ainda que muito mal.

Mas não importa.

Este é mais um jeito de seguir a sugestão que me faz a estrela Sandra Miyazawa: dance! Cuidar do corpo assim será um carinho a praticar comigo mesma neste isolamento.

Vi a Sandra algumas vezes, nunca suspensa no ar, como só ela, tão linda, sabe fazer por nós, pela justiça e a igualdade entre os homens.

E não sei se ela já me viu pessoalmente.

Mas fico muito feliz com a inspiração que ela me dá, a mim e a tantas mulheres como eu.

Meu beijo especial do dia, querida.

Vou voar e cantar também. 💜

Um sentir na pandemia

Ontem, daqui da janela, eu me encontrava conformada. Os passantes prosseguiam, grande parte deles (homens, em sua maioria) sem máscaras, mas não eram tantos assim.

Havia ônibus e filas de ônibus, porém os passageiros se postavam mais ou menos distantes uns dos outros. E muitas crianças, porque assim as entendo, carregavam suprimentos sobre motos e bicicletas.

Hoje, tudo está diferente.

Faz frio. No entanto, há gente considerável circulando todo o tempo, e mais: aproximam-se, conversam entre si. Os policiais, zeladores de estacionamento e vigias encaram os mendigos que chegam perto deles com idênticos braços cruzados, sem conceder ou se afastar diante de sua presença.

Carros e veículos iridescentes conduzidos por transportadores infantis revezam-se em número semelhante no calçamento.

Um ou outro personagem isolado (daqui a pouco os reconhecerei e lhe darei apelidos) grita “fora bolsonaro” das janelas longínquas, como um rápido desabafo. Mas há também pela rua os gritos alongados, parecidos com os daqueles vendedores antigos de beju na praia. E batuques.

Não sei o que as pessoas lá fora pensam.

Porque sei que pensam.

Porque pensar é um sentir.

Longe de vocês

Não posso dizer que estranhe a quarentena. Nos últimos três anos, venho de repousos forçados por ligamentos rompidos nas calçadas paulistanas. Mais grave ainda, no ano passado quebrei o pé no largo da Batata, a caminho de um show. Se contar minhas desabilidades nesse tempo, sobre cadeira de rodas ou bengalas, que me fizeram desenvolver tendinite, dá quase um ano longe da cidade e perto das sombras.

Tenho amigos incríveis, que felizmente levam vidas distantes enquanto envelheço. Estão sempre em mim, como sonhos. Às vezes, nas redes sociais, encontro quem me ouça mais que eles, na nossa troca de nudes existenciais sob a pandemia. Viva vocês!

Espero que desses companheiros de hoje surjam alguns amigos olhos nos olhos nos próximos anos. Não é fácil, sendo frila e recolhida como me sinto, perder o abraço quem já gosto pelas palavras, concordâncias e emoticons.

Na banheira de lixo da história

Talvez alguns de vocês conheçam este episódio. Mas vou recontá-lo, porque parece ser uma boa hora para isso. Que hora é mesmo agora? Sábado, já?


Não importa. Isolei-me. Vou tardar a dormir.


A história breve que vou lhes contar ou recontar gira em torno desta foto de David E. Scherman.


Na banheira, está Lee Miller.


Sim, Miller, linda mulher que aprendeu a posar criança, modelo de um problemático pai. Musa de Picasso, amiga de Steinberg, estampou a capa da Vogue várias vezes, uma delas em autorretrato que ela mesmo exigiu fazer – um fato memorável, quiçá jamais repetido na história da turma da Condé Nast.

Aprendeu a estar atrás das câmeras com um vaidoso Man Ray, com quem se relacionou amorosamente. Um dia, foi fotografar as dores do mundo, a Segunda Guerra, o estrago num campo de concentração, e convenceu a glamurosa Vogue a publicar o que reportava, algo também inédito até ali.


Tudo parecia maravilhosamente inusual na vida de Lee Miller, principalmente este retrato na banheira, embora seus últimos anos não tenham sido tão mágicos assim.


O retrato foi feito logo após a capitulação alemã, 1945, na casa à praça Prinzregentenplatz, em Munique. Tomada horas antes pelo exército dos Estados Unidos, a residência pertencia a Adolf Hitler.


“A casa se encontrava em perfeitas condições. Havia eletricidade, água quente e aquecimento disponíveis, além de um refrigerador elétrico”, escreveu Miller, gozadora, máxima.

Enquanto estiveram rapidamente por ali, ela fotografou seu retratista, Scherman, na mesma banheira, mas ninguém parece querer republicar esse retrato, vai saber por quê. Ele sorria.


Me lembrei da história (e são tantas envolvendo essa grande mulher) por uma razão trivial.


Quando a gente tomar a casa bozolina depois deste pesadelo, duvido que tenhamos idêntica coragem de mergulhar em sua banheira, suja com o sangue roubado de nós pela família infame – infâmia esta pela qual jamais imaginaríamos um dia passar, vencidos tantos anos desde a destruição sem precedentes promovida pelo bigodudo da foto a quem Miller dá as costas.


Nem por uma imagem histórica sentaríamos numa banheira de leite condensado, não é?


Eu, pelo menos, é que não.

Vermeeeee

Estava demorando pra acontecer.


Tô aqui sossegada no meu panelaço diário das 20 horas quando aparece o vizinho.

– Mitooo!


Respondo:

– Bolsominion Lixooo!
(Eu grito bem.)


Panelas se insurgem contra ele e logo chega a resposta a mim:

– Putaaa!


Por que toda mulher é puta ou vaca, neném?


Não tenho problema com as duas.
Quase grito Puta com Orgulhooo, mas não dá pra ser sutil numa hora dessas, lembra meu filho.


Vou no tradicional:

– Vermee!


Mais panelas por cima dele e a boca do infeliz interrompe a evacuação.

Quando Miranda morreu

De 25 de março de 2018

Às vezes, em noites caseiras e insones como esta, eu sabia que ele, entre outros amigos queridos igualmente idos, estaria por aqui, quase ao lado, observando com sentimento (com seu jeito bonito ou mesmo contrariado de olhar as coisas) uma foto que eu tivesse colocado, uns versos que houvesse exposto, uma alegria ou talvez uma angústia que me apertasse e que desapareceria pela manhã. (E ele nunca brigou com minha tristeza, nem me julgou esquisita ou estranha por isso, como seria de esperar, e talvez experimentasse, como escreveu, uma admiração de igual.)

Fazia sentido postar nessa abscência se eu intuísse que ele se situava perto para me ouvir. Às vezes estava acordado como eu naquela madrugada de morcegos e me dava sugestões, como a última, para que eu expusesse minhas fotos, especialmente as dos reflexos, e que meu marido desse um jeito com os vinhos para quem aceitasse vê-las numa noite de museu na minha casa.

Ele vivia acordado com seus sonhos, eu fugia dos meus.

Não tenho muitos amigos presentes, eles são circunstâncias, vivem em mim, eu converso com eles em imaginação todo o tempo, talvez a experimentar tardiamente as amizades invisíveis que nunca tive na infância.

Enquanto leio a insolência de Gógol e choro com as tragédias de sentimento sem final de Tchecov, enquanto converso em ondas com esses mares de Bergman, Buñuel e Murnau e busco meu retrato em Walker Evans ou Saul Leiter, prescindo de tudo e todos, de quem tenha sangue pra me ouvir.

Meu amigo à distância que não existe mais viverá.

Naquele dia de sua morte uma mariposa negra me atormentou no quarto, avantajada, inquilina, e eu me assustei a ponto de andar pelo cômodo de guarda-chuva aberto. Quando meu marido chegou em casa e soltou a persiana, ela saiu, mas o coração saltava.

Soube depois.

No momento em que a mariposa deixou nosso quarto, ele partiu também.

Desconfio contudo que ainda permaneça aqui em algum canto, desejando ficar e me ouvir seriamente, expondo um triste e familiar enredo de filme japonês, talvez inventado, no qual os filhos morrem por seus pais, numa transformação poética do esperado e conquistado.

Abro a janela.

Parta com paz, meu querido, para a terra das nuvens e do riso, mas ainda me traga desde o infinito seus brinquedos e perfumes.

Outbreak

queria dar a cada um de vocês uma palavra de carinho.
mas não sei se sou boa nisso.
conhecem uma pessoa direta?
sou eu.
a que não sabe disfarçar.
aquela que diz bobagens sinceramente, porque crê nelas.
e que, se precisa dar carinho, gosta de fazê-lo pessoalmente.
fisicamente.
vocês estão longe, embora perto…
mas não é só isso o que quero dizer.
neste momento, na rua onde moro, passam pessoas gritando por turnos.
ouço da janela da sala.
gritos como se quisessem se libertar de alguém.
ou parar alguém.
não sei do que tratam essas pessoas.
não sei se são os sem-teto sem comida que querem arrancá-la de alguém.
não tenho como saber.
estou a uma altura excessiva do prédio onde moro, aqui onde vejo as nuvens, meus personagens.
prometi à família que me comportaria e que não sairia à rua à toa.
minha família é meu tudo.
eles me amam na complicação.
e não vou complicá-los me aproximando de quem não conheço no meio da pandemia.
mas queria lhes pedir.
nunca mais reclamem se um médico abraçar um prisioneiro na cadeia de novo.
não importa a escrotidão que o preso tenha aprontado.
nem o médico!
não reclamem.
temos um tempo limitado pra viver e amar.
não vamos estragar tudo espirrando no outro uma moral que não precisa ser respeitada.
é tarde.
e eles não vão parar de gritar contra nós.

Música com sangue

www.netflix.com/title/80227122

A quarentena mal começou.

Vocês terão tempo.

Assistam a este documentário espetacular de Stanley Nelson, “Miles Davis: Birth of the Cool”.

Está na netflix, mas suspeito que seja fácil baixar.

Que edição de imagens.

Ritmo!

A música era tudo para Miles.

Principalmente, evoluir dentro dela.

Ou isto ou a arte não faria sentido.

Foi um perfeito condutor de instrumentistas para o exercício de suas próprias visões.

Mais importante que ensaiar, para ele, era improvisar no palco.

E improvisar significava exercer a música em profundidade, sem limites.

Irascível, desafiador do racismo e do establishment, amante de ferraris, Miles foi igualmente louco por mulheres.

Às vezes, louco de verdade.

Machista, espancador.

Enfraqueceu-se mais e mais pelo uso de drogas e por seu comportamento autodestrutivo.

O cool que ele inventou e que quiseram transformar em entretenimento para brancos chiques vinha extraído de sua verve áspera.

Miles nos deu a música com sangue.

Vi Miles ao vivo.

Viva Miles.

Que momento para estar vivo, enquanto for possível estar

Ontem saí pra buscar trabalho. Um tempo angustiante fora de casa para uma reunião de três horas. Orai por nós, os precariados.

Hoje, porque não sou de ferro, saio rapidamente pra aproveitar a promoção do meu café querido, em grãos.

O local onde se dá a venda é um café-brinco, apesar de hipster, e ativo por Lula Livre. Na entrada, pisamos em um tapete com o Bolsonaro de boca aberta. O lugar está sempre cheio para lanches e drinks, porque singular na região, quiçá na cidade.

Pois bem. Hoje não há ninguém nas mesas naquele horário pós-almoço em que tomamos um café. Três funcionários atendem a dois clientes que vão levar rapidamente a promoção e sair. Contudo, em cada mesa, resta como um poema um lindo frasco pequeno de álcool gel.

É um cenário apocalíptico, mas inevitável. Espero que meus queridos hipsters sobrevivam, porque são bons. Não só o café é o melhor e mais barato. Eles também fornecem água filtrada de graça a todos, inclusive os sem-teto, a quem também distribuem cafezinhos.

Perto, entro numa farmácia pequena e peço própolis, que ontem já faltava na região. Mas ali eles ainda têm. E aproveito pra soltar a piada do álcool gel. Adoro ver a expressão de cada vendedor quando faço a pergunta. Este me responde da forma padronizada, mas com sinais de exaustão:

– Pff, senhora, álcool gel nem pensar. Ontem chegaram cem frascos às 10h e às 10h20 já não havia mais nenhum. Peço que o cliente tenha bom senso, mas ele vem sempre com uma desculpa: está levando pra mãe, pra sogra, pra avó.

– Esse maldito governo deveria limitar a compra, ao menos, não? – pergunto.

– Pff. – (ah, ele é perfeito). – Distribuíram camisinhas no carnaval. Então por que não distribuem álcool gel de graça?

Um VENDEDOR de farmácia, queridos.

Que momento para estar vivo, enquanto for possível estar.