“Armugan”, um sol de cinzas

O filme fabular e fantástico de Jo Sol, incluído na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é um raro exemplar de apego à aventura cinematográfica

Armugan, hora decisiva

A vida confunde tudo. Faz do fim, o começo. E só a morte parece curá-la.

Eis as verdades que este diretor catalão não teme dizer. Aos 52 anos, Jordi Solé, o Jo Sol, reza por um antigo testamento do cinema. Fazer um filme, e ele vem dirigindo longas-metragens por duas décadas, parece-lhe uma aventura necessária e franca, a exigir sempre um novo risco.

Seu longa Armugan, presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, nasceu depois de Sol ter trabalhado com Íñigo Martínez em um filme para a tevê. Ator e bailarino de dança inclusiva que vive entre os palcos alemães e os de Barcelona, onde se formou, Martínez acendeu a imaginação fantástica de Sol. Em 2017, o cineasta ofereceu-lhe o papel de protagonista no filme que imaginara, sobre um homem que ajuda os outros a morrer nos Pirineus.

De início, Martínez hesitou. Era tudo muito estranho. “Eu teria de chegar até aquelas montanhas em minha cadeira de rodas e, por seis semanas de filmagens, deveria simplesmente deixá-la de lado”. Pesava a favor de Sol que Martínez o conhecesse bem e lhe tivesse amizade, confiança. Mas a tranquilidade só veio mesmo depois da leitura do roteiro. O ator aceitaria interpretar aquele ser que encaminhava os moribundos à morte. E o faria de forma espetacular, quase sem proferir as difíceis palavras do dialeto aragonês.

Entregue a Anchel,
que o carrega nas costas

Durante todo o filme, Armugan está agarrado a Anchel, o personagem vivido por Gonzalo Cunill. Anchel, que às vezes evoca, em aparência física, o Antonio das Mortes de Mauricio do Valle, carrega-o nas costas até as casas onde estarão as famílias ansiosamente à espera. Só Armugan sabe qual será a hora decisiva, como um espírito religioso saberia. A certa altura do filme, contudo, Anchel o provoca a decidir pela morte de quem pede por ela. Mas como Armugan faria isso? Embora saiba a hora certa em que todos vão morrer, ele não tira a vida de ninguém.

A atuação de Martínez é concentrada. Seu corpo, extenuante morada, é também seu infortúnio. Sol filma em preto e branco. Está sempre muito próximo dos personagens, até de Armugan com suas ovelhas, mas não exige diálogos extensos dos atores. É extraordinária a qualidade da montagem que faz a história andar. E inacreditável a locação escolhida no topo das montanhas. Grandeza e simplicidade caminham juntos neste filme em que o desafio está implícito: o sol e a morte são duas coisas que não contemplamos sem piscar.

Jo Sol, pela aventura do cinema

ARMUGAN

Direção: Jo Sol

Espanha

2020, p&b, 90 min.

Ficção

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=-F0Ky82Xf5E

Nem Paris, nem Texas: “Pegando a estrada” revive um cinema

O primeiro longa-metragem de Panah Panahi, presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, rompe as regras do filme estático contemporâneo ao explorar a jornada de um jovem em formação

Infância, um lugar para a música

Um jovem dirige o carro no qual viajam seu pai, sua mãe, seu irmão mais novo e o cachorro da família. Ele precisa alcançar a fronteira e atravessá-la, para então viver sozinho do outro lado. Mas de que modo irá viver sem ninguém, se é tão imaturo? Principalmente, por que tamanha peripécia familiar para que se vá? Se você assistir a este longa-metragem sem saber que se trata da primeira realização cinematográfica de Panah Panahi, o filho de 37 anos do grande Jafar Panahi, diretor desterrado do cinema pelo governo do Irã em 2010, talvez o entenda parcialmente. De qualquer forma, estará diante de um belo filme com extenso arco emocional, este que admitirá até mesmo a presença do humor.

Eis um longa que mereceria ser incluído em todas as redes de streaming popular. Porque é acessível sendo ainda bom cinema, não um arremedo de telenovela brasileira baseado no jogo infinito entre campo e contracampo, a partir de enfadonhos planos médios e closes. Panah Panahi tem o controle da história e a fotografia de Amin Jafari é sempre clara, seja dia ou seja noite, de modo a fabular com nitidez a psicologia dos personagens. Os atores têm enorme carisma e beleza. Suas máscaras são acionadas tão perfeitamente que nos esquecemos de que interpretam papeis. Eles existem sem contestação dentro da verdade do filme.

A fotografia de uma fabulosa paisagem

Em poucos minutos iniciais nos quais apenas o caçula aceso fala sem parar, conhecemos todas as circunstâncias que orientarão a história. Para isso, o diretor se encarregará de condensar o Oriente em sua iconografia icônica. As montanhas parecerão pintadas, a estrada se alongará, o carro acessará os mundos interiores e exteriores, a religiosidade se introjetará nas canções e observações, o velho venderá pele de carneiro, a mulher espirituosa também será a mãe devota e o pai terá um mau humor divertido, que se desinteressará das convenções. Seremos jogados para o contexto no qual os personagens funcionarão com muita intensidade e leveza, se isto é uma coisa que se possa conceber simultaneamente. Até mesmo sentiremos vontade de conhecer esse recanto do mundo tão isolado pela intolerância, que sempre antes nos causara temor.

É coisa rara nestes dias, mas o diretor pratica a beleza do movimento, marca do cinema de antes, de Douglas Sirk a Wim Wenders. O filme deste Panahi também é musical, um “Paris, Texas” que corre pela imensidão habitada, mas às avessas. A questão do filho, do que fazer com ele, é também central. Mas o filho aqui não está abandonado, antes deseja se descolar dos pais, existir por si próprio, embora não pareça reunir ainda condições para tal. “Você fuma muitos cigarros vendo filmes”, diz-lhe a mãe. “Veja menos filmes”.

“Veja menos filmes”

É muito engenhosa a resolução dramática da figura filial. O personagem do filho, que imaginamos ser uma referência do cineasta a si em relação a sua família, a seu pai, vê-se construído numa convergência entre dois personagens, a criança e o jovem. O filho criança é brilhante, o filho jovem, opaco e comicamente inseguro. Dois meninos representam um. Mas como não se tornar progressivamente inseguro para se lançar no cinema se seu pai é Jafar Panahi? E há o cão. O cão está à morte. O cão é a alma de todos que se despedaça para que a jornada de herói do filho possa enfim começar.

Diante do herói

É um filme radioso, brilhante, também porque não se apega às convenções do que deva ser o cinema de arte contemporâneo. Vencedor do Festival de Londres, ele não paralisa as atuações à toa, não abusa da cinemafotografia sem movimento, que se insere apenas quando o diretor quer destacar uma estranheza, uma profundidade. Este cinema que não teme ser cinema paga sem temor um tributo à arte estadunidense, embora ironize o país (e os amantes do país) por meio de uma deliciosa piada em torno do ciclista Lance Armstrong. É um filme para ver, rever, mergulhar e cantar.

Panah Panahi, um
grande primeiro filme

Pegando a Estrada

(“Hit the Road”, “Jaddeh Khaki”)


Direção: Panah Panahi

cor, 93 min. 

Ficção

Irã

2021 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=13S–yt8esA

“Pornô amador”, ou o reino de terror do coração

Filme de Radu Jude que parodia a caótica realidade romena, em cartaz na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ganhou o Urso de Ouro em Berlim

A professora, ou a lucidez, sob escrutínio dos medíocres, os pais

Diz-se da paródia que é o canto paralelo a uma obra artística, literária ou fílmica, muitas vezes operado em sua forma humorística. Contudo, além da obra artística, a paródia pode espelhar a realidade quando esta se oferece mais rica em possibilidades de escárnio que a literatura, por exemplo. Pornô Amador, do romeno de 44 anos Radu Jude, vencedor do Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, é um delicioso canto paralelo do real. Muito se diz que esta realidade aproxima-se da brasileira, e é fato. O caos, a violação, o preconceito e a falsa moral merecem, aqui ou lá, que os artistas a escrachem com humor crítico, disposto a derrubar o indesejado estado de coisas de uma vez.

O diretor Radu Jude

Contudo, as semelhanças com este país param por aí. Porque, no Brasil, convive-se com a submissão gentil à opressão, enquanto na Romênia de Radu Jude os temperamentos estão sempre raivosamente quentes, ainda que igualmente ineficazes, contra o que se vive no cotidiano. O humor dos romenos é o mau humor, é a briga, o ardor.

Quinquilharia do consumo

O argumento do filme, muito simples, não oferece reviravoltas, exceto na terceira e derradeira parte do filme. A professora que faz um vídeo caseiro de sexo com o marido é surpreendida ao constatar a filmagem na boca do povo – a internet. As crianças descobrem o filme e o mostram em casa. Pornô Amador transcorre em um dia da vida desta professora até que a noite chegue e ela precise enfrentar os pais em uma reunião escolar à qual foi especialmente convocada. Será demitida por obscenidade ou conseguirá provar sua óbvia inocência? A reunião, na apoteose do filme, é alegórica das instituições romenas: o militarismo, o racismo contra os ciganos, a alienação social, o amor ao dinheiro, o falso puritanismo, o descrédito à cultura e o analfabetismo funcional são representados por atores cômicos específicos. A professora, no fim das contas, será a única a interpretar a lucidez, ainda que mal-humorada também.

Os pais, alegorias da abominável classe média que tão bem conhecemos

O filme é construído sobre três engenhosas partes. A primeira, que se pode chamar turístico-reflexiva, apresenta a paisagem de Bucareste com o devido respeito às contradições urbanas. A câmera flâneur não se resume a localizar a caminhada da professora pela cidade, antes se distancia dela para acompanhar os letreiros, os grafites, a arquitetura mal ajambrada. Tudo nessa Bucareste é o caos que não se ordena, o mecânico e repetitivo sobre o vivo, a piada em elaboração.

Envelhecendo na cidade

Na segunda parte, as reflexões assumem independência e vêm apresentadas de inúmeras maneiras, submetidas a jogos godardianos entre palavra e imagem. “Melhor parir um bezerro que infartar”, diz a loira que, perseguida por um touro, decide ceder a sua força. As anedotas sobre o terrível passado histórico se seguem. O braço direito paralisado de um paciente alemão só se mexe, esticando-se para a frente, quando um médico grita “Heil, Hitler”. Um personagem se alegra com o naufrágio do Titanic porque “o mar ainda existe”. E há quem sentencie que a beleza da mulher reside em seu marido. Nesta parte, a melhor do filme, a vida humana se vê apresentada como tragédia e comédia. E a pornografia é o reino de terror do coração.

Hipocrisia é isso aí

PORNÔ AMADOR

(“Bad Luck Banging Or Loony Porn”, “Babardeală Cu Bucluc Sau Porno Balamuc”)

Romênia, Luxemburgo, República Tcheca, Croácia

Direção: Radu Jude

2021, cor, 106 min.

Ficção

Trailer https://www.youtube.com/watch?v=8AEgcTSMSOY

A leopardia de Delon

Alain Delon: máxima beleza, delinquência, caça

Uma vez ensaiei escrever por aqui o que tornava Alain Delon um homem tão bonito pra mim… Eu via razões, digamos, multiplicadas como os raios solares.

Daí uma amiga dessas executivas muito importantes e pragmáticas da universidade perdeu a paciência: é bonito porque é bonito, ora.

Mas não, né? Não comigo. É claro que eu vou tentar compreender melhor como a coisa funciona (e só comigo, entendeu?). Vou olhar a beleza de frente, como disse a querida Eliete Negreiros. Não tenho muito mais o que fazer, rs. E se quer ser minha amiga, me aguente, ora.

Poitier, um juiz para nossa alma imoral

É tanto homem bonito no cinema. Escolho os primeiros que me vêm. O Sidney Poitier, por exemplo. O Paul Newman. Geraldo Del Rey. Toshiro Mifune. E até nesse Henry Carvill, estrela dos pobres de hoje, é possível vê-la.

Carvill: ele quer te abraçar

Carvill é o bobo que pede cuidados, como se fôssemos nós a fulminá-lo. Sua beleza pressupõe o abraço.

Newman, só sensualidade
Del Rey, o tímido translúcido
Por que tanta
pressa,
Toshiro?

O Paul Newman veste o erotismo sem vicinais. O Del Rey, o translúcido, é também o tímido, o distraído. O Poitier olha de um pedestal e, com profundidade, crava nossa alma imoral. O Mifune quer resolver tudo logo e fica lindamente engraçado nessa pressa de se impor, que ele nem precisava ter.

Mas o Delon, olha… O Delon é só desafio. Competição. Vou chamar isso de leopardia. Como se ele nos dissesse: venha, venha você e você, vou lhes derrubar um a um. Com a pele forjada na delinquência das ruas, os olhos em fulgor, inspeciona, calcula e caça em poucos segundos de câmera. Aposto que este homem nunca plantou um tomate na vida.

Para além de todas as qualidades, essa é uma não-qualidade, uma força irresistível… que move o observador diretamente para a armadilha.

Nem me arrisco a falar muito sobre mulheres, embora outro dia eu tenha dito o que penso sobre o fator Chantal Akerman de atração. Quando viajo em torno delas tem sempre um eco sem noção no face de meu deus pra tentar desqualificar minhas tentativas. Homens são colibris desajeitados…

Ao cinema, gente!

É fim de semana.

Escolham bem.

💜

Totò e a razão do humor

O Totò que dava de comer a Antonio de Curtis…
… e o nobre de
elegância
senhorial

Eu observo uma coisa aqui. Uma interpretação muito literal, às vezes amarga, das falas dos artistas que reproduzo. Então queria esclarecer uma coisa a vocês. Muitas das minhas postagens, exceto talvez as bobagens que adoro, memes pra rir, são pensadas para que a gente consiga fugir ao óbvio, ao conhecido sobre qualquer assunto da vida ou da arte. Não gosto muito de postar o sabido, embora poste também.

Dou como exemplo a fala provocativa de Totò sobre a idade. Da morte, ele não tinha medo. Mas achava algo bom em envelhecer?

Não, não tenho medo de morrer. A morte é uma coisa natural e temê-la me parece tolice. Eu, a primeira coisa que fiz quando ganhei um dinheirinho foi comprar uma capela em Nápoles. Morto, vou morar lá. Já existe o túmulo e nele estão gravados a data de nascimento e o meu nome. O dia da morte está em branco.

Não, eu não me importo de morrer. Eu me importo, isso sim, de envelhecer. É tudo o que me incomoda. Que drama sentir-se jovem e depois, no espelho, ver um rosto cheio de rugas, uma cabeça de cabelos grisalhos… Jesus! Que nojo!

O que diz você?! Maturidade?! Não, não, minha linda: não pense que me encanta com seus discursos sobre a maturidade. Eu gostaria de ser imaturo e ter 18 anos. O quê? Pobreza?! Não dou a mínima. Eu gostaria de ser pobre e ter 16 anos. Dezesseis não! Quinze. Treze. Nove!

Concordo em parte com Totò. Acho lindos os velhos, sua independência de aceitação, e amo fotografá-los, mas ainda não me acostumei comigo nessa condição. Sinceramente não acho muita graça em envelhecer. Sofro de dores nas costas, prudência.

Mas tudo chegou a ser pior na minha juventude. Quando eu era jovem, por me achar horrível fisicamente, vivia escondida. E não ia aos bailes por uma razão: os meninos não me tiravam pra dançar. Século 20, meus amores, e as meninas se sujeitavam a isso, pobrezinhas! Eis por que a maldade que retribuíam era negar a dança com os feios ou desajeitados… Não eu, que não podia me dar esse luxo, certo?

Hoje acho que fui um tanto má comigo mesma sob esse aspecto da beleza. Mas me perdoo. A feiúra que eu via em mim era real, porque guardava relação com a norma. E eu estava fora dela. Era magra e alta demais, tinha sono psicológico o tempo todo, tanta vergonha do corpo que o escondia, meu cabelo não era abundante e liso, o nariz parecia achatado, os dedos, não suficientemente longos… Tão brasileira, não é? Deveria ter sabido me valorizar, mas eu estudava em colégio alemão.

Hoje me sinto um tanto liberta, ou em processo de aprendizado sobre a liberdade dos velhos. E enquanto a beleza desaparece, é curioso como procuro destacá-la de algum jeito. Minha busca, nos autorretratos, é por qualquer detalhe físico que possa me fazer gostar de mim. Não se trata de vaidade, portanto, antes de um exercício de afeição. Quem mais temos para gostar de nós como somos, além de nós mesmos?

Acreditem ou não, Totò, o Antonio de Curtis, buscava a perfeição física. Enfeitava-se todo quando andava por aí e era de uma elegância senhorial. Eis por que não queria envelhecer. Porque sua busca pessoal representava um desafio.

Porém, quando reproduzo o que ele dizia sobre a velhice, nem penso na velhice da vida, mas da arte. Meu propósito com o post é mostrar como funcionava um aspecto da personalidade cômica do artista. Naturalmente, a interpretação do que posto é de todo livre. Digo apenas que tive um propósito com a publicação.

Antonio de Curtis vivia cindido entre a persona popular e a íntima. Ele achava que Totò era seu funcionário amado, que lhe dava de comer. Mas pessoalmente fazia questão de se comportar como um nobre. Achava que era aristocrata por direito e provou essa condição em cartório. É o que procuro desenvolver naquele meu capítulo em “Além do riso”, aliás. Totò era a contradição o tempo todo, uma das razões para seu enorme talento.

Então, quando ele falava em ter nojo da velhice e de seus cabelos brancos, também falava do papel do artista. O cômico tem de ser necessariamente jovem, assim como o fotógrafo de rua, a meu ver (o fotógrafo Bruce Gilden disse: “A fotografia de rua é basicamente um jogo de juventude. E agora sou mais velho, tenho 74 anos. Não posso descer tanto, mas não mudei: ainda estou interessado em tirar o mesmo tipo de foto que sempre tirei.”)

E por que jovem? Porque o humorista capta a contradição no ar. Só ela faz o efeito humorístico aparecer. Então, o paradoxo tem a ver com o deslocamento do usual, com a surpresa. Se você é velho nesse sentido, se só busca o conhecido e aceito por todos, esqueça de ser humorista. Totò queria ser jovem – e no trecho acima fala de ser jovem como uma criança de 9! – porque só assim saberia fazer o outro rir.

E rir pra quê, mesmo?

No caso de Totò, para nada além de sobreviver à miséria humana.

O feminino inelutável

A fotografia de Helen Levitt
A gravura de Käthe Kollwitz

Helen Levitt, Käthe Kollwitz.
Século 20.
Sensibilidade de mulher.
Porque existe isso sim, o tempo, inelutável.
E isto também, o feminino, embora se rejeite discutir o assunto.
Viva estas mulheres, brado do meu peito.

Quando o SUS é o melhor do dia…

Dormi mal. Tenho dormido assim há alguns anos. E ontem ainda tive uns dissabores, pequenos mas decisivos, que confundiram meu sono ainda mais. Me incomoda tanto a falta de graciosidade, de delicadeza por parte de pessoas adultas, que vocês nem calculam… O corpo estremece todo, como se chorasse. Mas não tenho direito de reclamar, pois, como sabemos, tantas coisas piores estão em curso.

E, felizmente, as melhores também.

Hoje de manhã, por exemplo, ainda com muito sono, fui informada de que duas agentes do SUS estavam à minha espera na portaria do prédio. Desci com a rapidez possível, com meu descabelo, e quase as abracei, como fazia antes.

As duas vieram especialmente para me entregar um formulário de agendamento da mamografia. Desde que a pandemia começou não vou a médicos, explico a uma delas, a mais inconformada com meu afastamento das rotinas. Claro, fui ao ortopedista e ao oftalmo em duas emergências, fiz exame num hospital lotado e acompanhei meu filho num procedimento. Só isso. “Mas na sua idade”, pareciam me responder…

Enfim, também me convidaram ao papanicolau sábado, dia em que será possível submeter-se ao exame na UBS sem marcação.

Essa preocupação comigo, não me acostumo… E no entanto é tão emocionante, tão procedente no nosso grande país.

Viva o SUS, como se diz, viva o Brasil.

Que estes dois possam novamente existir.

Teima triste

Leio que Claudia Abreu completa 51 anos e me dá vontade de lhe enviar meus parabéns, umas congratulações sem eira nem beira do tipo destas que todos nós aqui oferecemos aos distantes ilustres. Mas não vou.

Mal conheço Claudia Abreu como atriz. Sei que se trata de uma estrela de tevê, mas há décadas não vejo telenovela, minissérie, qualquer coisa que seja nascida da Globo, essa emissora da qual, me parece, a atriz não arreda pé. Mas gosto de algo em Claudia ligado a sua expressão, a sua doçura triste, à beleza de menina que Vera Fisher um dia proclamou ser maior que a sua, de mulher.

Há alguns anos, estive num jantar da Conspiração Filmes aqui em São Paulo, sem minimamente o desejar. E me lembro de Claudia Abreu ali na cabeceira da mesa, ao lado do marido, o filho do escritor Rubem Fonseca, enquanto todos sorriam a seu lado. Ela, não.

Creio que o jantar comemorava o lançamento de um filme de episódios da produtora, razão pela qual o marido, diretor de um deles, transpirava felicíssimo. O homem conversava com todos, ria de todos e para todos, mas com a esposa, não dividia nem o prato. Ele parecia adivinhar que ela olhava pra baixo, absolutamente desinteressada de um sorriso, e talvez por esta razão tivesse concluído ser mau juízo voltar-se à mulher num momento festivo.

Claudia parecia tão sozinha, e eu também, que tentei fazer um contato visual solidário, mas ela nem mesmo notou minha compulsão ao gesto.

O que tinha essa mulher-menina que lhe implodia o coração? Não soube dizer e não procurei averiguar.

Hoje, passados vinte anos, de vez em quando me lembro daquele monolito arrepiante, daquele seu incômodo de presença, e me pergunto o que pode ter havido. A arte não significa necessariamente alegria na vida do artista, muitas vezes, nem mesmo escolha. Espero que naquela noite ela apenas estivesse de mau humor, embora minha intuição (maldita, indesejada) diga que não.

Dona Cadu

Em novo single, Mauricio Tagliari celebra a baianidade emérita

Dona Cadu, sambadeira e ceramista do Recôncavo Baiano que ganha homenagem musical de Mauricio Tagliari, cantada por Zeferina

O sorriso é a porta de entrada da casa de Ricardina Pereira da Silva, a Dona Cadu. Sambadeira, ceramista, líder comunitária e doutora honoris causa por duas universidades, Dona Cadu mora na Vila de Coqueiros, fundada no século 18 à beira do rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano. Há quem diga, contudo, que sua residência é o próprio rio, de onde ela tira a vitalidade, o otimismo, o bom humor a um passo da ironia, e onde outrora pescou a bordo da canoa monóxila do marido, feita a partir de um único tronco de árvore. Quem vê esta mulher magra e pequena, de enganosa aparência frágil, pode não acreditar que tenha 101 anos vividos entre a água da área dos manguezais, as fogueiras das queimas da cerâmica e o samba de roda.

O esforço na lida com a argila, que ela iniciou aos 10 anos por gosto, a partir da iniciação de uma vizinha na São Félix onde nasceu, em 1920, deu-lhe sobrevivência. O barro é seu companheiro desde então, e se hoje Dona Cadu diminuiu o ritmo com ele, isto foi consequência de um acidente que a fez submeter-se a uma cirurgia no fêmur. Mas ela não pensa em interromper o trabalho, nem diz poder. Mais que isto, suas panelas, potes e tachos para a moqueca têm de ser perfeitos. Se a modelagem, que dispensa o torno, é ruim, ela nem leva para queimar na fogueira coberta por bambus, ao ar livre. As cerâmicas utilitárias de Dona Cadu são feitas em espírito de comunidade, junto a outras louceiras com quem divide os custos para a compra de material. Se antes as peças em argila eram tudo de que dispunham os habitantes da vila para cozinhar, hoje essas obras asseguram a permanência de uma tradição artística afro-indígena e encantam o mundo inteiro.

Isto considerado, ser sambadeira é o que entusiasma Dona Cadu de verdade, uma vez que jamais tirou alegria do álcool, ao contrário de sua avó, uma indígena que, segundo ela conta, ingeriu uma dose diária de cachaça até morrer, aos 130 anos. Então girar com a música é tudo o que Dona Cadu quer para ser feliz e compensar a dor. Ela dança o samba de caboclo como se imitasse o andar lateral de um caranguejo, rodando a saia branca ampla e rendada, sorrindo até não mais poder. Sua performance é um renascimento.

O samba de caboclo de dona Cadu em Saubara, 2017

Em novembro de 2017, Mauricio Tagliari e eu estivemos em Vila de Coqueiros para conhecê-la e a sua oficina de cerâmica, onde sempre há um discípulo a modelar o barro. Dona Cadu, uma espécie de embaixadora da vila, a quem todos tomam a bênção, recebeu-nos para conversar e narrar suas histórias de procedência. No meio da conversa, para nossa surpresa, contou-nos, orgulhosa, que estaria em Saubara no dia seguinte para dançar junto a outras grandes sambadeiras. Não perdemos a chance de vê-la e, por sua grandeza, esse universo entrou na vida do artista Tagliari para não mais sair. “Dona Cadu”, a canção interpretada no single por Zeferina (no spotify, https://open.spotify.com/track/7hEuWKFDUWWl7j7UqQwh2B?si=uL2FUl0MRlWQoa1Lb60KgA), é a pura celebração que o músico faz à vida e à arte de uma baiana emérita.

Sambar pra ser feliz

A pandemia não acabou, pois é

As pessoas não pararam de morrer de covid.
Mas pouca gente se liga nisso.
Eu tenho sempre de repetir: meu amigo, a pandemia não acabou!
Porque só ouço som de festa o tempo todo, só vejo gente amontoada sem máscara no caminho pro mercado.
Enquanto isso, muitas das minhas queridas pessoas, isoladas e vacinadas, contaminam-se de novo.
Entre essas, grandes, enormes pessoas com quem eu aprendia todos os dias, vão-se como pó.
Eu não sei mais o que pensar e, privilegiada do jeito que sou, não tenho pra onde ir.
Fico com aquele choro no olho que não rola pelas bochechas.
Eu sou contida, sou durona pra viver, mas isso tudo…
Ainda bem que ontem saí e bebi vinho num lugar aberto.
Ri!
Fazia muito tempo que não ria ao ar livre.
Ganhei um pouquinho de força, e ainda bem.
Porque hoje tudo recomeçou daquele jeito.
Porque ainda não tiramos esse assassino e seus ministros genocidas daquele ponto onde estão.
Porque estamos sozinhos nessa ilha de alucinados, olhando pelo buraco os fantasmas de pé.