Uma vez o Renato Pompeu, jornalista e escritor brilhante, me disse isto que vou contar agora pra vocês.
Ele não falava mal de livro ruim.
Isto porque sentia o peso da responsabilidade.
E se sua crítica fosse no futuro a última na Terra sobre um objeto extinto, o livro, justamente?
A resenha deveria então servir para mais do que simplesmente classificar uma obra no presente como boa ou ruim.
O texto deveria evocar a literatura, para que os leitores a reconstruíssem no futuro, por meio de novos livros.
Bonito, não?
Ontem tive de escrever sobre um filme que não julguei de todo bom.
E o pensamento do meu amigo retornou.
Mas e se meu texto fosse o último no futuro a restar sobre o cinema, este que teria se perdido?
Então minha responsabilidade cresceria.
Não que o filme que eu resenhasse fosse ruim.
Mas tinha um problema (a meu ver).
Embora ainda evocasse lindamente o cinema!
Este que no presente dá a impressão de se perder…
Então lutei pra aplicar ao cinema o princípio do Renato em relação à literatura.
Nem todo filme é cinema, como nem todo livro, literatura.
Porém, cinema e literatura precisam continuar a existir.
A se refazer.
Espero que minha crítica tenha dito isto.
Hoje e no futuro, se algum futuro houver…
Mais importante que tudo isto, como sou feliz por ter usufruído da amizade com o Renatão!
Uma riqueza amorosa de pensamento, como muitos livros não conseguem conter.
A polêmica é o cinema

de Bernardo Bertolucci,
no Belas Artes à la Carte
Mais uma de minhas resenhas para a página Histórias de Cinema. Em “Assédio”, de 1988, a cultura europeia de Bernardo Bertolucci ganha mais uma batalha
É cinema. Do primeiro ao vigésimo minuto, ninguém fala. Estamos na África armada. Pelas paredes, o desenho da luta política. Um homem canta na rua, como se gritasse um saber. Na escola, o professor sorri ao evocar a diferença, descrita em gestos, entre um líder e um chefe. No mais, é um cerco. A mulher do professor sofre a perseguição nas linhas e entrelinhas de seu corpo. Seu povoado não tem chance, exceto a de submeter-se.
Cinema. Dizer sem dialogar. Gestualizar o infortúnio. Tornar o movimento incessante. Depois da África, Roma. A mulher do professor (Thandie Newton) estuda medicina enquanto trabalha como doméstica para um pianista (David Thewlis). Ele a persegue porque diz amá-la. De resto, não sabemos mais do professor africano. O personagem é uma evocação, preso enquanto a mulher ora triunfa, ora se atormenta em terra distante. O título no original inglês está correto, pois se trata de cerco para captura, transcorrida por meio de duelos musicais. Ela rejeita o patrão porque não entende sua música. Mas um dia irá vivenciá-la.
Cinema, por certo. Mas é um bom filme? Aqui, duas culturas abraçam um coração feminino. E o que salta à vista é o esforço heróico do homem branco para adentrá-lo. Bertolucci gosta de heróis. Trabalhou com Pasolini e idealizou um cinemão neorrealista exacerbado, a ponto de conduzir o estupro num filme, de modo a se beneficiar dessa intensidade. Em ASSÉDIO, a cultura europeia ganha uma importante batalha. Você consegue aceitar esta premissa? Então se trata de um bom filme e cinema dos bons.
ASSÉDIO
Diretor: Bernardo Bertolucci
Itália/Inglaterra, 1998, 93 min
Onde ver
https://bit.ly/31fcvyv
Dance with me
Esta noite sonhei que Umberto Eco vinha dar entrevista a uns jornalistas num saguão.
Por acaso eu entrava no lugar e o Eco me acenava, como se me reconhecesse.
Eu decidia ficar ali, mesmo sem ter sido convidada.
E logo lhe dizia que admirava seu bom humor.
Ele começava a rir sem parar, sacudindo-se, feliz pelo que considerava meu acerto – o de notar seu bom humor.
Seu corpo era um corpanzil vestido com um terno branco de ombreiras, parecendo quadrado.
Estava tudo beleza, mas eu tinha muito a fazer e precisava ir embora.
Dizia-lhe tchau à distância.
Antes de passar pela porta, me alertavam que eu deveria recolher uns presentes para minha família pobre.
Eu recolhia e isto não tinha fim.
Eco então me dizia: “Deixa dessa história! Vem dançar comigo!”
Sorria, sacolejava.
E eu apesar disso sabia dançar junto dele, embora em minha vida verdadeira jamais soubesse.
Ficava surpresa comigo mesma.
Alegre.
Acabava a música, eu saía do lugar da entrevista, mas ao adentrar a rua logo percebia que esquecera a máscara.
E que ninguém ao meu redor usava nenhuma.
Pegava minha malha e punha em volta do rosto, como improviso.
Todos os outros pela calçada não davam a mínima.
Quando acordei, era como se ainda ouvisse a música do sonho, indefinida.
A cinemateca, sozinha nesta noite
não paro de pensar que a esta hora a cinemateca está solitária à espera de que a milícia bolsomínica a depaupere numa noite de facas, fogo ou cristais.
há não somente filmes brasileiros de todos os tempos ali. há raridades de todo o cinema mundial, desde as silenciosas.
uma biblioteca riquíssima, que, pequeno detalhe pessoal, contém dois livros que escrevi.
como vai ser?
vão transformar aquele maravilhoso prédio no matadouro que era antes?
Menos que porcos
O 31º Curta Kinoforum exibe três pérolas do cinema brasileiro no alvorecer dos anos 1990

É usual que o tempo vença os filmes, porque nem todos foram feitos para durar. Mas aqueles capazes de retratar uma era, nem tanto pela linguagem inovadora, são os invencíveis. Três curtas-metragens, VIVER A VIDA (de Tata Amaral, 1991), CARTÃO VERMELHO (de Lais Bodanzky, 1994) e ILHA DAS FLORES (Jorge Furtado, 1989), revelam um estranho país.
Não, o Brasil não era melhor no alvorecer dos anos 1990. Ainda permanecíamos sequestrados pela ausência mediadora da justiça, da igualdade social, do respeito à diversidade. E debochávamos sob risco. Vestir um tênis novo, por exemplo, chamava a morte.

Tata Amaral mostra o office-boy negro bem calçado que, ao fazer render malandramente o dinheiro do transporte, é driblado na cara do gol. Não importa que Kid Vinil exaltasse a dureza do ofício num hit, nem que o jovem periférico pulasse os obstáculos com humor. O desejo de consumir e sobressair-se, que horizontalizou a sociedade, não era só seu.

A menina futebolista entre os meninos, de Lais Bodanzky, parece ainda mais perturbadora. Desde a infância, uma mulher suspeita não poder cobiçar o jogo dos homens. O que resta a esta personagem, senão viver um gosto sob inadequação?
O filme de Jorge Furtado é o mais conhecido entre os três, talvez por não psicologizar nada, por não ter outra intenção exceto documentar, por meio de um sarcástico conto cumulativo, a miséria legada aos habitantes de Ilha das Flores. Estávamos abaixo de porcos? Sim, e isto era coisa demais.
VIVER A VIDA
Diretora: Tata Amaral
Brasil, 1991, 12 min
CARTÃO VERMELHO
Diretora: Lais Bodanzky
Brasil, 1994, 14 min
ILHA DAS FLORES
Diretor: Jorge Furtado
Brasil, 1989, 13 min
Onde ver:
https://bit.ly/2XAfZt7
Feitio de oração
Mostra de cinema egípcio traz esta narrativa poética sobre o luto, de 2014

A palavra é imprescindível ao cinema. Ela estrutura o drama. Mas um filme não precisa necessariamente de narradores ou diálogos. A ausência da palavra na tela obriga ainda mais à criação de imagens para expressar um sentimento. Se você quer demonstrar que um personagem está distraído de tristeza, pode colocá-lo sentado na polia de um trem antigo, como fez Buster Keaton, e fazê-lo cabisbaixo enquanto o veículo se move. O cinema, por ser mudo, não dispensa o drama, porque cinema é arte dramática em primeiro lugar.
Contudo, pode também ser arte dramática poética, como esta de Karim Hanafy, O PORTÃO DE PARTIDA (2014). É um filme sem diálogos sobre o luto. Sobre a ausência materna incessante. Sem sua mãe, o pretenso narrador perde-se de si mesmo e se funde nela. Intensificado por um silêncio verbal com música, o filme parece existir para que saibamos como se ligam os seres interiormente. E como a existência é um exercício coletivo da memória onírica.
A mãe embarca atravessada pela luz da janela, paramentada pelos vestígios do passado, as pérolas e o vestido de casamento. O filme evoca a história e o tempo por meio de caminhos e portais. E há também o cemitério, aquele vizinho constrangido da morte. As atuações são pungentes, marcadas por vezes pela câmera lenta. A fotografia ensolarada oscila entre o preto e branco e a cor. É um filme, como poderia ser uma oração.
O PORTÃO DE PARTIDA
Diretor: Karim Hanafy
EGITO, 2014, 65 min
Comigo sempre
estava comentando com uma amiga:
cancelamento é o que mais aprontam comigo.
porque sou jornalista, historiadora e sou mulher.
e vivo neste amado brasil onde minha condição de ser pensante é um atrevimento.
e, pior que muita gente, não tenho influência empresarial, nem dinheiro, nem nada que me defenda.
mas é preciso pensar uma coisa.
não existe cancelamento pra sempre.
existe debate.
existe o que se é.
e basta esperar.
embora a espera seja difícil, eu a espero sonhando, conforme aconselhou o jorge.
e tudo um dia se resolve, porque a verdade é como a força de uma serpente…
de duas cabeças.
Febeapá com Bey
Não sei se vocês leram o artigo de retratação de Lilia Schwarcz. Não o reproduzo aqui, mas, segundo ela diz ali, escreveu de maneira errônea e irrefletida sobre o pretensamente inadequado luxo hollywoodiano em Beyoncé, razão pela qual se desculpa.
Acontece que li e reli as linhas de Schwarcz e mal pude constatar a ausência de admissão real de um erro. Quem errou, ela diz, e isto parece explícito no artigo, foi o redator que aplicou título e linha fina ao que ela escreveu. Quem errou, ela diz, foi a Folha ao exigir de uma pesquisadora de seu porte um texto tão rápido sobre questão primária. E o erro dela foi sua submissão.
Porque Lilia não é de errar. Porque errando, isto é, achando que saberia escrever sobre um assunto aparentemente banal como este sozinha, sem ouvir seus pares e o movimento negro, estrepou-se. E precisou se desculpar de algum modo com as comunidades que dão sustentação a seu trabalho de historiadora.
Sei bem como são intrínsecas e entrelaçadas as relações dos Schwarcz com a Folha. Interdependência, interligação, nem sei que nome dar aos telefonemas da editora de seu marido para garantir aos jornalistas da casa exclusividade em entrevistas e leituras antecipadas de cópias de livros.
Toda a vida da Cia das Letras está tão estritamente ligada à da Folha que é difícil que eu imagine, apontada sobre a cabeça acadêmica de Lilia, uma arma qualquer empunhada pela ralé jornalística.
Até fantasio que uma bela noite num desses jantares com a direção do jornal ela tenha se animado a lamentar o luxo consumista de Beyoncé e algum presente, no momento de montar a pauta, apenas pediu que a historiadora transcrevesse seu pensamento tão informalmente bem expresso antes.
Alegar irreflexão é um pouco melancólico da parte de Lilia, que vive de refletir, e nos últimos tempos o tem feito de peito aberto, de modo a nos alertar sobre a perda gradual de nossas liberdades sob este regime de milícias. Mas – fico com isto – pelo menos ela provou uma retratação. Ninguém suporta tanto febeapá cotidiano, ademais partido de uma de nossas mais festejadas intelectuais.
Enredar-se
Em 29 de julho de 2017
Sei lá onde isto me coloca.
Ao lado de quem.
Mas a palavra empoderamento me entristece.
Não somente por tornar um equívoco de tradução eternamente visível, esforço canhestro (na melhor hipótese, risonho) de verter ao português uma palavra inglesa.
Sonoramente, este vocábulo, que parece represar todo o vigor, me traz à visão o emparedamento de um cárcere.
O pó de arroz empedrado nos estojos de metal que jamais abrem e nos quais vigora a ferrugem…
Sou muito mais o enredamento de gênero que seu empoeirado poder.
O sonho de Orin
“A Balada de Narayama”, rodado em 1983 por Shohei Imamura, e que
permanece em streaming no Belas Artes À La Carte, devolve-nos os segredos entre a imanência e a transcendência numa vila esquecida do Japão

É como se A Balada de Narayama (1983) fosse a caricatura de um paraíso neoliberal. Numa vila onde impera a escassez, todo ser humano, ao completar 70 anos, deve subir a montanha e morrer no topo, em prol da sobrevivência de todos.
Contudo, com este mote, o que o diretor Shohei Imamura discute mesmo é a distância entre o céu e a terra, entre o efêmero, imanente, e o que constitui a transcendência, o eterno.
A matriarca Orin (Sumiko Sakamoto) quer a morte logo. Ela crê que um deus a receberá em Narayama, seu céu. Neste primeiro longa japonês a ganhar Cannes, e nos outros filmes deste diretor, a mulher encarna a força primordial. Ela é a terra.
Orin precisa resolver o futuro dos filhos antes de partir. Eles têm aspirações como casar, fazer sexo e comer, que ela precisa encaminhar. Suas necessidades terrenas não diferem tanto daquelas dos animais.
Os homens entoam melodias da tradição local durante o trabalho enquanto serpentes, corujas ou mariposas surgem de modo a alertá-los para a intensidade de viver, para algo profundo (talvez inconsciente) dentro deles.
O efêmero é muito bem descrito neste clássico cinematográfico. Imamura orienta à ferocidade atores excepcionais como Ken Ogata, que percorre paisagens de azul constante.
Mas e a transcendência?
É a fotografia, extraordinária e transformadora, que parece indicá-la por todo o filme. A montanha está sempre ali, imponente à distância, porém chapada como em um cartão postal. O transcendente é, portanto, uma ilusão fotográfica. Mas, ainda assim, uma imagem poderosa, a alimentar o sonho de eternidade de Orin.
(abaixo, veja a impressionante diversidade de pôsteres para anunciar este filme)