Garoto, Gaza, Arendt

Ontem vi o documentário sobre Garoto no in-Edit. Não é perfeito, nada é, mas, ainda assim, imprescindível. Tendo Garoto, somos grandes, somos Brasil. Você pode assistir até o dia 20.

Ontem também vi a live sobre Hannah Arendt dentro de um ciclo de palestras do grupo Arendt Brasil. Todo fim de semana há uma abordagem nova pra sua história. Semana que vem, sua amizade com Walter Benjamin.

Gostaria que o documentário “Gaza”, exibido na mostra árabe encerrada ontem, pudesse chegar a nosso circuito comercial. Ele dá a medida do pavor e da esperança profundos de 2 milhões de pessoas espremidas em uma faixa palestina de 40 km de extensão e 11km de largura, impossibilitadas de alcançar qualquer fronteira, com Egito e Israel, e então sair dali para uma vida melhor. Nem pescar podem numa faixa além de 4,8 km da praia ao oceano… Não têm luz frequente, nem água, comida… “Uma prisão a céu aberto”, diz um salva-vidas. Mas eles ainda pescam, dormem na areia e sonham além-mar. Chorei como poucas vezes.

Samba na filosofia

Documentário mostra a história de Porfírio do Amaral, um sambista negro quase desconhecido (como muitos ainda devem ser), mas um prosador-pensador como poucos no Recôncavo puderam testemunhar

Porfírio do Amaral aos 55 anos, em 1971, durante a realização
do programa da TV Cultura que jamais foi ao ar

O pai queria lhe dar um nome que remetesse à realeza. Decidiu chamá-lo Porfírio, aquele que vinha revestido de púrpura, a cor das roupas do rei. Por estar certo de que seu filho triunfaria, não ligou quando uma cigana sentenciou à mãe, diante da criança ainda pequena: “Nunca deixe esse menino cantar. A morte acompanha a sorte dele”. O pai era um poeta racional numa Bahia mística. Mas, a partir daí e por toda a vida, Porfírio do Amaral se sentiu nervoso para colocar a voz. Diretor na TV Cultura de São Paulo, Fernando Faro chamou-o para um piloto de seu programa sobre música brasileira e nunca pôde exibi-lo, porque Porfirio, o compositor, não conseguia cantar as próprias canções, sempre nascidas do sofrimento. Ele falava como um filósofo, na verdade um rei da filosofia, mas, quando se abria ao canto, surgia a gagueira das emoções. Ou do medo.

A neta Letícia, que estuda cinema no Recôncavo e trabalha sobre a memória do avô Chô

O cineasta Caio Rubens descobriu a gravação de 1971 e a incluiu neste documentário, que só por isso já valeria o vislumbre. Porfirio fala dramaticamente as coisas mais lindas e duras, sem receio, por exemplo, de chamar de golpe o que a televisão da época intitulou revolução. Com paciência para os testemunhos, mesmo para aqueles que não dirão diretamente de Porfirio, como o de Elza Soares, o diretor amplia o contexto do samba e do Recôncavo. Muita gente depõe, de Roberto Mendes, Carlinhos Brown, Nelson Sargento, Mateus Aleluia e Chico Buarque ao ator Antonio Pitanga (um elo entre Porfirio, então porteiro da TV Cultura, e Faro) e à neta Letícia, que gravou em VHS a intimidade com o avô Chô, do apelido Choriça que lhe deram por ser magrinho.

Porfírio e suas netas, em imagem captada em VHS por Letícia
Uma interpretação em VHS para a rotina do compositor e percussionista

O personagem se delineia aos poucos, enquanto Margareth Menezes, Gloria Bonfim e outros intérpretes apresentam suas canções. Apesar de não constar no google, nem mesmo no Dicionário Ricardo Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Porfirio existiu entre 1917 e 2008, e existe cada vez mais. Compositor de melodia triste para prosa alegre e de melodia alegre para prosa triste, foi precursor de pagodes e sambalanços, homem da cuíca que chorava lancinante, das chulas e cantos de senzala que pressupõem a aglomeração e a comunhão. Samba não é um gênero, dizia. Há muitos sambas que são gêneros por si. E ele não foi só um sambista, mas um homem que nasceu para refletir.

Com Fernando Faro, que acompanhou sua carreira
  • PORFÍRIO DO AMARAL: A VERDADE SOBRE O SAMBA
    Diretor: Caio Rubens
    Brasil, 2019, 83 min
     
    onde: bit.ly/2Zy4LGJ [até 20/9]
     

Um amor em cada porto

O filme “Martin Eden” transpõe para a Itália heroicamente desiludida a obra de Jack London sobre o engajamento das palavras

Luca Marinelli é Martin Eden, entre ferozes utopias

Metade deste Martin Eden (2019) é só o Jack London que amo e seus Estados Unidos da América, aqueles onde o escritor viveu, entre 1876 e 1916. A outra metade é a Itália idealizada, amada igualmente, onde este filme foi escrito a partir do livro homônimo e em parte autobiográfico de London, máxima ficção sobre a honra perdida do jornalismo, minha profissão e meu descontentamento.

Então é muito o que peço a este filme desde seu início, que faça jus ao que espero, na verdade anseio, aquilo por que luto e pelo que vivi por tantos anos, desde a adolescência tardia embebida pelos textos mágicos do escritor, alguns deles que também ousei traduzir (no volume 11 da coleção Para Gostar de Ler, 5 reais na Estante Virtual).

Jack London, no reino dos fortes

Martin Eden, por favor, não é apenas a história amorosa e aventureira de um marinheiro alçado ao fervor das palavras, estas que já sentia suas mesmo antes de deparar com o insólito universo liberal dos letrados. É antes um filme-estudo sobre a promissora ascensão socialista, que logo cederia lugar à Primeira Guerra, fagulha a acelerar a mais nova, infame e persistente ameaça à igualdade, o fascismo.

Jack London acolhia as ideias de Spencer, bem explicitadas neste filme, e traduzidas pelo escritor numa espécie de socialismo utópico que deveria ser conduzido por indivíduos fortes como ele próprio. Este indivíduo político que London lutou pra ser durante seus intensos 40 anos de vida e uma literatura tomada pela paixão que contamina, rasga e exaspera os sonhos, acabou um dia, adivinhe, a se diluir na autoimagem condescendente estadunidense, aquela segundo a qual a todos em sociedade se dá a oportunidade de tornar-se o que bem projetar. De pensador temperamental em prol da justiça social, Jack London, melhor dizendo, sua aura pública, foi então aos poucos associada a uma imaginária essência voluntariosa e benéfica do capital competidor.

Em que pese o fascismo

Minha alegria diante deste filme nasceu primeiramente disto, de ele não se deixar cooptar por nenhum capitalismo. Não reconstrói Martin Eden para o bom palato estadunidense. O homem foi e será para sempre muito difícil de engolir, nos diz. Bruto, verdadeiro. Antiliberal. Para dar conta de seu protagonista, o diretor e roteirista do filme (junto a Maurizio Braucci), Pietro Marcello, chamou o forte ator Luca Marinelli, de longo nariz e olhos azuis. Ele é Martin porque é o Éden também. Um ator para fortalezas e nuances.

Com Elena (Jessica Cressy), sonho azul
Com Margherita (Denise Sardisco), um vermelho furor

Ele briga, ama, peleja na siderurgia, envia mais e mais originais às redações, sempre rejeitados, quer bem à irmã como London também quis, para só depois de muita humilhação e acolhimento proletário se tornar um profissional sem qualquer escusa, sem jamais aceitar o posto no escritório que lhe apontava sua noiva rica, ilustrada e delicada para palavrões.

A imensidão que engendra a revolução

O filme perturba os tempos. A indefinição de onde nos encontramos, dentro dele, é uma de suas porções adoráveis. Quando proletário, Martin Eden é também o mundo dos pobres italianos desde as greves piemontesas até aquele dos anos 1970 em que a televisão se infiltra aos poucos como adorno principal unificador. Quando se mete entre os ricos, o filme penetra facilmente no século 19 onde esta história começa, com seus salões vastos e sua preciosa decoração imperial. Você nunca perceberá exatamente em que ano estará, exceto quando descobrir que é este o jogo do filme, desenraizá-lo até que atinja a realidade dolorosamente imutável de nossos próprios tempos de desilusões.

Nápoles para marinheiros

Ambientado em Nápoles, que espertamente substitui a fria Oakland do livro, Martin Eden fala principalmente sobre a fúria heróica que acometeu o italiano no pós-Segunda Guerra. Um heroísmo fatalmente sucedido pela vilania pequeno-burguesa (bem pequena) do boom econômico, segundo a forma cinematográfica paciente com que Mario Monicelli a descreveu. É isto mesmo o que parece. Por vezes o belo ator Marinelli adentra o terreno abraçado por Alberto Sordi na dura commedia all’italiana… Estará ele a reviver o jornalismo idealista e o ardor militante fulminados pela paixão impassível de Uma Vida Difícil, de Dino Risi? Toda a parte final do filme é um grito do grotesco que acomete os bem-sucedidos, todo o épico do horror cômico em que os sonhos findam…

O mar que marca

E isto tudo com tamanha textura nas imagens, uma granulação a evocar os impressionistas, o azul sobressaído, os homens a se movimentar na multidão!

Que filme surpreendentemente atual com que gastar suas horas tristes.

MARTIN EDEN
Diretor: Pietro Marcello
Itália, 2019, 129 min

No país dos fantasmas

Em “O Dia em que Perdi Minha Sombra”, vencedor há dois anos do Leão de Ouro do Futuro no festival de Veneza, a saga das mulheres sírias que não podem desistir

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“O dia em que perdi minha sombra”, de Soudade Kaadan, na Mostra Mundo Árabe de Cinema

Este filme cava sepulturas. Este filme e suas mulheres. Elas são o solo onde repousam os guerreiros ao fim de todas as batalhas, até a final. Ao mesmo tempo, numa abordagem que evoca o sonho, representam o país naquela invisível porção que respira.
Soudade Kaadan, diretora síria nascida na França, estudou cinema no Líbano e por este O DIA EM QUE PERDI MINHA SOMBRA, de 2018, primeiro concorrente da Síria em Veneza, ganhou o Leão de Ouro do Futuro para estreantes. Uma estreia sobre as ruínas que começaram a ameaçar seu país em 2012 e que agora talvez o tenham destruído.
[No dia 3 de setembro, ela é entrevistada online, e você pode assistir ao bate-papo com tradução após sua inscrição no Zoom]
Ação todo o tempo, sob o frio, sob o sol, câmera na mão, a mata de galhos secos sacudidos pelo vento, os carros que emperram… Poderia ser um felino por ali, mas é a jovem interpretada por Sawsan Arshid, uma farmacêutica a lidar com as usuais dificuldades numa zona de guerra (bombardeios, delações, falta de luz, de água e de gás), mãe de um menino de 6 anos, abandonada pelo marido. Ela só precisa de um botijão para cozinhar, mas à procura do valioso produto se mete numa peleja com um casal de irmãos, um deles esvaído da própria sombra.
É uma metáfora poderosa. Todo ser humano em íntimo contato com a morte já morreu um pouco. E, sem que sua imagem se reflita, transforma-se num anjo a proteger quem caminha a seu lado. É como se a jovem tentasse repetir a perplexidade e a força de uma Anna Magnani em ROMA, CIDADE ABERTA, mas se visse imersa num mágico neorrealismo à moda do Vittorio de Sica de MILAGRE EM MILÃO. O futuro é uma construção no país dos fantasmas.
O DIA EM QUE PERDI MINHA SOMBRA
Diretora: Soudade Kaadan
Síria/França/ Líbano/ Qatar, 2018, 90 min
Onde: bit.ly/3gL0vtc [até 6/9]

John Huston, por que o senhor faz filmes?

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John Huston no set de Moby Dick, por Norman Parkinson

Da série Maravilhas no YouTube.
O diretor John Huston é perguntado aqui sobre por que faz filmes.
Bem, ele diz, faz filmes porque é fascinado pelo meio em si.
Para ele, o cinema descreve melhor o processo do pensamento do que os livros.
E olha que Huston foi um excepcional leitor.
Ele diz também que não procura passar qualquer mensagem em seus filmes (não, segundo saiba, conscientemente).
John Huston dirige filmes que de alguma forma lhe interessem, esperando que haja, no público, alguém como ele, ou que ele seja igual a seu público.

Ninguém derruba a história

“Fantasmas em Roma”, clássico de Antonio Pietrangeli, ronda o YouTube em versão original

As assombrações se divertem, capitaneadas por Mastroianni

“Fantasmas em Roma” é um filme divertido, crítico e bonito de Antonio Pietrangeli (como, de resto, todos os que ele fez), além disso bem-sucedido nos cinemas paulistanos à época de seu lançamento, em 1961, quando todo o bom cinema merecia um circuito comercial na cidade. Redescubro-o no YouTube em sua versão original sem legendas (“Fantasmi a Roma”), com música de Nino Rota.

O diretor Antonio Pietrangeli

Pietrangeli começou como roteirista e auxiliar de direção de Luchino Visconti em “Ossessione”, versão italiana de 1943 para o clássico noir de James M. Cain. Este romano escreveu para muitos outros máximos diretores de seu país, como Pietro Germi (Gioventù Perduta, 1948) ou Roberto Rossellini (Dov’è lá Libertà, de 1954, com Totò). E foi crítico dos bons.

Morreu de maneira trágica, como tragicômica era a maioria de suas histórias, à moda da mais famosa, “Io la conoscevo bene”, de 1965, na qual Stefania Sandrelli vive uma jovem impedida de realização social pelo preconceito que então rondava a mulher. Pietrangeli morreu afogado quatro anos depois de realizar este clássico, enquanto filmava a sequência final de “História de um Adultério”. Aos 49 anos, caiu de um penhasco onde se colocara para orientar seus atores.

Duas almas contra um especulador

Este “Fantasmas em Roma”, excelente representante da aguda commedia all’italiana, escrito por ele, Ettore Scola, Ruggero Maccari, Ennio Flaiano e Sergio Amidei, heróis do roteiro cômico em duas gerações, é atípico de uma carreira dedicada a compreender a complexidade feminina. Mas, sempre um ácido crítico do consumismo especulador, Pietrangeli mostra aqui a farsa embutida na tentativa de derrubar a história (personalizada por um velho casarão) para nela construir um supermercado.

E o papagaio do príncipe não recitava Lampedusa…

No palazzo em que se passa a trama, mora um príncipe decadente (o grande ator e dramaturgo napolitano Eduardo De Filippo), que fala sem sucesso com seu papagaio morto, incapaz de declamar Lampedusa, como haviam lhe prometido. Don Annibale di Roviano vive entre os fantasmas de sua família, embora não possa vê-los, nem saber que eles o protegem. Os Roviani são a ruína (“rovina” em italiano) que persiste com seu respaldo. O fato de ser um príncipe que não trabalha ainda lhe dá uma posição em sociedade.

Marcello Mastroianni interpreta Reginaldo di Roviano, o fantasma de uma espécie de Casanova, e mais dois outros papéis – o de um de seus tortos descendentes e o de um terceiro debiloide que ele não suspeitava pertencer a sua linhagem. Vittorio Gassman é o fantasma irascível de Caparra, pintor rival de Caravaggio, chamado pelos outros na batalha contra os novos ocupantes.

Vittorio Gassman é o pintor
diante de uma Sandra Milo que se
suicidou por amor

À parte a vistosa aparição de Valentina Cortese, vivente enlouquecida pela traição do marido, a esmolar nos restaurantes sob o apelido de Rainha, uma doce Sandra Milo representa o fantasma de jovem que se suicidou de paixão. Um menino (Claudio Catania), irmão mais velho de Don Annibale, morto criança, ronda rindo os espaços do casarão, da escola (onde ajuda uma protegida) e da rua, para onde Sandra Milo vai todas as noites atirar-se novamente ao rio. Enquanto isto, o Frei Bartolomeu (Tino Buazzelli), morto pela boca, que ardia por um polpettone, ainda fareja o melhor prato de comida entre os vivos.

Com eles ninguém pode

Estas assombrações são molecas, felizes, vestem as roupas prateadas das estrelas invisíveis, riem-se, enfurecem-se, erram os costumes. (Mastroianni se interessa por uma cantora que descobre ser um cantor…) Mas que ninguém ouse ocupar o retiro dos fantasmas. Se depender dos Rovianni, não vai ser desta vez que a história será destruída por uns maços de dinheiro da velha corrupção.

Um pensamento amoroso

Uma vez o Renato Pompeu, jornalista e escritor brilhante, me disse isto que vou contar agora pra vocês.
Ele não falava mal de livro ruim.
Isto porque sentia o peso da responsabilidade.
E se sua crítica fosse no futuro a última na Terra sobre um objeto extinto, o livro, justamente?
A resenha deveria então servir para mais do que simplesmente classificar uma obra no presente como boa ou ruim.
O texto deveria evocar a literatura, para que os leitores a reconstruíssem no futuro, por meio de novos livros.
Bonito, não?
Ontem tive de escrever sobre um filme que não julguei de todo bom.
E o pensamento do meu amigo retornou.
Mas e se meu texto fosse o último no futuro a restar sobre o cinema, este que teria se perdido?
Então minha responsabilidade cresceria.
Não que o filme que eu resenhasse fosse ruim.
Mas tinha um problema (a meu ver).
Embora ainda evocasse lindamente o cinema!
Este que no presente dá a impressão de se perder…
Então lutei pra aplicar ao cinema o princípio do Renato em relação à literatura.
Nem todo filme é cinema, como nem todo livro, literatura.
Porém, cinema e literatura precisam continuar a existir.
A se refazer.
Espero que minha crítica tenha dito isto.
Hoje e no futuro, se algum futuro houver…
Mais importante que tudo isto, como sou feliz por ter usufruído da amizade com o Renatão!
Uma riqueza amorosa de pensamento, como muitos livros não conseguem conter.

A polêmica é o cinema

Thandie Newton em “Assédio”,
de Bernardo Bertolucci,
no Belas Artes à la Carte

Mais uma de minhas resenhas para a página Histórias de Cinema. Em “Assédio”, de 1988, a cultura europeia de Bernardo Bertolucci ganha mais uma batalha

É cinema. Do primeiro ao vigésimo minuto, ninguém fala. Estamos na África armada. Pelas paredes, o desenho da luta política. Um homem canta na rua, como se gritasse um saber. Na escola, o professor sorri ao evocar a diferença, descrita em gestos, entre um líder e um chefe. No mais, é um cerco. A mulher do professor sofre a perseguição nas linhas e entrelinhas de seu corpo. Seu povoado não tem chance, exceto a de submeter-se.

Cinema. Dizer sem dialogar. Gestualizar o infortúnio. Tornar o movimento incessante. Depois da África, Roma. A mulher do professor (Thandie Newton) estuda medicina enquanto trabalha como doméstica para um pianista (David Thewlis). Ele a persegue porque diz amá-la. De resto, não sabemos mais do professor africano. O personagem é uma evocação, preso enquanto a mulher ora triunfa, ora se atormenta em terra distante. O título no original inglês está correto, pois se trata de cerco para captura, transcorrida por meio de duelos musicais. Ela rejeita o patrão porque não entende sua música. Mas um dia irá vivenciá-la.

Cinema, por certo. Mas é um bom filme? Aqui, duas culturas abraçam um coração feminino. E o que salta à vista é o esforço heróico do homem branco para adentrá-lo. Bertolucci gosta de heróis. Trabalhou com Pasolini e idealizou um cinemão neorrealista exacerbado, a ponto de conduzir o estupro num filme, de modo a se beneficiar dessa intensidade. Em ASSÉDIO, a cultura europeia ganha uma importante batalha. Você consegue aceitar esta premissa? Então se trata de um bom filme e cinema dos bons.

ASSÉDIO
Diretor: Bernardo Bertolucci
Itália/Inglaterra, 1998, 93 min

Onde ver
https://bit.ly/31fcvyv

A cinemateca, sozinha nesta noite

não paro de pensar que a esta hora a cinemateca está solitária à espera de que a milícia bolsomínica a depaupere numa noite de facas, fogo ou cristais.

há não somente filmes brasileiros de todos os tempos ali. há raridades de todo o cinema mundial, desde as silenciosas.

uma biblioteca riquíssima, que, pequeno detalhe pessoal, contém dois livros que escrevi.

como vai ser?

vão transformar aquele maravilhoso prédio no matadouro que era antes?

Menos que porcos

O 31º Curta Kinoforum exibe três pérolas do cinema brasileiro no alvorecer dos anos 1990

“A Ilha das Flores”, de Jorge Furtado

É usual que o tempo vença os filmes, porque nem todos foram feitos para durar. Mas aqueles capazes de retratar uma era, nem tanto pela linguagem inovadora, são os invencíveis. Três curtas-metragens, VIVER A VIDA (de Tata Amaral, 1991), CARTÃO VERMELHO (de Lais Bodanzky, 1994) e ILHA DAS FLORES (Jorge Furtado, 1989), revelam um estranho país.

Não, o Brasil não era melhor no alvorecer dos anos 1990. Ainda permanecíamos sequestrados pela ausência mediadora da justiça, da igualdade social, do respeito à diversidade. E debochávamos sob risco. Vestir um tênis novo, por exemplo, chamava a morte.

“Viver a Vida”, de Tata Amaral

Tata Amaral mostra o office-boy negro bem calçado que, ao fazer render malandramente o dinheiro do transporte, é driblado na cara do gol. Não importa que Kid Vinil exaltasse a dureza do ofício num hit, nem que o jovem periférico pulasse os obstáculos com humor. O desejo de consumir e sobressair-se, que horizontalizou a sociedade, não era só seu.

“Cartão Vermelho”, de Lais Bodanzky

A menina futebolista entre os meninos, de Lais Bodanzky, parece ainda mais perturbadora. Desde a infância, uma mulher suspeita não poder cobiçar o jogo dos homens. O que resta a esta personagem, senão viver um gosto sob inadequação?

O filme de Jorge Furtado é o mais conhecido entre os três, talvez por não psicologizar nada, por não ter outra intenção exceto documentar, por meio de um sarcástico conto cumulativo, a miséria legada aos habitantes de Ilha das Flores. Estávamos abaixo de porcos? Sim, e isto era coisa demais.

VIVER A VIDA
Diretora: Tata Amaral
Brasil, 1991, 12 min

CARTÃO VERMELHO
Diretora: Lais Bodanzky
Brasil, 1994, 14 min

ILHA DAS FLORES
Diretor: Jorge Furtado
Brasil, 1989, 13 min

Onde ver:
https://bit.ly/2XAfZt7