Eu tenho uma ingenuidade muito grande em relação às pessoas. Desde pequena. Frequentemente me confundo, acho que gostam de mim por um motivo, mas é por outro, isto quando não desgostam gentilmente, ou totalmente, e nem me dou conta. Mas a essência dessas pessoas, sua emanação, vibração, energia, creio que percebo de cara, mesmo à distância. E fico me batendo pra não aceitar uma intuição, um desenho que sua presença me faz. Às vezes tenho pesadelos com as traições que sofri, ou sofro, partidas de algumas delas. Pessoas de que ninguém desconfia. Coisas que aconteceram há tanto tempo que eu já deveria ter esquecido. Mas não, nunca. Nem falo tudo isto por uma razão particular. É que às vezes, como agora, no meio de um trabalho que não consigo terminar, um frio me percorre a espinha. E se me enganei? Uma bobagem do tamanho de um alfinete se penso em Bolsonaro e em todas as crianças que ele deixou sem comida, mas uma bobagem, ainda assim, dentro de mim.
sonhei que me mandaram fazer uma matéria no shopping onde uns artistas se apresentavam.
queriam seus perfis.
contudo, eu não identificava artistas entre as figuras com quem cruzava. muitas mulheres falavam alto, para um grande público, mas eu não entendia o que diziam, se eram artistas ou não, e passava adiante.
então comecei a conversar com a moça que engraxava sapatos sorrindo.
tirei fotos dela, acompanhei-a até encontrar seu filho e saí do shopping em dúvida.
A gente luta pra dormir sem livro e não consegue. Então a gente pega um livro de histórias curtas pra ver se o sono embala rápido essa nossa cabeça culpada e doída, na velocidade da historieta.
Toda noite isso.
E nada acontece.
O tempo não existe na literatura. E as imagens são poderosas mesmo se longas ou pequenas. Não adianta usar a literatura pra nada, porque, usada, ela nos rejeita.
Mas isto de ler novelas de Proust na cama na hora de dormir funciona às vezes pra mim, sim. Assim como as novelas e os cachorrinhos nos contos de Tchecov. Bulgakov, que ousei comprar na feira do livro, vai ser interessante absorver no que tem de riso, tristeza e potencial sonífero.
Hoje foi a vez de Conceição Evaristo e seus Olhos d’Água. A passagem do tempo, a profundidade do rio, a cor dos olhos de minha mãe, o espelho que vem a ser nosso inconsciente, a fome, a mulher, quem é a mulher, quem são suas filhas.
Ontem na votação vi pela rua mais gente usando máscara do que nos últimos tempos. Porém, um uso irregular. Parece que em alguns momentos a máscara se torna uma obrigação de estilo, tendência de verão, até pertencimento. Um acessório pendurado pela orelha, como um brinco. Ou fixada no queixo, como barba. Depende de quem a veste – que nem são todos – e algum sinal de personalidade, individual ou de grupo, é expresso.
Tive um colega de redação que reclamava do brasileiro: “Um povo que não sabe nem atravessar a rua”. Desconfio que ainda não saibamos. Mas é isso mesmo, a deseducação, a impaciência, a desesperança, a incredulidade no que é o estudo, o que nos torna esse povo eriçado, à flor da pele, constantemente. Pro mal, como no caso de espelhar-se nos judas da política. Pro bem, quando humoriza no cotidiano, visando à crítica de todos e tudo, tornando-se, assim, um verdadeiro “povo” indivisível, com quem nem mesmo o mal pode contar.
Minha classe de primeiro ano primário no colégio segregado: confesso que aprendi
Tenho o cuidado parecido com o do meu pai em guardar as fotos milenares. Esta é de minha classe do primeiro ano primário. Eu era bolsista de colégio alemão, que nos mantinha distantes dos alunos dos cursos pagos. Distantes mesmo, pois estudávamos à tarde, enquanto eles, de manhã, e não estávamos autorizados a frequentar a lanchonete, exceto excepcionalmente, para assim evitar abrir conversas com os ricos.
“Pobre não tem dinheiro pra comprar lanche”, me dizia a mestra azeda e esquelética. Eis por que sei de racismo e luta de classes desde cedo. Acho até que deveria escrever algo maior, um livreto sobre essa experiência, quem sabe um dia.
Éramos todos, os 41 desta foto, amigos e vizinhos na Bela Vista e nas regiões do centro de São Paulo. O Porto Seguro ficava no que é hoje a praça Roosevelt, antes de se mudar para o Morumbi. Não havíamos conseguido vaga no Caetano de Campos, o melhor colégio público de nossa região, na praça da República (hoje justamente transferido ao prédio do antigo Porto Seguro), e por isso penávamos por lá mesmo.
Dois de meus colegas nesta foto morreram aos 20 e poucos anos, com Aids, no alvorecer brasileiro da epidemia. O restante não sei se vive ou já morreu. Uma das garotas nesta foto concorreu e chegou às finais de um concurso do Chacrinha para eleger a menina mais bonita do Brasil – um concurso no qual, anos mais tarde, a apresentadora Angélica chegou em segundo lugar.
Um menino entre esses, que eu saiba, gostava de mim e eu não dava conta de corresponder a seus sentimentos. Os nerds, os atrapalhados, os tímidos, as almas simples, tenho o orgulho de havê-los atraído a vida toda. Eu fui sempre das mais altas da classe, precisava subir no banco para a foto anual e às vezes isto significava ficar atrás só com os meninos, para meu ser envergonhado, e ainda assim sorrir pro fotógrafo.
Sempre fui desse jeito, sorridente, comprida e desajeitada. Detestava meu pescoço longo, meu cabelo fino. Eu realmente não me apreciava muito. Aqui, alguns dentes permanentes não haviam ainda nascido, e eu já não curtia ser banguela. Não gostei de me ver nesta fotografia até outro dia. Mas que bobagem! Vejam que classe mais linda.
Olho para esta foto e noto que o menino tido por mais belo, até paquerado pelo professor de inglês da quinta série, não era o mais belo. Bonito mesmo era aquele sardento com cabelo cor de fogo que não parava de enrolar a pálpebra para se fazer de monstro e me assustar. Contudo, pelo contrário, ele sempre me matava de rir. Eu lhe ajudava nas lições e ensinava o que podia, sempre ousada para passar cola nas provas.
A amiga ao meu lado também me fazia gargalhar, e eu a ela, uma mulher que hoje virou promotora, mas na época sonhava em ser secretária. Eu só imaginava para mim um futuro onírico. Queria ser noviça voadora, como na série com Sally Field, ou professora, como minha querida dona Monica nesta foto, a única do primário que amei. Mas acabei no jornalismo por desejar ser correspondente de guerra, como me ensinou o Manual do Peninha. O tempo me afastou pouco a pouco, eu diria melancolicamente, de meu sonho.
Três meninas na classe eram zoadas por ser gordinhas, e eu passava meus recreios com elas. Uma envergonhada demais, as outras duas, sempre felizes.
Uma amiga era a filha bastarda de um alemão com a empregada negra. Seus meio-irmãos estudavam de manhã, no colégio pago. Vítima sentida da segregação, ela era sempre brava, e me ensinou um certo orgulho em a gente ser o que é.
Uma outra era filha de austríacos que trabalhavam como zeladores do Instituto Goethe, na rua Augusta, onde hoje está o Espaço Itaú de Cinema. No que atualmente é a sala 4 funcionava o almoxarifado do instituto. Ali, eu e a menina perfeitamente falante do alemão nos servíamos de tintas e papéis de todas as cores para fazer nossos trabalhos. Eu adorava ter de ir até lá para desenhar livremente, pintar e colar. Até hoje penso se ser dona de papelaria seria uma ideia assim tão má.
Indígenas, pretos, italianos, portugueses, éramos brasileiros, principalmente, felizes como as crianças podem ser quando a vida, mesmo imersa na pobreza ou na guerra, lhes permite.
E hoje já não me recordo com intensidade das dores que sentíamos.
por que esse jeito de olhar? olho sem querer. sem disfarçar. meu olho é meu coração. ânimo!, exige-me o patrão supremacista, velho jornalista tido de esquerda, amado por vocês. eu lhe dirijo meus olhos mudos. era difícil viver e alimentar os filhos. e pode ser ainda. hoje talvez olhe menos, mas menos não é raso. menos é fundo. um segundo de coragem contra a covardia da vida.
“Teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno, estricnina, que peixeira de baiano. Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver”.
E ironia das melhores.
A música é tocada alegremente no restaurante aglomerado da minha rua, em pleno setembro amarelo contra o suicídio.
Uma obra do diretor e a recordação de uns pivas de moreiras
Quando um amigo como Wesley Pereira de Castro sugere, não evito. E não havia motivo qualquer pra repúdio, porque amo Larry Clark desde sua fotografia.
O livro “Tulsa”, de 1971, com o balé das seringas, a morte e o enterro da criança ao fim, não me abandona. Que história.
Que difícil é ele por nos perguntar quem somos, e o que fizemos de nós, com a beleza intensa que atrai…
“O Cheiro da Gente”, seu filme de 2014, que meu amigo indicou e eu vi ontem, toca no barroco da gente. Mais uma vez, um filme sobre a juventude.
O chão sujo para as faces dos anjos. O jovem que literalmente tripudia sobre o corpo velho que lhe dá sustento, depois de amarrá-lo a uma teia de dor…
O corpo que se prende em sacrifício à desilusão, aos homens, às garrafas, ao cheiro da rua!
Com um ritmo e um movimento cinematográficos de prender nossas vidas a um instante.
São skatistas e garotos de programa na via bonita da cidade. Como acontece na praça Ramos daqui. Os mesmos volteios das esculturas. E os skatistas desligados dos pedestres.
Um deles, aqui em São Paulo, machucou ainda mais o pé que me atormenta, e eu o perdoei… O que eu fazia lá, atravessando a rua? Por que a julguei minha? Ele segurou meu corpo com um dos braços fortes para impedir a face triste de ir ao chão.
Olhei ao redor me perguntando por onde vagaria o Roberto Piva dos adolescentes rubros… Ou o Carlos Moreira do meu coração nos cinemas que insistiam em existir na Dom José de Barros…
Os meninos de “O Cheiro da Gente” são tanto do que sou. Dos desencontros e do amor. Mas estou viva! Viva, Piva!
Um filme, mas também uma narrativa na sucessão de “Lamentação sobre o Cristo morto”, de Andrea Mantegna, e “Mamma Roma”, de Pasolini.