Meu bom, meu velho

Que noite esta.
Antes de batalhar pelo sono, olho através da janela do quarto na direção das luzes acesas nos apartamentos dos meus vizinhos.
Quem serão eles?
Não os conheço pessoalmente, mas já lhes agradeço por tudo.
Pela liberação de um sentimento tão ruim (mais um) que me ocupou todo o dia. E que de modos diferentes me toma sempre desde 2016.
(Preciso de tanta energia amanhã. Alguém, eu mesma, haveremos de olhar por mim.)
Depois do panelaço, aproveitei o sinal aberto e vi Dunkirk.
Que filme.
Filmão de homens perdidos não em batalha, mas na fuga que a antecedeu.
A frustração, o desejo de voltar ao conhecido, de lutar pela permanência no mundo, de resistir.
Cinema, seu bom e velho.
Se não viram o filme ainda, quem sabe amanhã?
Ou pensando bem…
Não amanhã, com o coração aos pulos, mas talvez depois?

Vamos dormir, john boy

os dias têm sido cheios de surpresas terríveis e notícias ruins.
mas vou tentar ver tudo por outro lado.
até porque hoje achei meus óculos escuros que imaginava perdidos.
e os exames da rotina feminina que me preocupavam foram bem.
principalmente, tenho amigos.
tantos de vocês que resistem com um sorriso mesmo quando conhecedores do que se passa.
obrigada por suas imagens e palavras.
obrigada aos índios que pela enésima vez (porque não poderia ser de outro modo) nos ensinaram como se deve lutar.
só faltava o meu querido ser aceito candidato a prefeito…
mas terei calma.
vamos dormir, john boy.
sonhar é viver.
boas coisas pra vocês.

o capacete da noiva do führer

sonhei com a regina duarte.
(creio que o sonho foi motivado por um story elogioso de parente à figura).
durante o sonho, brigávamos feio, gritos dela contra os meus, cada vez mais altos, porque eu não aceitava que ela usasse fotos de minha família para fazer propaganda de suas ações, como vinha ocorrendo em rede nacional.
enquanto discutíamos, o cabelo da mulher crescia e eriçava, até formar uma espécie de capacete que diminuía sua cabeça.
acordei com os dentes rangendo.
só isso mesmo.

eu rio sim

não sei usar revólveres nem fuzis.

e sou oprimida pelo estado de coisas.

como vou me defender?

se não puder usar o humor como arma, ou como correção para um estado de coisas, à moda do que ensinou aristóteles, do que raciocinou bergson ou do que escreveu pirandello, o que restará de mim?

vou rir, sim, enquanto posso.

vou desmontar risonhamente o cinismo deles, os que me oprimem.

não particularizo minha crítica em micheque, porque nem mesmo isto ela merece de mim.

mas talvez devesse.

desmontando Maria Antonieta (“comam brioches”) nos panfletos satíricos, os oprimidos franceses contribuíram para a revolução.

contudo, não espero revolução nenhuma por aqui.

nem mesmo uma correção.

meu riso é só liberador.

é meu alívio.

por que rio?

porque é sublime.

rio do caos deles.

um dos meus jeitos de enfrentar as coisas.

rio enquanto espero o impossível.

Em 28 de fevereiro de 2018

vivo entre as britadeiras de são paulo.
quando não britam no andar de cima, britam aqui dentro.
para superar esses ruídos, que calam a calma, as pessoas acostumam-se a gritar.
gritam lá embaixo, agora, enquanto tento escrever.
não deve ser assalto desta vez.
minha rua tem muitos sem-teto, às vezes fixados nos bancos do calçadão.
falam consigo, com seus cães e com um ser que somente eles podem ver.
desta vez, a voz potente com aflição (creio que de um negro, rivalizando com os britos cheia de docilidade) agita-se.
grita, aparentemente, com alguém que eu poderia ver.
como se falasse comigo.
“ouve, porra, o que eu digo! ouve!”
ou falasse por mim.

Tudo passa

De 4 de fevereiro de 2017

Agora há pouco, sem guarda-chuva, aguardo o fim do temporal sob o toldo de uma loja fechada, na esquina da Pamplona com a Jaú. Aproxima-se um senhor com guarda-chuva. Uns 88 anos.

– Vai atravessar a rua? – me sorri.

– O farol não abre, estou esperando o verde chegar! – retribuo. (Dizem que risada é contaminação.)

– Quer vir?

– Carona, o senhor diz? – Ele não responde ou o reflexo é lento. Mas aceito, por formosura.

– Então pode pegar! – e me passa o cabo.

– Ah, tá, eu seguro.

– Haha.

– Sempre esqueço meu guarda-chuva em casa.

– Esse é da minha mulher. Ela é doente. Quer uma batatinha?

– Sua mulher?

– Você! Com cervejinha!

– Não, obrigada, tenho compromisso.

– Mas você é bonita, hein?

– Já fui ajeitadinha. Tudo passa.

– Um suco no McDonald’s?

– Não mesmo.

– Antes eu corria atrás de dinheiro, agora o dinheiro corre atrás de mim.

– Que sorte a sua.

– Sou administrador de dois edifícios. O dinheiro cai na conta. Mas, se não cai, a gente manda matar.

– Entendi.

– Você tem marido?

– Violento.

Não internam as pessoas mais?

Águia sem asas

Do nada, no fim da tarde, deparo com Augusto Nunes no supermercado do centro.

Do meu centro.

O homem é uma assombração puída. Seus maxilares estão presos. O olhar sem brilho (pode ser catarata) permanece fixo adiante, em uma prateleira ou refrigerador que não se adivinha, ocupado em farejar um rato, quem sabe.

A águia esfomeada sem asas não cumprimenta ninguém quando entra no supermercado do bairro, nem ninguém nota sua presença.

Só eu pareço sentir um arrepio frio enquanto ela passa por mim.

Terei exagerado?

Chamá-la de assombração é insultar os fantasmas.

Da Venezuela ao passado onde vivo

Morar no centro tem sido minha alegria neste ano que já se vai.

Aliás, ele se vai, mas não desejemos que parta tão já.

Vamos curtir o que resta deste ano, porque como me disse um músico ontem, o Marcos Mauricio, tudo vai piorar no ano que vem.

Então vamos curtir o sol e as árvores…

E antes que você me pergunte: há miséria onde vivo, sim.

Mas a cidade inteira tem sua porção.

São Paulo se enche dela.

Me interessa a luz do centro.

Gosto de me centrar.

Às vezes me parece que, neste lugar onde reside o caos calmo dos meus afetos, volto à infância.

Um comportamento… um jeito de falar que é só daqui e que é pra mim…

E os prédios da Light e do Mappin que ainda estão lá, além de todos os caminhos que levam à Sé, à Liberdade, à Mário de Andrade!

A linda biblioteca para onde, criança, eu ia ler e estudar, já que não tínhamos muitos livros em casa, exceto os maravilhosos de arte de meu pai e duas enciclopédias: a portuguesa Verbo (seis volumes bem fininhos) e a Tecnirama, em fascículos.

Creio que fosse pouca coisa pra minha curiosidade em relação ao mundo, que nessa época me atordoava em demasia.

Sempre morei no meu passado com muito carinho.

Mentalmente.

E agora fisicamente também.

Pois sexta-feira ia naquele caminho bem andado quando o garoto de 15 anos da foto se aproximou de mim em cima de sua bike.

Me perguntou se eu sabia onde vendia brinquedo.

Fiquei meio confusa. Não achei que nada ruim partisse dele. Mas falava portunhol, eu não compreendia bem.

Queria comprar brinquedo, mas não de criança.

Não brinquedo de brincar.

Bonecos, assim.

Disse a ele que havia lojas especializadas nesse setor em duas galerias.

Ele não as conhecia.

Perguntei se queria que eu o levasse até lá, já que estavam próximas de meu destino.

Quis.

Então lhe perguntei de que tipo de bonecos gostava.

“Não são pra mim.”

“São pra sua namorada?”

“Ainda não. Não é minha namorada.” Riu. É só sorrisos.

“Ah, então é pra conquistar…

“Não sei se vou conseguir. Mas já fiz o desenho dela olhando a foto do WhatsApp.”

“Você é desenhista?”

“Sou.”

“Que bacana. Mas, olha, os brinquedos às vezes não são baratos.”

“Meus pais compram pra mim se eu for bem na escola.”

“Em que série você está?”

“Primeira do Ensino Médio.”

“E passou de ano?”

“Ainda não sei” (um riso grande). “Vou ver uma nota na segunda.”

“E de onde você é?”

“Como assim?”

“Onde nasceu?”

“Venezuela.”

“Que legal! Conheço um venezuelano que faz um documentário sobre os compatriotas no Brasil. Foi até Rio Branco.”

“Eu também.”

“Você veio de lá?”

“Não, eu moro na Rio Branco.”

“A avenida! Entendi. Você veio pro Brasil com sua família?”

“Primeiro vieram meu pai e meu tio. Depois vim com minha mãe.”

“Você gosta daqui ou pensa em voltar?”

“Penso em voltar.”

“Lá está ruim, né?”

“É aquele presidente.”

“Sim, imagino. E o que vocês achavam do Chavez?”

“Bom. Muito bom. Com ele não tinha ninguém morando na rua, hoje tem. Ninguém passava fome, hoje passa. Ele protegeu as áreas dos índios. Não quis saber dos Estados Unidos. E ele falava três línguas, sabe?”

“Não sabia. Quais? Espanhol…”

Mais um riso longo.

“Lá não falamos espanhol. É castelhano.”

“Claro!” (rio de volta). “E que outras línguas?”

“Guarau.”

“Língua indígena?”

“Sim.”

“E a terceira?”

“Não sei.”

“Que bom que Chavez era bom. Aqui falam mal dele, é incrível.”

“Também falam mal de Lula, não? As pessoas são muito ignorantes.”

“Pode ter certeza! Olha, chegamos na galeria.”

“Eu não posso entrar com a bicicleta, só vim ver onde comprar. Depois volto. Obrigado.”

“Como você se chama?”

“Elker.”

“Legal te conhecer, Elker. Sou Rosane. Posso te fotografar?”

Obi-wan e meus pés

Em 7 de dezembro de 2016.

Sonhei com o Ewan McGregor. Eu passava por um corredor e o via numa cadeira de metal bebendo com amigos. Dizia-lhe oi. Ele morria de rir. E eu retrucava diante da figura de cabelo comprido, um pré-obi-wan: “Dou oi pra todo mundo, em todo caso, porque sou míope, não só por ser você.”

Que raio de sonho com Ewan, quando na semana inteira pensei em Alain Delon, sobre como se dava isso de ele ser uma divindade fria? (Enquanto do outro ator, nos últimos tempos, tenho mais apreciado seu perfil no Instagram: motocicletas e causas, causas e motocicletas.)

Ewan queria me dar uma entrevista, mas não conseguia falar. Não se lembrava de nada. E eu, paciente, à espera. Tanto esperava que perdia meus sapatos. E, largada no boteco sujo à noite, saía pra casa de meia, pelo chão alagado, sem saber como voltar.

Barreto, Bishop e o comunismo de arregalar os olhos

Não percam o perfil do Felipe Fortuna no facebook, pois ele está a nos atualizar deliciosamente sobre as porcarias ditas e escritas pela Bishop sobre o Brasil.

Até parece brincadeira. É de desmontar qualquer afeto.

Agora entendo por que, numa ocasião, o Bruno Barreto me disse que seu filme sobre Elizabeth e Lota, “Flores Raras”, era o melhor que já tinha feito.

O Barreto é tão reaça que no meio de um jantar, quando eu lhe contei que minha tese girava em torno da commedia all’italiana, arregalou os olhos. “Mas você não fala sobre o Monicelli, né? Era um comunista, o Fellini me contou!”

E eu: “E daí, velho?!”