Meu bom, meu velho

Que noite esta.
Antes de batalhar pelo sono, olho através da janela do quarto na direção das luzes acesas nos apartamentos dos meus vizinhos.
Quem serão eles?
Não os conheço pessoalmente, mas já lhes agradeço por tudo.
Pela liberação de um sentimento tão ruim (mais um) que me ocupou todo o dia. E que de modos diferentes me toma sempre desde 2016.
(Preciso de tanta energia amanhã. Alguém, eu mesma, haveremos de olhar por mim.)
Depois do panelaço, aproveitei o sinal aberto e vi Dunkirk.
Que filme.
Filmão de homens perdidos não em batalha, mas na fuga que a antecedeu.
A frustração, o desejo de voltar ao conhecido, de lutar pela permanência no mundo, de resistir.
Cinema, seu bom e velho.
Se não viram o filme ainda, quem sabe amanhã?
Ou pensando bem…
Não amanhã, com o coração aos pulos, mas talvez depois?

A noite no invisível

Às vezes me sinto uma câmera termográfica que fotografa o mundo escuro.

É uma sensação poderosa e reveladora.

Ninguém precisa concordar comigo, mas se digo que vi alguma coisa no invisível, pode crer, vi sim.

Acontece com vocês?

Não raro, quando assisto à maravilhosa série “Night on Earth”, na netflix (essa involuntária companheira), transponho suas revelações para minha vida, tipo “eu sei que aquele orangotango come à noite, por que nunca ninguém viu?” (metaforicamente, né gente).

Assisti ao último capítulo da série hoje, o making of em que o trabalho dos câmeras é revelado aos nativos e zoólogos.

A pesquisadora dos guepardos não conseguia provar ao mundo científico a perambulação noturna dos animais, embora tivesse fortes indícios disso, ao constatar suas coleiras desgastadas; as filmagens mostraram os guepardos bastante ativos à noite e assim validaram o trabalho de dez anos da cientista.

O orangotango nunca fora percebido comendo sob a lua, mas a fotógrafa o captou sem querer do alto da árvore de 30 metros, quando lá se encarapitara sozinha, de madrugada. Chorei junto com os pesquisadores nativos que se emocionaram ao constatar a vida noturna de um bicho querido.

Enfim, o importante é que vocês aproveitem a chance de assistir a essa preciosidade durante seu relativo confinamento.

Mesmo.

🌸

Rir na quarentena

Quarenteens, o grande público tem razão.
Dá pra se divertir bastante com Sex Education, na netflix.
As cores são vivas e impossíveis.
As palavras, quase interjeições.
E os atores sem idade adequada movem os rostos como se usassem máscaras.
A trilha sonora, então?
Tudo do bom passado.
A criadora é uma mulher que mescla o clima das comédias teen dos oitenta, as que conheci e curti, com as distopias e correções de agora.
Um sofá quente pra vocês.

Vamos dormir, john boy

os dias têm sido cheios de surpresas terríveis e notícias ruins.
mas vou tentar ver tudo por outro lado.
até porque hoje achei meus óculos escuros que imaginava perdidos.
e os exames da rotina feminina que me preocupavam foram bem.
principalmente, tenho amigos.
tantos de vocês que resistem com um sorriso mesmo quando conhecedores do que se passa.
obrigada por suas imagens e palavras.
obrigada aos índios que pela enésima vez (porque não poderia ser de outro modo) nos ensinaram como se deve lutar.
só faltava o meu querido ser aceito candidato a prefeito…
mas terei calma.
vamos dormir, john boy.
sonhar é viver.
boas coisas pra vocês.

Abraço não é polêmica

Não morro de amores pelo Drauzio Varela. Sou impaciente com gente vaidosa. Da primeira vez que me deu entrevista, há milhares de anos, nem me olhou nos olhos. Falou ao infinito, como se lá estivesse uma câmera de tevê. E, sim, no futuro haveria no infinito uma câmera de tevê.

Também lidei semanalmente com ele por alguns anos, quando escrevia pra Gazeta Mercantil e pra Folha de São Paulo em dias alternados da semana. Suas colunas para os dois veículos eram sempre sobre o mesmo assunto. Ganhava o dobro para dizer coisas idênticas de modos diferentes, resumindo.

O procedimento me dizia mais alguma coisa indesejável sobre ele, embora nos tratássemos bem ao telefone. A gazeta era ordinária, mal me pagava salário e quase ninguém lia aquela coisa mesmo. Se eles queriam o Drauzio replicador, ficassem com ele.

Dito isto, o que tenho a considerar sobre o episódio da trans encarcerada é que ao abraçar um preso o Drauzio não comete crime algum, indiscrição ou falta de ética. E não por ser médico.

Não sou médica e no entanto abraço trans sob o viaduto sem lhe perguntar por que foi parar no viaduto e o que faz pra ganhar a vida sob o viaduto. Se quero me aproximar de um ser humano, me aproximo.

Me perdoem, mas, pensando bem, ele tinha mais era que abraçar a presa. Tomou seu tempo, certamente sem nada lhe pagar, expôs seu rosto ao mundo e ganhou visibilidade por meio dela – embora tudo tenha dado no que deu.

Ela é uma presa, melhor dizendo: cometeu um crime e não fugiu de pagar com o encarceramento pelo que fez.

Para mim, melhor abraçar uma pessoa nessas condições do que muito safado(a) com quem trabalhei no jornalismo.

Aliás, ou abraçamos o mundo ou ele nos abraça feito cobra depois de nos picar.

Padilha exterminador

José Padilha é um produtor que assina como diretor. Não sabe dirigir. Aliás, precisou contratar um cineasta estadunidense que sacasse minimamente o raio dessa coisa chamada cinema para realizar seu primeiro filme, Os Carvoeiros.

Tropa de Elite, aquele do fascismo imagético fundador, só virou história-símbolo com Wagner Moura (esse democrata) porque Daniel Rezende, hoje cineasta, montou o filme de modo a que Capitão Nascimento, representado pelo melhor ator do elenco, fosse o protagonista. Pensem nisso: Padilha dirigiu um filme sem nem mesmo saber quem seria seu personagem principal.

O manipulador que se diz das artes mas no fundo é o que sua formação original como economista dita, um homem da grana, já provou ser incapaz de ver o Brasil com independência. É no máximo e tão-somente o Robocop cuja saga tanto quis “dirigir” nos Estados Unidos e aos trancos e barrancos “dirigiu”.

Não há nada nesse biltre obscuro que se pareça com Spike Lee, o diretor citado pela roteirista do Marielle na Globo para humilhar todos os diretores negros do Brasil. Nem Spike Lee acerta em todo filme, então imagine…

Ela, a Globo, e possivelmente a família de Marielle, mais ainda a roteirista Antonia Pellegrino, mulher do Freixo, querem grana e visibilidade internacional por meio de um projeto sensível, de uma história que nem mesmo desfecho teve ainda. Quem mandou matar Marielle, filha? O Lula??

Visibilidade vão ganhar, embora ao custo de muita vergonha alheia. E se querem grana de verdade, deveriam ter chamado outro diretor brasileiro internacional meia-boca para colocar rodas nesse projeto, tipo o Meirelles.

Nada justifica um Padilha na história, exceto (e condescendendo muito) se um ghost fizer seu trabalho minimamente correto como diretor.

A perversão exala por todos os poros do Brasil.

E a história está cara a cara com seu anjo exterminador.

Sou de Freud

“Isto não é pra mim, Jane”, diz Marilyn

Em 1953, durante as filmagens de “Os Homens Preferem as Louras”, de Howard Hawks, a atriz Jane Russell, uma das protagonistas e a mais experimentada em representação, tentou converter a parceira de cena, Marilyn Monroe, ao cristianismo.

Depois de muito pregar, Jane convenceu Marilyn a assistir a uma das reuniões do grupo Christians in Hollywood durante um dos intervalos das filmagens.

A colega, contudo, detestou a experiência:

“Isto não é pra mim, Jane.”

Tempos depois, Marilyn explicou à atriz Susan Strasberg (filha de Lee Strasberg, o Senhor Actor’s Studio) o que realmente se passara:

“Jane tentou me conduzir à religião enquanto eu quis convertê-la a Freud.”

o capacete da noiva do führer

sonhei com a regina duarte.
(creio que o sonho foi motivado por um story elogioso de parente à figura).
durante o sonho, brigávamos feio, gritos dela contra os meus, cada vez mais altos, porque eu não aceitava que ela usasse fotos de minha família para fazer propaganda de suas ações, como vinha ocorrendo em rede nacional.
enquanto discutíamos, o cabelo da mulher crescia e eriçava, até formar uma espécie de capacete que diminuía sua cabeça.
acordei com os dentes rangendo.
só isso mesmo.

eu rio sim

não sei usar revólveres nem fuzis.

e sou oprimida pelo estado de coisas.

como vou me defender?

se não puder usar o humor como arma, ou como correção para um estado de coisas, à moda do que ensinou aristóteles, do que raciocinou bergson ou do que escreveu pirandello, o que restará de mim?

vou rir, sim, enquanto posso.

vou desmontar risonhamente o cinismo deles, os que me oprimem.

não particularizo minha crítica em micheque, porque nem mesmo isto ela merece de mim.

mas talvez devesse.

desmontando Maria Antonieta (“comam brioches”) nos panfletos satíricos, os oprimidos franceses contribuíram para a revolução.

contudo, não espero revolução nenhuma por aqui.

nem mesmo uma correção.

meu riso é só liberador.

é meu alívio.

por que rio?

porque é sublime.

rio do caos deles.

um dos meus jeitos de enfrentar as coisas.

rio enquanto espero o impossível.

Em 28 de fevereiro de 2018

vivo entre as britadeiras de são paulo.
quando não britam no andar de cima, britam aqui dentro.
para superar esses ruídos, que calam a calma, as pessoas acostumam-se a gritar.
gritam lá embaixo, agora, enquanto tento escrever.
não deve ser assalto desta vez.
minha rua tem muitos sem-teto, às vezes fixados nos bancos do calçadão.
falam consigo, com seus cães e com um ser que somente eles podem ver.
desta vez, a voz potente com aflição (creio que de um negro, rivalizando com os britos cheia de docilidade) agita-se.
grita, aparentemente, com alguém que eu poderia ver.
como se falasse comigo.
“ouve, porra, o que eu digo! ouve!”
ou falasse por mim.