apartem-nos

saudades do meu pai, sinceramente.
um homem pouco adaptado ao mundo.
um ingênuo, transparente na sua humildade.
creio que mal soubesse o significado de ser contrário, de ser de esquerda.
mas era um homem bom.
bom a ponto de sacrificar o que quer que fosse seu
por nós.
modos e bigodes de tempos em que tudo isto compunha elegância, refinamento simples.
hoje vejo esses sujeitos que se creem adultos desfilando com graxa no olhar, pisando sobre todos.
não, meu pai não era um homem assim.
tão límpido como um riacho antigo, coitado!
um menino.
o pulo, a graça, a vitalidade infantis.
o respeito profundo pelas brincadeiras, pelos lápis de cor.
hoje entendo uma boa parte de você, pai, antes tão inalcançável.
acho que pertenço a seu imaginário e a seu sorriso bom.
tudo o mais me assusta e estupidifica.
os exageros, as contenções.
das desmedidas às menores, as ambições me causam estupor!
esse silenciar o afeto para se submeter aos números…
esse não ser o que se é, em busca de aceitação…
quis tanto que a vida desse certo pra você!
como quis que desse pra mim.
que nos deixassem no fim do arco-íris, pois nosso interesse não estava nas moedas, mas nas luzes.
ninguém vai compartilhar conosco esse sentimento, vai?
e o que teremos nós a ver com isso, pensando bem?
apartem-nos do que vocês construíram!
estamos no lamaçal brincando de escorregar.

Get lost

A foto que sempre retorna pra gente sorrir, pra matar a inveja que temos dos grandiosos, pra liberar a eterna opressão de sermos sempre esmagados, os últimos mesmo nesta vida…

Não adianta você ser esse Mick Jagger tão especial, o mais cool deste mundo, com suas meias de cores diferentes e sua linda calça cor de rosa: você em algum momento vai ter, sim, a atenção roubada pelo careta mais lindo vestindo um brilhoso terno modelo antigo.

fia na pia

daí eu me esforço pra ser leve, rôsinha paz e amor, e posto aquele tuíte ótimo, “se eu votei no lula quando ele era ladrão imagina agora que ele é inocente”, uma coisa bem feita, arte pela arte que vc pode apreciar por si, e de repente a mulher de nome maria pia (será piedosa ou será um tanque?) retruca: “escolhe outro candidato, fia”! e eu nem comento, arranco sua torneira na hora, jogo a fia na pia, meu deus, que se torça, que se dane!

Pra que serve um editor?

Com Chico Anysio em seus últimos dias, no apartamento da Barra, 2010

Adorei umas partes do discurso do Lula, que li só agora. Esta me fez levantar da cadeira:

“E eu, como acho que tenho um pouco de experiência, fiquei feliz com a verdade, porque é pra isso que servem os meios de comunicação. Jornalista não existe pra sair pra rua pra cumprir a ordem do editor.”

Certíssimo!

Quantas vezes me senti coagida a escrever a verdade “exigida”, enquanto redatora de notícias? E aceitei isso pra garantir a droga do pagamento?

E quantas vezes, por outro lado, quando editora, pedi para os repórteres me trazerem a notícia e eles me retrucaram “que notícia”, achando que não tinham sido pautados direito? Como se eu tivesse que saber de antemão as coisas que eles deveriam descobrir? E quantas vezes meus chefes, editores executivos e diretores de redação, quiseram mudar o que eu escrevi enquanto repórter e colocar a sua própria “verdade factual”, simplesmente, no meu texto? Como se a verdade fosse uma questão de hierarquia? Como se eles pudessem mudar o fato, por exemplo, de que Tom Jobim foi um compositor importante?

Uma vez a coisa ficou até engraçada, porque escrevi minha reportagem sobre o Chico Anysio, humorista que eu entrevistei lá no Rio, e tive de mostrar meu texto pro diretor de redação ler, o Senhor Democracia, o SDM. E ele me disse o seguinte sobre determinado trecho: “o Hélio Souto não foi o cara que inspirou o Chico Anysio a fazer o Alberto Roberto”. E eu retruquei: “mas foi o que o Chico Anysio falou”. Mas ele: “Mas não é verdade.”

E eu: “Seu SDM, foi o que o Chico disse e acho que ele sabe mais do que nós o que ele próprio fez. Se o sr. quiser, o sr. tira o trecho todo, porque ninguém vai precisar dessa informação pra viver. Mas eu só vou assinar esta reportagem se nela estiver escrito o que o próprio Chico Anysio me contou sobre a origem de sua criação”.

E pronto.

E ele deixou eu publicar como eu tinha escrito.

“Deixou” eu publicar a verdade, entende?

Então eu amo ouvir isto partido de Lula – isto de que o repórter não tem de obedecer à verdade que o editor quer ver publicada -, embora morra de rir sabendo que Lula é amigo de SDM e lhe dita as pautas por telefone.

A vida é assim, o Brasil é assim, e o jornalista… O jornalista é menos que assim!

E é mesmo para desobedecer as tantas vontades pessoais sobre a verdade que o jornalismo deveria existir.

💜

O desejo ardente silenciado

“Junho Ardente”.

A obra-prima de Lord Frederic Leighton foi concluída no final de sua carreira, em 1895.

A sensualidade de sua figura central resplandece na cor laranja do vestido drapeado.

Ela dorme ou está no limiar da morte, conforme talvez simbolize o ramo tóxico no canto superior direito do óleo sobre tela.

As prováveis modelos da obra foram as atrizes Dorothy Dene e Mary Lloyd, retratadas por vários artistas pré-rafaelitas.

“Junho Ardente” começou como motivo para adornar uma banheira de mármore em outra obra de Leighton, “Descanso de Verão”.

Mas ele amou tanto seu personagem que decidiu recriá-lo numa pintura separada. 

Leighton realizou pelo menos quatro esboços antes de pintar a figura central e lutou para fazer o ângulo de seu braço direito parecer natural.

A naturalidade era importante nesse movimento inglês de “arte pela arte” (art for art’s sake) ao qual aderira, em que as qualidades artísticas importavam mais que o tema das pinturas.

Mas como não ver importância neste tema?

A figura central não consegue acordar, como se seu desejo, evidente na cor radiante, estivesse reprimido entre o sono e a morte.

É ou não uma magnífica maneira de entender a repressão à sexualidade feminina numa Inglaterra vitoriana?

E em tantas eras que se seguiram?

Arte pela arte, estamos igualmente diante de uma representação excepcional.

Pior que Idi Amin

Estava aqui comentando que no mundo inteiro se tem Bolsonaro por um novo Idi Amin Dada.

Não sei se sabem quem foi Dada (lê-se Dadá), um ditador populista e sanguinário de Uganda, desses capazes de jogar um súdito aos jacarés só por diversão.

Ao saber da comparação, meu marido nem parou pra pensar. Dada era um fascista nacionalista, desses que se divertiam em provocar os EUA nos anos 1970.

Então Bolsonaro, fascista entreguista, único exemplar de sua espécie, só poderia ser muito pior do que Idi Ami Dada foi, como o Mauricio argumentou.

E é isso por enquanto, meus amores.

Vergonha mata

À direita sou eu, mal ajambrada depois das noites difíceis que antecederam minha qualificação para o doutorado, nos bastidores do Auditório Ibirapuera, em outubro de 2014. Comigo na foto estão minha querida Thaís, que faz anos hoje, minha cunhada Tânia e Ela.

Elza, como veem.

Ela cantaria “O meu guri” numa homenagem a Chico produzida por meu marido, Mauricio, a quem Elza se afeiçoou. E quem é de seu conhecimento e afeto, ganha beijinho na boca… A boca de meu marido foi muito bem beijada, calculem.

Porém, como eu não a conhecia, ela apenas pegou minha mão e a beijou. Ficou feliz de ser apresentada à esposa do Mau. Pude sentir sua pele então, macia como poucas.

Esta noite foi bem maluca porque, enquanto eu estava nos bastidores, sozinha, antes de os shows terem início, um homem grande se ajoelhou diante de mim e também pegou minha mão, para em seguida me chamar de “minha flor”. Será que porque eu tinha flores na estampa do vestido? Não sei. Não sabia de quem se tratava. Pensei sorrindo: artistas são mesmo assim.

Contudo, do fundo do palco de onde depois assistiria a todos os shows, vi que um MC chamava esse mesmo rapaz adiante. Percebi com assombro que se tratava de Criolo, no fim das contas. Não lembro o que o menino ajoelhado cantou. E não o procurei para pedir desculpas nos bastidores novamente depois, embora ele sorrisse pra mim o tempo todo, até no caminho de volta, para o táxi.

Vergonha mata!

Eles nunca foram santos

Me lembro que um diretor de redação, Sr. Democrata (vou chamá-lo de SDM), passava sempre pela minha mesa cultural pedindo dica de filme em cartaz para ver com a namorada, e que isso em essência, se parássemos para pensar, era a finalidade de nosso trabalho, servi-lo pessoalmente, além de ele propagar nossas notícias, críticas e conclusões ao público que ia a sua casa aos sábados para beber seu vinho e comer sua comida enquanto ele distribuía sua revista à mesa e discursava sobre a própria importância jornalística.

O que escrevíamos servia também para SDM concluir que no Brasil éramos ridiculamente pequenos, especialmente em todas as artes, exceto talvez, olhe lá, na música, mas sem esses sambistas todos. Nós nos vestíamos em “andrajos” e éramos o povo “mais feio do mundo”, submetidos à “comida dos selvagens” como ela existe na Bahia (ou no Pará, mas “de que me interessa o Pará?”).

Me pergunto se alguém pensa com ingenuidade que só pela Globo fomos destruídos, primeiro culturalmente. Há tanto mais (neste caso, miúdo) a ter solapado aos poucos nossa identidade e manchado nossa história – a ponto de havermos acabado aqui – que serão necessários muitos anos de pesquisa acadêmica e isenção, com os quais possivelmente jamais um dia poderemos contar, para situar toda essa humilhação em perspectiva.

E escrevo isto talvez para o futuro, se futuro houver, para que não nos deixemos enganar pelas tolices hagiográficas que cercam certas figuras jornalísticas.

sem abraçar, sem ser

tem hora que sinto falta de abraços específicos, de pessoas determinadas, estas que não estão ao meu alcance neste momento terrível.

viajo me imaginando nos braços delas.

e pensando: quando vou poder novamente encontrar alguém na rua que não vejo há muito e lhe envolver daquele meu jeito meio aloucado e constrangedor?

outro dia joguei de longe um beijo para uma sem-teto deitada na mureta do ponto de ônibus – depois, é claro, de lhe dar um dinheirinho -, e ela quase perdeu o rumo de feliz, e me jogou outro beijo à distância.

(como amo essas pessoas. fico imaginando se elas sabem que fazem muito mais por mim do que eu por elas.)

quem não quer viver de novo, ser alguém de novo, andar, cheirar, sentir, ao lado de quem desejar?

mas nem para pensar nessas singelezas a gente se sente livre.

parece coisa luxuosa demais (e indevida) desejar um abraço aleatório se nem sabemos como tirar aquela monstruosidade do poder e reiniciar o ciclo da vida…