Febeapá com Bey

Não sei se vocês leram o artigo de retratação de Lilia Schwarcz. Não o reproduzo aqui, mas, segundo ela diz ali, escreveu de maneira errônea e irrefletida sobre o pretensamente inadequado luxo hollywoodiano em Beyoncé, razão pela qual se desculpa.

Acontece que li e reli as linhas de Schwarcz e mal pude constatar a ausência de admissão real de um erro. Quem errou, ela diz, e isto parece explícito no artigo, foi o redator que aplicou título e linha fina ao que ela escreveu. Quem errou, ela diz, foi a Folha ao exigir de uma pesquisadora de seu porte um texto tão rápido sobre questão primária. E o erro dela foi sua submissão.

Porque Lilia não é de errar. Porque errando, isto é, achando que saberia escrever sobre um assunto aparentemente banal como este sozinha, sem ouvir seus pares e o movimento negro, estrepou-se. E precisou se desculpar de algum modo com as comunidades que dão sustentação a seu trabalho de historiadora.

Sei bem como são intrínsecas e entrelaçadas as relações dos Schwarcz com a Folha. Interdependência, interligação, nem sei que nome dar aos telefonemas da editora de seu marido para garantir aos jornalistas da casa exclusividade em entrevistas e leituras antecipadas de cópias de livros.

Toda a vida da Cia das Letras está tão estritamente ligada à da Folha que é difícil que eu imagine, apontada sobre a cabeça acadêmica de Lilia, uma arma qualquer empunhada pela ralé jornalística.

Até fantasio que uma bela noite num desses jantares com a direção do jornal ela tenha se animado a lamentar o luxo consumista de Beyoncé e algum presente, no momento de montar a pauta, apenas pediu que a historiadora transcrevesse seu pensamento tão informalmente bem expresso antes.

Alegar irreflexão é um pouco melancólico da parte de Lilia, que vive de refletir, e nos últimos tempos o tem feito de peito aberto, de modo a nos alertar sobre a perda gradual de nossas liberdades sob este regime de milícias. Mas – fico com isto – pelo menos ela provou uma retratação. Ninguém suporta tanto febeapá cotidiano, ademais partido de uma de nossas mais festejadas intelectuais.

Enredar-se

Em 29 de julho de 2017

Sei lá onde isto me coloca.
Ao lado de quem.
Mas a palavra empoderamento me entristece.
Não somente por tornar um equívoco de tradução eternamente visível, esforço canhestro (na melhor hipótese, risonho) de verter ao português uma palavra inglesa.
Sonoramente, este vocábulo, que parece represar todo o vigor, me traz à visão o emparedamento de um cárcere.
O pó de arroz empedrado nos estojos de metal que jamais abrem e nos quais vigora a ferrugem…
Sou muito mais o enredamento de gênero que seu empoeirado poder.

QI de abelha

Não me emociono se penso que Toller votou no Tolo. Ou deixou o Tolo ganhar. Ou se nada fez para que o Tolo perdesse, até ganhando causa de 200 mil contra Haddad e o PT pelo uso (que ideia mais boba do partido, gente) da canção do QI de Abelha na campanha.

Nana também votou em Bolsonaro. Toquinho também. Djavan também, talvez. Desejo a Nana e a Toquinho toda a felicidade. Djavan está em mim. Vou ouvi-lo sempre, forever and ever.

E Toller, meus amigos, bonita ou não, conservada ou não (todas nós cinquentonas podemos nos orgulhar de nós mesmas neste aspecto, certo?), nunca habitou meu panteão.

Mas se habitou o seu, não ligue pra nada disso. Essas pessoas escrevem e interpretam canções, não necessariamente veem a vida como nós.

Anacronismo

Amo essa fase de nossa história do pensamento, quando ainda fazia sentido exaltar o pensamento (e até o pensamento como um sentimento), em que se lamentava a incomunicabilidade humana.

Curioso que todos hoje tenham se rendido à inevitabilidade disso. Porque a incomunicabilidade ainda existe, certo? Não é só coisa nascida dos filmes de Antonioni.

Ela existe e me exaspera.

É preciso saber viver

Quando acordo me vêm as melhores palavras. Mas demoro a levantar. Então saco do celular, na cama, como quem pegava o lápis na cabeceira. Hoje foi assim, ontem também. Ontem um texto sobre um filme, hoje a coisa difícil de ser dita ao amigo, os dois amontoados saídos com relativa facilidade, após a reflexão da noite. O melhor que faz o celular por mim é estar sempre perto para que eu escreva e fotografe nas horas improváveis. Mas, claro, há também as notícias que chegam nesses momentos, sempre piores. E a inspiração se perturba, começa a sumir, vira a areia que rola nesta pedra de tantos anos. A gente nunca vai aprender direito como fazer as coisas.

Amores de outras nuvens

Noto que todo o mundo pandêmico voltou a uma espécie de condução rotineira, e que os viventes lá fora aprofundam-se em dois comportamentos. Ou se adaptam bem aos cuidados higiênicos contra o vírus ou infelizmente suicidam-se, daquele jeito rápido-lento, ao ignorá-los. Mas todos produzem. Até os que no início achavam importante parar, nem cobrar-se durante este período, produzem incessantemente agora.

Eu também produzo. Mas não incessantemente. Não concretizo de modo tão fácil o que ando pensando. Porque sou lenta. Naturalmente. Me traduzo num reflexo. Sou de gastar tempo com a risada, de modo a que ela me cure da vontade de parar tudo, de desistir.

Hoje pude testemunhar o sorriso de Hannah Arendt na entrevista que o perfil do Instagram @hannaharendtbr legendou em português (https://m.youtube.com/watch?v=PG8BYwv9IBQ&feature=youtu.be). Tão linda! Senti uma paz imensa ao saber que ela o advogava. E que foi até mesmo perseguida por sorrir. Aquela certeza de que três minutos antes da morte ainda daria sua risada…

Então, no meu caso, antes de recomeçar de algum ponto perdido, sempre preciso ouvir o que diz meu oráculo da alegria. Meu coração intuitivo. Ou qualquer produção se fará errada, corrigível. E precisarei voltar ao início.

Tudo em minha vida precisei fazer minimamente alegre. O jornalismo, por exemplo. Me lembro que era redatora da Folha quando um repórter que se considerava importante veio até minha mesa perguntar, inconformado: “Do que você tanto ri? E pra quê?” Minha alegria o impedia que advogasse sua sisudez, sinônimo aquiescido de seriedade profissional. Continuei rindo depois disso. Até por pena.

Pedalo por pedalar, vivo pelo gosto de viver, estudo porque preciso… Imagine rir escrevendo o doutorado, se é possível! Imagine, além disso, estudar humor!

Não sei o que esta quarentena terá feito de mim ao final, além de mais gorda uns cinco ou seis quilos, com a liberdade grisalha testada e adquirida em minha cabeça. Mas suspeito que não sairei tão triste desta experiência, se tiver a sorte imensa de sair.

Meu filho tem me achado bonita. Diz que não se lembrava dos meus cabelos compridos. Tenho vontade de presenteá-los a ele, aos meus, à família e aos amigos da arte (vocês sabem quem são). Sem essa gente de outras nuvens, o meu mundo, sempre tão voltado para dentro, antes mesmo de o isolamento forçado acontecer, jamais seria feliz como tem sido.

Obrigada sempre.

para ser livre

liberdade para todas as religiões.

mas igualmente liberdade para quem não acredite em religião nenhuma.

é o mais difícil de pedir a qualquer um, eu sei.

mas imagine, como imaginou John Lennon, um mundo sem religião.

ou pelo menos liberte quem imagina um mundo assim.

liberdade para quem veja no papa, nos padres, nas freiras e nos freis, em todos os líderes de todas as igrejas, apenas homens e mulheres, figuras políticas boas ou más, mal intencionadas ou do bem, comprometidas ou não com a vida na terra, que é a única até agora vivenciada por todos nós.

entendo que precisamos começar a nos acostumar com a liberdade, e a discuti-la, para o dia em que ela chegar.

ou pelo menos temos de nos acostumar à ideia de não desmerecer ninguém que possa lutar ao nosso lado por uma vida nova, ainda que utópica, vida esta que todos, até os sem religião, saberão pregar.

De que fotografia se fala

Bolsonaro convidou Orlando Brito, fotógrafo veterano de presidentes agredido domingo por apoiadores golpistas, a almoçarem juntos hoje. E o fotógrafo foi até lá.

Brito disse pra Bolsonaro, na ocasião, que ele deveria acenar com um gesto de apoio e visitar o comitê de imprensa do planalto, o que nunca fez desde que assumiu a presidência.

Brito aceitou o convite de Bolsonaro? Pra almoçar neste momento, sem máscaras com esse verme, e ele foi?

E Bolsonaro, aceitará o convite dele?

Se depois desse almoço o miliciano realmente visitar o comitê de imprensa, vai ser interessante de ver. Um belo truque midiático. Se eu fosse ele, neste momento, iria sim. Apareceria por cima. Mas não creio que ele vá.

Nunca trabalhei com Orlando Brito. Mas o conheci durante o primeiro curso Abril de jornalismo, ao qual fui selecionada, entre tantos estudantes de jornalismo de São Paulo, em tempos muito antigos. O curso era constituído de um ciclo de palestras com os luminares locais em todas as áreas, da política à moda e à fotografia. No final, selecionavam um jornalista pra estagiar lá. Não passei na seleção, hoje posso imaginar por quê, e agradeço.

Me lembro que o Orlando Brito levou uma de suas fotos de Figueiredo, feita para uma edição de Veja, para acalorar a discussão. Achei-o corajoso. Era uma imagem sua em que Figueiredo aparecia sorridente, sendo erguido por uma multidão de fazendeiros e trabalhadores rurais. Os jovens jornalistas pareciam chocados. E ele respondeu que não via razão, já que aquele fato tinha se dado assim. Foi vaiado por grande parte da plateia, aquela que justamente buscava trabalhar na empresa. Já então, naquele tempo, sabia-se que o ângulo, o fotógrafo escolhe…

O Brito é um profissional de carreira que mostra os presidentes a uma certa distância, sempre clássicos e respeitosos. Não é um fotógrafo ruim, pelo contrário, a depender do que se espera da fotografia.

Ter ido almoçar com o presidente hoje faz parte de sua rotina profissional, e ele depende disso para continuar trabalhando naquela posição. Triste, mas é isso mesmo. Foi um trabalho que ele escolheu fazer e do qual não arredou pé em cinco décadas. E não arredaria agora.

Prefiro outros fotógrafos e outros temas. Creio que jamais seria uma fotojornalista, especialmente em torno de palácios oficiais. Sou do que ocorre à volta, além e dentro de nós.

Mas penso.

Ao Brito o que é de Brito.

Cada um no seu quadrado e no seu sonho.

Escolhas

leio poesia todo dia.
e mal percebo.
a diferença é que sob pandemia, depois de recorrer às estantes, as palavras que assimilo desses livros transformam-se em outras, mais ou menos vistas por mim como desabafos.
e o engraçado, agora, é que por este meu blog atraio queridos, desconhecidos, grandes poetas menores.
leio-os todos.
todos eles, donos de ao menos uma palavra nova, no lugar certo de suas aflições.
estou gostando.
adentrei um mundo novo graças à peste.
um paradoxo em busca de um autor.