Havia miséria de arrepiar em São Paulo antes dessa tomada de poder. Os sem-teto e os viciados eram maltratados pela guarda civil. Os jovens contra a máfia do transporte, ridicularizados e bombardeados.
Mas agora, com Doria e Alckmin juntos, tornou-se outra paisagem. É um novo contingente. Mulheres e homens nas estações de metrô, viadutos, becos e escadas envolvem-se em panos leves, à espera do que beber antes da morte. Os olhos fecharam-se para as crianças. São as responsáveis pelo alimento e o futuro de seus irmãos, como no século 19 londrino ou piemontês, como no filme de Buñuel, ‘Os Esquecidos’.
São Paulo tornou-se o pitoresco acinte que ilustramos com nossos iPhones debrets.
A atriz francesa, que apoiou Simone de Beauvoir na luta pela legalização do aborto, combate as militantes hollywoodianas contra o assédio. Por quê?
Catherine Deneuve em “Repulsa ao Sexo”, de Polanski: que grande, difícil poder
Catherine Deneuve ainda equivale à máxima beleza na imaginação pública. A confusão que causa ao opinar sobre o machismo no cinema é um indicativo nessa direção.
Que grande, difícil poder.
Eis por que talvez ela não o exerça sempre. Dá poucas entrevistas. Não se deixa fotografar com a família, embora ame brincar com os netos, que jamais a chamaram de avó. (Eles adotam um apelido que ela sabiamente se recusa a informar aos jornalistas.)
Nos últimos tempos, contudo, Deneuve tem deixado esse seu estado de paz possível para vir a público defender o diretor Roman Polanski, condenado por estupro de menor (ele não teria conhecimento da idade de sua vítima), e apontar o risco de as atrizes caçarem bruxas quando denunciam seus molestadores em Hollywood.
Ela é Catherine Deneuve. Por que, a esta altura, meter-se em tal confusão?
Tudo parece intrigante quando imaginamos as incontáveis vezes em que deve ter-se visto assediada (embora não pelo diretor polonês). Ao contrário de uma atriz como a americana Tippi Hedren, que responsabilizou o assédio sexual de Alfred Hitchcock pelo fim de sua carreira, ela continuou filmando, mais e sempre, sem se incomodar com os atravessadores.
Tippie Hedren e Hitchcock no set de “Marnie, Confissões de uma Ladra”: Deneuve foi mais forte?
Deneuve foi mais forte que as outras? Mais talentosa e determinada em sua arte, a ponto de desconsiderar o visível, ilimitado e opressivo poderio masculino no cinema de sua juventude?
É uma grande artista. Diferente a cada filme. Canta e dança, se lhe pedirem, e o faz com prazer. Capta o drama e a comédia com igual intensidade. Se ela aponta para um excesso na campanha hollywoodiana contra os homens, fala do que soube e do que viveu.
Em certa época, na qual sua beleza florescia, os diretores teimavam em fazê-la encenar mulheres frágeis e perturbadas. Alguém pode argumentar que a queriam deste modo porque ela pessoalmente exalava fragilidade. Quem sabe? Mas talvez não seja aconselhável pensar assim.
Fernando Rey e Deneuve em “Tristana”, de Buñuel: diversão em fragilizar a mulher inatingível
Os cineastas, especialmente os desse período, autorais, artísticos, dirigiam sonhos que se transformavam em matéria da vida nos seus filmes. Deneuve representava um enigma aos mestres, em sua vasta maioria, homens. Luis Buñuel, ele mesmo, disse que lhe causava extremo divertimento conduzi-la por ficções que destruíam sua imagem de mulher inatingível.
Muitos dos filmes que Deneuve protagoniza encenam sua submissão. Buñuel a fez frígida e incapacitada, respectivamente em “A Bela da Tarde” e “Tristana”. Polanski a quis psicopata em “Repulsa ao Sexo”. Marco Ferreri praticamente mandou que latisse para Marcello Mastroianni em “La Cagna”. (Me diverti quando li pelo Facebook que o ator batia nela. Sim, mas no filme de Ferreri, meus amores!)
Deneuve encarnava a serenidade intransponível, embora fosse agitada na vida, conforme declaravam os amigos. Mãe exemplar, orgulhosa da amizade que mantinha com os filhos, esteve com o ex-marido Mastroianni nos momentos finais de vida.
“La Cagna”, de Marco Ferreri: uma coleira para Mastroianni
Em 2012, declarou ao jornal Daily Mail: “Sou feminista por experiência, não por escolha. Fui feminista desde o início porque nasci em uma família de mulheres, o que tornou tal posicionamento natural. Ao longo dos anos me envolvi em várias causas em favor das mulheres.” Por exemplo, ela assinou o “Manifesto das 343” a favor da legalização do aborto, escrito em 1971 por Simone de Beauvoir.
Novamente, por que então entrar agora na discussão hollywoodiana, liderada por uma entertainer bilionária e não declarada aspirante à presidência dos Estados Unidos?
A resposta talvez seja mais simples do que aparente. E ao se confrontar com as americanas, Deneuve, aos 74 anos, simplesmente defenda exercer o feminismo.
No manifesto que assina junto a 99 artistas, como a escritora Catherine Millet, célebre por narrar suas inúmeras aventuras sexuais, ela repudia a onda reivindicatória porque a vê perigosamente próxima do puritanismo. “O estupro é um crime. Mas a sedução insistente ou desajeitada não é crime, nem a galanteria, uma agressão machista”, diz a carta, que segundo a imprensa francesa encerra um hedonismo feminista. “Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual”.
As feministas francesas insistem que este libelo significa o retrocesso. E são rudes, porque, ao analisar o posicionamento das signatárias, miram em sua idade. “Os porcos e seus/suas aliados/aliadas têm razão de se inquietar. Seu velho mundo está desaparecendo”, argumenta Caroline De Hass.
Caroline de Hass, a jovem: ela encaixou Deneuve no mundo dos velhos “porcos”
São diferentes mundos, por certo. Mas por que aquele defendido por Deneuve mereceria menos consideração? Ela grita às mulheres que sejam mais espertas do que vêm sendo e exerçam o discernimento que ela própria teve ao descartar o inaceitável em relacionamentos profissionais. Mas quem consegue agir à moda de Deneuve? Como fazer o que ela fez? Faltou dizer. O que bastou a Deneuve certamente não foi suficiente para outras atrizes no decorrer do tempo. Como cidadã do mundo, ela talvez devesse defender uma regra geral em nome do bem-estar comum.
O manifesto das americanas baseia-se em certo pragmatismo, aspirante a uma sociedade organizada, regulada por leis específicas. O daquelas francesas, meditativo, aspira à prevalência de um certo senso comum, que desconsidera as relações de poder.
Um universo cultural quer prevalecer sobre outro, mas por que não se aproximam? Se seu objetivo é garantir a luta feminista, não deveriam buscar uma pauta comum?
Talvez esta polêmica refine as militâncias e as faça refletir. Os embates feministas, recentes pela história, requerem nossa paciência. Tornar-se mulher não tem fim.
Ele jamais esperava ganhar a eleição, diz Michael Wolff em “Fogo e Fúria”. O livro, que está pra sair, foi feito a partir de duas centenas de depoimentos de fontes próximas ao presidente dos EUA.
O velho, diz Wolff, queria apenas ter estado muito perto do poder, por calcular que isto daria um up nas suas empresas em baixa.
Não queria o poder político, por não saber do que se tratava.
Melania, a esposa, chorou desesperada na noite da vitória, enquanto Trump, ele mesmo, com o globo nas mãos, virou uma barata tonta resignada a viver fora da Trump Tower.
Ele não queria ou não sabia ler relatórios.
Pediu duas tevês para seu quarto na Casa Branca, enquanto a esposa dormia em outro cômodo. Dormia e chorava.
Trump quis trancar a porta de seu dormitório, mas o serviço secreto lhe disse: melhor não.
O presidente deixou suas camisas no chão, veio a limpeza e as pôs no guarda-roupa. Ele enfureceu-se. Ordem presidencial: o presidente põe as camisas onde quer.
Trump vigia sua velha escova de dentes, porque desconfia que será a arma para seu envenenamento.
Sem nomes pra sugerir aos ministérios, veta os homens que usam bigodes.
Seu chefe de gabinete o descreve como uma criança cujos desejos devem ser adivinhados.
(Tive um patrão igualzinho.)
A filha do presidente, Ivanka, é a única que pode ironizar sua ausência de cabelos e o decorrente penteado do pai. Convenceu Trump a nomeá-la ao governo, mas alguém no gabinete o alertou para uma palavra nova: nepotismo. Jared Kushner, marido de Ivanka, é seu testa-de-ferro. Eles têm todo o poder.
Ivanka sonha em ser a próxima (e primeira) presidenta americana. Ela, não Hillary.
Não o vejo chegar ao caixa onde eu pago um sorvete.
E, quando lhe dou dinheiro, todos na padaria riem de mim.
O segundo sem-teto não me vê.
Magro, loiro, barba, cabelos ondulados e longos, olhos azuis que o transformam em uma espécie de Jesus de calendário, ele se ajoelha à volta da igreja São Luiz.
Eu é que me aproximo.
Dou-lhe dinheiro, muito pouco.
Mas não sei se ele quer meu dinheiro ou um milagre.
A tensão racial em época de luta pelos direitos civis é a razão do filme teatral de Stanley Kramer, que bem poderia tê-lo rodado em preto&branco, mas, de qualquer modo…
… o filme é feito para Spencer Tracy brilhar.
O ator que Marlon Brando julgava ser o melhor do mundo, a reviver o cinema de um quarto de século atrás.
Spencer Tracy, que reluz em todo espectro de atuação, mas aqui, especialmente, evidencia o mais espinhoso, o humorístico.
Os homens que tudo entendem depois das mulheres.
Katherine Hepburn, atriz luminosa transformada em escada para Tracy.
Que altivez ao desfilar tão horríveis figurinos!
E uma grande entrada para Sidney Poitier, sobre quem nem todas as palavras bastariam.