“Madeira e Água”, um filme que se faz sobre duas pernas

O primeiro longa do alemão Jonas Bak, de 36 anos, é um deslumbre fotográfico em 16mm sobre a solidão existencial

A protagonista Anke Bak
vislumbra Hong Kong

Dirigido pelo alemão Jonas Bak, Madeira e Água é um primeiro e poderoso filme, presente agora na 45ª Mostra Internacional de Cinema e anteriormente exibido na seção Perspectivas do Cinema Alemão do Festival de Berlim. Embora a trilha de Brian Eno seja importantíssima para imprimir a sensação de viagem solitária que a obra exige, sua atração mais forte repousa na fotografia do filme em 16mm, a cargo de Alex Grigoras. Protagoniza o longa-metragem a mãe do ator, uma não-atriz, Anke Bak, e outros integrantes da família também compõem o elenco.

Como ficção de estreia, esta não evita o tom autobiográfico enviesado. A Hong Kong que Bak vê durante os conflitos de rua de 2019, iniciados em repúdio a um projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para a China continental, é igualmente a cidade onde viveu, e que, já saudoso, deve abandonar. Ele não discute o conflito das ruas, mas não deixa de visualizar, à distância, sua existência constante, como a romper o equilíbrio de um mundo antigo.

O diretor Jonas Bak

Jonas Bak nasceu em Konstanz, Alemanha, em 1985. Estudou direção no Edinburgh College of Art, na Escócia, e trabalhou como diretor de cinema e fotografia em Londres e Hong Kong. Dirigiu dois curtas, Wanderdrachen (2016) e One and Many (2017), antes que Madeira e Água surgisse.

É bastante viva a imensidão da paisagem em relação ao homem na sua ficção, tão devedora da arte fotográfica de Wim Wenders, cineasta que na entrevista a seguir Bak diz admirar. “Wenders foi um daqueles diretores a me ensinar novas maneiras de ver e admirar filmes, entendê-los mais como uma experiência sensorial do que intelectual.”

Na igreja alemã onde Anke reza
para ter força contra os problemas,
não para pedir por seu fim

A protagonista se aposenta do trabalho, adquirido após a morte do marido, na igreja de sua cidadezinha na Floresta Negra. Anke é religiosa a seu modo. Reza para ter forças de lidar com problemas, não para não ter problemas. Ela está ansiosa para rever a família durante as férias de verão no mar Báltico, mas à última hora, Max, um de seus filhos, não consegue se juntar a seus familiares por causa dos protestos em Hong Kong, onde vive. Sem vê-lo há muitos anos, e depois de um verão passado com as filhas na casa que lhe traz tantas lembranças, Anke decide visitá-lo. O filme ganha sua dimensão simbólica nesta passagem que ela faz, solitária, pelo território estrangeiro, à espera de que o filho, vítima de depressão, volte de uma viagem de negócios. Ela passa os primeiros dias sozinha no exterior, e lá se relaciona com os amigos de Max. A visita a um deles rende-lhe uma leitura filosófica, feita por uma espécie de xamã local. A personalidade de Anke, diz-lhe o chinês, é composta pela mistura de dois elementos, a madeira, relacionada à criatividade e à imaginação, e a água, que busca a filosofia e o conhecimento.

O filme, que busca inspiração na fotografia e na pintura, é profundo ao descortinar paisagens, especialmente do alto, de onde o casario e os prédios parecem ordenar o mundo dos homens. É um filme que vagueia, que se faz com as pernas, como sugere o autor, estas que batem em busca de outras camadas da vida, as profundas e escondidas.

As muitas camadas de paisagem

A seguir, a entrevista que fiz com o diretor.

Este é seu primeiro longa-metragem depois de ter realizado dois curtas. Quais são as principais diferenças entre esses dois formatos para expressar suas ideias?

A principal diferença é que tenho mais tempo e posso realmente moldar o filme com esse tempo que tenho. Talvez tivesse sido possível montar “Madeira e Água” como um curta, mas então estaria perdido tudo o que ficou escondido sob a trama. Os temas mais profundos do filme aparecem quando se passa tempo com a personagem e em sua jornada. Também é possível contemplar mais de um tema em um filme mais longo. Nossas vidas são muito complexas. Podemos atingir um espectro amplo e ir fundo no que significa ser humano a partir dessa duração ampliada.

Hong Kong, o mundo ordenado
a partir de cima

Como nasceu “Madeira e Água”? O tema do filme corresponde de alguma forma à trajetória de sua família?

Nasceu enquanto eu morava em Hong Kong. Eram minha própria alienação cultural, a situação de minha mãe em casa e as mudanças políticas em Hong Kong que eu queria transformar em filme. Usamos muito de nossa própria formação e emoções para contar a história. Senti uma certa saudade de casa. Na vida real, minha mãe passou a morar sozinha e se aposentou um ano depois que terminamos as filmagens, então houve muitos paralelos entre o filme e minha realidade.

O projeto de escrita do seu filme foi modificado durante as filmagens? Ou todo o seu planejamento seguiu o roteiro inicial?

Escrevi um roteiro para a primeira parte do filme na Alemanha e na Dinamarca. E fiz isto principalmente para aprimorar os ensaios com minha mãe. Ela nunca havia atuado antes e precisávamos de algo para trabalhar. Ensaiamos por cerca de um mês e o que você vê no filme está muito próximo do roteiro. Foi um pouco diferente quando filmamos Hong Kong. Escrevi esta parte logo depois de rodarmos a primeira e ensaiamos apenas por alguns dias com os outros atores. Depois, meio que abandonamos o roteiro e abordamos as coisas com mais liberdade. Minha mãe teve confiança para improvisar e se adaptar às mudanças a que a situação em Hong Kong nos lançou. Seguir nossa intuição, mais do que um roteiro, também teve o belo efeito de transformar tudo numa jornada para nós em nossa pequena equipe. Todos nos tornamos parte da história e isso criou uma atração, vivemos nela.

Protestos em Hong Kong,
menção à distância

Você estava em Hong Kong durante os protestos de 2019 para fazer seu filme? Por que escolheu Hong Kong como parte das locações?

Sim, nós filmamos durante os protestos, mas não foi planejado dessa forma. Eu não queria fazer um filme político quando o escrevi pela primeira vez. Os protestos aconteceram e não pudemos evitá-los, eles tomaram conta de toda a cidade naquele período. Escolhi Hong Kong principalmente porque havia morado lá por três anos e sabia que retornaria à Europa. Foi minha despedida de Hong Kong, no sentido positivo. Sinto-me muito nostálgico olhando para aquela época e para a Hong Kong que conheci.

Você gosta de trabalhar com não-atores? Acha que eles possam ser mais naturais, como pensava o neorrealismo italiano?

Alguns dos personagens de Hong Kong são interpretados por atores, mas eu prefiro trabalhar com não-atores. Gosto quando as pessoas interpretam uma versão de si mesmas. Isso me dá autenticidade e a chance de usar sua confiança em quem elas são. Mas depende do projeto. Em um filme tão pessoal, silencioso e contemplativo, vou preferir sempre trabalhar com não-atores. Contudo, em um filme que se baseie no diálogo ou queira se aprofundar na psicologia de um personagem ou relacionamento, eu preferirei atores profissionais.

À volta de um quarto
compartilhado em Hong Kong

Por que você filmou “Madeira e Água” em película?

Nossa abordagem visual foi muito diligente e cuidadosa: posições de câmera fixas e composições fixas, como se estivéssemos tirando fotos. Tirar fotos tem algo de nostálgico, você quer congelar um momento antes que passe. Na primeira parte estão as fotos antigas, são memórias. Depois, há Hong Kong, que muda drasticamente e nunca mais será a mesma, e eu queria preservá-la de alguma forma. O cuidado que você precisa ter ao trabalhar com 16mm enfatiza essa abordagem. E tem uma presença forte na tela grande, parece muito tangível. Em um nível mais prático, dava a tudo uma sensação de ação dentro da vida. Não fomos capazes de filmar 30 tomadas por cena sendo minha mãe uma não-atriz, então tivemos de ser muito cuidadosos ao rodar a câmera. Precisávamos estar certos de que sabíamos o que estávamos fazendo. O digital oferece muitas opções, às vezes.

A fotografia é um espetáculo à parte neste trabalho, em que as cores também ilustram a psicologia dos personagens. Você parece de alguma forma reviver o que os grandes diretores-fotógrafos fizeram, como Wim Wenders ou Michelangelo Antonioni. Qual a importância desses diretores para a sua formação como cineasta? E quais cineastas foram decisivos?

Obrigado por comparar a fotografia do filme àquela de heróis como Wenders e Antonioni. Eu pessoalmente fui fortemente influenciado por Wenders quando estava na escola de cinema e quando fiz meus primeiros curtas-metragens. Ele foi um daqueles diretores a me ensinar novas maneiras de ver e admirar filmes, entendê-los mais como uma experiência sensorial do que intelectual. Eu não tento copiar nenhum outro cineasta, mas pessoas como Chantal Akermann, Angela Schanelec, Tsai Ming Liang, Apitchtpong Weerasetakul, Sharunas Bartas (seu trabalho inicial), Bela Tarr, etc. certamente deixaram uma marca inconsciente em minha forma de abordar os filmes.

Como você e seu diretor de fotografia trabalham? Ele escolhe as locações, por exemplo, ou este é um trabalho que vocês fazem juntos?

Em “Madeira e Água” eu escolhi as locações, porque morava nelas ou em sua proximidade. Passo muito tempo a encontrá-las, é uma das tarefas que mais gosto empreender. Para mim, fazer filmes está em minhas pernas, em sair, ver lugares e conhecer pessoas. Não fizemos um storyboard de antemão e trabalhamos de forma muito colaborativa e intuitiva. 

Na maioria das vezes, tenho algum tipo de ideia de enquadramento que corresponde ao que Alex propõe. Em relação à iluminação, dou carta branca para ele, é muito técnico para mim. Tanto quanto podemos, usamos iluminação artificial mínima e trabalhamos preferencialmente com luz natural. Somos amigos próximos, temos um entendimento mútuo de filmes e estética e trabalharemos juntos no futuro.

Você já trabalhou como fotógrafo? Gosta de investigar o trabalho de grandes nomes neste campo? Por que usou fotos para representar o passado familiar do seu protagonista?

Nunca trabalhei como fotógrafo, mas sempre gostei de tirar fotos analógicas. Meu pai era um fotógrafo afiado e talentoso e sua câmera antiga é uma das coisas que ainda guardo e uso muito. Mas as pinturas sempre me inspiraram mais do que as fotografias. Hopper, Caravaggio, Rembrandt, Hicks, Schikaneder, Ilsted, Schiele, Kiefer etc. têm uma presença tão forte que nos atraem.

Seu filme contribui para a discussão de questões importantes, como depressão, o papel da religião e da família. Ele sugere que o crescimento da depressão no mundo possa estar relacionado à ausência de um sentimento pessoal sobre o sagrado. Em sua opinião, o ser humano está destinado à solidão na sociedade contemporânea?

Muitos fatores contribuem para o aumento das taxas de depressão. Um deles certamente pode ser a perda da crença em algo maior do que nós mesmos e da fé religiosa, em uma vida após a morte. Isso cria um medo do nada, questões sem resposta. Colocamos nós mesmos e o progresso no centro de nossa existência, e isso é perigoso. 

Devemos abraçar nossa solidão e não ter medo dela. Pelo menos, aprender a enfrentá-la e conviver com ela. A solidão é uma parte inevitável do ser humano. A solidão que as estruturas sociais, a pressão social e, por exemplo, a vida na cidade ou a covid impõem sobre nós é de um tipo diferente, contudo. É realmente assustadora, e outro fator importante para o aumento dos problemas de saúde mental.

Sabor local, a sabedoria

MADEIRA E ÁGUA

Diretor: Jonas Bak

Alemanha, França, Hong Kong

2021 cor 79 min. Ficção 

TRAILER: https://vimeo.com/510630323

“Tempo Ruy”, a resistência vital do diretor Ruy Guerra

O primeiro, belo e poético longa-metragem de Adilson Mendes é obra madura sobre um dos mais importantes diretores do Brasil

Ruy Guerra, olhar direto



Cinema sobre cinema. Assim se pode resumir Tempo Ruy, o filme do diretor Adilson Mendes sobre o diretor Ruy Guerra, presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Com montagem de Fábio Costa Menezes e fotografia de Saulo Nicolai e Kae Rodrigues, Adilson Mendes voa como um pássaro poético sobre a trajetória de um relegado da historiografia, o moçambicano tornado brasileiro pelo cinema Ruy Guerra. É seu primeiro longa-metragem, mas nem parece.

O diretor de “Tempo Ruy”,
Adilson Mendes

Historiador formado na Unesp, com habilitação em cinema pela USP, Mendes aprofundou-se em curadoria e história, com ênfase em história do cinema e patrimônio audiovisual. Foi pesquisador da Cinemateca Brasileira, onde trabalhou em curadorias, edições e restaurações. Organizou o livro Ruy Guerra – Arte e Revolução e na 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no ano passado, ministrou, ao lado de Ruy Guerra, o curso on-line “O Trabalho de Ruy Guerra”. Sua única obra anterior como cineasta foi o curta Eu Posso Ir.

Mendes conheceu Ruy Guerra quando participou da equipe da Cinemateca responsável pela restauração de Os Fuzis, uma obra-prima brasileira possivelmente sem pares. A crise de 2013, que atingiu a instituição, impediu a finalização do restauro. E Mendes foi a pessoa encarregada de viajar até o Rio para contar isso a Ruy Guerra. “Dei sorte e nosso santo bateu. E na pandemia estreitamos os laços”, ele conta.

O filme foi rodado durante a pandemia naquele pedaço de mundo onde Guerra vive ao lado de seu enfermeiro, Gerônimo Quirino, um personagem apresentado em sequência memorável. É como se, por meio dela, estivesse ilustrada a própria trajetória atlântica de Guerra rumo à pasárgada brasileira, onde, misturado à paisagem e seus desígnios, o moçambicano escolheu aplicar as lições de cinema que primeiro aprendeu com os franceses.

Em seu recolhimento, com humor

Ruy Guerra fala e pontua bem o que diz, como se o tempo realmente lhe pertencesse. Autor de livros, poemas e canção popular, ele lê por todo o filme. Tem o mau humor divertido e no seu coração não parece haver rancor nem mesmo por Glauber Rocha, que rompeu com ele por imaginá-lo espião da ditadura portuguesa, ou algo nesta linha sem sentido. Mas Guerra, como bem recorda, despediu-se dele em funeral.

O filme persiste em imagens litorâneas estendidas, em reflexos e sombras do cinema mudo, e todo o tempo parece encenar um sereno adeus. 

Um cineasta reconhece outro e, aos 90 anos de idade, Guerra diz a Mendes que demora a morrer. Isto, como é de supor, o faz presenciar a perda um a um de todos os grandes amigos, como Gabriel García Márquez, de quem diz se lembrar todos os dias. Ele suspeita que esta seja a maneira que a vida encontrou de lhe dizer que talvez seja possível perdê-la sem lamentar. Mas Guerra, indiferente ao que o tempo rui, sempre preferirá viver um pouco mais. 

A seguir, as respostas que Adilson Mendes deu às minhas perguntas:

Como se deram as conversas para a realização deste filme?

O convívio diário com Ruy Guerra durante a pandemia fez com que ficássemos amigos e a ideia do filme surgiu como forma de ajudá-lo a existir durante esse período difícil. A amizade forte permitiu a liberdade criativa.

Sentiu necessidade de procurar outros personagens envolvidos em sua história? Ou ele lhe pediu que se concentrasse apenas em seus depoimentos e cartas?

Achei que seria apropriado fazer um filme huis clos com ele em sua casa. Um caso isolado com possibilidade de generalização. Uma estrela solitária capaz de iluminar uma constelação inteira: a cultura brasileira, que agora está sendo tragada por uma nebulosa. E o brilho de Ruy é a resistência vital.

Me fale um pouco sobre a escolha da trilha musical, que me parece tão acertada, ao intensificar as passagens, os belos travellings.

A trilha é fruto do enorme talento de Dino Vicente. O trabalho dele foi fundamental para a estruturação do filme. O título do filme traz a palavra “tempo” no sentido musical. Por isso, a música deu ossatura à massa gelatinosa das imagens e da voz de Ruy.

Esse seu estilo de documentário, que explica sem se detalhar ou identificar (como acontece numa emocionante sequência em câmera lenta em torno do enfermeiro de Guerra, e pode indicar, além da fragilidade física do diretor, sua trajetória afro-atlântica), foi desenvolvido a partir do interesse em documentários específicos? Quem são os documentaristas que mais lhe influenciam?

Durante a década e meia em que trabalhei na Cinemateca mergulhei na história do cinema. E certamente a tradição documental me marcou, especialmente a de Georges Franju, que também marcou demais a sensibilidade de Ruy.

Manancial inesgotável

Como você vê Ruy Guerra no panorama do cinema brasileiro? Crê que ele não foi suficientemente visto ou valorizado? Quais são os filmes essenciais da cinematografia dele, a seu ver, e por quê?

Ruy é manancial inesgotável. Sua coragem de se renovar a cada filme é inspiradora para qualquer cineasta que queira fazer um cinema de combate. Para mim, Ruy é o autor do único filme brasileiro: Os Fuzis. Quando observamos a fortuna crítica de Ruy, notamos que sua obra repercutiu mais na França do que no Brasil. Os clássicos da historiografia do cinema moderno o ignoram ou passam rápido por ele, sempre reproduzindo o belíssimo texto de Roberto Schwarz sobre Os Fuzis, “O cinema e Os fuzis”, de 1966.

Tem um próximo projeto cinematográfico do qual possa me falar?

No momento desenvolvo alguns outros filmes, ficção e documentário. O mais avançado, que sairá no começo de 2022, trata da entrada do MST no mercado financeiro.

Adilson Mendes, com o MST
para o próximo filme

TEMPO RUY

Diretor: Adilson Mendes

Brasil

2021   cor   72 min.   

Documentário

A tríade emotiva

Na foto em que Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Federico Fellini aparecem juntos, um Monte Rushmore do cinema se descortina

Tenho algo a comentar sobre esta foto, cujo autor infelizmente desconheço, na qual Vittorio De Sica (1901-1974), Roberto Rossellini (1906-1977) e Federico Fellini (1920-1993) estão reunidos.

Acho a imagem estonteante por muitas razões. A principal entre elas, para além da ausência de mulheres diretoras (sendo que a aurora do cinema dramático foi feminina, também na Itália), é o fato de que De Sica seja a figura referencial entre os três.

Fala-se muito em Rossellini e Fellini como pais fundadores de um novo cinema de autor, mas quem dá ainda hoje a De Sica algum reconhecimento nesse campo?

Claro que isto nem sempre aconteceu assim…

Embora tendo sido o criador do cinema moderno, um diretor de onde tudo partiu, até hoje insuperável como talento individual, Rossellini olha para De Sica como quem tem a aprender. Com muito amor, eu diria.

De Sica era bem maior que Rossellini, ao menos como personalidade célebre, na época simultânea em que os dois surgiram como diretores de primeira ordem de longas-metragens ficcionais. De Sica havia atuado no teatro e sido galã das primeiras comédias realistas do cinema italiano, com Mario Camerini. E Rossellini, que jamais havia adentrado esse seu mundo, respeitava o ideário social e a naturalidade da atuação deste homem, a quem chamou para protagonista em “Generale della Rovere” (De Crápula a Herói, 1959).

Nada que De Sica tivesse feito (e ele na vida precisou driblar até mesmo Goebbels, que o queria cineasta na Alemanha, e nesse processo o diretor salvou muitos profissionais condenados do cinema, algo que posso comentar aqui depois) era menor para Rossellini.

Por sua vez, Rossellini teve um diretor-assistente chamado Fellini que, embora fosse sua aposta de futuro, um dia o decepcionou. Essa mania de Fellini de comentar tudo sob uma perspectiva pessoal de criança impressionável não agradava Rossellini, assim como era detestada por Mario Monicelli, seu discípulo torto na commedia all’italiana…

Então, para voltar à foto, De Sica era amado por Rossellini, que no entanto a essa altura tinha dificuldades com Fellini, uma figura auto-alijada da vasta busca neorrealista (e neste sentido Rossellini seria um pouco como Freud e Fellini, como seu discípulo Jung).

Fellini olha De Sica protegendo-se ou não? Além disso, De Sica um dia disse não a Fellini, que no filme “Os Boas Vidas” (I Vitelloni, 1953) o queria no papel de um diretor de teatro homossexual…

Não é demais imaginar tudo isto resumido numa fotografia?
O registro de um monte Rushmore, no entanto cheio de sutilezas e farpas não visíveis, mas, ainda assim, perceptíveis?

Mania de chover

Ontem a caminho de Pinheiros, o mausoléu…

Ganhei um resfriado forte.
E os quilos a mais, já venho ganhando faz tempo.
Estas teriam sido duas boas razões a impedir minha saída de casa nessa chuva para ver… pessoas.
Mas mesmo assim saí.
Eu havia me prometido assistir ao show de Saulo Duarte, Anaïs Sylla, Victoria dos Santos e Caê Rolfsen que reabriria o Bona, casa-restaurante de Pinheiros.
Fui e ainda bem.
Que delícia de show, dê uma olhadinha.

Palhinha de show


Eles são talentos muito diferentes e juntos se parecem com amigos de infância.
Um pouco acanhados com aquela rentrée, talvez?


Já eu sou acanhada sempre.
E na casa de show me senti a mais velha das criaturas.
Porque ainda por cima vocês me enganaram.
Ninguém deixou de pintar o cabelo na pandemia, não…
A certa altura fui apresentada à grande Anaïs e só me ocorreu dizer “prazer”, como se eu fosse a tia da secretaria recebendo a estudante nova.
Não sei se vocês já assistiram ao Seinfeld, mas às vezes eu tenho o sentimento de inadequação do George Costanza e quero consertar as bobagens que fiz rápida e transtornadamente, como ele.
Contudo, nesta noite, nem me mexi.
A gente se desabitua à vida, sabe?
E de máscara, se não nos conhecem, não existimos.

Lotar realmente é uma
qualidade, certo?


Pra ser sincera, fiquei temerosa mesmo foi com o tanto de gente pra ver o show.
Mas dominei o pânico.
Quando saí de lá, de quebra, pude ver pela janela do uber a coisa estranha que Pinheiros vem se tornando.
O que é aquele canteiro de obras concorrentes ao maior paliteiro do mundo?
Paliteiro não…
Está mais pra mausoléu.
Obrigada pela atenção, mores, e parabéns a vocês que permanecem em casa escondidinhos de todo mal, amém.

“Armugan”, um sol de cinzas

O filme fabular e fantástico de Jo Sol, incluído na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é um raro exemplar de apego à aventura cinematográfica

Armugan, hora decisiva

A vida confunde tudo. Faz do fim, o começo. E só a morte parece curá-la.

Eis as verdades que este diretor catalão não teme dizer. Aos 52 anos, Jordi Solé, o Jo Sol, reza por um antigo testamento do cinema. Fazer um filme, e ele vem dirigindo longas-metragens por duas décadas, parece-lhe uma aventura necessária e franca, a exigir sempre um novo risco.

Seu longa Armugan, presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, nasceu depois de Sol ter trabalhado com Íñigo Martínez em um filme para a tevê. Ator e bailarino de dança inclusiva que vive entre os palcos alemães e os de Barcelona, onde se formou, Martínez acendeu a imaginação fantástica de Sol. Em 2017, o cineasta ofereceu-lhe o papel de protagonista no filme que imaginara, sobre um homem que ajuda os outros a morrer nos Pirineus.

De início, Martínez hesitou. Era tudo muito estranho. “Eu teria de chegar até aquelas montanhas em minha cadeira de rodas e, por seis semanas de filmagens, deveria simplesmente deixá-la de lado”. Pesava a favor de Sol que Martínez o conhecesse bem e lhe tivesse amizade, confiança. Mas a tranquilidade só veio mesmo depois da leitura do roteiro. O ator aceitaria interpretar aquele ser que encaminhava os moribundos à morte. E o faria de forma espetacular, quase sem proferir as difíceis palavras do dialeto aragonês.

Entregue a Anchel,
que o carrega nas costas

Durante todo o filme, Armugan está agarrado a Anchel, o personagem vivido por Gonzalo Cunill. Anchel, que às vezes evoca, em aparência física, o Antonio das Mortes de Mauricio do Valle, carrega-o nas costas até as casas onde estarão as famílias ansiosamente à espera. Só Armugan sabe qual será a hora decisiva, como um espírito religioso saberia. A certa altura do filme, contudo, Anchel o provoca a decidir pela morte de quem pede por ela. Mas como Armugan faria isso? Embora saiba a hora certa em que todos vão morrer, ele não tira a vida de ninguém.

A atuação de Martínez é concentrada. Seu corpo, extenuante morada, é também seu infortúnio. Sol filma em preto e branco. Está sempre muito próximo dos personagens, até de Armugan com suas ovelhas, mas não exige diálogos extensos dos atores. É extraordinária a qualidade da montagem que faz a história andar. E inacreditável a locação escolhida no topo das montanhas. Grandeza e simplicidade caminham juntos neste filme em que o desafio está implícito: o sol e a morte são duas coisas que não contemplamos sem piscar.

Jo Sol, pela aventura do cinema

ARMUGAN

Direção: Jo Sol

Espanha

2020, p&b, 90 min.

Ficção

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=-F0Ky82Xf5E

Nem Paris, nem Texas: “Pegando a estrada” revive um cinema

O primeiro longa-metragem de Panah Panahi, presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, rompe as regras do filme estático contemporâneo ao explorar a jornada de um jovem em formação

Infância, um lugar para a música

Um jovem dirige o carro no qual viajam seu pai, sua mãe, seu irmão mais novo e o cachorro da família. Ele precisa alcançar a fronteira e atravessá-la, para então viver sozinho do outro lado. Mas de que modo irá viver sem ninguém, se é tão imaturo? Principalmente, por que tamanha peripécia familiar para que se vá? Se você assistir a este longa-metragem sem saber que se trata da primeira realização cinematográfica de Panah Panahi, o filho de 37 anos do grande Jafar Panahi, diretor desterrado do cinema pelo governo do Irã em 2010, talvez o entenda parcialmente. De qualquer forma, estará diante de um belo filme com extenso arco emocional, este que admitirá até mesmo a presença do humor.

Eis um longa que mereceria ser incluído em todas as redes de streaming popular. Porque é acessível sendo ainda bom cinema, não um arremedo de telenovela brasileira baseado no jogo infinito entre campo e contracampo, a partir de enfadonhos planos médios e closes. Panah Panahi tem o controle da história e a fotografia de Amin Jafari é sempre clara, seja dia ou seja noite, de modo a fabular com nitidez a psicologia dos personagens. Os atores têm enorme carisma e beleza. Suas máscaras são acionadas tão perfeitamente que nos esquecemos de que interpretam papeis. Eles existem sem contestação dentro da verdade do filme.

A fotografia de uma fabulosa paisagem

Em poucos minutos iniciais nos quais apenas o caçula aceso fala sem parar, conhecemos todas as circunstâncias que orientarão a história. Para isso, o diretor se encarregará de condensar o Oriente em sua iconografia icônica. As montanhas parecerão pintadas, a estrada se alongará, o carro acessará os mundos interiores e exteriores, a religiosidade se introjetará nas canções e observações, o velho venderá pele de carneiro, a mulher espirituosa também será a mãe devota e o pai terá um mau humor divertido, que se desinteressará das convenções. Seremos jogados para o contexto no qual os personagens funcionarão com muita intensidade e leveza, se isto é uma coisa que se possa conceber simultaneamente. Até mesmo sentiremos vontade de conhecer esse recanto do mundo tão isolado pela intolerância, que sempre antes nos causara temor.

É coisa rara nestes dias, mas o diretor pratica a beleza do movimento, marca do cinema de antes, de Douglas Sirk a Wim Wenders. O filme deste Panahi também é musical, um “Paris, Texas” que corre pela imensidão habitada, mas às avessas. A questão do filho, do que fazer com ele, é também central. Mas o filho aqui não está abandonado, antes deseja se descolar dos pais, existir por si próprio, embora não pareça reunir ainda condições para tal. “Você fuma muitos cigarros vendo filmes”, diz-lhe a mãe. “Veja menos filmes”.

“Veja menos filmes”

É muito engenhosa a resolução dramática da figura filial. O personagem do filho, que imaginamos ser uma referência do cineasta a si em relação a sua família, a seu pai, vê-se construído numa convergência entre dois personagens, a criança e o jovem. O filho criança é brilhante, o filho jovem, opaco e comicamente inseguro. Dois meninos representam um. Mas como não se tornar progressivamente inseguro para se lançar no cinema se seu pai é Jafar Panahi? E há o cão. O cão está à morte. O cão é a alma de todos que se despedaça para que a jornada de herói do filho possa enfim começar.

Diante do herói

É um filme radioso, brilhante, também porque não se apega às convenções do que deva ser o cinema de arte contemporâneo. Vencedor do Festival de Londres, ele não paralisa as atuações à toa, não abusa da cinemafotografia sem movimento, que se insere apenas quando o diretor quer destacar uma estranheza, uma profundidade. Este cinema que não teme ser cinema paga sem temor um tributo à arte estadunidense, embora ironize o país (e os amantes do país) por meio de uma deliciosa piada em torno do ciclista Lance Armstrong. É um filme para ver, rever, mergulhar e cantar.

Panah Panahi, um
grande primeiro filme

Pegando a Estrada

(“Hit the Road”, “Jaddeh Khaki”)


Direção: Panah Panahi

cor, 93 min. 

Ficção

Irã

2021 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=13S–yt8esA

Totò e a razão do humor

O Totò que dava de comer a Antonio de Curtis…
… e o nobre de
elegância
senhorial

Eu observo uma coisa aqui. Uma interpretação muito literal, às vezes amarga, das falas dos artistas que reproduzo. Então queria esclarecer uma coisa a vocês. Muitas das minhas postagens, exceto talvez as bobagens que adoro, memes pra rir, são pensadas para que a gente consiga fugir ao óbvio, ao conhecido sobre qualquer assunto da vida ou da arte. Não gosto muito de postar o sabido, embora poste também.

Dou como exemplo a fala provocativa de Totò sobre a idade. Da morte, ele não tinha medo. Mas achava algo bom em envelhecer?

Não, não tenho medo de morrer. A morte é uma coisa natural e temê-la me parece tolice. Eu, a primeira coisa que fiz quando ganhei um dinheirinho foi comprar uma capela em Nápoles. Morto, vou morar lá. Já existe o túmulo e nele estão gravados a data de nascimento e o meu nome. O dia da morte está em branco.

Não, eu não me importo de morrer. Eu me importo, isso sim, de envelhecer. É tudo o que me incomoda. Que drama sentir-se jovem e depois, no espelho, ver um rosto cheio de rugas, uma cabeça de cabelos grisalhos… Jesus! Que nojo!

O que diz você?! Maturidade?! Não, não, minha linda: não pense que me encanta com seus discursos sobre a maturidade. Eu gostaria de ser imaturo e ter 18 anos. O quê? Pobreza?! Não dou a mínima. Eu gostaria de ser pobre e ter 16 anos. Dezesseis não! Quinze. Treze. Nove!

Concordo em parte com Totò. Acho lindos os velhos, sua independência de aceitação, e amo fotografá-los, mas ainda não me acostumei comigo nessa condição. Sinceramente não acho muita graça em envelhecer. Sofro de dores nas costas, prudência.

Mas tudo chegou a ser pior na minha juventude. Quando eu era jovem, por me achar horrível fisicamente, vivia escondida. E não ia aos bailes por uma razão: os meninos não me tiravam pra dançar. Século 20, meus amores, e as meninas se sujeitavam a isso, pobrezinhas! Eis por que a maldade que retribuíam era negar a dança com os feios ou desajeitados… Não eu, que não podia me dar esse luxo, certo?

Hoje acho que fui um tanto má comigo mesma sob esse aspecto da beleza. Mas me perdoo. A feiúra que eu via em mim era real, porque guardava relação com a norma. E eu estava fora dela. Era magra e alta demais, tinha sono psicológico o tempo todo, tanta vergonha do corpo que o escondia, meu cabelo não era abundante e liso, o nariz parecia achatado, os dedos, não suficientemente longos… Tão brasileira, não é? Deveria ter sabido me valorizar, mas eu estudava em colégio alemão.

Hoje me sinto um tanto liberta, ou em processo de aprendizado sobre a liberdade dos velhos. E enquanto a beleza desaparece, é curioso como procuro destacá-la de algum jeito. Minha busca, nos autorretratos, é por qualquer detalhe físico que possa me fazer gostar de mim. Não se trata de vaidade, portanto, antes de um exercício de afeição. Quem mais temos para gostar de nós como somos, além de nós mesmos?

Acreditem ou não, Totò, o Antonio de Curtis, buscava a perfeição física. Enfeitava-se todo quando andava por aí e era de uma elegância senhorial. Eis por que não queria envelhecer. Porque sua busca pessoal representava um desafio.

Porém, quando reproduzo o que ele dizia sobre a velhice, nem penso na velhice da vida, mas da arte. Meu propósito com o post é mostrar como funcionava um aspecto da personalidade cômica do artista. Naturalmente, a interpretação do que posto é de todo livre. Digo apenas que tive um propósito com a publicação.

Antonio de Curtis vivia cindido entre a persona popular e a íntima. Ele achava que Totò era seu funcionário amado, que lhe dava de comer. Mas pessoalmente fazia questão de se comportar como um nobre. Achava que era aristocrata por direito e provou essa condição em cartório. É o que procuro desenvolver naquele meu capítulo em “Além do riso”, aliás. Totò era a contradição o tempo todo, uma das razões para seu enorme talento.

Então, quando ele falava em ter nojo da velhice e de seus cabelos brancos, também falava do papel do artista. O cômico tem de ser necessariamente jovem, assim como o fotógrafo de rua, a meu ver (o fotógrafo Bruce Gilden disse: “A fotografia de rua é basicamente um jogo de juventude. E agora sou mais velho, tenho 74 anos. Não posso descer tanto, mas não mudei: ainda estou interessado em tirar o mesmo tipo de foto que sempre tirei.”)

E por que jovem? Porque o humorista capta a contradição no ar. Só ela faz o efeito humorístico aparecer. Então, o paradoxo tem a ver com o deslocamento do usual, com a surpresa. Se você é velho nesse sentido, se só busca o conhecido e aceito por todos, esqueça de ser humorista. Totò queria ser jovem – e no trecho acima fala de ser jovem como uma criança de 9! – porque só assim saberia fazer o outro rir.

E rir pra quê, mesmo?

No caso de Totò, para nada além de sobreviver à miséria humana.

Quando o SUS é o melhor do dia…

Dormi mal. Tenho dormido assim há alguns anos. E ontem ainda tive uns dissabores, pequenos mas decisivos, que confundiram meu sono ainda mais. Me incomoda tanto a falta de graciosidade, de delicadeza por parte de pessoas adultas, que vocês nem calculam… O corpo estremece todo, como se chorasse. Mas não tenho direito de reclamar, pois, como sabemos, tantas coisas piores estão em curso.

E, felizmente, as melhores também.

Hoje de manhã, por exemplo, ainda com muito sono, fui informada de que duas agentes do SUS estavam à minha espera na portaria do prédio. Desci com a rapidez possível, com meu descabelo, e quase as abracei, como fazia antes.

As duas vieram especialmente para me entregar um formulário de agendamento da mamografia. Desde que a pandemia começou não vou a médicos, explico a uma delas, a mais inconformada com meu afastamento das rotinas. Claro, fui ao ortopedista e ao oftalmo em duas emergências, fiz exame num hospital lotado e acompanhei meu filho num procedimento. Só isso. “Mas na sua idade”, pareciam me responder…

Enfim, também me convidaram ao papanicolau sábado, dia em que será possível submeter-se ao exame na UBS sem marcação.

Essa preocupação comigo, não me acostumo… E no entanto é tão emocionante, tão procedente no nosso grande país.

Viva o SUS, como se diz, viva o Brasil.

Que estes dois possam novamente existir.

A pandemia não acabou, pois é

As pessoas não pararam de morrer de covid.
Mas pouca gente se liga nisso.
Eu tenho sempre de repetir: meu amigo, a pandemia não acabou!
Porque só ouço som de festa o tempo todo, só vejo gente amontoada sem máscara no caminho pro mercado.
Enquanto isso, muitas das minhas queridas pessoas, isoladas e vacinadas, contaminam-se de novo.
Entre essas, grandes, enormes pessoas com quem eu aprendia todos os dias, vão-se como pó.
Eu não sei mais o que pensar e, privilegiada do jeito que sou, não tenho pra onde ir.
Fico com aquele choro no olho que não rola pelas bochechas.
Eu sou contida, sou durona pra viver, mas isso tudo…
Ainda bem que ontem saí e bebi vinho num lugar aberto.
Ri!
Fazia muito tempo que não ria ao ar livre.
Ganhei um pouquinho de força, e ainda bem.
Porque hoje tudo recomeçou daquele jeito.
Porque ainda não tiramos esse assassino e seus ministros genocidas daquele ponto onde estão.
Porque estamos sozinhos nessa ilha de alucinados, olhando pelo buraco os fantasmas de pé.

Os meninos por detrás

Quase não saio de casa, e não culpo a pandemia por isso.
Tenho vivido e trabalhado sozinha faz cinco anos, longe da malandragem das ruas, essa da qual me dou conta apenas quando fotografo.
Antes da catástrofe virótica, só descia pela avenida onde moro por ocasião de biblioteca, exposição, filmes (raramente), festa e show, ainda assim, levada por convites.
E agora que os poderes municipais não se decidem a abrir as bibliotecas, que as exposições são raras e não há festa ou show possíveis (mas logo haverá), saio menos ainda.
Livros, filmes, pra que vos quero comigo?!
Mas hoje tive de pegar remédio numa farmácia de manipulação aqui do centro, mais barata que as outras, e me encapotei.
Deu tudo certo na farmácia, razão pela qual, no caminho de volta, decidi aproveitar que estava na rua para comprar o papel higiênico que faltava.
Parei num desses mercados expressos sem segurança na porta – muitos deles espalhados pelo centro, para o inferno dos empregados.
E entrei.
Entrei porque a pão-durice desses donos me enche da paz que os pobres funcionários não têm.
Minha paz reside no fato de que ninguém vai morrer, negro nenhum, nas mãos de um segurança no porão, porque se trata de mercados essencialmente inseguros, sem capatazes.
Tão feliz por isso!
Mas triste por só ter felicidade nesses momentos.
No mercado da rua 24 de Maio, você fica de costas pra rua quando vai digitar seu código de cartão.
E eu não me dei conta de que, uma vez de costas para tudo, sou colocada no centro das ocorrências.
Porque foi nesse momento que o menino entrou.
Tinha uns 16 anos aparentando 13, gorro de lã na cabeça, casaquinho demais para um dia até quente.
Negro.

– Tia, me deixa levar café?


O mercado é mais barato que os outros, pensei. Café por dez reais?

– Deixo.


Ele então salta feito louco pelos corredores, entremeando os clientes, mas demora mais do que a fila aguenta pra voltar.
Enquanto pago minha conta ele chega esbaforido com o café. Mas não só com o café. Com o óleo de milho também.
Vejo que ele é magro e se agita – está claro que quer sair dali correndo.

– Eita, menino, você não falou que era só o café? – pergunto.

– Eu sei, tia… Mas o óleo! – me diz, como quem faz um xis com o canivete.
O óleo fecha meus olhos.
O caixa me pergunta:

– Quer que eu tire?
E eu digo rápido que não.
O menino é tão pequeno e magro. Deve sustentar a família com esses serpenteios.
Penso que vim ao mercado pra economizar, mas que não tenho esse direito.
Se saí à rua, penso, preciso pagar por isso.
Pouco tempo antes, no caixa eletrônico, uma mulher branca com cara de crente havia enfiado uma pasta de limão no meu nariz exigindo que eu comprasse a gosma para a limpeza doméstica – e eu precisei gritar pra ela que não limpo minha casa todo dia.

– Leva, menino.
Ele nem se virou pra mim.

– Me dá uma sacola? – pediu ao caixa, que lhe deu o que pedia resignado, sem me cobrar.

– Deus abençoe, tia!
Garrafinha de óleo: 12 reais.
Café: 11.
Eu não fiz nada, nem queria ter feito nada, não tive rapidez de ação pra decidir coisa alguma, não conheço todos os truques dessas crianças trabalhadoras do dia, mas talvez tenha salvado o menino.
O menino e todos os meninos que andam ali por detrás.