“Tempo Ruy”, a resistência vital do diretor Ruy Guerra

O primeiro, belo e poético longa-metragem de Adilson Mendes é obra madura sobre um dos mais importantes diretores do Brasil

Ruy Guerra, olhar direto



Cinema sobre cinema. Assim se pode resumir Tempo Ruy, o filme do diretor Adilson Mendes sobre o diretor Ruy Guerra, presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Com montagem de Fábio Costa Menezes e fotografia de Saulo Nicolai e Kae Rodrigues, Adilson Mendes voa como um pássaro poético sobre a trajetória de um relegado da historiografia, o moçambicano tornado brasileiro pelo cinema Ruy Guerra. É seu primeiro longa-metragem, mas nem parece.

O diretor de “Tempo Ruy”,
Adilson Mendes

Historiador formado na Unesp, com habilitação em cinema pela USP, Mendes aprofundou-se em curadoria e história, com ênfase em história do cinema e patrimônio audiovisual. Foi pesquisador da Cinemateca Brasileira, onde trabalhou em curadorias, edições e restaurações. Organizou o livro Ruy Guerra – Arte e Revolução e na 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no ano passado, ministrou, ao lado de Ruy Guerra, o curso on-line “O Trabalho de Ruy Guerra”. Sua única obra anterior como cineasta foi o curta Eu Posso Ir.

Mendes conheceu Ruy Guerra quando participou da equipe da Cinemateca responsável pela restauração de Os Fuzis, uma obra-prima brasileira possivelmente sem pares. A crise de 2013, que atingiu a instituição, impediu a finalização do restauro. E Mendes foi a pessoa encarregada de viajar até o Rio para contar isso a Ruy Guerra. “Dei sorte e nosso santo bateu. E na pandemia estreitamos os laços”, ele conta.

O filme foi rodado durante a pandemia naquele pedaço de mundo onde Guerra vive ao lado de seu enfermeiro, Gerônimo Quirino, um personagem apresentado em sequência memorável. É como se, por meio dela, estivesse ilustrada a própria trajetória atlântica de Guerra rumo à pasárgada brasileira, onde, misturado à paisagem e seus desígnios, o moçambicano escolheu aplicar as lições de cinema que primeiro aprendeu com os franceses.

Em seu recolhimento, com humor

Ruy Guerra fala e pontua bem o que diz, como se o tempo realmente lhe pertencesse. Autor de livros, poemas e canção popular, ele lê por todo o filme. Tem o mau humor divertido e no seu coração não parece haver rancor nem mesmo por Glauber Rocha, que rompeu com ele por imaginá-lo espião da ditadura portuguesa, ou algo nesta linha sem sentido. Mas Guerra, como bem recorda, despediu-se dele em funeral.

O filme persiste em imagens litorâneas estendidas, em reflexos e sombras do cinema mudo, e todo o tempo parece encenar um sereno adeus. 

Um cineasta reconhece outro e, aos 90 anos de idade, Guerra diz a Mendes que demora a morrer. Isto, como é de supor, o faz presenciar a perda um a um de todos os grandes amigos, como Gabriel García Márquez, de quem diz se lembrar todos os dias. Ele suspeita que esta seja a maneira que a vida encontrou de lhe dizer que talvez seja possível perdê-la sem lamentar. Mas Guerra, indiferente ao que o tempo rui, sempre preferirá viver um pouco mais. 

A seguir, as respostas que Adilson Mendes deu às minhas perguntas:

Como se deram as conversas para a realização deste filme?

O convívio diário com Ruy Guerra durante a pandemia fez com que ficássemos amigos e a ideia do filme surgiu como forma de ajudá-lo a existir durante esse período difícil. A amizade forte permitiu a liberdade criativa.

Sentiu necessidade de procurar outros personagens envolvidos em sua história? Ou ele lhe pediu que se concentrasse apenas em seus depoimentos e cartas?

Achei que seria apropriado fazer um filme huis clos com ele em sua casa. Um caso isolado com possibilidade de generalização. Uma estrela solitária capaz de iluminar uma constelação inteira: a cultura brasileira, que agora está sendo tragada por uma nebulosa. E o brilho de Ruy é a resistência vital.

Me fale um pouco sobre a escolha da trilha musical, que me parece tão acertada, ao intensificar as passagens, os belos travellings.

A trilha é fruto do enorme talento de Dino Vicente. O trabalho dele foi fundamental para a estruturação do filme. O título do filme traz a palavra “tempo” no sentido musical. Por isso, a música deu ossatura à massa gelatinosa das imagens e da voz de Ruy.

Esse seu estilo de documentário, que explica sem se detalhar ou identificar (como acontece numa emocionante sequência em câmera lenta em torno do enfermeiro de Guerra, e pode indicar, além da fragilidade física do diretor, sua trajetória afro-atlântica), foi desenvolvido a partir do interesse em documentários específicos? Quem são os documentaristas que mais lhe influenciam?

Durante a década e meia em que trabalhei na Cinemateca mergulhei na história do cinema. E certamente a tradição documental me marcou, especialmente a de Georges Franju, que também marcou demais a sensibilidade de Ruy.

Manancial inesgotável

Como você vê Ruy Guerra no panorama do cinema brasileiro? Crê que ele não foi suficientemente visto ou valorizado? Quais são os filmes essenciais da cinematografia dele, a seu ver, e por quê?

Ruy é manancial inesgotável. Sua coragem de se renovar a cada filme é inspiradora para qualquer cineasta que queira fazer um cinema de combate. Para mim, Ruy é o autor do único filme brasileiro: Os Fuzis. Quando observamos a fortuna crítica de Ruy, notamos que sua obra repercutiu mais na França do que no Brasil. Os clássicos da historiografia do cinema moderno o ignoram ou passam rápido por ele, sempre reproduzindo o belíssimo texto de Roberto Schwarz sobre Os Fuzis, “O cinema e Os fuzis”, de 1966.

Tem um próximo projeto cinematográfico do qual possa me falar?

No momento desenvolvo alguns outros filmes, ficção e documentário. O mais avançado, que sairá no começo de 2022, trata da entrada do MST no mercado financeiro.

Adilson Mendes, com o MST
para o próximo filme

TEMPO RUY

Diretor: Adilson Mendes

Brasil

2021   cor   72 min.   

Documentário

DESTINO

Para viver, preciso dos
enfeites multiplicados,
dos retratos
de autoengano
vingando dores antigas.
O tempo me arredonda
ruim.
Não dorme ao meu lado,
o tempo.
Ele percorre outras moradas elegantes,
destrói os acertos que ingenuamente colecionei.
Contra o grande aniquilador,
no entanto,
resta meu olhar,
que procura o seu até o fim.

A tríade emotiva

Na foto em que Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Federico Fellini aparecem juntos, um Monte Rushmore do cinema se descortina

Tenho algo a comentar sobre esta foto, cujo autor infelizmente desconheço, na qual Vittorio De Sica (1901-1974), Roberto Rossellini (1906-1977) e Federico Fellini (1920-1993) estão reunidos.

Acho a imagem estonteante por muitas razões. A principal entre elas, para além da ausência de mulheres diretoras (sendo que a aurora do cinema dramático foi feminina, também na Itália), é o fato de que De Sica seja a figura referencial entre os três.

Fala-se muito em Rossellini e Fellini como pais fundadores de um novo cinema de autor, mas quem dá ainda hoje a De Sica algum reconhecimento nesse campo?

Claro que isto nem sempre aconteceu assim…

Embora tendo sido o criador do cinema moderno, um diretor de onde tudo partiu, até hoje insuperável como talento individual, Rossellini olha para De Sica como quem tem a aprender. Com muito amor, eu diria.

De Sica era bem maior que Rossellini, ao menos como personalidade célebre, na época simultânea em que os dois surgiram como diretores de primeira ordem de longas-metragens ficcionais. De Sica havia atuado no teatro e sido galã das primeiras comédias realistas do cinema italiano, com Mario Camerini. E Rossellini, que jamais havia adentrado esse seu mundo, respeitava o ideário social e a naturalidade da atuação deste homem, a quem chamou para protagonista em “Generale della Rovere” (De Crápula a Herói, 1959).

Nada que De Sica tivesse feito (e ele na vida precisou driblar até mesmo Goebbels, que o queria cineasta na Alemanha, e nesse processo o diretor salvou muitos profissionais condenados do cinema, algo que posso comentar aqui depois) era menor para Rossellini.

Por sua vez, Rossellini teve um diretor-assistente chamado Fellini que, embora fosse sua aposta de futuro, um dia o decepcionou. Essa mania de Fellini de comentar tudo sob uma perspectiva pessoal de criança impressionável não agradava Rossellini, assim como era detestada por Mario Monicelli, seu discípulo torto na commedia all’italiana…

Então, para voltar à foto, De Sica era amado por Rossellini, que no entanto a essa altura tinha dificuldades com Fellini, uma figura auto-alijada da vasta busca neorrealista (e neste sentido Rossellini seria um pouco como Freud e Fellini, como seu discípulo Jung).

Fellini olha De Sica protegendo-se ou não? Além disso, De Sica um dia disse não a Fellini, que no filme “Os Boas Vidas” (I Vitelloni, 1953) o queria no papel de um diretor de teatro homossexual…

Não é demais imaginar tudo isto resumido numa fotografia?
O registro de um monte Rushmore, no entanto cheio de sutilezas e farpas não visíveis, mas, ainda assim, perceptíveis?

Bar Fel, no Copan? Nunca mais

Existe um bar em São Paulo, o Fel, no Copan, que desaconselho a vocês. Não pela qualidade dos drinques, que é boa. Mas acontece assim. Os donos, atrapalhados porque fecharam o bar por muito tempo na pandemia, agora querem recuperar o dinheiro perdido. E para isso fazem o quê? Nos obrigam a sentar lado a lado no balcão, sem pular lugar, sendo que o estabelecimento é fechado e naturalmente, para beber o drinque, tiramos a máscara.

Quando, muito irada, reclamei por mensagem direta aos donos, e minha reclamação ainda atingia o tratamento burocrático e mal-humorado do barman (uma pena, porque eles tinham profissionais ótimos nessa área…), a resposta que recebi foi inacreditável.

Responderam que obedecem às ordens sanitárias do governo. (E eu pensei: a ordem sanitária é para não deixar lugares vagos entre os clientes?) Também informaram que hoje em dia mal andam sobre as pernas, que apenas amortizam dívidas e não têm lucro pra maximizar, respondendo a um questionamento “sem empatia” que fiz sobre em que mundo viviam.

Sem empatia? Minha empatia é para com minha sobrevivência.

Dessa resposta, veio a certeza de que eles estão apertando mesmo as pessoas no balcão para que o bar sobreviva. Mas a pandemia não acabou, certo? Ou só eu mesma acho isso?!

O interessante mesmo pra mim foi ler essa frase do sócio Bruno Bocchese, que só faltou me mandar para aquele lugar na DM: “Sua mensagem levou quase uma semana para ser respondida não porque não havia sido lida, mas porque, talvez, nem merecesse resposta.”

Sinceramente, acho que foi o contrário.

Eles é que não mereceriam que eu os tivesse alertado.

Como diz um ditado árabe, “graças a deus não precisamos deles”.

Fica a dica.

Mania de chover

Ontem a caminho de Pinheiros, o mausoléu…

Ganhei um resfriado forte.
E os quilos a mais, já venho ganhando faz tempo.
Estas teriam sido duas boas razões a impedir minha saída de casa nessa chuva para ver… pessoas.
Mas mesmo assim saí.
Eu havia me prometido assistir ao show de Saulo Duarte, Anaïs Sylla, Victoria dos Santos e Caê Rolfsen que reabriria o Bona, casa-restaurante de Pinheiros.
Fui e ainda bem.
Que delícia de show, dê uma olhadinha.

Palhinha de show


Eles são talentos muito diferentes e juntos se parecem com amigos de infância.
Um pouco acanhados com aquela rentrée, talvez?


Já eu sou acanhada sempre.
E na casa de show me senti a mais velha das criaturas.
Porque ainda por cima vocês me enganaram.
Ninguém deixou de pintar o cabelo na pandemia, não…
A certa altura fui apresentada à grande Anaïs e só me ocorreu dizer “prazer”, como se eu fosse a tia da secretaria recebendo a estudante nova.
Não sei se vocês já assistiram ao Seinfeld, mas às vezes eu tenho o sentimento de inadequação do George Costanza e quero consertar as bobagens que fiz rápida e transtornadamente, como ele.
Contudo, nesta noite, nem me mexi.
A gente se desabitua à vida, sabe?
E de máscara, se não nos conhecem, não existimos.

Lotar realmente é uma
qualidade, certo?


Pra ser sincera, fiquei temerosa mesmo foi com o tanto de gente pra ver o show.
Mas dominei o pânico.
Quando saí de lá, de quebra, pude ver pela janela do uber a coisa estranha que Pinheiros vem se tornando.
O que é aquele canteiro de obras concorrentes ao maior paliteiro do mundo?
Paliteiro não…
Está mais pra mausoléu.
Obrigada pela atenção, mores, e parabéns a vocês que permanecem em casa escondidinhos de todo mal, amém.

“Armugan”, um sol de cinzas

O filme fabular e fantástico de Jo Sol, incluído na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é um raro exemplar de apego à aventura cinematográfica

Armugan, hora decisiva

A vida confunde tudo. Faz do fim, o começo. E só a morte parece curá-la.

Eis as verdades que este diretor catalão não teme dizer. Aos 52 anos, Jordi Solé, o Jo Sol, reza por um antigo testamento do cinema. Fazer um filme, e ele vem dirigindo longas-metragens por duas décadas, parece-lhe uma aventura necessária e franca, a exigir sempre um novo risco.

Seu longa Armugan, presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, nasceu depois de Sol ter trabalhado com Íñigo Martínez em um filme para a tevê. Ator e bailarino de dança inclusiva que vive entre os palcos alemães e os de Barcelona, onde se formou, Martínez acendeu a imaginação fantástica de Sol. Em 2017, o cineasta ofereceu-lhe o papel de protagonista no filme que imaginara, sobre um homem que ajuda os outros a morrer nos Pirineus.

De início, Martínez hesitou. Era tudo muito estranho. “Eu teria de chegar até aquelas montanhas em minha cadeira de rodas e, por seis semanas de filmagens, deveria simplesmente deixá-la de lado”. Pesava a favor de Sol que Martínez o conhecesse bem e lhe tivesse amizade, confiança. Mas a tranquilidade só veio mesmo depois da leitura do roteiro. O ator aceitaria interpretar aquele ser que encaminhava os moribundos à morte. E o faria de forma espetacular, quase sem proferir as difíceis palavras do dialeto aragonês.

Entregue a Anchel,
que o carrega nas costas

Durante todo o filme, Armugan está agarrado a Anchel, o personagem vivido por Gonzalo Cunill. Anchel, que às vezes evoca, em aparência física, o Antonio das Mortes de Mauricio do Valle, carrega-o nas costas até as casas onde estarão as famílias ansiosamente à espera. Só Armugan sabe qual será a hora decisiva, como um espírito religioso saberia. A certa altura do filme, contudo, Anchel o provoca a decidir pela morte de quem pede por ela. Mas como Armugan faria isso? Embora saiba a hora certa em que todos vão morrer, ele não tira a vida de ninguém.

A atuação de Martínez é concentrada. Seu corpo, extenuante morada, é também seu infortúnio. Sol filma em preto e branco. Está sempre muito próximo dos personagens, até de Armugan com suas ovelhas, mas não exige diálogos extensos dos atores. É extraordinária a qualidade da montagem que faz a história andar. E inacreditável a locação escolhida no topo das montanhas. Grandeza e simplicidade caminham juntos neste filme em que o desafio está implícito: o sol e a morte são duas coisas que não contemplamos sem piscar.

Jo Sol, pela aventura do cinema

ARMUGAN

Direção: Jo Sol

Espanha

2020, p&b, 90 min.

Ficção

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=-F0Ky82Xf5E

Nem Paris, nem Texas: “Pegando a estrada” revive um cinema

O primeiro longa-metragem de Panah Panahi, presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, rompe as regras do filme estático contemporâneo ao explorar a jornada de um jovem em formação

Infância, um lugar para a música

Um jovem dirige o carro no qual viajam seu pai, sua mãe, seu irmão mais novo e o cachorro da família. Ele precisa alcançar a fronteira e atravessá-la, para então viver sozinho do outro lado. Mas de que modo irá viver sem ninguém, se é tão imaturo? Principalmente, por que tamanha peripécia familiar para que se vá? Se você assistir a este longa-metragem sem saber que se trata da primeira realização cinematográfica de Panah Panahi, o filho de 37 anos do grande Jafar Panahi, diretor desterrado do cinema pelo governo do Irã em 2010, talvez o entenda parcialmente. De qualquer forma, estará diante de um belo filme com extenso arco emocional, este que admitirá até mesmo a presença do humor.

Eis um longa que mereceria ser incluído em todas as redes de streaming popular. Porque é acessível sendo ainda bom cinema, não um arremedo de telenovela brasileira baseado no jogo infinito entre campo e contracampo, a partir de enfadonhos planos médios e closes. Panah Panahi tem o controle da história e a fotografia de Amin Jafari é sempre clara, seja dia ou seja noite, de modo a fabular com nitidez a psicologia dos personagens. Os atores têm enorme carisma e beleza. Suas máscaras são acionadas tão perfeitamente que nos esquecemos de que interpretam papeis. Eles existem sem contestação dentro da verdade do filme.

A fotografia de uma fabulosa paisagem

Em poucos minutos iniciais nos quais apenas o caçula aceso fala sem parar, conhecemos todas as circunstâncias que orientarão a história. Para isso, o diretor se encarregará de condensar o Oriente em sua iconografia icônica. As montanhas parecerão pintadas, a estrada se alongará, o carro acessará os mundos interiores e exteriores, a religiosidade se introjetará nas canções e observações, o velho venderá pele de carneiro, a mulher espirituosa também será a mãe devota e o pai terá um mau humor divertido, que se desinteressará das convenções. Seremos jogados para o contexto no qual os personagens funcionarão com muita intensidade e leveza, se isto é uma coisa que se possa conceber simultaneamente. Até mesmo sentiremos vontade de conhecer esse recanto do mundo tão isolado pela intolerância, que sempre antes nos causara temor.

É coisa rara nestes dias, mas o diretor pratica a beleza do movimento, marca do cinema de antes, de Douglas Sirk a Wim Wenders. O filme deste Panahi também é musical, um “Paris, Texas” que corre pela imensidão habitada, mas às avessas. A questão do filho, do que fazer com ele, é também central. Mas o filho aqui não está abandonado, antes deseja se descolar dos pais, existir por si próprio, embora não pareça reunir ainda condições para tal. “Você fuma muitos cigarros vendo filmes”, diz-lhe a mãe. “Veja menos filmes”.

“Veja menos filmes”

É muito engenhosa a resolução dramática da figura filial. O personagem do filho, que imaginamos ser uma referência do cineasta a si em relação a sua família, a seu pai, vê-se construído numa convergência entre dois personagens, a criança e o jovem. O filho criança é brilhante, o filho jovem, opaco e comicamente inseguro. Dois meninos representam um. Mas como não se tornar progressivamente inseguro para se lançar no cinema se seu pai é Jafar Panahi? E há o cão. O cão está à morte. O cão é a alma de todos que se despedaça para que a jornada de herói do filho possa enfim começar.

Diante do herói

É um filme radioso, brilhante, também porque não se apega às convenções do que deva ser o cinema de arte contemporâneo. Vencedor do Festival de Londres, ele não paralisa as atuações à toa, não abusa da cinemafotografia sem movimento, que se insere apenas quando o diretor quer destacar uma estranheza, uma profundidade. Este cinema que não teme ser cinema paga sem temor um tributo à arte estadunidense, embora ironize o país (e os amantes do país) por meio de uma deliciosa piada em torno do ciclista Lance Armstrong. É um filme para ver, rever, mergulhar e cantar.

Panah Panahi, um
grande primeiro filme

Pegando a Estrada

(“Hit the Road”, “Jaddeh Khaki”)


Direção: Panah Panahi

cor, 93 min. 

Ficção

Irã

2021 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=13S–yt8esA

“Pornô amador”, ou o reino de terror do coração

Filme de Radu Jude que parodia a caótica realidade romena, em cartaz na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ganhou o Urso de Ouro em Berlim

A professora, ou a lucidez, sob escrutínio dos medíocres, os pais

Diz-se da paródia que é o canto paralelo a uma obra artística, literária ou fílmica, muitas vezes operado em sua forma humorística. Contudo, além da obra artística, a paródia pode espelhar a realidade quando esta se oferece mais rica em possibilidades de escárnio que a literatura, por exemplo. Pornô Amador, do romeno de 44 anos Radu Jude, vencedor do Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, é um delicioso canto paralelo do real. Muito se diz que esta realidade aproxima-se da brasileira, e é fato. O caos, a violação, o preconceito e a falsa moral merecem, aqui ou lá, que os artistas a escrachem com humor crítico, disposto a derrubar o indesejado estado de coisas de uma vez.

O diretor Radu Jude

Contudo, as semelhanças com este país param por aí. Porque, no Brasil, convive-se com a submissão gentil à opressão, enquanto na Romênia de Radu Jude os temperamentos estão sempre raivosamente quentes, ainda que igualmente ineficazes, contra o que se vive no cotidiano. O humor dos romenos é o mau humor, é a briga, o ardor.

Quinquilharia do consumo

O argumento do filme, muito simples, não oferece reviravoltas, exceto na terceira e derradeira parte do filme. A professora que faz um vídeo caseiro de sexo com o marido é surpreendida ao constatar a filmagem na boca do povo – a internet. As crianças descobrem o filme e o mostram em casa. Pornô Amador transcorre em um dia da vida desta professora até que a noite chegue e ela precise enfrentar os pais em uma reunião escolar à qual foi especialmente convocada. Será demitida por obscenidade ou conseguirá provar sua óbvia inocência? A reunião, na apoteose do filme, é alegórica das instituições romenas: o militarismo, o racismo contra os ciganos, a alienação social, o amor ao dinheiro, o falso puritanismo, o descrédito à cultura e o analfabetismo funcional são representados por atores cômicos específicos. A professora, no fim das contas, será a única a interpretar a lucidez, ainda que mal-humorada também.

Os pais, alegorias da abominável classe média que tão bem conhecemos

O filme é construído sobre três engenhosas partes. A primeira, que se pode chamar turístico-reflexiva, apresenta a paisagem de Bucareste com o devido respeito às contradições urbanas. A câmera flâneur não se resume a localizar a caminhada da professora pela cidade, antes se distancia dela para acompanhar os letreiros, os grafites, a arquitetura mal ajambrada. Tudo nessa Bucareste é o caos que não se ordena, o mecânico e repetitivo sobre o vivo, a piada em elaboração.

Envelhecendo na cidade

Na segunda parte, as reflexões assumem independência e vêm apresentadas de inúmeras maneiras, submetidas a jogos godardianos entre palavra e imagem. “Melhor parir um bezerro que infartar”, diz a loira que, perseguida por um touro, decide ceder a sua força. As anedotas sobre o terrível passado histórico se seguem. O braço direito paralisado de um paciente alemão só se mexe, esticando-se para a frente, quando um médico grita “Heil, Hitler”. Um personagem se alegra com o naufrágio do Titanic porque “o mar ainda existe”. E há quem sentencie que a beleza da mulher reside em seu marido. Nesta parte, a melhor do filme, a vida humana se vê apresentada como tragédia e comédia. E a pornografia é o reino de terror do coração.

Hipocrisia é isso aí

PORNÔ AMADOR

(“Bad Luck Banging Or Loony Porn”, “Babardeală Cu Bucluc Sau Porno Balamuc”)

Romênia, Luxemburgo, República Tcheca, Croácia

Direção: Radu Jude

2021, cor, 106 min.

Ficção

Trailer https://www.youtube.com/watch?v=8AEgcTSMSOY

A leopardia de Delon

Alain Delon: máxima beleza, delinquência, caça

Uma vez ensaiei escrever por aqui o que tornava Alain Delon um homem tão bonito pra mim… Eu via razões, digamos, multiplicadas como os raios solares.

Daí uma amiga dessas executivas muito importantes e pragmáticas da universidade perdeu a paciência: é bonito porque é bonito, ora.

Mas não, né? Não comigo. É claro que eu vou tentar compreender melhor como a coisa funciona (e só comigo, entendeu?). Vou olhar a beleza de frente, como disse a querida Eliete Negreiros. Não tenho muito mais o que fazer, rs. E se quer ser minha amiga, me aguente, ora.

Poitier, um juiz para nossa alma imoral

É tanto homem bonito no cinema. Escolho os primeiros que me vêm. O Sidney Poitier, por exemplo. O Paul Newman. Geraldo Del Rey. Toshiro Mifune. E até nesse Henry Carvill, estrela dos pobres de hoje, é possível vê-la.

Carvill: ele quer te abraçar

Carvill é o bobo que pede cuidados, como se fôssemos nós a fulminá-lo. Sua beleza pressupõe o abraço.

Newman, só sensualidade
Del Rey, o tímido translúcido
Por que tanta
pressa,
Toshiro?

O Paul Newman veste o erotismo sem vicinais. O Del Rey, o translúcido, é também o tímido, o distraído. O Poitier olha de um pedestal e, com profundidade, crava nossa alma imoral. O Mifune quer resolver tudo logo e fica lindamente engraçado nessa pressa de se impor, que ele nem precisava ter.

Mas o Delon, olha… O Delon é só desafio. Competição. Vou chamar isso de leopardia. Como se ele nos dissesse: venha, venha você e você, vou lhes derrubar um a um. Com a pele forjada na delinquência das ruas, os olhos em fulgor, inspeciona, calcula e caça em poucos segundos de câmera. Aposto que este homem nunca plantou um tomate na vida.

Para além de todas as qualidades, essa é uma não-qualidade, uma força irresistível… que move o observador diretamente para a armadilha.

Nem me arrisco a falar muito sobre mulheres, embora outro dia eu tenha dito o que penso sobre o fator Chantal Akerman de atração. Quando viajo em torno delas tem sempre um eco sem noção no face de meu deus pra tentar desqualificar minhas tentativas. Homens são colibris desajeitados…

Ao cinema, gente!

É fim de semana.

Escolham bem.

💜