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no meio das lives, uma espada

se as pessoas que tomam a iniciativa de fazer lives-aula não abraçarem nossas dúvidas, nossas confusões à espera de um esclarecimento, quem vai fazer isso?

então levo até elas, sem muito pensar, as dúvidas surgidas em mim.

ou sentidas por mim (verbo polêmico, o sentir, mas tudo o que sinto é minha fortaleza).

então eu, nas lives, decidi que ficarei no modo “não vim aqui trazer a paz, mas a espada…”

ou traduzindo a provocação jesuítica:

vim trazer o que sinto, e meu sentir é o meu pensar, minha contribuição modesta para complicar seu pensamento em busca de uma síntese para nós.

(tomara que me aguentem 💜)

Sirk sem palavras

Extraí esta foto de “Hino de uma Consciência”, de Douglas Sirk, na desesperada tentativa de reter um pouco da sequência deste filme de 1957 em que órfãos coreanos (os atores eram realmente órfãos coreanos) escapam para a “liberdade”.

Amo tudo o que fez este cineasta alemão amigo de Brecht, que começou no teatro e fugiu de seu país para os EUA porque a esposa era uma judia sob Hitler.

E quando digo amo é porque amo mesmo tudo, desde o mais insignificante, tolo, americanista e carola de seus filmes, até os clássicos que mais me interessam, os que movimentam os sentimentos para bem localizá-los em nós.

Não é tanto um cinema de palavras o deste diretor formado com o mudo.

Ele mais sugere que entrega.

E é cinema, só.

“não se adoente”

há dois dias, depois de uma quinzena de trabalho insano diante do computador, e ainda por cima em troca de dinheiro miúdo, minhas costas travaram completamente.
nem me virar na cama conseguia, então imaginem minha noite…

ontem fui ao médico, acompanhada pelo filho maravilhoso.
pegamos uber e abrimos as janelas.

o motorista, coitado, gordinho e atormentado por essa maldição, não deixava ninguém falar.
andamos 300 metros e ele já nos contou que seu amigo de 37 anos morreu de covid, assim pá-pum.
mas me garantiu que a sua própria família está bem.
o filho de 16 anos não dá a mínima se precisa ficar em casa todo o tempo.
(a vingança dos nerds).
e foi ele, o motorista, quem disse à esposa que filho seu não iria enfrentar presencial, não.

dou-lhe parabéns efusivos e chego ao médico.

um grande médico.

eu o conheci há duas décadas, quando desesperadamente procurava uma boa alma científica para curar uma tendinite incapacitadora.
todos os seus colegas disseram que eu não teria chance só com fisio, e que seria preciso operar, mesmo amamentando ainda.
até o tal de Osmar de Oliveira, lembram dele?
o comentarista corintiano de futebol.
ele me atendeu fumando e fumando permaneceu quando soube que eu editava o caderno de sábado do JT. “Quem lê aquilo?”

mas voltando ao ortopedista querido, esse que finalmente não precisou usar o recurso da operação para me estabilizar…
nunca antes fui atendida tão rapidamente no seu lindo consultório, desta vez vazio.

me examinou, receitou anti-inflamatório e me pediu:

“não se adoente que a coisa tá feia”.

e eu: “quem diria que a gente chegaria nesse ponto?”

e ele: “nunca foi muito melhor”.

e eu, riso amarelo: “ahhh”

jamais imaginei que ouviria um médico me dizer pra eu não ficar doente, em suma.

tudo muito aterrorizante, né?

mas amei esta chance que o travamento me deu de olhar de novo a cidade pela janela.

aliás, muito movimentada ainda para o que passamos, viu?

apartem-nos

saudades do meu pai, sinceramente.
um homem pouco adaptado ao mundo.
um ingênuo, transparente na sua humildade.
creio que mal soubesse o significado de ser contrário, de ser de esquerda.
mas era um homem bom.
bom a ponto de sacrificar o que quer que fosse seu
por nós.
modos e bigodes de tempos em que tudo isto compunha elegância, refinamento simples.
hoje vejo esses sujeitos que se creem adultos desfilando com graxa no olhar, pisando sobre todos.
não, meu pai não era um homem assim.
tão límpido como um riacho antigo, coitado!
um menino.
o pulo, a graça, a vitalidade infantis.
o respeito profundo pelas brincadeiras, pelos lápis de cor.
hoje entendo uma boa parte de você, pai, antes tão inalcançável.
acho que pertenço a seu imaginário e a seu sorriso bom.
tudo o mais me assusta e estupidifica.
os exageros, as contenções.
das desmedidas às menores, as ambições me causam estupor!
esse silenciar o afeto para se submeter aos números…
esse não ser o que se é, em busca de aceitação…
quis tanto que a vida desse certo pra você!
como quis que desse pra mim.
que nos deixassem no fim do arco-íris, pois nosso interesse não estava nas moedas, mas nas luzes.
ninguém vai compartilhar conosco esse sentimento, vai?
e o que teremos nós a ver com isso, pensando bem?
apartem-nos do que vocês construíram!
estamos no lamaçal brincando de escorregar.

Hora de dormir, não consigo desaparecer

tem horas, como agora, que é duro pensar no que somos, todos nós, um a um, neste momento que gira nossas cabeças.

tristes, cansados, brasileiros, bêbados.

(e minhas costas doem.)

em que dimensão nos jogaram, Doug? onde o túnel foi parar?

hora de dormir, e não consigo desaparecer.

essa tragédia que não ensina nada a ninguém não sai diante dos olhos, entra pelos sete buracos da minha cabeça, essa presença, essa ausência.

estava assistindo a “La ronde”, do Max Ophüls, 1950, e de repente a bicicleta no carrossel (sim, havia uma bicicleta no carrossel) girava e girava e me ligava diretamente aos ciclistas da rapi andando sem máscara.

“La ronde” é uma ciranda de amor, uns contos de amor entrelaçados em que um cavalheiro se segue a outro em sua perdição amorosa cotidiana, e as mulheres são irônicas, e os ridicularizam, pois nada mais podem fazer, e todos voltam ao mesmo lugar…

Estruturas de sonho de Arthur Schnitzler, o autor da peça de origem.

(Prazeres tolos: é a tolice, não o prazer, o pecado.)

Há um momento em que um desses homens se torna risível ao lado de uma mulher casada na cama – e sabemos disso porque lá fora um fusível do carrossel pifou.

me senti aquele fusível!

e ele também, o personagem, é claro. ele cita stendhal pra dizer que amor demais pode derrotar… mas ela só levanta os grandes olhos, pobrezinho, não foi desta vez.

divertida essa peça de Arthur Schnitzler, a gente supõe, tanta coisa inventiva que o Ophüls faz a partir dela. O muito com tão pouco, os reflexos pela janela num cenário repleto dos badulaques burgueses, mimos e cristais! Vejo hoje que as comédias italianas citaram tão bem esse estado de coisas, que Buñuel, que não é bobo bem nada, foi atrás disso no anjo exterminador.

Essas iluminações rosíneas me alegram, às vezes é tudo o que eu tenho de meu, mas não, agora não, nada me traz paz.

depois do filme, é preciso mais uma percorrida no celular (quem mais nos engana, quem agora nos quer mal?), mais um texto, mais um poema, ou nada vai acontecer.

ciranda, carrossel, cavalo, bicicleta…

estamos sós!

E Anitta, terá visto Hopper?

Era uma live sobre uma pintora que amo, pela mulher firme que foi e pelos caminhos artísticos que não temeu seguir, desafiando todas as formas do aceito.

Quero muito ler o que este jovem pesquisador, Carlos Pires, escreveu sobre Anita Malfatti neste pós-doutorado no IEB, a partir de seus diários, e que certamente acende novas luzes sobre o trabalho dela.

Pires é sério ao discorrer, mas bem-humorado, ciente de que ela sabia o que fazia e que o Monteiro Lobato não a derrubou, não, ao contrário do que muitos imaginam. O texto deve ser ótimo, imprescindível!

Porém, ele não soube responder a essa pergunta que me intriga faz muito tempo. Pesquisa-se Anitta na França, raramente nos EUA. Mas quero crer que ela conheceu Edward Hopper, sim, o assunto de minha curiosidade. E que ficaram conversando sobre faróis…

A alegria que se foi

Morreu o Diet, o jornalista mais doce

Chamavam o Marcos Filippi de Diet como antes os pretos eram Chocolate. Não havia razão para essa chacota pra cima de um menino tão do bem. Era preciso ser forte na redação do JT. E ele nasceu sabendo como fazer. Para lutar por seu trabalho, sorria com eles, não deles.

O gordinho é figura descolada neste planeta ou não sobrevive. O Diet lutava do seu jeito. Ouvia uma piada e assimilava o soco com o air bag do humor. Era um mascote, ganhava mais carinhos. Precisavam dele na cultura. Sabia tudo de rock e falava inglês, se me recordo bem. Não era pra todo mundo naquele tempo.

Mas ele assimilava a zona toda, sorridente sempre, sorridente eu não sabia bem de quê ou principalmente por quê. Talvez de tudo e de si mesmo. E talvez porque fosse mais simples. O sorriso inclui, o sorriso conquista e faz esquecer.

Sofria sozinho diante do computador, contudo, que eu via, e suava bastante, sempre prestativo até não poder mais. Eu era subeditora, adorava pegar texto dele pra fechar, mas ele ficava tenso sempre: “Deu certo?” dizia pra gente com os olhos.

Nosso Diet, o jornalista, como poderia ser esquecido? Soube pela Paula Medeiros que ele morreu hoje de um infarto fulminante. No fundo, não vou acreditar.

Um jornalista tão inteligente que não tinha turma na redação! Não tinha lado.

Bem, tinha um lado, sim. O Santos Futebol Clube.

Esse lado, nós dois compartilhávamos. Ele era santista, como esta linda foto de perfil no face faz questão de mostrar. Conversávamos então sobre isso. 

Digo, eu puxava o assunto, porque queria entender o que rolava, quais eram as contratações prometidas, de que jeito o time levaria o jogo na próxima partida. Futebolês que sempre amei. Ainda não havia a conquista de 2002, mas nós já tínhamos Giovani de quem depender ou por quem lamentar.

E eu ficava feliz porque, sendo mais velha que o Diet, vinda de um outro mundo de expectativas, podia compartilhar ao menos suas dores e glórias futebolísticas. Sofríamos calados quando tudo dava errado (isto é, quase sempre) e, quando nos saíamos bem pra cima daquele mar de tifosi de outras bandeiras, porque a única coisa que se fazia naquela redação era mesmo torcer, o regozijo vinha bem maior.

Saí do JT e não soube mais o que foi feito do menino feliz.

Espero só isto mesmo. 

Que tenha sido feliz.

Get lost

A foto que sempre retorna pra gente sorrir, pra matar a inveja que temos dos grandiosos, pra liberar a eterna opressão de sermos sempre esmagados, os últimos mesmo nesta vida…

Não adianta você ser esse Mick Jagger tão especial, o mais cool deste mundo, com suas meias de cores diferentes e sua linda calça cor de rosa: você em algum momento vai ter, sim, a atenção roubada pelo careta mais lindo vestindo um brilhoso terno modelo antigo.

fia na pia

daí eu me esforço pra ser leve, rôsinha paz e amor, e posto aquele tuíte ótimo, “se eu votei no lula quando ele era ladrão imagina agora que ele é inocente”, uma coisa bem feita, arte pela arte que vc pode apreciar por si, e de repente a mulher de nome maria pia (será piedosa ou será um tanque?) retruca: “escolhe outro candidato, fia”! e eu nem comento, arranco sua torneira na hora, jogo a fia na pia, meu deus, que se torça, que se dane!