Padilha exterminador

José Padilha é um produtor que assina como diretor. Não sabe dirigir. Aliás, precisou contratar um cineasta estadunidense que sacasse minimamente o raio dessa coisa chamada cinema para realizar seu primeiro filme, Os Carvoeiros.

Tropa de Elite, aquele do fascismo imagético fundador, só virou história-símbolo com Wagner Moura (esse democrata) porque Daniel Rezende, hoje cineasta, montou o filme de modo a que Capitão Nascimento, representado pelo melhor ator do elenco, fosse o protagonista. Pensem nisso: Padilha dirigiu um filme sem nem mesmo saber quem seria seu personagem principal.

O manipulador que se diz das artes mas no fundo é o que sua formação original como economista dita, um homem da grana, já provou ser incapaz de ver o Brasil com independência. É no máximo e tão-somente o Robocop cuja saga tanto quis “dirigir” nos Estados Unidos e aos trancos e barrancos “dirigiu”.

Não há nada nesse biltre obscuro que se pareça com Spike Lee, o diretor citado pela roteirista do Marielle na Globo para humilhar todos os diretores negros do Brasil. Nem Spike Lee acerta em todo filme, então imagine…

Ela, a Globo, e possivelmente a família de Marielle, mais ainda a roteirista Antonia Pellegrino, mulher do Freixo, querem grana e visibilidade internacional por meio de um projeto sensível, de uma história que nem mesmo desfecho teve ainda. Quem mandou matar Marielle, filha? O Lula??

Visibilidade vão ganhar, embora ao custo de muita vergonha alheia. E se querem grana de verdade, deveriam ter chamado outro diretor brasileiro internacional meia-boca para colocar rodas nesse projeto, tipo o Meirelles.

Nada justifica um Padilha na história, exceto (e condescendendo muito) se um ghost fizer seu trabalho minimamente correto como diretor.

A perversão exala por todos os poros do Brasil.

E a história está cara a cara com seu anjo exterminador.

eu rio sim

não sei usar revólveres nem fuzis.

e sou oprimida pelo estado de coisas.

como vou me defender?

se não puder usar o humor como arma, ou como correção para um estado de coisas, à moda do que ensinou aristóteles, do que raciocinou bergson ou do que escreveu pirandello, o que restará de mim?

vou rir, sim, enquanto posso.

vou desmontar risonhamente o cinismo deles, os que me oprimem.

não particularizo minha crítica em micheque, porque nem mesmo isto ela merece de mim.

mas talvez devesse.

desmontando Maria Antonieta (“comam brioches”) nos panfletos satíricos, os oprimidos franceses contribuíram para a revolução.

contudo, não espero revolução nenhuma por aqui.

nem mesmo uma correção.

meu riso é só liberador.

é meu alívio.

por que rio?

porque é sublime.

rio do caos deles.

um dos meus jeitos de enfrentar as coisas.

rio enquanto espero o impossível.

Meu problema central com as redações brasileiras desde os longínquos anos 1980 foi sempre ter de me ver com a estupidez geral e fingir que nada acontecia, imaginando que um leitor lá longe iria pagar por tudo isso, por minha tristeza inclusive.

A mediocridade alegre dos confinados não impedia, era claro, que houvesse gente maravilhosa e genial a sobreviver nesses locais insalubres. Invariavelmente, embora nem sempre, os bons eram os párias. Cito o Renato Pompeu porque ele se foi e muito sinto sua ausência deste mundo.

Renato me dava uns sorrisos de canto quando ouvia coisas como estas, que me faziam enrubescer e, como sempre, sem sucesso, contra-argumentar entre as máquinas de escrever:

– O melhor jornalista brasileiro é William Waack.

– O Augusto Nunes tem um texto maravilhoso.

– O Bial é um poeta.

Para Renato, tudo era uma contrapartida à célebre frase que um dia ele ouviu no boteco (boteco como a instituição onde se anunciava o fim do mundo):

– Pelé, cego de bola!

O Bial é um ignorante machista, nunca deixou de ser. Só se espanta quem quer. (Meu teclado vermelho escreveu: “quem queer”).

Mas, como eu disse antes, não é o único jornalista a criticar a diretora antes de criticar o filme.

Aparentemente os mesmos que viram na trash & comic Bacurau uma leitura revolucionária do Brasil e nas novelas de Muylaert, tratados de sociologia sobre a senzala, acham o Democracia um lixo. Mas por que um lixo?

Ah, a voz da Petra.

Menininha rica.

O filme não tem outro lado.

É a história dela, não a do Brasil.

Tudo bem você, como espectador, detestar a voz dela e sua fala em primeira pessoa. Tudo bem você pedir mais ação quando se põe diante da Netflix depois de um dia cheio. Mas não o crítico. Crítico não deveria ser rasteiro, machista, estúpido, violento.

Nem sei se ainda existem redações. Mas que lixo, gente. Que lixo de pensamento. Depois não adianta reclamar do Weintraub.

A crítica que morreu antes de nascer

não conhecia esta hq.

quero dizer, esta modalidade de resenha literária sequencial.

me deu vontade de pular no livro resenhado.

checar se faz sentido o que a resenhista diz.

sinto falta deste tipo de crítica que todo o mundo civilizado faz para atrair um leitor.

muito pessoal, intuitiva, mas com embasamento na leitura da obra.

e que nós nunca fazemos.

admito que enquanto jornalista cultural tentei, mas fui pisada no coração, nas minhas melhores intenções.

então deixei pra lá.

todo mundo, enquanto parecia sério, era tão estúpido neste “jornalismo literário” impessoal, candidamente “neutro”, do brasil fundo.

quero dizer, findo.

e eu penso: muita coisa realmente tinha de acabar por aqui para um dia renascer, feito a crítica dos livros.

(se você não for assinante da New Yorker, use o outline)

https://www.newyorker.com/culture/culture-desk/dreaming-with-patti-smith?source=EDT_NYR_EDIT_NEWSLETTER_0_imagenewsletter_Daily_ZZ&utm_campaign=aud-dev&utm_source=nl&utm_brand=tny&utm_mailing=TNY_Daily_011220&utm_medium=email&bxid=5d066f027ace5a712145c15b&cndid=57544614&esrc=&mbid=&utm_term=TNY_Daily&verso=true

Minha conversa sobre “Carnival Strippers”, de Susan Meiselas, no IMS

Rosane Pavam durante conversa na galeria do IMS sobre Susan Meiselas. Foto de @OlgaVlahou

https://youtu.be/MO9lqIZ8Ryo

https://ims.com.br/exposicao/susan-meiselas-mediacoes-ims-paulista/#videos

Quem desliga a chave?

02.11.18

talvez vocês não tenham idade pra saber, mas no seriado camp do batman as paredes frequentemente ameaçavam espremer nossos gay-heróis capturados por gay-vilões.

pois me sinto batman & robin há muitos e muitos anos, tentando segurar as paredes, sem que nunca me deixem conseguir…

tendo de aguentar tropa de elite & sertanejo & big brother & outras porcarias de nossa indústria cultural apenas porque são populares e porque a esquerda, sem querer ser chamada de elitista, não as poderia refutar…

santa burrice!

era por onde a ditadura começava a entrar!

nossa esquerda, dita esquerda, não foi a heroína cultural que deveria ter sido, lamento dizer. nunca pensou em desligar essa chave. adorou a chave. e agora as paredes estão próximas.

mas ao mesmo tempo, né?

estamos só no começo.

quero mandar o cara do uber desligar o som!

aqueles cantores que parecem o porco sob a faca…

e suas letras de corno transcorridas em dubais sentimentais, onde a métrica é insolúvel, “segredos” rima com “erros” e a incapacidade de articulação transborda para nossas vidas…

batman, robin, quem vai desligar a chave?

Provocações ou evidências?

Quando eu digo que a direita menos burra está se espalhando por nosso encanamento para se tornar a única água que bebemos, acreditem em mim.

Um exemplo:

Provocações, título tão adequado ao Abu, virou o nome daquilo que o Marcelo Tas faz depois que assumiu o programa. Mas não só quando o apresenta. O Tas se tornou isto (provocador) e é o dono disto (provocações).

Ele ataca o Intercept no Twitter e os amigos logo entendem: são provocações, porque Tas é um provocador.

Me ajuda, Chitãozinho!

Não são provocações.

São evidências.

Com o devido copyright.