Vivinha, a dama, o riso

Estive com Eva Wilma em 2008. Vivinha tinha então 75 anos, era sorridente, engordara uns quilos e usava vestido verde. O verde me perturbou. Eu só pensava em meu pai, que disse ter chamado a atenção dela na juventude ao usar um terno de mesma cor. A atriz achou a história estranha e justamente dela não riu, se bem me lembro. Me atrapalhei. Eva, que morreu agora como consequência de um câncer, emanava poder. Declamava Millôr de cor e naquela ocasião me contou que escrevia um diário sem pensar em publicá-lo. Ser atriz, disse-me ela, que sonhou em se tornar bailarina, não representava um chamado quando optou pela carreira: “O chamado era a época”

Eva Wilma, culta, brilhante,
transformou em bordão a fala
de uma amiga pernambucana:
“Thank you very much, viu, bichinho?”

A DAMA QUE RI

 

A atriz Eva Wilma revê uma carreira vitoriosa, marcada pelo humor

 

Por Rosane Pavam

 

Diante desta Eva que é o princípio, um interlocutor pode se sentir perto do fim. A história de Eva Wilma, que fez grande carreira no teatro, na televisão e no cinema, intimida quem a analisa. Acontece, contudo, de a personalidade de Eva distanciar-se da altivez. Ela ainda assanha os olhos, delineados a lápis, na direção de quem a observa. Sobretudo, depois de 55 anos como atriz, usa uma arma incomum para quem é dama. O humor.

 

Fazer rir não parece permitido às mulheres bonitas. Eva Wilma contrariou a interdição. Foi uma das mais belas desde a fundação da televisão no Brasil, em 1950, mas manteve o pé no riso, a seu ver um instrumento reflexivo. Integrante do Balé do IV Centenário, ela não começou como atriz. Em sua primeira aparição na tevê, em 1953, compartilhou com o primeiro marido, John Herbert, historinhas diferentes sobre o encontro de um homem e uma mulher na sitcom Alô Doçura. O humor apareceu nos dez anos em que a série durou.

 

Não que Eva Wilma tenha se sentido predestinada a ser atriz. Teria sido bailarina se houvesse aparecido a chance real. Seu pai, o alemão Otto Riefle Jr., perdera o emprego em 1929, sem jamais se recuperar financeiramente depois, e Eva não tinha irmãos com quem contar.

 

“O chamado era a época”, ela avalia hoje. Quem a convidava simultaneamente a interpretar eram Luciano Salce, da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, José Renato, do Teatro de Arena, e, na tevê, o apelo era de Cassiano Gabus Mendes. Resistir aos três seria para rir. Como bailarina, ela aprendera que ou se debruçava sobre a barra ou não dançava direito. Para uma atriz, a barra equivalia ao estudo do personagem.

 

Ficou clássica a sua interpretação para Raquel, a gêmea má de Ruth na novela Mulheres de Areia, de Ivani Ribeiro, em 1973. Eva se transformava então na vil-má, qualificativos que ela lamentava haver em seu prenome, conforme contou à escritora Edla Van Steen na biografia ilustrada Arte e Vida (Imprensa Oficial). A maldade de Raquel, contudo, apegava-se ao cômico. Era bom ser gozadora e atraente. Raquel jogava a cabeça para trás, mostrava os dentes e brandia o revólver como se fosse um brinquedo. A boazinha Ruth usava lenço na cabeça, prendia o cabelo de lado com a presilha, rejeitava os óculos escuros e, principalmente, não gargalhava.

 

Tudo muito simples, mostrado desde o início como truque. Por desempenhar tão bem duas personalidades diferentes em Mulheres de Areia, seria natural que ganhasse o Troféu Imprensa, prêmio concedido aos melhores da tevê. Quem levou a láurea de melhor atriz naquele ano, contudo, foi Regina Duarte, que representara duas mulheres em uma (a menina pobre e tímida que passava a intrépida e rica) na novela Carinhoso.

 

Regina Duarte era já amiga de Eva Wilma à época. Conhecera a atriz garota, ao atuar com ela em Blackout, com direção teatral de Antunes Filho, em 1967. Regina declinou do prêmio em favor de Vivinha, como ela e os amigos ainda a chamam. O gesto se tornou comoção nacional naquele 1974. Eva Wilma assistia à cerimônia sentada no sofá de casa. “Surpresa como estava, só pude ligar para a Regina e lhe mandar flores.”

 

Na televisão, acredita a atriz, é raro haver este espaço para exercer a ironia, à moda do que ela fez em Mulheres de Areia. “Como não temos tempo para nada, estudo ou concentração, e nos aquecemos na tapadeira, atrás do cenário, ainda por cima falando sozinhos, não deixamos passar a oportunidade da ironia quando ela surge. Ser irônico, neste caso, equivale a comentar toda a situação.” A história se repetiu de certa forma anos depois, em 1996, quando ela se deliciou ao interpretar Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque em A Indomada, de Aguinaldo Silva, e improvisar o bordão da vilã, aprendido com uma amiga pernambucana: “Thank you very much, viu, bichinho?”

 

Agora que Eva Wilma, aos 75 anos, surge para uma leitura de textos representativos de sua carreira, costurados por ela e pelo autor Antonio Gilberto, em Um Brinde ao Teatro, dia 27, no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, e que reestréia em São Luís a peça O Manifesto, de Brian Clark, agora na companhia do ator Pedro de Camargo, esta passagem que ela faz como poucos, do drama ao humor, e do humor ao drama, vai estar mais clara para o espectador.

 

Eva estudou para ser ambígua, para colocar algo de seu na personalidade dramática de seus personagens. Quem primeiro a obrigou a isso foi Antunes Filho, diretor do policial Blackout, sucesso de público e crítica ao lado de Geraldo Del Rey e Stênio Garcia. Para compor a personagem frágil pela cegueira, e que de repente investia contra os bandidos com uma faca de cozinha, ela leu o capítulo sobre dialética do livro Princípios Fundamentais da Filosofia, de Georges Politzer. Eva apelidou o livro de “meu pequeno operário”.

 

Dois anos antes, o diretor Sergio Luis Person a convidara a São Paulo S.A., filme no qual a personalidade da protagonista era desenhada com idêntica surpresa. A Luíza simples parecia acreditar no futuro industrial de São Paulo, mas seus olhos indicavam que ela esperava o pior. Eva Wilma apenas diz que se divertiu muito com Person, e que o filme a levou a Acapulco, onde ocorria o Festival dos Festivais. Lá, ela encontrou o diretor espanhol Luis Buñuel, admirador da obra. O filme, que rendeu prêmios a Eva, já valera por este encontro.

 

“Começamos a crer, emocionados, que o mal nem sempre vence”, diz o prólogo que Millôr Fernandes escreveu para Antígone, de Sófocles, e que Eva declama no saguão de um prédio paulistano. No edifício ela comprou um apartamento há quase três décadas, por iniciativa de seu segundo marido, o ator e diretor Carlos Zara, morto em 2002 de um câncer no esôfago. Eva ainda se emociona quando fala deste homem que ela amava e que sabia sempre por onde andar e o que fazer.

“O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar”, termina o prólogo de Millôr.

Eva, a segunda à esquerda, entre
Tônia Carreiro e Odete Lara, em passeata contra a censura, 1968:
“O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar”

Eva também gosta de escrever, à mão, em um diário que não imagina publicar. “Não acredito que já tenha realizado tudo o que gostaria de realizar. De alguma maneira a juventude me parece mais próxima do que quando eu era jovem”, ela escreve. De tudo lê um pouco, como os textos do mambembe Airton Salvanini. Agora, dedica-se a um novo esporte: “Arrumação, você conhece?” O site de buscas google a libertou do desperdício de materiais representado pelos volumes da Enciclopédia Britânica.

 

Riam, mas não brinquem, com a Eva Wilma ética que, algo defendida pela notoriedade, caminhou contra a censura em 1968, para não mais se intrometer na política de candidatos. E jamais façam como o diretor inglês Alfred Hitchcock, que a convidou a um teste, naquele ano fatídico, para participar do filme Topázio. Durante a análise, ele a provocou em inglês. Irritada, Eva Wilma argumentou que jamais conseguiria responder à provocação em língua que não fosse a portuguesa. “Pois responda na sua língua”, ele a desafiou. Eva então lhe falou tudo o que ele não poderia compreender. Não ganhou o pequeno papel, que passou a uma alemã, Karin Dor. Topázio não fez o sucesso esperado, mas, ainda assim, ela teria adorado estar nele. Neste caso, Eva riu por último, mas não riu melhor.

Sem o dom

Todas as vezes que pego este caminho eu a vejo solitária, e isto muitos meses antes de a pandemia começar. Está acima do peso, usa óculos, os cabelos embranqueceram todos. Normalmente, senta-se e assim fica pelo dia, sem conversar com ninguém.

Ela usa máscara e não tem barraca, ao contrário de alguns outros sem-teto, que enfileiram suas casas bem arrumadas neste trecho como se estivessem em uma vizinhança, com cachorro de coleira na frente, até.

A construção dela, porém, é um amontoado dividido em sacos de plástico que a rodeiam. Em dois anos, de um lado da rua ela passou a outro, diante do paredão de um prédio abandonado que muda de fachada sempre. Revezam-se os lambes, as queixas, os poemas. Ela teria uma casa nova para observar todos os dias se isso lhe importasse fazer.

Não sei para onde ela vai quando chove.

Não sei o que faz à noite.

Onde está seu banheiro.

Hoje à tarde, quando passei por ali novamente, vi que ela dormia sentada. Me comovi e pensei em que poderia lhe ajudar. Fui pra casa, fiz uma trouxa e voltei.

“Quer esta roupa que lhe trouxe?”

Eu parecia interrompê-la em algum pensamento. Virou-se brava pra mim, os olhos diziam tudo. Pegou o saco com a mão direita, num movimento brusco. Colocou-o no chão, ao lado do caixote sobre o qual se sentava. E continuou a olhar para o horizonte, sem me agradecer.

Eu entendo. Eu mais que entendo. Tento imaginar o que ela passa e não consigo. As palavras foram abolidas. As paredes se fecharam há muito tempo dentro de si. E a mim não foi concedido o dom súbito de as abrir.

Um jantar com Robert Crumb

Em 2010, a oportunidade de estar com o desenhista e Aline Kominsky,
com Gilbert Shelton e Lora Fountain, foi-nos oferecida pelo editor de seus livros no Brasil,
Rogério de Campos, depois que entrevistei o artista por ocasião do lançamento de “Gênesis”. Nesta rara ocasião, contudo, quem ficou a conversar com Crumb, principalmente sobre música, foi o Mauricio Tagliari, também convidado, que me acompanhou. Me diverti, isto sim, em falar com as maravilhosas mulheres dos desenhistas, que
rapidamente se cercaram de mim no sofá da sala… Aqui vai um resumo do que fomos
e falamos naquela noite de agosto, na qual descobri que Crumb era canhoto,
não bebia álcool e havia trocado os Estados Unidos pela França depois
de sua filha ser discriminada na escola por ter pai “pornógrafo”

As assinaturas de Gilbert Shelton,
de sua esposa Lora, de Aline Kominski e
Robert Crumb: presente de fim de noite

Em 2010, por ocasião do lançamento de “Gênesis”, pela editora Veneta, entrevistei o estadunidense Robert Crumb, algo extraordinário para mim. Eu o admirava por eternizar seu país à moda de um fundador, muito distante do puritanismo, já em voga então. Um desenhista aberto, contra tudo e contra todos, à investigação e à arte. A esta entrevistadora, pelo telefone, Crumb se mostrara paciente e gentil, disposto a lhe explicar como vertera o Antigo Testamento aos quadrinhos segundo um princípio fielmente literário. Enumerou preferências entre os novos desenhistas, informou que seria avô pela primeira vez e pediu aos marmanjos que ficassem longe de sua filha.

Imaginei que tais modos atenciosos e bem-humorados não fossem dirigidos a mim de forma exclusiva, até que deparei com a repercussão à mesa da qual ele participara na companhia de Gilbert Shelton, durante a última Festa Literária de Parati. Segundo disse a imprensa, os dois amigos, atualmente residentes na França, foram desinteressados, monossilábicos e repetitivos diante do público festeiro, que pouco a pouco abandonou a tenda na qual supostamente debateriam. Tais jornalistas desqualificaram a mulher de Crumb, Aline Kominsky, pela qualidade de suas piadas. A grosseria midiática prosseguia por caminhos que eu decidira não percorrer. Perguntei-me apenas de que Crumb falavam os colegas. De que Shelton, de que Kominsky. Até que fui convidada a jantar com eles.

Em uma segunda-feira, dia 9 de agosto de 2010, Crumb, Kominsky, Shelton e sua delicada esposa, Lora, também empresária de Crumb, aportaram na casa de seu editor brasileiro em São Paulo, Rogério de Campos, e de sua mulher, Letícia. Chegamos, eu e o produtor e músico Maurício Tagliari, um pouco antes de o jantar ser servido, mesmo concluído. Os artistas estavam no trânsito, atrasados porque o motorista que os trouxera de Parati se perdera em São Paulo. A cidade foi vista pela primeira vez por eles, portanto, sob a perspectiva da exaustão. Que humor teriam para nós esses seres postos diante da realidade sul-americana pela primeira vez?

Os quatro chegam para o jantar com muita simpatia e, solicitados ou não, espalham suas impressões. Tudo desenham e tudo observam. Suas imagens nunca param de aparecer durante as conversas, puxadas de um grande arquivo, com infinitos comentários oportunos, de quem, na vida, muito leu e aprendeu ao folhear papeis. Estavam impressionados com São Paulo. Como notou Aline, perto de seu hotel, em Pinheiros, havia casas decoradas com estranhos balões à espera de convidados para festas infantis. Muitas lojas ofereciam, de forma exuberante, roupas para casamento. Estranho, para caracterizar isso, seria um adjetivo simples. Contei a elas como o escritor V. S. Naipaul, aqui presente há 17 anos, qualificara a capital, em uma entrevista concedida a mim: dreadful, terrível cidade, apesar de ocasionais habitantes cultos, como não havia na sua Trinidad.

Aline, que sorri constantemente e fala com desenvoltura, achou o qualificativo de Naipaul exagerado. Éramos, no seu entender, apenas confusos. Sem qualquer plano, como se tudo tivesse sido plantado sobre o asfalto de uma só vez. Era difícil explicar que São Paulo tivera planejadores na medida exata de seus destruidores. Não desejei alongar-me sobre a Light, sobre como fecháramos nossos olhos para o inconsciente da cidade, representado por seu mais importante rio, e sobre como o elitismo de uma classe matara nossas esperanças de uma convivência harmoniosa.

Mudei de assunto. Muito bonita aos 63 anos, olhos claros, os cabelos ruivos ondulados nem tão fartos como aqueles que Crumb tantas vezes retratara, Aline falava rápido, mas, atenciosa e educada, não só de si. Muito atenta a todas as intervenções alheias, interessava-se, como Lora, pelo que era evocado ou dito. Ela não bebe álcool, Crumb também não (ele adorou o guaraná). Lora e Gilbert alternam-se moderadamente em vinho e cerveja. Aline dá aulas de ioga na França. Mostrou-me a foto do neto de dez meses no celular. Ela e Lora dizem que Eli Robert é “um Buda”. Calmo, o rosto redondo, naquela foto o bebê sorria para a avó em sua piscina. Falsas pedras decoravam as bordas.

A filha, Sophie, é a cara de Crumb. Ouvi o que não sabia: eles decidiram deixar os Estados Unidos há vinte anos depois que Aline indagou à diretora da escola a razão de não haver crianças quando Sophie chegava para as aulas. A diretora respondeu-lhe que era um pedido dos pais, preocupados que seus filhos convivessem com a família do “pornógrafo infantil”. Depois disso, como Lora já morava em Paris, Aline, que tem prenome francês e parentes na Venezuela, decidiu criar a filha em outro lugar. No interior da França, a reação da diretora ao saber que Sophie era filha de Crumb foi bem diferente. Ela o lera e queria dar acesso a seus livros. Aline, precavida, perguntou-lhe se conhecia o conteúdo de muitas das histórias. Sim, claro, disse-lhe a diretora, segurando o sorriso com as mãos.

Eu conversava com elas enquanto Crumb, Shelton e Tagliari olhavam as belas estantes forradas de livros de arte, literatura e história da casa do editor. Aline lhe confiou trezentas páginas de uma produção autobiográfica. Os olhos de Crumb orientaram o interesse geral para os discos nas estantes. Ele maneja o banjo, diz, mas sempre informalmente, nas coisas básicas e simples. Tocou durante o casamento recente da filha. Mas não tem banda. Seus clássicos são os do blues e do country da época dos discos de 78 rotações.

Crumb à mesa, ao lado de Lora,
registrados pelo celular muito ruim que eu tinha à época:
ele só queria falar sobre música brasileira

Durante as cinco horas em que a recepção se deu, sua conversa quase única com os convidados foi música brasileira. Conhecia Pixinguinha, mas não os Oito Batutas. Jamais ouvira falar de Noel Rosa e surpreendeu-se com o retrato falado do Rio da época, a polêmica com Wilson Batista, a morte de Geraldo Pereira por Madame Satã. Tagliari, com quem trocou ideias sobre música a maior parte do tempo, contou-lhe as tantas histórias da Lapa, e ele as anotava de maneira meticulosa, agradecido, disposto a construir os nomes dentro de uma genealogia, sempre transcrevendo datas de ocorrência, como um historiador. Crumb, um homem alto, escreve com a mão esquerda.

Ao final do jantar, ele e os três desenharam-se como agradecimento a quem os recebia, sobre uma folha de caderno universitário. Para mim e Maurício Tagliari, Aline legendou-se como “serial killer”, cabelos fartos e grandes brincos. Crumb fez-se por trás de seus cabelos, dizendo-se um serial killer como ela. A expressão do clássico desenho autobiográfico do artista era de perplexidade. Shelton fez-se como um de seus personagens freak brothers, cabelos amarrados e chapéu, e o lindo desenho de Lora evocava os anos 1950, algo assemelhando-se a um personagem famoso da época, Clementine.

No dia seguinte, os quatro visitariam a loja Eric Discos, na rua Artur Azevedo, porque só ali talvez encontrassem o puro som das antigas bolachas de vitrola. Crumb não parecia preocupado com toda a futrica originada de Parati. Lá, ressaltaram, foram muito bem tratados, com a curiosa e obrigatória oferta de guarda-costas para onde se deslocassem. Aline Kominsky queria saber quem era Fernanda Young, uma vez que fora comparada à escritora e apresentadora brasileira após o evento. Seu editor disse tratar-se de mulher bonita e divertida, responsável pelo humor de uma série de tevê. Aline talvez quisesse saber se a comparação era boa ou má.

Shelton divertia-se de observar. Falava às vezes, ria sempre. Em uma das ocasiões, solicitou nossa tradução para uma nota de jornal em que, supostamente, a atriz Regina Casé lamentava a performance de Kominsky durante a Flip. Aline parecia não se chatear com nada. E destacou que as perguntas organizadas pela mediação durante a mesa foram pobres, denotando desinformação. O público que ama Crumb e Shelton merecia mais. Pelo menos, acreditava ela, mais humor.

Shelton, Lora, Crumb, Aline, Mauricio e Letícia:
era agosto, fazia frio e nós partíamos

O pobre, aliado a seu algoz

Orson Welles em “A Ricota”, de Pasolini

– Pobre Stracci! Morrer foi a única maneira de se lembrar de que viveu.

Orson Welles em “A Ricota”, episódio de Pasolini em “Rogopag” (1963) no qual o estadunidense encena o diretor da “Paixão de Cristo” no set.

Welles diz a frase ao constatar que seu ator, representando o Bom Ladrão, morreu humilhado depois de comer exageradamente tudo o que não lhe havia sido permitido comer antes.

No filme, Pasolini faz o Bom Ladrão representar o pobre que vota em seus algozes e que enxerga na capacidade de passar fome sua verdadeira vocação.

Pasolini, sempre urgente para nós.

O Ladrão Bom, para quem a morte ressalta que viveu

Carnaval é preciso

Doris Day, cabelos hipnóticos, e Thelma Ritter, a incrível, em “Pillow Talk”, de 1959: embriagai-vos de comédia

Hoje só consegui suportar o dia com muita comédia nas veias.

Até revi “Pillow Talk” (1959), que continua gracioso por conta do Rock Hudson, da Doris Day, do Tony Randall e, principalmente, da sábia popular Thelma Ritter de sempre, desta vez embriagadíssima, que atriz incrível!

Amei o filme como o amava desde as Sessões da Tarde, apesar de hoje constatar ali mais uma repetição do destino urdido à mulher desde os anos 1930 e do furibundo código Hays. O casamento como único caminho para a felicidade feminina! O casamento como fim, o fim!

Apesar disso tudo, aprecio no filme outras coisas, os efeitos cômicos de surpresa, a intensa preparação corporal dos atores, seus olhos que crescem, os cabelos hipnóticos, suas máscaras que nos movimentam até um éden momentâneo.

Doris e Rock Hudson: o casamento como fim, o fim!

Meu caçula, um feminista, riu comigo de muitas passagens picantes-inocentes que furavam a censura pelos diálogos dúbios.

A comédia é uma pulsão de cura. Comediantes, a quem sempre se atribui menos, são natos, e eu os louvo em sua eternidade.

E preciso de mais!

John Cleese, participação especialíssima em “Will and Grace”

Na linha de “Pillow Talk”, vou esgotando os episódios da já tão anacrônica série de tevê “Will and Grace” (1998-2006), com sua mistura de Doris e Rock, Lucille Ball e Desi Arnaz, de Thelma Ritter e Mary Tyler Moore, de Jerry Seinfeld e o escambau.

Preciso de humor, de festa da carne, de carnaval. E “Will and Grace” já me tirou de poços profundos…

Carnaval ou Morte! – digo então ao apontar para esta senhora que atualmente é a mais deselegante representação do Brasil.

meu vazio instante

feita nos anos 1980, esta imagem me abriu uma possibilidade para a fotografia e para a vida.

eu era jovem e impetuosa. (talvez me reste algum ímpeto, às vezes.)

nos meus 20 anos, emocionei-me ao conseguir esta imagem para um trabalho de faculdade.

minha intenção era somente clicar a bela janela do bixiga, bairro onde eu morava, com a olympus portátil que uma colega me emprestara. mas eis que esta senhora apareceu. pedi-lhe que se virasse pra mim e ela não se virou. ficou assim, olhando o infinito, por um bom tempo. minha timidez me perguntava se eu deveria clicá-la sem que me autorizasse. minha ousadia decidiu por mim. a senhora não se importou com a foto que eu fiz.

somente depois descobri que fotografia de rua é feita principalmente assim. com o senso claro de que algo está sendo tirado de quem não nos vê. ou, como dizia meu querido e divertido flavio damm: “aproximar-se como um gato, fugir como um rato”, eis o que um fotógrafo de rua deve fazer.

só assim, meio caçadores, meio ladrões, obtemos a imagem límpida, não preparada, desnuda, a verdade por um segundo, principalmente a nossa, e então para sempre.

e será nosso dever devolvê-la ao universo como uma leitura digna, divertida ou dramática, da situação vivida. uma oferta à humanidade.

quem acolheu com assombro esta foto (e as outras do trabalho) foi meu então professor, tornado amigo para sempre, carlos moreira, para mim um dos mais extraordinários fotógrafos do mundo. me deu nota dez.

carlos me ensinou toda a base do que sei, em tantas conversas que acabávamos por fazer, durante curiosos e intensos encontros que aconteciam entre nós de dez em dez anos, a maioria deles gravados.

ultimamente, a seu pedido, eu vinha escrevendo um livro sobre sua vida. nos dávamos bem, ele me contava quase todas as coisas. mas acho difícil, por uma série de razões, que esse livro saia um dia.

choro em pensar que não tenho mais o carlos a meu lado. suas conversas sobre fotografia eram aulas para a vida. pura filosofia, em estado de beleza.

sempre soube que sofreria com sua partida, que fará dois anos logo mais, embora tudo dele ainda viva em mim.

eu apenas não previ que a dor seria tão grande.

e o vazio.

A cerâmica de Kaji Waurá

Minha cumbuca com a capivara
na ponta, arte do povo Waurá,
do Alto Xingu

A gente vive de tentar colocar alegria sobre o caldo de tristezas sem fim. E o facebook me dá muitas alegrias ainda. Como esta de ser amiga de Roberto Romano Da Silva e acompanhar seus maravilhosos posts.

Ontem por exemplo ele compartilhou conosco o trabalho de Kaji Waurá, mestrando de Educação da Unicamp que se sustenta com a venda das cerâmicas de seu povo do Alto Xingu. E assim fui correndo atrás de saber o que este imenso indígena (grande no tamanho também) tinha pra me vender que eu pudesse comprar. Ele me disse que aproveitasse, porque hoje viria a São Paulo entregar algumas coisas e poderia levar algo até minha porta… E agarrei a chance do modo que pude.

Kaji, ao lado do filho Januário,
mostra a cumbuca feita por sua mãe,
Makalu, e pintada por ele

Chegou agora minha cumbuca com uma capivarinha na tampa, feita pela mãe de Kaji, Makalu Waurá, e pintada por ele! Estou tão alegre que me destrambelhei pra receber a preciosidade, e Kaji percebeu. Segurou a peça junto, sob o olhar divertido do filho Januário, que faz ensino Médio em Campinas e veio entregar com ele.

Comprem dele, se puderem. É mais um desses seres a brilhar diante de nós. Você o procura pelo WhatsApp 19-98814 5594 e ele lhe dá a lista do material disponível.

Para provocar felicidade

Cinema puro

Rouben Mamoulian, diretor dos contrastes, entre o ligeiro e o sombrio, reflete em “O Cântico dos Cânticos”, com Marlene Dietrich, sobre o espaço designado à mulher

Morre-se de amor pelo cinema ao ver um filme de Rouben Mamoulian. Cinema em sua complexidade dramática, visual e sombria.

O diretor de origem armênia nascido no império russo, belo fisicamente, forte artisticamente, irônico e bem-humorado, dá a seus atores o tempero das falas e os gestos realistas num cenário de pompa. Os contrastes constantes e vívidos embelezam o simples e trazem a dificuldade (o não-dito, o que é só sentimento) ao nível do palpável, do chão.

O diretor Mamoulian e
Marlene Dietrich no set de
“O Cântico dos Cânticos”

Qualquer beleza fílmica acaso haveria sido maior do que esta, ainda mais se a tivéssemos presenciado numa sala de cinema daquele tempo, onde os veludos do aconchego se cruzavam com os ratos nos banheiros?

Em “O Cântico dos Cânticos”, de 1933, que a Colecione Clássicos disponibiliza através da caixa “Cinema Pré-Code”, vemos uma amostra desse cinema comercial hollywoodiano ainda livre, pleno de graça e ardor. O cinema como ele foi antes que o Código Hays, em 1934, passasse a controlar (e isto até as quatro décadas seguintes) as produções cinematográficas dos Estados Unidos, dificultando que a vida real – libidinosa, homossexual, política – se visse representada pelo drama.

A menina do interior
terá de se despir para Berlim

Nesse filme de 1933, por exemplo, um condutor de charrete adentra o quadro num pulo e pulamos nós espectadores com ele também, surpresos porque até então somente os cavalos assomavam junto ao portão. Cinema!

A escultura é mostrada desde sua giacomettiana fundação, e nos refestelamos de suspense pela figura que vai surgir. Cinema também!

O campo florido está repleto de grama e Lily Czepanek (Marlene Dietrich) enfia sua cabeça nela, explicando ao amante que dali sai o cheiro da vida. Cinema, sim!

O chão que nos protege

E os diálogos simples e diretos, humorados, dos atores? E os olhos grandes de Dietrich, sua fala doce e suas muitas faces, da menina ingênua no cemitério até chegar à baronesa e à mulher dissoluta? Que percurso para uma atriz, que cinema puro!

O escultor Richard Waldow
(Brian Aherne) e sua modelo
Lily Czepanek (Marlene Dietrich)

A trama é dos Novecentos. Um escultor pobre, Richard Waldow
(Brian Aherne), busca a obra de arte perfeita, até porque um barão já pagou por ela. A jovem órfã Lily carrega sua Bíblia para Berlim porque está atrás do amor. Os dois se encontrarão, e rapidamente, porque Mamoulian sabe com quem fala, leitores de folhetim arrastados ao cinema no domingo. É de romance que todos precisam.

Diante do espelho, ou será da cruz?

Então que não se perca tempo demais com isso: está claro que Dietrich se transformará na principal obra do escultor. Mas não só dele, visto que todos quererão moldá-la à sua semelhança no filme. Claro que o amor virá em um ponto luminoso e será chamuscado, talvez perdido pela jovem, que logo envelhecerá suas expectativas.

De início ela vai trabalhar na livraria da tia (e até o folhear dos volumes, nesse ambiente, insinua uma outra intenção) porque seu pai, com quem morava no campo, morreu. De cara, a velha a faz ver que tudo na bela sobrinha está inapropriado à cidade. Ela chega encapada por camadas de saias e anáguas na inversa proporção do que Berlim exige – a “nudez” de seus habitantes, ou seu pragmatismo, submissão, entrega absoluta. (Não será por acaso que no ano em que se faz o filme Hitler sobe ao poder na Alemanha.)

Numa sequência herdeira da época silenciosa, Dietrich tira a primeira saia, depois mais outra e outras, até deitar na cama para dormir. É um trabalho preciso na sua feitura cômica e igualmente sinalizador de uma proposição: o novo cinema deve se desfazer de suas camadas de apetrechos inúteis, de empolação. (Do que mais se fala nas entrelinhas de “O Cântico dos Cânticos”, aliás, é do cinema em si.)

Como posse do barão
Von Merzbach (Lionel Atwill)

Dietrich vai assim tirando as anáguas até o osso do seu corpo – ao contrário do que fará o escultor depois, ao “vesti-la” com a carne de sua argila, por vezes moldando-a como quem a aperta para o amor. Muito erotismo silencioso e insinuado será feito essencialmente a partir daí, da troca de olhares que resultará em sorrisos entremeados pelo desafio.

O caminho da dissolução,
o mesmo onde a mulher poderá encontrar a liberdade

Principalmente, a essência deste filme que tão bem repercute sua era cinematográfica está na localização do espaço delimitado onde será possível obter a liberdade feminina. E que espaço sombrio, esse! Impor-se a ele, em resumo, é fazer um caminho indignado porém sorridente, “queer”, em que a mulher incorporará a dissolução para dela se servir, como quem veste um colar.