Tento de tudo.
Apelo a Era Uma Vez na América:
De Niro na casa de ópio.
Quem sabe não faz meu sono vir?
Nada…
Todos dormem por aqui, exceto eu.
E fico feliz por eles, meu paraíso.
A noite é quente, até abafada, avisam-me os mosquitos.
Esses seres gritantemente efeminados que não estão nem aí pras ilusões da gente, grandes ou pequenas.
Cotidiano
Ponho a roupa pra lavar,
estendo, guardo, lavo a louça,
perfumo o banheiro,
deito o lixo, faço o café.
De cozinha, sou menos,
mas ajudo geral.
Não nutro essência doméstica,
antes nebulosa.
Nem pragmática, nem produtiva,
muito menos na rica flor
de minhas forças organizativas,
fotografo a janela.
E mergulho um dia após o outro.
Ontem foi difícil,
hoje também.
Com o sol lá fora, contudo,
vivo bem.
Vivo!
Sonho.
Leio.
Escrevo uns versos
para que um dia se
transformem em poesia.
Em libertação.
Breathless

Amo Mapplethorpe, o fotógrafo, e sempre saio à procura de suas imagens por este google vagabundo. Acabou minha grana pra livro, as bibliotecas estão fechadas, vou de google ou não vou.
Sonho com algo de Mapplethorpe que eu ainda não conheça. Mais uma flor, quem sabe?
Confesso que ainda não tinha visto imagens de Richard Gere por ele, como esta postada acima.
Não o julgava bom ator quando jovem, mas adorava a versão bem cínica do Acossado rumo ao México de que ele participou, “Breathless” ou “A Força de um Amor”.
Achava a partner dele no filme, uma dessas francesinhas miúdas, muito inferior à Jean Seberg do Godard.
Dizem que foi Gere mesmo, não o diretor Jim McBride, quem a escolheu, entre uma centena de candidatas.
(Que essa história de escolher par romântico em filme deve ser estranha, nem me fale…)
Mas o filme é gostoso de ver. A trilha, uma delícia.
Sempre achei o Gere o máximo de sabido. Kurosawa o entendeu com cara de japonês e o pôs em “Rapsódia em Agosto” para revisitar Nagasaki na pele do descendente americano de uma família. Que grande o Kurosawa, né gente?
Movida por este gere-mundo, fui assistir hoje a um streaming de “Gigolô Americano”, do Paul Schrader, sucesso nos anos 1980. E concluí que o filme mais se parece mesmo é com um screaming, um grito perdido no tempo. Muito ruim de doer, tem aquela fotografia noturna assimilada pela propaganda brasileira dos anos seguintes.
Era um tempo de liberação sexual, pré-Aids, de abertura do cinemão para a estética e a temática pornôs. Mas o filme não tem nada demais, contenham-se… É tudo insinuação mixuruca. E o gigolô está neste mundo para fazer felizes as mulheres ricas de idade! Uma espécie de agente bom de corte sem a comédia voluntária daquele filme com o Adam Sandler.
Até corrigiram o diastema da querida Lauren Hutton, para que ela parecesse perfeita… E assim a gente a constata perdida no meio daquelas piscadelas de neon.
Mas Gere é sempre Gere, mesmo bufando, como acusava Paulo Francis, aquele ressentido. Atualmente o ator continua lindo e solto por aí, budista, auxiliando os africanos rejeitados na Europa.
Por que pedir mais de alguém?
Meus olhos para Salvatori

Renato Salvatori, Luchino Visconti, Claudia Cardinale e Alain Delon no set de “Rocco e seus Irmãos”, que completa 60 anos, com Cardinale e Delon ainda vivos.
Claro que meus olhos de mulher se atraem sempre por Delon, dublado neste filme. Mas, em “Rocco” como em outros, sou mais o grande e belo ator Salvatori.
💜
Erro em perspectiva
No começo da fotografia não havia crença para ela.
Era um brinquedo, por todos assim entendido.
Uma impossibilidade de extensão.
Luz cabalística.
Embriagado patrono dos vícios, Baudelaire a desconsiderou como arte, por apenas repetir, segundo ele, o verdadeiro, o existente, a perspectiva da realidade.
Sempre que deparo com esse Baudelaire, me encanto com sua inocência.
Como se a máquina tivesse o poder de reproduzir toda a maneira de ver.
E choro lágrimas de vidro sobre a face cortante.
Não há máquina que dê conta de mim.
Dos meus olhos em sangue.
Deidade do infinito
Grito pela janela com muito fervor.
E não só por ele.
Contra ele.
Mas também por mim.
Contra os outros em mim.
Aqueles outros que ardem em meu inferno de todos os dias, e que permanecem quietos aqui dentro, esperando explodir.
Contra os bolsonaros dos meus costumes, da minha cidade, do seu comércio, das vilas de apego consumista, dos becos de paixões de papel.
Gritei “fora lixo” e ela me respondeu “vai arrumar a casa”.
Minha casa nunca será arrumada, lady.
Não, pelo menos, por seu desígnio de trevas, não por seu color touch blonde, não por seu curtume.
Minha ambição é a deidade do infinito.
Minha ambição é meu país.
Minha ambição.
Eu.
Amávamos tanto
Creio que muitos de meus amigos conhecem “Nós que nos amávamos tanto”, belo filme de Ettore Scola lançado em 1974.
Terno, reflexivo, risonho, às vezes lindamente grotesco, com a interpretação magistral de Aldo Fabrizi, e também tão triste…
Commedia all’italiana de meu coração.
Talvez nele vocês reconheçam os amigos que abandonaram seus sonhos de igualdade e se tornaram os espectros que vemos achatar a terra ainda hoje…
Que roteiro maravilhoso, quase uma HQ nascida dos experts em humor do jornalzinho onde Fellini também trabalhou!
Esta versão é integral com legendas em espanhol.
Revejam, vejam. 💜
I love Lily

Não sei o que me faz amar Lily Tomlin tanto assim.
Desde Nashville, de Nine to Five a All of Me…
Que estrela!
Mal chega uma temporada de “Grace and Frankie” e eu a devoro inteira por causa dela…
Em primeiro lugar, uma comediante que sorri!
E que parece feliz.
Que sabe o seu lugar.
E que jamais desistiu de lutar com elegância por ele.
Que se recusou a sair do armário numa capa pra Time.
E que acabou capa da Time do mesmo jeito anos depois, em 1977, celebrada como “Rainha da Comédia”.
Uma comediante, mulher comediante, é sempre uma heroína.
Vocês sabem que Lily é o nome da mãe dela?
Que seu verdadeiro nome é Mary Jean, quase uma Norma Jean?
Que ela estudou medicina, como Graham Chapman, o Brian de Monty Python?
Que sua esposa se chama Jane? Que são uma dupla de trabalho também? Que ela cria e escreve papeis pra Lily?
E que sua preferência como atriz é atuar diante da plateia, improvisando e trocando energias com ela?
Pois então.
Sinto falta de chamar os amigos pra falar sobre Lily Tomlin.
Não que eu tenha muitos, mas…
Pelo menos tentaria reuni-los, não fosse a tristeza atual.
Mas Lily não é triste.
Não vou ser.
💜
Elegia
Dali do alto da avenida São Luís saem os gritos e assovios
que torcerão para sempre bem nítidos contra o coronavírus
e contra o espelho, espelho-meu partido, de salomônicas cnns.
Jaz ali findo, como hades de boteco, aquele a quem chamam presidente,
cataplasma de infeliz clamor, rígido aspecto, o lixo escoado pelos dentes.
Dali do alto da avenida São Luís ouço a morte nas carreatas
dos profanadores de meu país, ilesos, lisos, solventes nas águas livres,
a sorrir para quem dorme nos bancos gélidos, lá onde caem as folhas
e atrás dos quais se põe, declamador quase bíblico,
o Dante Alighieri no central park da praça Dom José Gaspar.
Lutar, amigos, lutar, mas meus olhos estão tristes
e meus ouvidos não suportam mais.
Para completar, zombam desta intimidade de sonho
os abusadores da tibieza do meu corpo, prestes a me obrigar às lágrimas.
Tempo haverá, tempo-tempo-tempo, para que meu rosto, velho bonito que
não se dá a ver, responda ao terror com o sorriso do princípio.
Dali do alto da avenida São Luís, contudo, ainda ouço quando o mendigo infeliz
Lembra à amada, que não se diz mais sua, o muito que tiveram e o que ele lhe deu.
E isto tudo a ecoar feito nada.
Bem sei que muito falta para que, de gritos e assovios, o mundo acabe em estampido,
mas sinto que até lá, desgarrada, sorverei o sangue estreito em uma colher de chá.
Por Drucker
Mort Drucker, que morreu agora, era o responsável pelas paródias de filmes da Mad. Lá na minha adolescência, líamos a revista, mas nem sempre tínhamos dinheiro para os filmes. Então nós os conhecíamos primeiro pelas paródias do Drucker. Era um humor de mau humor. Ele apontava as incongruências de roteiro, as hipocrisias dos diálogos, a farsa em si dos blockbusters, com um desenho realista. E ansiávamos por uma nova versão de filme, todo mês.
Enfim, artista, vá em paz.