A pandemia me afastou dos poucos amigos que eu tinha pra olhar nos olhos.
Sinto tanta falta deles, embora tenha muita sorte de viver com minha família e poder senti-la também assim pelo olhar.
Com esses poucos amigos era apenas um outro jeito de partir.
Sou alguém sempre em viagem, embora quieta, surda e muda pras grandes expectativas.
Todo dia é um grande movimento pra mim.
E minha casa fica lá de trás do mundo onde eu vou (voo?) em segundo quando começo a pensar, ô felicidade!
Vi hoje o documentário sobre Leonard Cohen e Marianne na Netflix, sugerido
pelo querido Gabriel Barcelos, no Facebook, e estou muito necessitada de segurar minhas malas.
A inquietação que ninguém adivinha.
Uma definição de amar.
Como é difícil o amor!
Não li a autobiografia do Cohen por medo do que encontraria.
Eu tinha razão.
Extratos de um sonho sobre a revolução transcorrido no Bixiga
Meu sonho, ou minha tentativa de explicá-lo e comungá-lo, como ensinou Sidarta Ribeiro, num relato dedicado à linda e sábia Simone Curi:
Eu estava na feira livre, muito próxima de minha casa, escolhendo frutas, mas elas eram ora muito pesadas de carregar ora rolavam pela ladeira da rua São Vicente, no Bixiga, e eu as perdia lá embaixo, pela escola de samba Vai-Vai.
Às vezes os feirantes se recusavam a me ajudar. Ou reaviam as frutas, mas decidiam não vendê-las a mim. E frutas… Frutas eram tudo de que eu precisava, a boca seca necessitada de trato. Tal carência, por sua vez, vinha alimentada pela terra vermelha árida. A necessidade me fazia permanecer na feira, que, como um organismo vivo, parecia me rejeitar.
Os feirantes eram jovens com o rosto enlameado ou muitas crianças que usavam aparelhos nos dentes, feito a Fadinha do skate. Pareciam maquiadas. Sorriam por baixo do pó, ele também cor de terra. Espécies de duendes numa terra alta.
Pouco a pouco eu entendia que, a partir do chão da rua, erguia-se um tablado, depois uma construção plena de relevos tornados assentos, como muretas, onde era difícil se equilibrar. Mas eu conseguia aprontar o equilíbrio por esses acidentes sem saber explicar como.
Todo o sobrenatural era até bem natural pra mim, e meu manejo simples com a dificuldade não despertava a curiosidade de quem me via. Eu não chamava atenção.
Ninguém percebia a dificuldade envolvida no meu movimento, embora, pelas leis da física, tudo em verdade que eu fizesse para andar fosse impossível de ser realizado, exceto sob efeitos especiais ou sonho. E eu tinha consciência disso no inconsciente pulsante do sonho.
Percorria de lá pra cá o auditório erguido com arquibancada de muitos degraus, feito um gigantesco e acidentado teatro Oficina, em busca ainda de fazer minhas compras de frutas. E para andar sobre os acidentes usava um pedaço de madeira fino, comprido, que segurava com as mãos – espécie de perna de pau, com a diferença de ser manual.
E então me lembrava que havia estado nesta peça no ano anterior, e não entendera nada dela, pois se falava língua eslava no filme (agora a peça se transformava em filme) sem legendas. Mas eu gostara das atuações e desconfiava que a trama era boa.
Os atores haviam mudado. A peça-filme se passava em três dias. Eu voltara para entendê-la, mas me arrependia de ter feito isso, sem contudo conseguir simplesmente me ausentar, por respeito aos atores. Havia muito sacrifício envolvido em presenciar a trama.
Pouco a pouco eu compreendia que os feirantes todos representavam uma peça sobre a revolução. Um texto clássico, apresentado nos cineteatros dos anos 1960 com muito sucesso alternativo. Os meninos na feira eram militantes da resistência. Cada circunstância ou passagem de frutas tinha um sentido de acordo com o texto. Eram mensagens cifradas. Eles organizavam a caça ao tesouro em lugar a ser encontrado.
Conforme passávamos pelo auditório, um ano de luta revolucionária transcorria. Cantores e cantoras vestidos como num cabaré de Visconti em Os Deuses Malditos anunciavam os personagens. Eram pedreiros e marceneiros arregimentados para destruir a parede e arrancar o precioso, o excêntrico, o brilho da revolução.
A certa altura, ao projetar o filme do ano anterior na parede, me descobriam na plateia. E riam muito. Como eu tinha conseguido voltar pra ver aquilo?
Havia alguém que fora comigo assistir à segunda versão, mas desaparecera do cenário para fumar um baseado, então distribuído pelos atores-militantes ao público, em flagrante desconcerto com as normas revolucionárias dos anos 1960, quando drogas eram vetadas.
Envergonhada por ter sido descoberta na segunda tentativa de assistir ao filme, agora para compreender de fato seu segredo, eu deixava o auditório atrás do meu acompanhante, porque ele era igualmente importante para a revolução. Mas o teatro grande e esfumaçado fazia com que eu me perdesse na bruma e não conseguisse chegar ao pátio dos fumantes.
Acordei com as costas doendo. Vou colocar bolinhas de tênis para massageá-las enquanto tomo o sol que vem pela janela. Estou a pouca distância física do Bixiga. Lá nasci, me formei e sonhei os primeiros sonhos da existência.
Em ‘O Ministério da Verdade’, Dorian Lynskey traça uma biografia de ‘1984’, de George Orwell
A seguir, a resenha que fiz deste importante livro de história cultural para o suplemento Aliás, do Estadão, publicada em 11 de julho de 2021.
Há uma informação logo na primeira frase que foi modificada de meu texto original. No artigo publicado, imprime-se que Orwell morreu em 1949, mas foi em janeiro de 1950. E “1984” foi publicado em 1948.

George Orwell (1903-1950) publicou 1984 em 1948, um ano e meio antes de morrer com tuberculose. A obra, que ao sair foi comparada a um terremoto, a um feixe de dinamite e ao rótulo numa garrafa de veneno, revelou-se caleidoscópica, e a cada temporada histórica uma diferente interpretação do livro se sobressaiu. Durante a Guerra Fria, este que se tornou o último texto ficcional do escritor inglês foi lido como um romance sobre o totalitarismo, com a tendência de a crítica ocidental ligá-lo unicamente à barbárie stalinista. Na década de 1980, o volume, já compreendido como um clássico, parecia alertar sobre as tecnologias de vigilância, embora Milan Kundera e Harold Bloom o entendessem como um romance ruim. O escritor Anthony Burgess, que construiu Laranja Mecânica à sua luz, chegou a defini-lo como “o código apocalíptico de nossos piores medos”. E atualmente, em meio ao império global das informações falsas, 1984 tornou-se um dos mais poderosos livros em defesa da verdade.
Ainda que seja possível admitir sua imaginação ficcional limitada, como queriam Bloom e Kundera, o romance exibe intacto o poder da escrita persuasiva, em um fluxo de observações a expressar o profundo incômodo de seu autor, conforme escreve o historiador cultural inglês Dorian Lynksey, de 47 anos, nas espetaculares 488 páginas de O Ministério da Verdade. A sua é uma investigação muito bem fundamentada de história cultural, que insere as ideias e seus artífices no contexto de produção, sem perder de vista o leitor comum. A linguagem clara arma-se para reproduzir a atmosfera mental na qual foi composta a dura sátira que, mesclada a uma história de amor, virou peça radiofônica, encenação televisiva e filme homônimo por Michael Radford, além de traduzida para mais de 60 línguas.
A trama ficcional parece conhecida, a ponto de uma de suas situações, a da eterna vigilância, ter sido parodiada em um reality show de sucesso, onde o punitivo Quarto 101 virou Confessionário. Mas talvez poucos a tenham lido realmente, o que vale uma rememoração. Em 1984, o protagonista Winston Smith passa os dias reescrevendo exemplares antigos do jornal The Times no Ministério da Verdade, de modo a tornar os fatos inventados do passado uma justificativa à opressão presente. Um dia, apaixona-se, o que é proibido. Ele e Julia, seu amor, precisam driblar a impressão de que a memória os engana. Tentam acessar o mundo anterior à imposição da “novafala” (a tradução a preferiu à conhecida “novilíngua”), recurso vocabular de modificação constante que dá sentido ao “duplipensar”, ou o pensar uma coisa enquanto se propõe outra distinta.
O sistema de duplicidade em que vivem é estabelecido pelo Grande Irmão, que tudo controla e vê. Seu objetivo ao construir “despessoas” é interromper tanto a ciência quanto a história. Ao desejar o fim desse mundo no qual “guerra é paz”, “liberdade é escravidão” e “ignorância é força”, Winston também sabe que seu final logo virá, embora não calcule que esse apagamento se dará por meio da renúncia horripilante a seu amor por Julia. Enquanto isso, os cientistas continuarão a projetar teletelas e helicópteros-espiões, a inventar novas armas e dispositivos de tortura, a realizar cirurgias plásticas radicais e a tentar abolir o orgasmo, ao mesmo tempo em que nada farão para melhorar a qualidade de vida geral.
É o mundo terrível como o vemos conhecendo? Sim e não. A novafala de Donald Trump, por exemplo, exemplificou o sim, uma vez que sob o ex-presidente estadunidense foram admitidos “fatos alternativos” em lugar de “fatos”. O livro não deseja retratar apenas aquele universo de constante tensão e cancelamento imaginado pela sanha stalinista. 1984 é também um retrato do fascismo e de todos os regimes políticos a sufocar a liberdade e a convergir o poder na direção de um “coletivismo oligárquico” do qual os trabalhadores se veem, na verdade, excluídos. Orwell, um homem de esquerda, investiu contra todos os totalitarismos. “Por trás de Stalin se esconde o Grande Irmão”, escreveu o crítico E. M. Forster em 1951, “mas o Grande Irmão também se esconde por trás de Churchill, Truman, Gandhi e qualquer outro líder usado ou inventado pela propaganda”.
O cineasta Radford, que adaptou a trama às telas aceleradamente, para que estreasse em 1984, a vê como um “mito grego”, por meio do qual é possível até mesmo “examinar a si mesmo”. Mas é curioso como tantos, desde a apresentação do livro ao público, tenham preferido tratá-la como uma obra falha no sentido de cravar profecias. Orwell disse muitas vezes que não previa nada com seu escrito, certamente nada que envolvesse ciência, ao contrário do que elaborara com bastante sucesso seu antecessor H.G. Wells. O autor de 1984 apenas fazia uma leitura “provável” do futuro, baseada tanto na sua experiência como combatente na Guerra Civil Espanhola quanto naquela de ávido leitor, tanto de história política quanto das ficções utópicas, entre elas Nós, de Ievguêni Zamiátin, que conheceu depois de haver iniciado seu romance e na qual parcialmente se baseou.
A experiência ao lado dos anarquistas foi uma daquelas a contribuir para a fama de “idealista estabanado” com a qual o escritor e amigo Henry Miller o presenteara. Nascido Eric Arthur Blair na Índia em 1903, um descendente da baixa classe média que havia cursado a elitista escola Eton, Orwell era um “revolucionário apaixonado”, segundo o amigo Cyril Connolly. E somente quando colocado na pele daqueles caídos abaixo do sistema de classes sentia experimentar um “igualitarismo”. Havia escrito Na Pior em Paris e Londres, de 1933, em que usou pela primeira vez o pseudônimo que o tornaria famoso, com esse objetivo, e três anos depois se encontrava ao lado dos anarquistas no Aragão. Os anarquistas queriam a revolução além da queda do general Francisco Franco, motivador do conflito. Mas os comunistas estavam ali apenas para expulsá-lo do poder. Apesar de pertencer ao grupo anarquista, Orwell, alguém a cultivar o não como quem se alimenta à vasta mesa da contrariedade, acreditava que os comunistas estavam certos em seu objetivo.
Com o tempo, o escritor percebeu, estupefato, que não somente os fascistas eram uma ameaça, mas também os comunistas adeptos de Stalin. Eles haviam expandido mentiras em cascata para desabonar os anarquistas. Mentiram, por exemplo, que eles haviam se associado a Franco para solapar a revolução. Eram os comunistas os transmissores das fake news sobre Trotsky que culminaram em seu assassinato. E haviam obrigado o próprio Orwell a fugir para Paris em meio ao conflito, uma vez que lutava ao lado dos anarquistas. Por que Orwell criticava o comunismo com mais vigor que o fascismo? Porque ele o tinha conhecido de perto, e porque o apelo do comunismo, a seu ver, era mais traiçoeiro, uma vez que também ele apagava a verdade, como num pesadelo. Mas a política não o enojava. Ele até mesmo a introduziu na sua distopia (termo criado por John Stuart Mill em 1868 que Orwell, aliás, jamais usou), diferenciando-a daquela de Aldous Huxley, que não mencionava a manipulação política em seu Admirável Mundo Novo, de 1932.
O que mais perturbava Orwell, um “guerreiro puritano” segundo seu editor Fredric Warburg, era a retórica brutalizante. O escritor, cujos admiradores foram tão díspares quanto a escritora Margaret Atwood e o músico David Bowie, via a Inglaterra como uma “terra de esnobismo e privilégio governada sobretudo pelos velhos e pelos imbecis”. E em todo avanço científico assimilado pelo poder o autor de 1984 constatava acelerar-se a tendência para o nacionalismo e a ditadura. Para ele, que deixou de examinar o sexismo ou o racismo em seu romance, a tecnologia jamais seria capaz de construir paraísos, ao contrário do que estabelecia o senso comum das ficções utópicas. Até porque, como diria o líder trabalhista e ex-premiê britânico Clement Attlee, citado por este estudo, “a maioria de nós seria muito infeliz nos paraísos alheios”.
É JORNALISTA, PESQUISADORA E AUTORA DE ‘O SONHO INTACTO’ E ‘O CINEASTA HISTORIADOR’
O preço não mente
No Submarino, o Grupo Companhia das Letras oferece por 27 reais o livro de Thais Oyama sobre Bozo que custava 54.
E um outro volume pela Penguin, uma antologia com “textos” de Dallagnol, Pozzobon e Moro intitulada “Corrupção: Lava Jato E Mãos Limpas”, sai de 58 reais por 27.
Especialmente no caso deste último, me perguntou aqui o Mau, a Companhia está oferecendo 27 conto pra gente ficar com o livro?
Porque nem de graça a gente vai pegar uma radiação dessas com as lindas mãozinhas, mores.
Pior que o Führer. Acho que ele vai gostar
Insônia é fogo e me lembra que Hitler fez mais pela cultura de seu país do que Verme.
Hitler exigia cinema bom e apaixonou-se pela loucura de Leni Riefenstahl, além de conseguir reter na sua administração atores como Emil Jannings (“O Anjo Azul”) e diretores como Walter Ruttmann (“Berlim, Sinfonia de uma Metrópole”).
Nana Caymmi apoiou Bozo, que por sua vez destruiu nosso cinema e nossa cinemateca, mas não sei se Bozo gosta de Nana Caymmi, isto se souber de quem se trata. O único apoplético a serviço do Verme com algum relevo acidentado talvez seja Amado Batista.
E sei lá do que mais essa anticriatura gosta e o que aplaude, a não ser o caixa eletrônico quando espirra.
Vamos proteger nossos manifestantes
eu sei que é adorável ir à paulista mandar o bolsonaro se foder.
uma festa democrática de cores, força e luz.
e estou louca pra frequentá-la eu também, embora ainda receie por minha saúde até que, em setembro, possa tomar a segunda dose da astrazeneca, essa invenção maravilhosamente febril que me ajuda a manter as esperanças de existência.
mas a alegria toda que há em nós paulistanos por essas manifestações não deixa de conter uma infelicidade, que atende pelo nome de polícia militar.
doria, uma barbie dos infernos que sem receio, assim como alckmin, já jogou comboios israelenses contra jovens em protestos passados, tem feito de tudo para se abrir às atuais demonstrações políticas coletivas vespertinas aos sábados, por motivo bastante conhecido de rixa de poder.
mas a pm, que ele não controla e quer bolsonaro, mostra sua face quando a manifestação dobra a esquina da consolação e a maioria dos manifestantes já partiu.
ali é que esses sádicos corruptos encurralam pretos, jovens antifas e fotojornalistas, para que paguem o preço da ousadia de desejar o fim de seus privilégios injustificáveis sob a liderança miliciana.
eu sugiro então que quem vá às próximas manifestações em São Paulo não abandone, se possível, esses manifestantes e profissionais.
e siga o cortejo do protesto até o encerramento, este que se dá na praça Roosevelt, final da consolação.
sob o testemunho e a cobrança de todos, a pm encontrará então mais dificuldade de ser o que é, uma corporação a serviço sanguinário do poder.
E Lia me deu uma ciranda!
Ontem estive triste demais até o momento em que o Mau me colocou de contrabando numa aula de Alessandra Leão na qual a convidada era ninguém menos do que Lia de Itamaracá, a “dona de Itamaracá”, como a Alessandra, criança, jurava Lia ser.
Em primeiro lugar, Lia nos contou querer que a pandemia passe logo pra ela se amostrar de novo, gente.
E em segundo lugar (pra não me estender nos terceiros e quartos), ela disse que a ciranda que faz, compondo letra e melodia ao mesmo tempo, sempre a partir do que o barulho do mar diante de si sugere, é poderosa a ponto de curar tudo.
Cantou “O Relógio” e as lágrimas caíram por trás dos computadores! E principalmente “Falta de silêncio”, na qual ela canta que ama “a falta de silêncio do mar”…
Foi tão profundo que não digo ter curado toda a minha dor ao ouvi-la, mas que ela me ajudou a sair daquele chão frio, sim, Lia me ajudou!
E me encontro aqui pra agradecer esta mulher maravilhosa, esta deidade em vida, até que possa vê-la outra vez pelo carnaval da avenida São Luís.
Nossa Odoyá!
Judy Holliday, viva!

Descubro que a amada Judy Holliday faria 100 anos. Que revista cultural comemoraria seu centenário, exceto a minha? 😉
Acima, Holliday com Broderick Crawford na melhor sequência de “Nascida Ontem”, de George Cukor, 1950.
O papel lhe deu o Oscar, aliás, por cima de Bette Davis, Anne Baxter, Gloria Swanson e Eleanor Parker…
Mas ela não pôde estar presente à cerimônia, conduzida por ninguém menos que Fred Astaire.
E ficou um bom tempo sem filmar, por conta da caça às bruxas nos EUA.
Seu QI era 172.

Ela se casou com Gerry Mulligan. Gravou um disco cantando com ele.
E morreu aos 43, vítima de um câncer no seio.
Viva, viva você!
A poesia anarco-malandra do Brasil
Algo que realmente amo em nossa língua oral brasileira é a troca constante que se faz entre as segundas pessoas e as terceiras.
Um assunto interminável.
Um verdadeiro destrambelhamento amoroso fragmentado pra matar de inveja o Rolando, nosso Barthes.
A primeira pessoa, por exemplo, todo mundo sabe conjugar.
Eu sou!
Eu fui!
Eu serei!
Mas ninguém quer saber de gramática a partir daí.
E as canções populares falam por si.
(Melhor dizendo, pra ti, meu amor.)
Se eu sei quem tu és, sou muito formal contigo, muito distante, e tu és uma estátua, em verdade, que nem sonho tocar.
Quando digo “tu é”, pelo contrário, tu tem carne, sou melhor, mais íntimo, mais corisco contigo, minha Dadá!
Eis por que “és” pode ser aplicado eventualmente ou em tese à terceira pessoa, para dignificá-la, bajulá-la, engrandecê-la, mas serve pouco pro amor que não é velho, não é parnasiano e está no aqui-agora pro que der e vier.
“Fazes” diz mais ao meu tesão inatingível do que “faz”, que a gente aplica no arroxa suado de todo baião.
Então, simplesmente, “tu é” ou “tu foi meu amor” é melhor do que “és” ou foste meu amor”, especialmente quando desejo enfatizar o que precisa ser dito urgentemente a ti. Sendo que, na realidade, “foste” é um coitadinho que ninguém reconhece: “fostes” para o “tu” grandioso é sempre muito melhor.
(Me procurem outra hora para mais dicas sobre a poesis anarco-malandra do Brasil. Estou trabalhando por vós!)
o levante dos inhozinhos em longa duração
o pior é ter de reconhecer que são muitos os bolsonarinhos entre nós faz muito tempo, até mesmo antes de o verme aparecer em pessoa pra azucrinar os brasileiros todos numa sinfonia de escárnio sem fim.
microbiozinhos incultos, soberbos, orgulhosos porque nada sabem ou porque sabem uma coisa só, os que batem seu instinto sobre a mesa, os que não perdem tempo, os violentos, ressentidos, nervosos, óbvios!
há quanto tempo, hein, esses inhozinhos mamam a paz da gente na chuva, na rua, na fazenda, no cubículo gourmet?