A engraçada do dia fui eu mesma, ali ao lado da Petra Costa, na ocupação, me achando bem colocada enquanto metia o flash sem querer no belo ângulo de seu rosto que encontrei…
Não deu certo a foto, claro, mas o que é uma fotografia, no fim? É o que fui ao fazê-la, não? É a memória que acumulei… Jamais me esquecerei da foto de Petra que não fiz.
E ademais achei curioso que a diretora estivesse sozinha, meio deslocada na festa, na fila como qualquer um pra pedir uma foto com o Suplicy, depois do sucesso de seu filme sensível…
Sou santista e me lembro com alegria de ter visto a Marta jogar pelo meu time em 2009, no Pacaembu, a ingressos gratuitos. Ela trouxe a Libertadores da América pra gente na maior classe, em jogos às vezes com a diferença de nove gols. A festa final emocionou toda a minha família, meus filhos meninos, pra quem aquele futebol era magicamente natural. A gente queria vê-las carregar a taça, gritava por elas, o estádio fazia sentido como o templo que o originou.
O futebol feminino vem carregado da garra impossível, da vontade das jogadoras, uma a uma, de ultrapassar uma condição ruim. É o futebol como ele deve ter sido naquele início brasileiro, quando os jogadores entravam campo antes do trabalho ou depois de comer pão na chapa com café, que constituía seu salário. A era do ouro, da graça e do suor.
Marta, minha querida, minha Marley, eu tenho sido bem triste com o futebol. Já amei todos eles e agora não posso mais.
Mal sei como anda meu Pacaembu, ou minha Vila, depois de uma década…
Mas entendo o que você disse hoje e sigo na cabeça e na emoção por onde você for. No que depender de mim, choro agora pra sorrir depois com suas meninas, essas que, bem sei, um dia você irá conduzir.
Um passado e um presente só de glórias! Você vive no meu coração.
Na primeira foto, em meio às montanhas de seu retiro na Baviera, o chanceler Adolf Hitler abraça sorridente Rosa Bernile Niernau, com 6 anos de idade naquele 1933 em que ele ascendia ao cargo de premiê da Alemanha. A avó de Rosa era judia, mas, mesmo depois de descobrir o fato, Hitler se recusou a cortar laços de amizade com a menina. As flores sobre o papel fotográfico foram pintadas por Rosa, apelidada pelos nazistas de “a criança do Führer”. Hitler guardou a imagem tirada por Heinrich Hoffmann depois de inscrever, em seu verso: “A querida e considerada Rosa Bernile Niernau, Munique, 16 de junho de 1933.” A peça foi leiloada em Maryland no ano passado por 11,5 mil dólares e o colecionador, não revelado.
Na foto abaixo, de Sérgio Lima, Jair Bolsonaro sorri extasiado ao erguer nos braços Yasmin Alves, 8 anos, durante a visita que fez a sua casa na região de Estrutural, uma das mais pobres do Distrito Federal. A justificativa oficial para a visita, realizada neste abril de 2019 em que Bolsonaro completa três meses à frente da presidência do Brasil, é desfazer o mal-entendido de que anteriormente a criança tivesse se negado a cumprimentá-lo. Yasmin é negra, ele sabe disso e nós também.
Todo político faz fotos com crianças.
O político populista as utiliza para propaganda.
E só o tempo, ou a história, ensina o que eles decidiram propagar.
Oito meses antes de morrer, o dramaturgo editou na Alemanha Oriental imagens da guerra anteriormente publicadas por revistas como a “Life”, acrescidas por seus poemas-legendas
“Esta coisa dominou o mundo uma vez. Seus conquistados o superaram. Contudo, desejo que vocês não gritem de alegria por tal razão; o útero do qual isto rastejou permanece fértil.”
A faixa estendida neste 24 de abril de 2019 na praça Loreto, exato local de Milão onde o corpo de Benito Mussolini se viu exposto de cabeça para baixo, há 74 anos, renova os alertas à ameaça fascista. Na faixa, leem-se a frase “Honra a Benito Mussolini” e a assinatura “Irr”, abreviação de “Irriducibili”, nome da principal torcida organizada do time de futebol Lazio.
O último 20 de abril marcou também o aniversário de Adolf Hitler, nascido há 130 anos. E talvez, com seus atos, os torcedores fascistas do time mantivessem implícita uma vibrante comemoração às ideias do ditador, duvidoso “irmão” do Duce.
De qualquer maneira, na praça Loreto, neste 24 de abril que antecede em um dia a comemoração da libertação da Itália na Segunda Guerra, os fascistas usaram a saudação romana, simbólica do regime de Mussolini, para manifestar sua torcida pelo time, que hoje joga contra o Milão pelas semifinais da Copa da Itália.
O dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956) cansou-se de alertar sobre o perigo fascista, que atos como esse apenas demonstram ser permanente. Ele deixou sua Alemanha em 1933, ano em que o chanceler Hitler foi eleito, rumo à Dinamarca, à Suécia e depois à Califórnia, por conta da perseguição a suas ideias marxistas e a seu teatro libertador (e nos Estados Unidos se viu caçado pelos macartistas; mais tarde narro a vocês aqui no blog um episódio que ilustra a perseguição).
Brecht era também um apaixonado pela fotografia. Desde os anos 1920 compilava em grandes cadernos de esboço as imagens publicadas por revistas como a Life sobre a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, e vencendo a censura, o dramaturgo fez publicar em 1955, por meio de uma editora satírica da Alemanha Oriental, a Eulenspiegel, uma coletânea de 85 dessas imagens, intitulada “Krigsfiebel” (bíblia ou guia da guerra). As fotos exibidas pelo volume, editado em dezembro de 1955, oito meses antes de sua morte por ataque cardíaco, mostravam líderes nazistas e aliados, a destruição urbana causada pela guerra, os civis desolados e os inimigos mortos.
Contudo, ele acreditava que as imagens, embora potentes, não exprimiam sozinhas realidades complexas. Eis por que decidira acompanhá-las de “fotogramas”, como as intitulava, com uma densa, às vezes irônica, legenda em quatro versos. Como fazia em suas peças, coordenava então imagens e palavras de modo a provocar o leitor a pensar criticamente e a questionar seu conhecimento limitado sobre o fascismo e o capitalismo.
Quando as vendas do livro decaíram, Brecht o ofereceu a bibliotecas e outras instituições, sob a alegação de que a “louca supressão de todos os fatos e julgamentos sobre os anos de Hitler e a guerra” deveria ter um fim. Ele planejava acompanhar o livro de um outro volume, “Friedensfibel” (guia ou bíblia da paz), mas tal obra ficou inacabada.
A foto que publicamos aqui, retirada de seu livro-álbum e de autor ignorado, mostra Hitler em um pronunciamento de 1934. Na edição estadunidense, cujo título é “War Primer”, e que ganhou republicação em 2017, lê-se a legenda com o nome do ditador alemão e sua data de nascimento: “Hitler: 20 de abril de 1889”. Embaixo da foto, segue um fotograma em quatro versos, cuja tradução aproximada é esta, retirada do livro “Literature and Photography”, organizado por Jane M. Rabb e publicado em 1995 pela University of New Mexico Press:
“Esta coisa dominou o mundo uma vez.
Seus conquistados o superaram.
Contudo, desejo que vocês não gritem de alegria por tal razão;
só na biblioteca a gente pode mesmo respirar um consolo pra esse mundo ruim… borges, dos meus autores mais relidos, sempre tem algo a ensinar. deparo com este trecho de “o pudor da história” que eu não “enxergara”; é como se eu seguisse um procedimento que o escritor descreve aqui e do qual também, alguma vez, foi vítima; a gente precisa ler para entender, mas não somente, também para olhar o que antes não vimos:
“… desconfio que a história, a verdadeira história, tem mais pudor e que suas datas essenciais podem ser também, durante longo tempo, secretas. Um prosador chinês observou que o unicórnio, justamente pelo fato de ser anômalo, pode passar despercebido. Os olhos veem o que estão habituados a ver; Tácito não percebeu a Crucificação, embora seu livro a registre.”
Há algo que não terei visto hoje e que se passa secretamente diante de mim. Algo de bom. Preciso fechar os olhos pra ver?
Por muitos anos, já durante a República, os governos federais brasileiros quiseram extinguir o carnaval.
Uma festa obscena, certo? E crítica! E suja!
E por este tom andavam as indignações.
Foi então que o marechal-presidente Floriano Peixoto teve uma ideia brilhante para arrefecer os ânimos.
Ele mudaria a data do carnaval. Em lugar de fevereiro, decretaria junho para as comemorações de 1892.
Era pro bem da população.
Sem sol, sem problemas, sem doenças!
Compostura!
Pobre Floriano, não se dava conta do brasileiro…
O que fizeram os cariocas ao saber da mudança? Nem perderam tempo em reclamar. Em fevereiro, celebraram o carnaval extra-oficial. E, em junho, saíram pra folia outra vez, na data que o presidente quis.
Floriano pôs a mão no chapelão. Que povo era esse, meu Deus? E no ano seguinte decretou que o carnaval seria em fevereiro outra vez.
Acima, uma capa do artista J Carlos ironizando pesadamente o intento de proibir a folia em 1927. Sim… Porque a ideia de colocar um fim àquela pouca-vergonha não cessava, certo? J Carlos, contudo, sabia que não iria funcionar! Proibir a festa era chamar a revolução!
Cinco anos depois deste desenho (e de muitos outros de sua autoria, todo santo ano), o governo do Rio, impulsionado por uma ideia de Mário Filho para vender o jornal de esportes da família durante o carnaval, quando ninguém queria saber de futebol, abraçou oficialmente a competição das escolas de samba.
Sirvam-se da história, suas excelências, pastores e generais!
Franklin de Oliveira (1916-2000) lembrava o seguinte em seu ensaio “A Semana de Arte Moderna na Contramão da História”:
A universidade chegou ao Brasil em 1922, no Rio.
Mas quatro séculos antes, em 1538, fundava-se em São Domingos a universidade São Tomás de Aquino e, logo a seguir, a de Santiago de La Paz.
Em 1553, a do México e a de La Paz, a da Guatemala e a do Peru, a da Colômbia, duas no Chile, duas na Argentina, a de São Marcos, em Lima, a de São Jerônimo, em Havana, a de Santa Rosa, em Caracas, a De São Gregório Magno, em Quito, a de Santo Ignacio de Loyola, em Córdoba.
Todas elas dotadas de imprensa. Todas imprimiam livros e jornais.
Enquanto isso, por Carta Régia de 5 de junho de 1747, o Reino mandava sequestrar todas as letras de imprensa existentes no Brasil, por inconvenientes aos seus interesses.
“Sem a educação não se chega à consciência política”, dizia Franklin. “E era isto que Portugal queria impedir quando no Brasil, desde o final do século XVIII, já tínhamos todas as condições objetivas para sermos uma nação soberana”.
Admirado por Machado de Assis e um dos mais prestigiados autores de seu tempo, José de Alencar foi um expoente do nacionalismo romântico, aquele que buscava no indígena uma “identidade brasileira” original.
Ao argumentar longamente a partir de um trecho do texto de posse do novo chanceler, a colunista Eliane Brum nos lembra hoje desse nacionalismo praticado pelo escritor, como por Gonçalves Dias, mas deixa de lado outras facetas de Alencar.
No teatro, Alencar promoveu uma comédia que intitulou “realista”, didática, de bons costumes e polida, que Machado buscou sem muito sucesso seguir.
Na política, Alencar defendeu que a escravização dos negros, então agonizante e sob descrédito generalizado, se extinguiria naturalmente, sem a necessidade de um decreto de abolição. E que nosso sistema econômico colonial, baseado no trabalho forçado, entraria em colapso se a libertação ocorresse de forma indiscriminada.
Machado não confrontou diretamente este ponto. Alencar era uma figura inalcançável, quase paterna, que muito contribuíra para o reconhecimento literário de seu discípulo.
Em seu artigo hoje para o El País, Brum não ressalta esta passagem ao evocar o Alencar citado pelo chanceler aloprado na posse. E anuncia (acho um verbo adequado) que nos explicará o porquê de Araújo ter mencionado o autor de “Iracema”. Brum tem todas as certezas e pacientemente as mostrará a seu leitor.
Ela argumenta que Araújo descontextualizou Alencar pra tentar provar a grandeza de um ensino isento de “ideologias de marxismo cultural”. Mas que passou longe de seu objetivo, já que o discurso de Alencar fez sentido naquele tempo de formação e que não faria hoje, adaptado canhestramente por Araújo para uso nostálgico e manipulador.
Tudo bem, o chanceler é um banana que talvez nunca tenha ouvido falar de contexto histórico. Contudo, se Brum tivesse notado o importante detalhe da defesa de um sistema colonial moribundo escravagista pelo Alencar, certamente teria melhorado sua argumentação.
Porque é o tolerante à escravização que Araújo defende em Alencar, não o nacionalista de puro ideal. É outro o modelo que o chanceler nos deseja impor por meio da evocação de um trabalho literário.
Me deu a impressão de que a jornalista sabe sobre Alencar tanto quanto o colegial que um dia fomos nós; que pegou uns livros dele da estante e adaptou trechos a sua convicção no momento de escrever.
Tem sido assim com a Brum de que tantos amigos parecem precisar. Desinteressada da pesquisa, ela fala o que sua formação mediana e sua intuição lhe ditam. Quando isto já bastou a um pensador, a um jornalista, por mais que ele conheça a língua portuguesa e não dê vexame ao escrever?
Ganham a eleição apenas para motivar à destruição as multidões temporariamente iludidas por segurança e estabilidade.
Haja espetáculos, xingamentos e palavras de ordem para que o oprimido tudo aceite e impulsione.
Enquanto isto é feito eles concentram dinheiro e poder para a burguesia, os donos de terra, os bancos, a indústria de armas.
Num modelo fascista de origem, uma elite nacional era a receptora dos recursos.
Agora não somente.
No Brasil, caso inexista resistência, praticaremos a conhecida expansão territorial. E, detalhe, não para nosso usufruto, mas principalmente para que EUA e seu estado-terrorista satélite, Israel, possam acumular e controlar nossas riquezas naturais.
É preciso incutir na multidão ignorante a extrema necessidade de combate.
O fascista transforma a guerra, o litígio, em coisas imprescindíveis.
Por isso a publicidade constante não é uma opção, mas uma necessidade.
Antes, Hitler e Mussolini precisavam de grandes eventos militarizados ao ar livre pra exercer esse fascínio. E fortaleciam o rádio, seus jornais e o cinema pra transmitir tais ideias.
Durante o fascismo italiano, funcionava até mesmo uma revista de crítica de cinema pelo bem da indústria.
A revista, dirigida pelo filho do Duce, acolhia entre seus escritores um jovem Antonioni, por exemplo.
Só pra vocês terem uma ideia da importância do cinema então…
Mas no Brasil de hoje nada disso parece ser tão necessário.
Basta a tevê do bispo.
O Carlos Bolsonaro.
E os propagandistas-pastores-postosipiranga para as ideias do desmonte, ministros e primeira-dama eficazes na comunicação com velhos e potenciais fiéis.
A bobajada que sai de suas bocas sujas, sempre prontas ao ataque, existirá portanto cotidianamente e em grande quantidade.
Aposto que danares e bozóica ganham um dinheirinho específico pra aparições cor-de-rosa…
“Toma aí um trocado pra comprar na Animale do shopping” é a frase que me vem.